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segunda-feira, 21 de maio de 2012

AS BOAS PROMESSAS

A 15 de março de 1991 este jornal "O DIA" publicou a notícia de que uma mulher sofreu choque elétrico e partiu desta para pior vida.

Dois anos passados um jovem professor retornava das aulas noturnas, pilotando a sua motocicleta, alegre, depois do exaustivo trabalho. Agora teria o aconchego do lar e a convivência dileta da patroa e dos filhos. No Mafuá, um fio da rede de eletricidade o alcançou e no local o pobre vivente adquiriu o descanso eterno.

Na década de 50, meu saudoso colega da Academia Piauiense de Letras, Fontes Ibiapina, em casa, apertou um botão de acender lâmpada e padeceu violento tombo e queimaduras. Quase embarca, Sofreu demais, em cima da cama, e só meses depois pôde caminhar, ainda assim caxingou até a morte.

– X –

A luz elétrica pública de Teresina data de 1912, governo Miguel Rosa. Deslumbrante a inauguração. Gente muita, discursos empolgantes. A iluminação restringia-se à praça Rio Branco. Somente a 10 de maio de 1914 funcionaram a máquina diesel e os dois geradores. Era domingo. A cidade iluminada tomou-se de incontida alegria. Postes de madeira, substituídos por potes de ferro em 1923; ano da primeira greve na usina elétrica, cujo diretor, Santídio Monteiro, denunciou publicamente o secretário da Fazenda, Lucrécio Dantas Avelino, de pagar a luz de sua residência por preço inferior ao devido. A safadeza vem de longe. O acusador foi suspenso por dez dias. Os operários declararam-se em greve e Teresina viveu à escuras. Convocaram-se maquinistas para o funcionamento das máquinas. Nada se conseguiu. Os estudantes do Liceu, sempre buliçosos, fizeram passeata de velas acesas. Santídio Monteiro recusou-se a qualquer cooperação. Novos incidentes. A suspensão subiu para noventa dias. Somente com a vinda de engenheiro inglês, chamado de São Luís, a luz voltou às ruas e às casas. Na época, o engenheiro Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves dirigiu as obras de novas instalações da usina.

No ano da revolução paulista contra a ditadura do presidente Getúlio Vargas o teresinense só dispunha de luz até a meia-noite. Em 1940 contrataram-se com o Siemens reparos na rede, que os reclamava com urgência.

Ainda época de interventoria no Brasil. A do Piauí coube ao coronel mineiro José Correia, que se voltou para o problema da iluminação da capital. Prestigiado pelo presidente Dutra, adquiriu na Suécia turbinas termoelétricas que só chegariam e se montariam em 1950. Antes, em 1947, veio de Alagoas para a nossa o motor apelidado pelo povo de Maria Bonita. Governo de José da Rocha Furtado, que * Teresina, quase ao apagar de sua administração farta. Era o Natal de 1950.

O general Gayoso e Almendra, governou de 1955 a 1959, criou o IAEE (Instituto de Águas e Energia Elétrica). Instalou-se a Central Elétrica do Piauí em 1962. A energia de Boa Esperança chegaria em 1970.

– X –

Eis ligeiro histórico do que tem sido feito de Teresina para auferir o conforto do progresso que a energia elétrica proporciona. Ainda perto do ano dois mil, nas noites de chuva e relâmpagos e trovoadas, a luz nos foge, e se fica de livro na mão e carne na geladeira até que a claridade retorne. A vela cumpre o serviço civilizador.

Quem percorre as ruas e praças de Teresina fica estarrecido do cipoal de fios por toda parte. De vez em quando um se desgarra e mata o pobre diabo por ele alcançado. Nas residências o problema é constante. Examinem-se os jornais destes últimos cinco anos e a evidência entristece e amedontra. Crianças, maduros e velhos têm sido vítimas dos mortíferos choques da CEPISA. As cidades civilizadas têm os fios da rede elétrica *, nos postes respectivos.

