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segunda-feira, 21 de maio de 2012

PARENTESCO ACADÊMICO

Lucídio Freitas teve a idéia de fundar a Academia Piauiense de Letras e depressa se reuniram dez intelectuais para o objetivo: Clodoaldo Freitas, João Pinheiro, Celso Pinheiro, Fenelon Ferreira Castelo Branco, Jônatas Batista, Edison da Paz Cunha, Benedito Aurélio de Freitas, Higino Cunha, Antônio Chaves, e o próprio Lucídio Freitas. Cada qual escolheu o seu patrono.

Observe-se o parentesco dos primeiros acadêmicos na escolha dos patronos: Clodoaldo escolheu o parente José Manuel de Freitas; Fenelon, o parente Joaquim Sampaio Castelo Branco; Jônatas, o parente Davi Caldas; Lucídio, o irmão Alcides Freitas. Os fundadores guardavam a seguinte relação de família Alcides; João Pinheiro irmão de Celso; Edison, filho de Higino Cunha.

Composta de 40 cadeiras, preenchidas as 10 primeiras, foram escolhidos os demais titulares e estes escolhiam os patronos respectivos, citando-se os parentes: Antônio Ribeiro Gonçalves escolheu o irmão Joaquim; Amélia Freitas Bevilaqua escolheu o parente Lucídio; Nerina Castelo Branco escolheu o parente Antônio Noronha; Darcy Araújo escolheu o irmão Vicente Araújo; Lilizinha Castelo Branco de Carvalho escolheu o pai Heitor Castelo Branco; Celso Barros escolheu o cunhado José Newton de Freitas.

Com o correr dos anos e a morte dos titulares, houve as naturais substituições, do que resultaram novos parentescos. Relacionem-se os demais Castelo Branco escolhidos para a Academia até 1990: Hermínio de Carvalho Castelo Branco, Teodoro Castelo Branco, Antônio Borges Castelo Branco, Cristino Castelo Branco, Carlos Castelo Branco, Renato Castelo Branco, Miguel Borges Castelo Branco, Emília Leite Castelo Branco. Bem que se poderia acrescentar José de Arimathéa Tito e o filho, ambos Castelo Branco, embora o nome familiar não participe do nome de ambos.

Observe-se mais parentesco: José Manoel de Freitas foi irmão de Amélia de Freitas Bevilaqua e pai de João Alfredo de Freitas; João Pinheiro, irmão de Celso, teve outro irmão acadêmico, o jornalista Breno Pinheiro; Cromwell Barbosa de Carvalho foi pai de Robert de Carvalho e * Academia o sobrinho João Gabriel Baptista. D* patronos irmãos: Anísio e Areolino de Abreu. Celso Pinheiro e Celso Pinheiro Filho, pelos nomes constituíram pai e filho; pai e filho são * e Hugo Napoleão, o primeiro sobrinho de Martins Napoleão; Odylo Costa teve outro filho ilustre, Odylo costa filho; parentes eram J* e Jônatas Correia; Gabriel Luiz Ferreira e Félix Pacheco, pai e filho; Mário Baptista e Benjamin Baptista, irmãos; Armando Madeira Brandão e Armando Madeira Basto, tio e sobrinho; pai e filho, Cristino e Carlos Castelo Branco.

Ocuparam as cadeiras dos pais: Carlos Castelo Branco, Odylo Costa filho e Tito Filho.

Aí se relacionaram os que têm parentes próximos. Existem vários outros parentes no quadro da Academia Piauiense de Letras. Só citei os mais chegados. Não se diga, porém, que houve influência de uns na escolha dos outros. De modo geral, os parentes já tinham seguido desta para pior vida quando se escolhiam os novos titulares, sem que houvesse, assim, influências na eleição.

No ingresso, vivos estavam Clodoaldo e Lucídio, João, Celso e Breno Pinheiro, Higino e Edson Cunha. Quando foi eleito Robert, o outro Cromwell estava bem idoso. Por último, o José Miguel de Matos tem parentesco com outros Freitas, o mais próximo dos parentes se chamou Esmaragdo de Freitas e Sousa, da primeira cadeira acadêmica, primo legitimo de Dona Maria do Ó e Sousa, mãe do autor da “Antologia Poética Piauiense".


A. Tito Filho, 17/01/1991, Jornal O Dia - p. 4

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* Não está visível no original

A ACADEMIA E O LIVRO

Leônidas Melo, que governou o Piauí de 1935 a 1945, mais de dez anos, praticou alguns atos censuráveis porque violentos. A sua administração, porém, foi das mais benéficas às coletividades estaduais. No aspecto cultural, esteve irrepreensível. Reeditou obra rara como a autobiografia do cabo-de-guerra português Fidié. Incentivou a vida literária de Teresina com a edição de trabalhos de poetas e prosadores, inclusive a primeira história da literatura piauiense, de João Pinheiro. Publicaram-se livros dos mais ilustres escritores da época, como Higino Cunha, Celso Pinheiro, Martins Napoleão, entre outros. Livros de diminuta tiragem e que circulavam nos restritos meios intelectuais, sem que chegassem ao grande público.

Só a partir de 1972, no primeiro governo de Alberto Silva, se verificou a difusão da história política, social e administrativa do Piauí, bem assim das melhores concepções em prosa e poesia dos autores piauienses, e à Academia Piauiense de Letras, sobretudo coube a organização das obras, às vezes a adaptação ortográfica, os comentários dos textos, e a ela atribuiu a tarefa de distribuí-las por todas as áreas federadas. De 1972 até os dias atuais, com o incentivo e o apoio de várias administrações, a Academia promoveu seguidamente a edição de dezenas de bons livros, a exemplo de LIRA SERTANEJA (Hermínio Castelo Branco), PESQUISAS PARA A HISTÓRIA DO PIAUÍ (Odilon Nunes), NAS RIBAS DO GURGUÉIA (Artur Passos), CRONOLOGIA HISTÓRIA DO ESTADO DO PIAUÍ (Pereira da Costa), A GUERRA DO FIDIÉ (Abdias Neves), HISTÓRIA DA IMPRENSA NO PIAUÍ (Celso Pinheiro), O PIAUÍ NA POESIA POPULAR (Félix Aires), DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA DAS REVOLUÇÕES NO PIAUÍ (Moysés Filho), CANTO DA TERRA MÁRTIRE (Martins Vieira), antologias de José Coriolano, Zito Batista e Esmaragdo Freitas (A. Tito Filho), PRAÇA AQUIBADÃ (A. Tito Filho), HISTÓRIA EPISCOPAL DO PIAUÍ (Dagoberto Júnior), CANCIONEIRO GERAL (Martins Napoleão), APONTAMENTOS BIOGRÁFICOS (Padre Joaquim Chaves), GEOGRAFIA FÍSICA DO PIAUÍ (João Gabriel Baptista), POESIA E PROSA (Jônatas Baptista), ANGLO-NORTE-AMERICANISMOS NO PORTUGUÊS DO BRASIL (A. Tito Filho), NOTAS FORA DA PAUTA (Moura Rego), NORDESTE (Hermes Viana), ENDOEMA (William Palha Dias), IDEOLOGIA E CIRCUNSTÂNCIA (Clidenor Freitas Santos), A MISTERIOSA PASSAGEIRA (Lili Castelo Branco), MUSEUS E CASAS DE CULTURA DO PIAUÍ (Lícia Margareth e Marília Coelho), TROPICALISMO (Soares Cordeiro), MOVIMENTOS SOCIAIS (Sônia Nogueira), LICEU PIAUIENSE (A. Tito Filho), O DISCURSO IMPERFEITO (M. Paulo Nunes), MEDICINA E PODER POLÍTICO EM FLORIANO (Bento Bezerra), TERESINA MEU AMOR (A. Tito Filho), UMA FIGURA SINGULAR DE MISSSIONÁRIO (Frei Memória), UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA (Salomão Chaib) - livros que muito contribuem para o conhecimento da terra piauiense ao revelar ainda dos principais autores de ficção, crônicas  e de crítica literária.