Olegário Barros Almeida, novo presidente da empresa, promete melhorar serviços, pagar os servidores e positivar novos investimentos. Cobrará preços mais justos. Ótimo. Aguardo esperançoso o cumprimento das promessas. Só peço que inscreva no rol do melhoramentos mais humanos de todos: o respeito da CEPISA pela vida do povo sofredor de Teresina. Aleluia.


A. Tito Filho, 21/03/1991, Jornal O Dia - p. 4
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* Não está visível no original

segunda-feira, 30 de abril de 2012

COMENTÁRIO

O presidente George Washington costumava dizer que não existem nações amigas, mas nações interessadas na exploração de outras. Pura verdade. Em 1929 os Estados Unidos estiveram em espantoso sufoco financeiro. Houve a quebra da chamada bolsa. O CRAQUE. Faliram os bancos. Desemprego em massa. Miséria por toda parte. O jeito estava em buscar riquezas alheias. Sabia-se que o Brasil queria derribar um presidente, em 1930, e substituir as oligarquias. Os norte-americanos não tinham alimento mas tinham armas. Fácil foi apoiar a rebelião dos militares e de Getúlio Vargas, apear Washington Luís do poder e criar o QUINTAL brasileiro. Dominaram o país. A propaganda cinematográfica do automóvel, do turismo, da roupa feita, da viagem de turismo, da cozinha eletrificada, do uísque para as coronárias, dos enlatados, das festinhas, dos concursos de misses, dos cassinos luxuosos. Iniciou-se o império da gasolina e dos estradões asfaltados. O transporte barato do trem desapareceu. Passou-se ao ônibus bonitão e poluidor. Liquidou-se a navegação de cabotagem, tão útil e tão módica no transporte de mercadorias. O governo Dutra adquiriu todo o estoque de ioiôs da produção estadunidense, gastando imensas reservas cambiais. Dava gosto ver nossas crianças e adolescentes na prática desse besteirol da matéria plástica que nos sugou riquezas sem conta. Nossas caboclinhas aprenderam a mostrar os bumbuns nas espertezas dos desfiles de beleza. Juscelino incentivou a criação de um empresariado ganancioso e malvado. A produção em massa de automóvel afastou das cidades o popularíssimo bonde, barato e de agradável andança. E provocou loucura na classe média, na professorinha de pouca renda, que compra o carro e não pode comprar o sustento do combustível. Instituiu-se a civilização do elevador de fabricação norte-americana e o Rio, São Paulo, Belo Horizonte se transformaram em selvas de pedra, com as respectivas tragédias do pobre homem brasileiro.

A tragédia nacional pode ser observada nos programas televisivos. Violência, perversidade, megalópoles de problemas mil, fome, moradias desumanas, escola falida, cárceres entupidos e perversos, dia-a-dia de angústias e desesperanças.

Que funciona neste país? A jogatina oficial, a que brevemente se incorporarão os cassinos. Loto, loteca, sena, raspadinha, bicho. Desde que acorde até que dorme vive o brasileiro da sua fezinha, contribuindo para a POBREZINHA Caixa Econômica Federal, que cobre juros legais quando empresta os seus trilhões. O país vive de roubalheiras, de fraudes, de peculatos, de maracutaias. Ministros, desembargadores, altos funcionários têm dinheiro à tripa forra, enquanto 90% dos patrícios são obrigados a uma existência mais miserável do que os felás egípcios.

Sucedeu-se [sic] os governos e sempre e cada vez mais o país afunda no fosso da podridão moral. Vinte anos houve de uma ditadura criminosa que realizou muito no terreno da castração de direitos e na execução capital dos adversários. Depois dela, o povo, nas urnas, elegem o presidente Fernando Collor, com graves e grandes promessas de recuperar o país e socorrer os pobres diabos. Brevemente o governo atual, a 15 de setembro, completará um ano e meio no comando administrativo e nada se viu senão um regime inflacionário sem tampa e sem fundo, como penico de português, e a intensificação dos maiores e menores problemas do país, que, por força dos norte-americanos, trocam a sua riqueza agropecuária e agrícola por uma industrialização sem mercado interno e externo.