É vigoroso o plano da Academia para 1991, iniciado com um bom romance de José Expedito Rego, MALHADINHA, de costumes familiares sertanejos e amores ilícitos de gente da antiga capital do Piauí. Ainda do ano passado, com lançamento festivo em dezembro, entregou-se ao público MEMÓRIAS E DEPOIMENTOS, do ex-governador José da Rocha Furtado.

Outros livros de variado gênero poderiam ser relacionados como parte do volumoso plano acadêmico dos anos anteriores. Para 1991 se preparam no momento obras de grande utilidade originadas por autores projetados como William Palha Dias, M. Paulo Nunes, Miridan Britto Knox, Orgmar Monteiro, Hardi Filho, Renato Castelo Branco, Sátiro Nogueira, Afrânio Nunes.

Já neste sábado, a Academia lança ASPECTOS DA ARQUITETURA DE FLORIANO, uma obra valiosa, fartamente ilustrada, de autoria do professor José Nunes Fernandes, um jovem de inteligência e dedicação à vida cultural.


A. Tito Filho, 16/02/1991, Jornal O Dia - p. 4

domingo, 20 de maio de 2012

PLANO DE LIVROS

Desde 1972 vem a Academia Piauiense de Letras, com dificuldades sem conta, divulgando o livro piauiense. Obras de história, geografia, estudos sociais, romances, contos, novelas, teatro, folclore, não há, no Brasil, instituição que se tenha dedicado mais, com pequenos recursos, mas empregando-os honestamente, do que a referida instituição cultural piauiense. Encontra pessoas de nobre caráter que a ajudam e incentivam. Por preços reduzidíssimos faz entrega das edições aos que as adquirem, prestativos, no exercício de valiosa contribuição.

Dezenas de obras a Casa de Lucídio Freitas entregou ao público, desde que iniciou, quase vinte anos atrás, um efetivo plano editorial, a fim de que estudantes e professores, homens de letras, estudiosos, amantes da leitura séria e útil tivessem a seu dispor as melhores fontes de conhecimento da terra e da gente do Piauí.

São selecionados os livros editados. O ano passado, para citar a mais recente relação de livros, foram publicados e distribuídos pela Academia: MEDICINA E PODER POLÍTICO EM FLORIANO, do médico Bento Bezerra, uma análise da atuação de médicos na administração do importante município piauiense, COISAS E LOISAS, crônicas e memórias de terras sertanejas, de Sátiro Nogueira; UMA FIGURA SINGULAR DE MISSIONÁRIO DO NORDESTE BRASILEIRO, de Frei Memória, biografia de Frei Heliodoro, humilde missionário da caridade cristã em Teresina; UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA, novela de suspense do médico Salomão Chaib; MANIFESTAÇÕES MUSICAIS NO PIAUÍ, de Cláudio Bastos, um dos raros trabalhos sobre a arte musical entre nós; CRÔNICAS, de Tito Filho, em declarações de amor a Teresina; ELOGIO DA SOMBRA, de José Maria Soares Ribeiro, crítica de escritores piauienses mortos; MEMÓRIAS DEPOIMENTOS, de Rocha Furtado, documentário político de fase conturbada da história do Piauí; ARTE E TORMENTO, conjunto lírico encantador do poeta Nogueira Tapety, em prosa e poesia; O OITÃO, de Cléia Napoleão, recordações da romântica Teresina de outros tempos; MALHADINHA, de José Expedito Rego, um dos melhores romances de conteúdo social, com cenário da vida rural de Oeiras; A TALHA DE RETÁBULOS, de Dagoberto Júnior, arte e história religiosa.

A Academia adotou dois planos de distribuição de obras: mensalmente, um livro, por preço mínimo de 500 cruzeiros. Ou seis livros, um por mês, de janeiro a junho, pelo preço total de dois mil e quinhentos cruzeiros. O processo como se vê, beneficia os adquirentes, uma vez que o preço se mostra vantajoso, numa época em que o livro cada vez mais tem os custos elevados e de difícil aquisição por parte dos que têm rendas apenas razoáveis; e os desejosos de boa leitura ficam com a obra previamente garantida, sem os riscos do esgotamento das edições.

Neste mês de março, a Academia inicia a distribuição de TIRA-DÚVIDAS. São três pequenos volumes escritos pelo acatado professor Cineas Santos, em que se resolvem as dúvidas freqüentes de grafia e de emprego de palavras. Constituem lições simples, acessíveis a estudantes, a professores, jornalistas, profissionais em geral, a funcionários públicos, secretários, entrevistadores e entrevistados, noivos distantes, poetas, escritores, locutores de rádio e TV, secretários de empresas e de governadores, epistológrafos. Todos necessitam das LIÇÕEZINHAS grandes de Cineas Santos. Sim, é assim mesmo. O plural de LIÇÃOZINHA é como escrevi, LIÇÕEZINHAS. Aprendi no Cineas.

Estas linhas não constituem publicidade comercial, pois a Academia Piauiense de Letras não pretende lucros, mas apenas proporcionar bons livros aos que querem desanuviar a cachola. O objetivo aqui reside em orientar os leitores, com a devida vênia de Octávio Miranda, sempre estimulador do desenvolvimento cultural do Piauí, e dos coleguinhas inteligentes e prestativos que completam este jornal.


A. Tito Filho, 28-29-30/03/1991, Jornal O Dia - p. 4

sábado, 19 de maio de 2012

AINDA GOVERNO E LIVRO

No governo Hugo Napoleão se estabeleceu o Projeto Petrônio Portella, para edição de obras sobre o Piauí e de autores piauienses, numa homenagem ao político que tanto engrandeceu a terra natal, figura impressionante, cujas leituras lhe aformosearam o espírito e a inteligência. No início da vitoriosa carreira, chegou a publicar atos de violência, porque o Piauí ensinava que na violência estava a defesa contra os adversários. Sentimos em Petrônio, quando já ministro o visitamos, mais de uma vez, que cada dia mais ele se compenetrava do papel da cultura, a fim de guiar os homens nos caminhos certas da vida. Maduro e prestigiado nos altos escalões republicanos, não guardava ódios, nem queria malquerenças, vivia de fazer o bem. Deu lições aos maiores parlamentares brasileiros, na tribuna do Congresso Nacional. Sentia tão profundo gosto pelas cousas do saber que autorizou a feitura, na gráfica do Senado, de edições sucessivas dos grandes discursos parlamentares proferidos ao tempo do Império, o que lhe valeu a Medalha Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras.

O Projeto Petrônio Portella mereceu execução louvável do secretário Jesualdo Cavalcante, da Cultura. Excelentes livros se distribuíram no Piauí e no Brasil.

O governo seguinte, de Alberto Silva, prestigiou a obra cultural do antecessor. Mantiveram-se as normas do Projeto Petrônio Portella, confiado ao jornalista Kenard Kruel, esforçado e trabalhador.

Em agosto de 1987, o governador Alberto Silva, convocou a Academia Piauiense de Letras para participar desse auspicioso plano editorial. Acertou-se que os recursos se dividiriam entre a Casa de Lucídio Freitas e a Fundação Cultural do Piauí, meio a meio. As edições ficariam subordinadas às duas partes: à primeira, as obras de escritores desparecidos ou vivos considerados úteis ao conhecimento da história piauiense, ou outras, como trabalhos de ficção de autores desaparecidos ou acadêmicos; à segunda competia editar a literatura de novos escritores.

Desnecessário, asseverar que o Projeto Petrônio Portella fracassou na metade do governo Alberto Silva, porque os órgãos responsáveis pelas finanças necessárias ao custeio das edições fugiram, quase todos, dos compromissos publicamente adotados, recusando o pagamento das contribuições. Não lhes interessava senão a politiquice e o desprezo as manifestações culturais da terra.

X   X   X

O filósofo Marcuse ensinou que a sociedade possui três forças de comando: a econômica, a política e a intelectual. A primeira tem a primazia no comando e a ela se subordinam as outras duas. O detentor de grandes cabedais, os donos do poder, os escritores são os tipos que desfrutam de menos prestígio na vida social. O homem se torna escravo do dinheiro e com o vil metal compra mandatos. Satisfaz-se com esses triunfos. Os outros seres humanos contentam-se que os semelhantes lhe rendam homenagem e consideração por intermédio da autoria da obra literária ou de outro conteúdo.

Ao Projeto Petrônio Portella chegavam livros e mais livros de autores de uma triste subliteratura, as mais das vezes, todos apadrinhados ou amanhados. A Academia Piauiense de Letras recusava publicação e arrecadava inimigos. Kenard Kruel achou mais conveniente guardá-los nos arquivos respectivos, pois inclusive a editoração não era possível, uma vez que raros os órgãos governamentais que permaneciam no cumprimento do acordo assinado e chancelado pelo governador em 1990, um só centavo chegou às entidades encarregadas da execução editorial. O mesmo se deu ao brilhante Hardi Filho, sucessor de Kenard.

Morreu, tristemente, o Projeto Petrônio Portella.

O novo governo não pode fechar os olhos para a triste situação cultural do Piauí.


A. Tito Filho, 27-28/01/1991, Jornal O Dia - p. 4

quarta-feira, 16 de maio de 2012

HISTÓRIA DA PROPAGANDA

Editou-se recentemente uma história da propaganda no Brasil, que teve em Renato Castelo Branco, trabalhador, desde novo, em grandes empresas de propaganda, um dos mais notáveis publicitários deste país, com serviços na Europa, na América do Sul, na Ásia. Escritor de obras aplaudidas.

Renato nasceu na Parnaíba de onde partiu em busca de novos caminhos. Ele conta que na sua cidade os burros cruzavam as ruas carregando produtos. Nas noites de domingo, a charanga tocava na praça e as moças passeavam olhando os rapazes com os olhos do desejo. As empregadinhas e as caboclas duvidosas ficavam do outro lado do logradouro, separadas das donzelas brancas e importantes.

A história lembra a nossa Teresina, quase do mesmo jeito, o rio, as lavadeiras, a pracinha modesta, os namoros platônicos, a jumentaria pelas ruas, passo curto, no transporte das ancoretas de vender água.

O nordestino buscava o sul, o sul rico, mais convidativo de bons empregos. Não esqueceu antes da viagem longa os fantasmas da terra natal - povoadores da meninice peralta.

Nesse tempo, não havia linhas aéreas, nem asfalto, paus-de-arara inexistiam, de ônibus não se falava. Havia os Itas - Itapagé, o Itaquice - os vapores que singravam o mar grande e despejavam no Rio de Janeiro centenas de nordestinos, todos os anos, à procura de horizontes mais amplos, dos doutoramentos e do triunfo.

Uma crueldade espiritual a separação da família. Também fizemos a viagem, de Teresina ao Rio, por terra, pelo São Francisco, pelos resfolegantes trens de Pirapora a Corinto e de Corinto a Belo Horizonte e à antiga capital da República. Perdemos cedo a proteção materna. Mas nunca deslembramos, na hora da despedida, as lágrimas furtivas que desciam do rosto do carinhoso pai - e durante todo o percurso nos vinha o nó na garganta, o pior dos choros, o choro que não sai, que machuca como representação da própria dor.

A história de Renato, que relembramos com emoção, fala do pedaço da terra em que * saudoso da mãe extraordinária, que sempre * a família e deu-lhe força, nos exemplos de * cidade, de disciplina, de afeto, - e o pai, político perseguido, mas generoso, bom companheiro, leal, solidário.

Os episódios da sua vida comovem e emocionam. Antes do Rio, estudou na capital do Maranhão, quando o pai obteve alguma prosperidade. Esteve num internato, e nele viveu o clima de erotismo que deixou em meninos e adolescentes marcas que talvez muitos tenham influído na formação das respectivas personalidades.

Um dia retornou ao machão do primeiro *. Estudou nos ginásios da cidade. Fixou as belezas femininas do tempo em páginas de recordações. Rememorou os bailes, o sereno dos curiosos, os cochichos críticos, pregando comentários irreverentes. Ginasiano, recebeu, recolheu as primeiras impressões sobre Deus. Chegaria a ver sua partida para o sul, a vez da partida para o sul, a viagem da esperança. * que lá se defrontou com as profundas diferenças entre o vilarejo e a metrópole, a simplicidade e a sofisticação.

O sofrido homem chegou ao Rio em 1933, cidade que quase também encontramos dez anos depois - a Cinelândia, a Galeria, o Hotel A* e Getúlio no Poder. Os heróis do teatro - Procópio, Dulcina, Odilon, e os ídolos do futebol Leônidas, Domingos da Guia, e a consagração de Ary Barroso e Orlando Silva. Topamos o Centro e as suas pensões ordinárias ricas de percevejos nas camas sem conforto. Praias bonitas, * O Amarelinho - o melhor ponto de bebericar e bater papo. A Lapa e o Mangue de prostitutas baratas.

Apareceu-lhe o primeiro emprego. Ingressou no trabalho da propaganda. Em 1935 estava em São Paulo, vitorioso, sim, vitorioso.