Ilegalmente, tomaram-se os depósitos dos brasileiros e nada se conseguiu. O país continua à matroca, sem governo sério e sem jeito de solução das suas mínimas dificuldades.


A. Tito Filho, 20/08/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O GOVERNO E O LIVRO

O Plano Editorial chegou ao fim no momento em que determinou o primeiro governo Alberto Silva; incentivando as letras e o conhecimento da história do Piauí com umas quarenta obras publicadas. A administração seguinte ignorou o salutar projeto. O governador Dirceu Arcoverde teve início já em inimizade com o anterior e a praxe sempre foi de o sucesso ignorar as virtudes do sucedido. O chefe do Executivo fixou esforços noutras áreas, publicando-se poucos livros. Lembro-me das edições da história da independência no Piauí, do padre Joaquim Chaves, de um livro de poesias de Isabel Vilhena e de um de filosofia de Antônio Veríssimo de Castro. Se houve outros, a memória não me acode.

Lucídio Portella, governador seguinte, concedeu valioso apoio ao livro piauiense e para tanto contou com os bons serviços de Paulo Henrique de Araújo na direção da Companhia Editora do Piauí.

Chegaria a vez de Hugo Napoleão, com arrojado Projeto Petrônio Portella, que se equiparou ao Plano editorial de Alberto Silva. O governante contou com a inteligência e o esforço de equipe trabalhadora e decidida. Obras de criteriosa escolha foram entregues ao público. Prestei os humildes e gratuitos serviços que me atribuíram, inclusive organizando a reedição comentada do romance UM MANICACA, de Abdias Neves.

A partir de Leônidas Melo, com algumas exceções, por causa de prementes dificuldades financeiras, os governos cumpriram, uns mais, outros menos, o dever para com as letras. Muito se tem publicado sobre história, crítica, poesia, estudos sociais, geografia, ficção. Alguns livros piauienses se estenderam a outros Estados.

O Piauí viveu em grande atraso anos a fio. No tempo da independência ao menos escola pública havia. Criaram-se educandários que nunca funcionavam.

Afastado dos meios comunicativos com o Brasil e o mundo, podia-se dizer que o Piauí representava um vazio, um território imenso sem habitantes, e o pânico, pelo medo que os poucos que o habitavam tinham da indiada, das forças da natureza e dos bichos da selva. O Piauí atravessou as fases literárias do Brasil sem que delas participasse. Os primeiros poetas, o herói da independência Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco e Ovídio Saraiva, que chegou a escrever a primeira letra do Hino Nacional, são simples imitadores de clássicos portugueses. Tardio o romantismo piauiense. Quase ninguém no realismo senão os poetas parnasianos e o naturalista Abdias Neves, retratista da pecadora Teresina do fim do século XIX. A Teresina de boatos, de intrigas, de bacharelismo, do anticlericalismo da rapaziada vinda do Recife. Não se pode esquecer Da Costa e Silva, que tanto tocou o coração piauiense. O admirável Martins Napoleão, em depoimento a Herculano Moraes, se disse um neoclássico. O modernismo chegou tarde. Os novos fizeram muita cousa, e ainda aguardam que o Piauí apercebido das suas responsabilidades, enfrente as dificuldades que são grandes, na falta de mercado ledor, por razões de pobreza, a triste postura dos que podem ler e não lêem, mas exoneram o livro das suas preocupações.

Infelizmente no segundo governo Alberto Silva o Projeto Petrônio Portella praticamente foi extinto, em virtude das deficiências financeiras do Estado.


A. Tito Filho, 25/01/1991, Jornal O Dia