 
A. Tito Filho, 07/02/1991, Jornal O Dia – p. 4

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* Não está visível no original

sexta-feira, 11 de maio de 2012

HOMEM-PLURAL

Clidenor Freitas Santos tem sido um homem-plural nas atividades e na inteligência, sobretudo homem alegre, porque rico de afeição à vida. Nasceu na antiga comunidadezinha de Miguel Alves, no Piauí, uma cidade pequena e sonolenta à beira do Parnaíba, a 16 de fevereiro de 1913. Teve infância e adolescência simples. Estudou no tradicional Liceu Piauiense e formou-se médico no Recife em dezembro de 1936. Trabalhou em laboratório de patologia, com os minguados vencimentos de cinqüenta mil réis mensais. Exerceu emprego no Pará e no Instituto Osvaldo Cruz, do Rio, quando padeceu saudades e voltou aos pagos naturais, a tranqüila Miguel Alves de rudimentar agricultura e criatório de gado pé-duro, e nesse meio bucólico e alegre montou consultório. Convocado para progredir, fez estudos em São Paulo, no Hospital do Juqueri, em contacto com gente sem juízo. Especializou-se em psiquiatria. Esteve ainda no serviço do Hospital da Praia Vermelha, no Rio. Cada vez mais conhecia o Homem na sua atitude mental e se empolgava com o romance de cérebro-humano. Regressando ao Piauí em 1940, fixou-se nesta Teresina de pessoas humildes e recebeu chamado, dentre em pouco tempo, para dirigir o ASILO DOS ALIENADOS, o HOSPÍCIO, denominação que amedrontava mais do que a loucura. Foi quando deparou com cenários tenebrosos de loucos acorrentados. Mandou retirar os pesados grilhões dos infelizes e deu-lhes tratamento decente, revolucionando a ignorância dos costumes sociais. A casa de tratamento deixou de chamar-se HOSPÍCIO DOS DOIDOS e passou a HOSPITAL AREOLINO DE ABREU, em homenagem ao governante que o criou e construiu. Foi distinguindo com outras funções de responsabilidade. Médico psiquiatra do Serviço de Doenças Mentais do Ministério da Saúde. Professor de filosofia do Liceu Piauiense. Deputado federal de consagradora votação no Piauí. Presidente nacional do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, nomeado pelo presidente João Goulart, posto em que o alcançou a rebeldia militar de 1964, e ele se viu compelido, para evitar violências, a buscar asilo no Peru e depois no Uruguai. Padeceu a suspensão dos direitos políticos, mas sem temer as perseguições do militarismo vitorioso, retornou à terra natal, porque tinha inatacável a honradez pessoal e pública.

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No exílio, leu e estudou ciências sociais para uma visão mais ampla do mundo e do homem. Aprendeu a interpretar a história.

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De regresso, corajoso sempre, pois de coração sincero e de espírito para o afeto, já no Piauí do seu bem querer, fundou empresas privadas como a Cajulândia do Brasil, e do Alkool Motor do Piauí, sem que se concretizassem por virtudes dos ódios intransigentes dos militares no poder.

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Correram os anos e Clidenor, sempre criativo e de olhos no futuro, promoveu as AGROVILAS e o projeto da APICULTURA.

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De admirável capacidade para produzir trabalhos de enriquecimento espiritual do homem nos domínios da psicopatologia, da crítica literária e musical, publicou exemplo de definição da personalidade integral do homem numa carta aos filhos, definiu o fundador de Teresina, o baiano José Antônio Saraiva, dissertou sobre o amor-símbolo, deu aula sobre o latifúndio, revelou as bases psicológicas do nacionalismo, leu os gregos e enalteceu a profunda lição de sabedoria desse povo. Tem títulos e honrarias de entidades projetadas do país e do estrangeiro. Faz pouco tempo reuniu no livro IDEOLOGIA E CIRCUNSTÂNCIA pensamentos e idéias sobre assuntos da mais alta relevância em área de conhecimento humano.

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A grande obra cívica, espiritual, científica, humana de Clidenor está no Sanatório Meduna, um dos melhores hospitais do Brasil, que serviços do mais extraordinário valor social tem prestado aos patrícios. Ele o construiu lutando contra a pobreza.

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A 16 de fevereiro de 1991, Clidenor Freitas Santos integrou 78 anos bem vividos. Jovial sempre. Alegre. Amigo do próximo. Honesto de palavras e de ações. Dedica parte enorme do tempo a educar o próximo para a vida de convivência. Ao belo. Cultiva a sabedoria. Sabe conquistar admiração e distribuir afeto. Pai virtuoso. Esposo de caráter nobre. Divide o tempo entre o lar e o mundo. * a família total. De franqueza educada. Veste-se de aprumo e decência, sem ser excessivo. Aprecia mesa farta e o manjar de culinária sem defeito. Bebe o vinho como quem bebe a saúde e copia os deuses. Passeia as ruas como distribuidor de melodias, no realejo, para alegrar os que lhe ouvem a sensatez das palavras. Admirado de todos, também dedica admiração aos que se enriquecem de saber pela aceitação dos dias ruins e dos dias felizes como se fossem ambos necessários à compreensão dos ditames divinos.

Em torno desse homem sem medo e de agradável sensibilidade, na sua aconchegante mansão, se reuniram os seus colegas da Academia Piauiense de Letras, à mesa de iguarias elogiadas de vinhos de sabor educado. Uma bela reunião com a presença dos filhos de Clidenor e de uma senhora invejável na postura de esposa sem defeitos, como inspiradora de um lar amigo - D. Aracy.


A. Tito Filho, 03/04/1991, Jornal O Dia, p. 4
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* Não está visível no original

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O HOMEM E A SUBSTÂNCIA

Ano de 1940. Cursava eu o colégio Estadual do Ceará. Não me lembro o dia. Sei que nesse ano tive, em Fortaleza, notícia da morte de José Pires de Lima Rebelo. Escoaram-se dias e mais dias. Cinqüenta anos faz que meu conterrâneo de Barras deixou a vida, legando aos penitentes terrenos exemplos sem conta de beleza de personalidade. Foi o homem-mensagem.

Berdiaeff, o lúcido Berdiaeff das "Cinq Méditations sur I'Existence" ou de "La Destination de I'Homme", escreveu que a "exacerbada inquietação" da humanidade promana da subordinação do homem ao tempo - a temporalização do homem: "O perpassar do tempo é desesperadamente triste, triste o olhar do homem sobre o tempo que se vai" - e o remédio para a moléstia do tempo está, como quer Proust, "em restituir ao homem temporalizado o sentido do seu destino de eternidade, em Deus".

Lima Rebelo não sofreu, na sua época, a nostalgia do tempo passado nem a incerteza do tempo futuro. Viveu o presente, com devotamento exemplar, e adquiriu o sentido do seu destino de eternidade.

Cada um de nós traz consigo uma mensagem. A de Lima Rebelo era pedir que lhe dissessem o segredo do coração alheio, para amar melhor o semelhante, para compreender a alma do próximo, para educar o jovem, sim, para educar o jovem sequioso de ternura, de alegria, de liberdade. Quis dar a todos uma doce moradia de paz. Foi educador no verdadeiro e apostólico sentido da expressão. Dentro da escola pôs um clarão de beleza e espiritualidade.

Quintino Bocaiúva disse a Machado de Assis: "O grande homem é o homem de bem". Neste particular, Lima Rebelo foi exemplo inatacável de pureza de princípios. Não pôde ser vulgar porque atuou entre caracteres viscosos de ambições e de perfídias - e sobressaiu pela personalidade sem mancha. Nele resplandece a caridade cristã, porque não se externava para não humilhar. Combateu o mal com capacidade de sacrifício e com renúncias silenciosas.

Espírito aberto a indagações, palavras fáceis, estilo corrente; legou ao Piauí um pouco de tudo em todos os ramos da atividade mental: crônica, história, sociologia, jornalismo; economia, humanismo. 

Poucas produções José Pires de Lima Rebelo enriquecem a vida intelectual do Piauí - dois discursos e uma página de educação, todas reveladoras de um escritor sincero e culto, de linguagem asseada e vibrante, estilo e clareza e comunicabilidade impressionante, em par com a profundidade dos conhecimentos.

José Pires de Lima Rebelo colocou-se entre os homens de bem. foi um centro nobre da vida piauiense. Corajoso e fiel, sempre falou de cabeça erguida, para realizar o seu grande e laborioso destino de educar a coletividade.

Dele eu diria como disse em versos Tagore: Se tu quiseres, deixarei de cantar. Se assusto o teu coração, deixarei de te olhar. Se te aborrece a minha presença, irei para outro lugar. Se te esquivas quando estás colhendo flores, não irei mais ao teu jardim solitário. Se os remos turvam a água, não levarei mais meu barco à tua margem. Não me escondas o segredo de teu coração! Dize-me a mim que sou teu amigo, só a mim!... Dize-me tão docemente como sorris, que não ouçam os meus ouvidos mas sim o meu coração. A noite é profunda; a casa está silenciosa, o som amortalha os ninhos dos pássaros... Anda, dize-me num choro trêmulo, com uma doce vergonha, com uma suave dor, o segredo do teu coração".


A. Tito Filho, 06/03/1991, Jornal O Dia, p. 4

domingo, 6 de maio de 2012

VINTE ANOS DE BATENTE

Ingressei na Academia Piauiense de Letras em 1964, ocupando a cadeira em que se tinha assentado meu pai, a de número 29. Em 1966, o presidente Simplício Mendes me fazia secretário-geral da entidade, reeleito em 1968 e 1970. Mandato de dois anos. A 2 de janeiro de 1971, Simplício não acordou.  Dormiu, a 1º de janeiro, o sono eterno. Fui o seu substituto regimental, pois a Casa de Lucídio Freitas não tinha vice-presidente. Agora inteirei vinte anos na presidência e antes de escrever sobre assuntos relembro os colegas que se despediram do mundo no correr desse longo período: Avelar Brandão Vilela, Cromwell de Carvalho, Fernando Lopes, Edison Cunha, Petrarca Sá, Moura Rego, Celso Pinheiro Filho, Cunha e Silva, Fontes Ibiapina, Martins Napoleão, Fabrício Areia Leão, Carlos Porto, Ofélio Leitão, Cristino Castelo Branco, Adelmar Rocha, Edgar nogueira, Petrônio Portella, Zenon rocha, Odylo Costa Filho, José de Abreu. L. M. Ribeiro Gonçalves, Gayoso e Almendra, Isabel Vilhena, Martins vieira, Robert de Carvalho, Luís Lopes Sobrinho, Manoel Felício Pinto, Armando Bastos, Elias Oliveira, Vidal de Freitas, Artur Passos, José Patrício Franco, Odilon Nunes, Darcy Araújo e Lilizinha Carvalho. Fora Simplício Mendes, a quem sucedi na presidência, trinta e cinco colegas faleceram no decorrer da minha administração, nestes últimos vinte anos.

Nas cadeiras 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 15, 17, 18, 19, 20, 21, 24, 25, 27, 34, 36, 37 e 40 faleceu apenas um em cada uma delas. As cadeiras 8, 14, 26, 28 e 31 perderam dois companheiros em cada qual. No meu longo tempo de presidente a Academia não teve desfalque nas cadeiras 2, 10, 12, 13, 23, 29, 30, 32, 33, 35, 38 e 39.

Caso especial o da cadeira 16. Escolhido para ocupá-la, Raimundo Zito Batista escolheu patrono o poeta e prosador Taumaturgo Sotero Vaz. Falecido Zito, a Academia escolheu substituto na pessoa do orador José Pires Rebelo, que foi intendente (prefeito) de Teresina e senador. Para o seu lugar, na respectiva vaga, escolheu-se o grande tribuno popular e biógrafo Adelmar Soares da Rocha, que teve substituto na pessoa do jurista Edgard nogueira, cuja vaga se concedeu a Petrônio Portella e depois a Zenon rocha, os intelectuais ocuparam a cadeira 16, como * pela relação de nomes ilustres acima citados. A única que guarda seis mortos na sua história. Só nos meus vinte anos de presidência me despedi de quatro - Adelmar, Edgard, Petrônio e Zenon, caracteres primorosos e enaltecedores da vida acadêmica.

Quando Petrônio, ministro da justiça, manifestou o desejo de ingressar na Casa de Lucídio Freitas, havia uma única vaga, a de Edgard Nogueira, titular da cadeira 16. Mostrei-lhe o quadro acadêmico. Petrônio espantou-se com os quatro mortos na cadeira. Supersticioso sempre. Inexistia outra vaga. Inscreveu-se. Candidato único. Morreu antes da eleição, mas os membros da Academia, em Assembléia Geral, o consistiram eleito e lhe deram posse post mortem.

Corre entre os confrades que a cadeira 16 oferece azar. Os que a alcançam vivem pouco depois do ingresso. Parece-me que o que mais viveu foi Adelmar Rocha, pois passou, após a posse, uns 21 anos como titular.

Pretendo escrever a história da Academia Piauiense de Letras, desde a primeira tentativa de uma instituição nos moldes da Academia Brasileira de Letras. Não deu certo a pretensão dos intelectuais no começo do século. Só em 1917 por inspiração de Lucídio Freitas, se fundou o sodalício, o mais antigo do Piauí, cujas lutas não se interromperam tempo algum, havendo completado, a 30 de dezembro de 1990, setenta e três anos de serviços gratuitos à coletividade.

A história da Academia será publicada por ocasião dos seus 75 anos, em dezembro de 72, se Deus quiser.

 
A. Tito Filho, 01/01/1991, Jornal, O Dia, p. 4

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* Não está visível no original. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

CONTOS

Outro dia escrevi neste canto que o conto foi pouco cultivado nas primeiras fases da literatura piauiense. Parece que o primeiro em ingressar nesse gênero se chamou Francisco Gil Castelo Branco, diplomata, com o livro CONTOS A ESMO. Outros se dedicaram ao mister de escrever esse tipo de ficção, a exemplo de João da Cruz Monteiro, João Alfredo de Freitas, João Licínio de Miranda Barbosa, Arquelau de Sousa Marques, Júlio Emílio de Paiva Rosa, Amélia Bevilaqua, Esmaragdo de Freitas, Álvaro Ferreira, João Pinheiro, o fabuloso Fontes Ibiapina. Arrolei apenas os defuntos. Os vivos somam um bocado de gente boa, inteligente e laboriosa, e entre tantos está essa contista de fôlego chamada Alvina Fernandes Gameiro, que já deu ao público QUINZE CONTOS QUE O DESTINO ESCREVEU e agora, brevemente, a Academia Piauiense de Letras dela publicará CONTOS PIAUIENSES, um conjunto de estórias decorridas neste Piauí, todas de valor literário e artístico. A escritora de Oeiras, antiga capital, de homens e mulheres cultos, concebe como quem mais sabe. O fato, porém, não provoca a admiração. Tem ela para quem puxar, e puxou ao pai, um português de muita preocupação com as cousas do espírito e que viveu em Teresina cercado dos melhores e mais respeitáveis intelectuais da época, para o cafezinho na sala da frente do seu estabelecimento comercial e agradável prosa ilustrativa. Ainda mais, Alvina se casou com um sujeito de nome Argemiro, que andou por estes territórios do Piauí TERESINANDO, engenheiro ilustre, professor, em missão educativa.

Quando Alvina publicou CURRAL DE SERRAS, um dos melhores livros da literatura nacional, escrevei que o ponto alto do romance se situava na linguagem dos trechos humanos sem contatos com o progresso e com as transformações do viver dos povos. Existe uma maneira especial de comunicação, de causas profundas, um modo de ser representado pelo linguajar das pequenas paisagens populacionais, de reduzidas comunidades de povo, de lugarejos e vilas, um processo alatinado, cheio de encanto, de originalidade, de sabor ingênuo, conservado inconscientemente durante anos a fio, pelos habitantes desses currais em virtudes da segregação e da distância. Alvina fotografou essa linguagem que se mantém no caipira e no matuto.

Nos contos que dentro em poucos dias se confiarão ao exame dos doutores e da crítica literária, a escritora serve-se de material de acontecimentos reais. Retrata com talento caracteres físicos que reproduz os cenários como são, os da natureza dadivosa como os da intimidade familiar. Tudo nela, na extraordinário prosa do trabalho, parece copiado ao vivo pela acuidade pintorgenial.

As páginas de Alvina entusiasmam por virtude de um estilo educativo e de modo do modo de reproduzir cenas que já viu com certeza nos hábitos dos irmãos das vilas e cidadezinhas dos longes piauienses.

A realidade fia mais fino do que a fantasia. Parece que assim se pronunciou, o velho e perverso Machado de Assis. Perverso no bom sentido de revelar as mulheres por dentro, não das roupas, mas da cabeça vazia, salvante as obrigatórias exceções.


A. Tito Filho, 22/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O PONTA-DE-RAMA

Aprecio muito a leitura de memórias alheias. Li-as de autores, nos domínios da literatura universal, brasileira e regional. Cativam-me essas narrativas em que se respigam lições úteis no terreno da psicologia, da história, dos caracteres humanos, dos cenários geográficos e sociais.

Dostoiewsky, russo genial, condenado à morte em 1849 por causa de opiniões políticas, teve a pena comutada em quatro anos de exílio entre os condenados das prisões da frigidíssima Sibéria. Os sofrimentos fizeram dele um analista profundo do coração dos homens. A "Recordação da Casa dos Mortos", obra-prima, escrita com a absoluta sinceridade, descreve a estranha gente criminosa que rodeava o escritor.

Gostei das memórias de Montgomery, o comandante estrategista inglês que derrotou o famoso Rommel na cruenta Segunda Guerra Mundial, um livro que revela as responsabilidades quase inacreditáveis de um chefe militar. Li as memórias de Truman, o que mandou atirar bombas atômicas sobre duas cidades japonesas. Antes de atirá-las conversou, por telefone, com Hiroíto, o imperador dos nipônicos, servidos ambos de intérpretes. O presidente norte-americano avisou-o de que deveria render-se incondicionalmente, do contrário sofreria ataques de engenhos de imenso poder de destruição. Hiroíto não temeu a arma mortífera. Atirada a primeira bomba, novo telefonema. Hiroíto prosseguiu firme. Deu-se o genocídio de Nagasáqui. Outra conversação dos dois líderes e o imperador disse que se renderia, nunca incondicionalmente, pois os japoneses exigiam a sua permanência no trono. Truman transigiu.

QUANDO EU ERA VIVO, de Medeiros e Albuquerque, constiitui bem escritas memórias desse homem de inteligência apurada, com episódios interessantes e gente do mesmo naipe. Fala do piauiense marechal Pires Ferreira, tipo curioso, e de Campos Sales, que o autor considera corruptor da imprensa.

Atraente o GATO PRETO EM CAMPO DE NEVE, narrativa de viagem que Érico Veríssimo escreveu. Deliciosos os livros de Mário Sette, em que relembra o Recife antigo.

Autores de nomeada da vida intelectual do Piauí escreveram memórias. dignos de registro as de Higino Cunha e de Leônidas Mello, falecidos, e de Rocha furtado e josé Miguel de Matos, vivos, este último no incompreendido PISANDO OS MEUS CAMINHOS.

Agora leio espiritualmente entusiasmado o PONTA-DE-RAMA, memórias de Fabiano Melo, antecedidas de brilhante apresentação de um mestre da crítica e da linguagem, Celso Barros, sempre lecionador de verdades: "A medida que envelhecemos ou que tomamos consciência da velhice, as reminiscências criam, em nós, um mundo diferente, em que as coisas, as imagens, as pessoas se vão reduzindo a um símbolo da própria vida, à eternidade da vida a nos guiar em toda a nossa caminhada". E Celso prossegue, límpido de inconfundível estilo, a conduzir a gente pela leitura do livro do ponta-de-rama, o caçula de um casal consciente das virtudes da educação moral dos filhos.

Numa linguagem clara, correta, Fabiano Melo busca na memória o ambiente familiar de sentimentos elevados, e fixa a beleza de um tempo de amor, respeito, religiosidade e trabalho em que se realçavam almas virtuosas, na comunidadezinha de gente amável e acolhedora, Piripiri.

No trabalho de beleza artística, vêem-se retratos humanos e paisagens inesquecíveis. Gente querida no cenário da cidade pequena. Os fatos narrados compõem uma crônica que se fixou na saudade imensa dos que sentem a mudança vertiginosa dos hábitos e dos costumes.  

Modo de escrever de leveza constante o de Fabiano Mello, como se estivesse em recolher ensinamentos dos bons mestres da escritura rica de graça e de originalidade.


A. Tito Filho, 22/01/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 28 de abril de 2012

POETA SINCERO

Em Francisco Hardi Filho, meu colega de superior inteligência na academia Piauiense de Letras e que, velhos amigos, trabalhamos juntos no Ministério da Agricultura, cada qual mais entendido em burocracia agrícola e pecuária, ele companheiro competente e de caráter nobre - Hardi escreve poemas originais que correspondem ao sentimento do mundo, sim, ao sentimento das fisionomias humanas e sofredoras e dos aspectos filosóficos nas atitudes do homem angustiado. Oferece lições de amor ou a amarga presença da violência e da desalegria. Tem versos soprados por Deus. No seu livro o SUICÍDIO DO TEMPO, agora entregue ao público, de ritmos e sentimentos, revela-se um dos melhores intérpretes da vida.

Dele, da sua amizade, simples, recebo com data de 10 deste maio sem flores nos jardins desertos de Teresina, a carta em seguida transcrita:

"Presidente Tito Filho".
Solicito a gentileza do mestre e amigo, na publicação, em espaço jornalístico de sua responsabilidade, deste meu agradecimento público pelo apoio da nossa Academia no lançamento, dia 04 de maio último, do meu livro SUCÍDIO DO TEMPO. Por esse intermédio quero agradecer aos inúmeros amigos, familiares, autoridades, colegas de Academia, companheiros de literatura, e demais pessoas gradas que compareceram, honrando-me com as suas presenças, inclusive o advogado e escritor Ozildo Batista de Barros, brilhante apresentador da obra.

Aproveito também para o agradecimento à imprensa em geral, órgãos de comunicação de Teresina que nunca me faltaram com o espaço e a divulgação necessários nessas oportunidades.

No ensejo, se permitido, quero, ainda, mandar um recado aos meus possíveis leitores de Teresina: precisamos evoluir, preservar tradições humanas, sociais, históricas, mas largar de vez atitudes provincianas que só refletem atraso.

É certo que o artista deve fazer sua arte chegar ao povo, mas no plano da produção, do trabalho sério e de qualidade. Isto muitos estão fazendo. Entretanto, o escritor principalmente, como vem ocorrendo até agora, não pode nem deve continuar saindo com os seus livros na sacola, a implorar aqui e ali a compreensão de um, a benemerência de outro. É triste mas é verdade, poucos são ainda os que se apercebem da enorme diferença que existe entre o ofício do escritor e o do vendedor ambulante de livros, embora na prática os trabalhos se igualem em necessidade e importância.

Não esperemos que o livro piauiense chegue até nós; vamos ao encontro dele. Vamos inverter a situação crônica que se depõe contra os nossos foros de civilização. Desta ação, da leitura, da crítica competente e honesta, muito se beneficiará a produção literária do Piauí.

Quanto ao meu trabalho, houve bastante divulgação. Muitas pessoas na rua perguntam pelo livro. Eis mais um objetivo deste comentário. aos interessados em adquirir (e ler) SUICÍDIO DO TEMPO, informamos que o livro pode ser encontrado na Livraria corisco I e II, na Academia Piauiense de Letras e na União Brasileira de Escritores, secção do Piauí, Palácio da Cultura.


A. Tito Filho, 11/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 27 de abril de 2012

EDIÇÕES

Pedro José da Silva, o popularíssimo Pedro Silva dos velhos, nasceu em Teresina, 1892. Morreu em 1974, no Rio de Janeiro. Músico, maestro, organizador, harmonizador e regente da Banda de Música do 25º Batalhão de Caçadores da capital piauiense, deu muita vida à praça Rio Branco que antigamente nas retretas do coretinho central. Muito novo, no começo do século, criou, com Jônatas Batista, o Clube Recreio Teresinense, que levou a cena, no respeitável Teatro 4 de Setembro, as peças NATAL DE JESUS e JOVITA. Esses dois piauienses tornaram-se as duas principais figuras da vida teatral de Teatral de Teresina durante anos. Entre 1917 e 1925, essa tradicional casa de espetáculos viveu grandes e ruidosas temporadas com as revistas de Jônatas por Pedro musicadas, como O BICHO, sátira ao popular jogo criado pelo Barão de Drummond, no Rio; FRUTOS E FRUTAS, O CORONEL GALANTE, entre outros. O ativo maestro ainda fundou o PALACE, na praça Rio Branco, animada casa de diversões de muita posteriormente arrendou o Teatro de 4 de Setembro, quando trouxe a Teresina célebres companhias teatrais. Passando a residir no Rio, trabalhou em estações de rádio, época em que difundiu demais o folclore piauiense. Dedicou grande parte da velhice a descrever os tipos, as cenas, os costumes, a religiosidade, as festas de São João, o ciclo do natal, as danças típicas e os gêneros musicais do Piauí - e confiou o trabalho à Academia Piauiense de Letras e esta o entregou a Secretaria de Cultura. Em 1987, localizou-se a obra de Pedro Silva. Confiei-a à Fundação Cultura Monsenhor Chaves, na pessoa de sua ilustre presidenta, o livro foi editado com o titulo de O PIAUI NO FOLCLORE, trabalho assaz oportuno e necessário.

O conto foi pouco cultivado na literatura piauiense do passado. Parece que o primeiro em salientar-se nesse gênero se chamou Francisco Gil Castelo Branco. Seguiram-se outros contistas como João da Cruz Monteiro, João Alfredo de Freitas, João Licinio de Miranda Barbosa, Arquelau Mendes, Julio Emílio de Paiva Rosa, surgiram depois Amélia Bevilaqua e Clodoaldo Freitas. Perto do nosso tempo se encontra Esmaragdo de Freitas, Álvaro Ferreira, Fontes Ibiapina, para que se registrem somente os mortos, no meio dos quais cumpre colocar João Pinheiro, que se serviu de acontecimentos reais e retratou caracteres físicos sertanejos. Agora surgiu Alvina Gameiro, com CONTOS DO SERTÃO DO PIAUÍ, narrativas de episódios e acontecimentos. Talentosa e de superior engenho, a escritora localiza os seus panoramas no chão desta terra piauiense.

Raul Furtado Bacellar publicou PALAVRAS A AMIGOS, que reúne escritos e concepções de quarenta ou mais anos passados, num retrato social e histórico de Parnaíba no Piauí. Estilo seguro, firme, visão ampla de pessoas e acontecimentos, fiel à memória dos fatos e das personagens que os viveram. O capitulo VIAGEM A MANGABEIRA possui aspectos descritivos e narrativos de mestre. Uma excursão deliciosa e contada com superior inteligência.


A. Tito Filho, 10/07/1991, Jornal O Dia – p. 4 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

POESIA POPULAR

No Piauí nasceram bons poetas ditos populares, os que compõem poesia com o hábito do povo, com a fala do povo, as crendices do povo, os heróis do povo. O cordel, ensinança de sociologia, vale exemplo desse tipo de concepção poética.

Popular se dizem também os versos sertanejos, os desafios nas feiras, as cantigas de amor. O nosso José Manuel de Freitas fez poemas simples, em que elogia a vida boa do leite mugido, da rede gostosa, cheirosa e convidativa.

Clodoaldo Freitas andou escrevendo sobre as nossas frutas maravilhosas, que já se vão sumindo hoje na voragem da industrialização. Hermínio Castelo Branco reproduziu na LIRA SERTENEJA cenas vivas dos vaqueiros, das vacas amocambadas, do eleitor de cabresto, das farinhadas inesquecíveis. Teodoro Castelo Branco passou à história da literatura brasileira piauiense na qualidade de POETA CAÇADOR, pois fez das peripécias das caçadas o motivo mais puro do seu lirismo caboclo. O desfile desses inspirados poetas não termina neste ponto. Outros de igual porte se acrescentam: José Coriolano, Raimundo de Areia Leão, o médico, o menestrel João Ferry, para falar na defuntaria saudosa.

Extensa a galeria: Zé do Pano, Zé Pretinho, Antônio Francisco dos Santos (Cão Dentro), José Fernandes de Carvalho (Zé da Prata), João Ventura, Domingos Fonseca, João Soeiro - que não sei se já foram desta para pior, cantadores, violeiros, improvisadores, gente do martelo, encheram de alegria os sertões sem fim e encantaram muita cabocha safada, das que gostam sobretudo de motorista de caminhão e soldado de policia.

O Piauí possui realmente autênticos cultores de poesia popular, a que brota da maravilhosa inspiração das cousas simples e das tradições coletivas. Entre os vivos está o divino telúrico Hermes Vieira, que J. Miguel de Matos caracterizou como a maior expressão da poesia folclórica da terra piauiense, versátil e fecundo.

Publicou-se agora NORDESTE, poemas de Hermes, uma iniciativa aplaudida de José Bruno dos Santos da Companhia Editora do Piauí.

Este NORDESTE mostra o poeta, em toda a grandeza dos versos que as criações do povo inspiram, abrangendo aspectos da vida e da natureza, psicologia das gentes, bichos, episódios amorosos e trágicos, alimentos, cerimônias, amores escondidos, mitos, lendas, superstições, doenças, músicas, danças, facécias, anedotas, linguajar - e ninguém melhor do que Hermes Vieira colocou esses processos de vida de homens e mulheres humildes na construção de versos que constituem exemplo de arte verdadeira e motivo de consagrada inteligência.


A. Tito Filho, 06/07/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O GOVERNO E O LIVRO

O Plano Editorial chegou ao fim no momento em que determinou o primeiro governo Alberto Silva; incentivando as letras e o conhecimento da história do Piauí com umas quarenta obras publicadas. A administração seguinte ignorou o salutar projeto. O governador Dirceu Arcoverde teve início já em inimizade com o anterior e a praxe sempre foi de o sucesso ignorar as virtudes do sucedido. O chefe do Executivo fixou esforços noutras áreas, publicando-se poucos livros. Lembro-me das edições da história da independência no Piauí, do padre Joaquim Chaves, de um livro de poesias de Isabel Vilhena e de um de filosofia de Antônio Veríssimo de Castro. Se houve outros, a memória não me acode.

Lucídio Portella, governador seguinte, concedeu valioso apoio ao livro piauiense e para tanto contou com os bons serviços de Paulo Henrique de Araújo na direção da Companhia Editora do Piauí.

Chegaria a vez de Hugo Napoleão, com arrojado Projeto Petrônio Portella, que se equiparou ao Plano editorial de Alberto Silva. O governante contou com a inteligência e o esforço de equipe trabalhadora e decidida. Obras de criteriosa escolha foram entregues ao público. Prestei os humildes e gratuitos serviços que me atribuíram, inclusive organizando a reedição comentada do romance UM MANICACA, de Abdias Neves.

A partir de Leônidas Melo, com algumas exceções, por causa de prementes dificuldades financeiras, os governos cumpriram, uns mais, outros menos, o dever para com as letras. Muito se tem publicado sobre história, crítica, poesia, estudos sociais, geografia, ficção. Alguns livros piauienses se estenderam a outros Estados.

O Piauí viveu em grande atraso anos a fio. No tempo da independência ao menos escola pública havia. Criaram-se educandários que nunca funcionavam.

Afastado dos meios comunicativos com o Brasil e o mundo, podia-se dizer que o Piauí representava um vazio, um território imenso sem habitantes, e o pânico, pelo medo que os poucos que o habitavam tinham da indiada, das forças da natureza e dos bichos da selva. O Piauí atravessou as fases literárias do Brasil sem que delas participasse. Os primeiros poetas, o herói da independência Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco e Ovídio Saraiva, que chegou a escrever a primeira letra do Hino Nacional, são simples imitadores de clássicos portugueses. Tardio o romantismo piauiense. Quase ninguém no realismo senão os poetas parnasianos e o naturalista Abdias Neves, retratista da pecadora Teresina do fim do século XIX. A Teresina de boatos, de intrigas, de bacharelismo, do anticlericalismo da rapaziada vinda do Recife. Não se pode esquecer Da Costa e Silva, que tanto tocou o coração piauiense. O admirável Martins Napoleão, em depoimento a Herculano Moraes, se disse um neoclássico. O modernismo chegou tarde. Os novos fizeram muita cousa, e ainda aguardam que o Piauí apercebido das suas responsabilidades, enfrente as dificuldades que são grandes, na falta de mercado ledor, por razões de pobreza, a triste postura dos que podem ler e não lêem, mas exoneram o livro das suas preocupações.

Infelizmente no segundo governo Alberto Silva o Projeto Petrônio Portella praticamente foi extinto, em virtude das deficiências financeiras do Estado.


A. Tito Filho, 25/01/1991, Jornal O Dia

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O LIVRO NO FUTURO GOVERNO

No tempo do Piauí-Província, quando faleceu José Coriolano, os amigos do poeta quiseram homenagear-lhe a memória, publicando as suas poesias românticas, cujo conjunto recebeu o nome de IMPRESSÕES E GEMIDOS. Não sei se o governo participou das despesas. No Piauí-República, o governador Anísio de Abreu faz a edição da CRONOLOGIA HISTÓRICA DO ESTADO DO PIAUÍ. Leônidas Melo mandou publicar, na Imprensa Oficial, obras de João Pinheiro, Higino Cunha, Celso Pinheiro, Moura Rego, Martins Napoleão e de outros intelectuais piauienses de renome, numa das mais brilhantes fases da vida literária da terra. Adiante, Pedro Freitas mandou que as oficinas do Estado editassem o interessante trabalho que o engenheiro Sampaio escreveu sobre as nossas possibilidades econômicas. Outro governante, Helvídio Nunes, patrocinou a publicação de algumas obras aplaudidas.

Chegaria o primeiro tempo de Alberto Silva, época em que o setor da comunicação se confiou a um sujeito de valor, apaixonado pelas cousas do Piauí, chamado Armando Basto, que idealizou o PLANO EDITORIAL, convocando-se uma plêiade de prosadores, poetas e jornalistas para executá-lo. Vetou-se a minha inclusão nesse grupo de pessoas ilustres. Era o ano de 1972. Um dia recebi chamado de Armando, que autorizava nova edição de LIRA SERTANEJA, e o trabalho, feito na companhia Editora do Piauí, saíra com imperfeições, por engano do organizador da obra de Hermínio Castelo Branco. Inutilizaram-se os mil exemplares confeccionados. Recebi a tarefa de preparar edição segura, e o fiz, confiada a Deoclécio Dantas; que superintendeu a valiosa publicação, à qual juntei humildes ensinamentos sobre o vocabulário sertanejo empregado pelo autor.

Armando Bastos me determinou que preparasse outras obras. Aceitei a incumbência com a condição de me ocupar somente de autores mortos, ou de trabalhos sérios a respeito de assuntos históricos e sociais da terra piauiense.

Entreguei os originais a Deoclécio, que dirigia, com raro devotamento, a Companhia Editora do Piauí, e os livros foram publicados, com primorosa revisão, reunindo as concepções de autores notáveis como José Coriolano (reedição), Esmaragdo de Freitas, Zito Batista, José de Lima Pires Rebelo.

Armando pretendeu que mais livros se fizessem, e assim se confiaram novas edições a empresa editora do Rio de Janeiro, de cujas oficinas saiu outra vez a famosa CRONOLOGIA HISTÓRICA DO ESTADO DO PIAUÍ, de Francisco Augusto Pereira da Costa. Orientamos, Armando Basto, Deoclécio Dantas e eu, a publicação de umas quarenta obras, admirável esforço para divulgar os autores piauienses, entre os quais Odilon Nunes, nas PESQUISAS PARA A HISTÓRIA DO PIAUÍ.

Interessante ressaltar que as obras dessa fase administrativa do Piauí confiaram-se ao público e às instituições GRATUITAMENTE, dentro como fora do Estado.

Torna-se necessário que se acabe no Piauí com a triste e viciosa praxe de o governo pagar a edição e o autor vender os exemplares da obra publicada ao próprio governo.

O assunto merece mais considerações. O nosso intuito está em oferecer ao futuro governador subsídios que sirvam a administração para incentivar corretamente a cultura no Estado.


A. Tito Filho, 24/01/1991, Jornal O Dia