Quer ler este este em PDF?

Mostrando postagens com marcador governos do Piauí. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador governos do Piauí. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O PIRAJÁ

Naqueles tempos antigos o teresinense viajava outras terras nos paquetes ou navios do Lóide e da ITA. tomavam a embarcação em São Luís e ganhavam o mundo, pelo Rio de Janeiro, por Belém, Manaus, Recife e na volta traziam engradados de mudas de plantas frutíferas para os pomares e chácaras, sempre denominadas QUINTAS. Uma luta possuir uma quinta. Coisa de gente bem, como se diria hoje. Mas pobre também possuía os seus cajus, as suas mangas, as suas laranjas.

Escolhia-se o local, adquiria-se o terreno e surgia a primeira dificuldade, o nome para o futuro celeiro. Um dos melhores e mais lidos cronistas de Teresina, o saboroso Joel Oliveira, escreveu que se reuniam os familiares e cada qual sugeria a denominação de sua preferência. Esteve em moda a escolha de cidades brasileiras, como Olinda, Petrópolis, Pirapora, antecedida de QUINTA: QUINTA MIRITIBA, QUINTA PORANGABA, QUINTA BELO HORIZONTE. Escolhiam-se nomes de cidades européias: Berlim, Zurich, Granada, ou localidades do Rio, a exemplo de Tijuca, Laranjeiras. Havia o batismo de terras santas, Tabaída, Botânica, Betsaida. Fixavam-se ainda denominações diversas: Rosal, Parnaso, Bela Flor, Irani. As esposas eram homenageadas, mas de outro modo, e surgiam as vilas nas residências, sempre distantes das QUINTAS. O processo vigorou durante muito tempo. Em 1933, meu pai construiu casa residencial, em que se lia, no portão de entrada, a denominação VILA EDITH, homenagem à cara-metade, minha madrasta. Pois bem. Aí pelo começo do século, ou antes, apareceu a QUINTA PIRAJÁ.

*   *   *

O mundo inteiro adotou o processo de designações para os palácios oficiais. De modo geral, dizia-se PALÁCIO DO GOVERNO  a sede do executivo, lugar dos despachos e da morada do governante. Palácio dos Leões em São Luís, Palácio do Catete e Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. Em Fortaleza, conheci o Palácio da Luz, onde decidia e residia o interventor Meneses Pimentel, hoje sede da Academia Cearense de Letras. Certa vez, em 1968, discursei no Palácio Piratini, residência oficial e sede administrativa em Porto Alegre. Foi no tempo de um congresso jornalístico de que participou o Piauí, com delegação composta de vários confrades, entre os quais Araújo Mesquita, Deoclécio Dantas, Rodrigues Filho, Vieira Chaves, Paulo José e outros. Gente boa.

Moscou, Paris, Cairo, Roma, nomeiam os seus palácios, costume velho como a serra dos cocos. Karnak, em Teresina, foi nome de chácara, a CHÁCARA DE KARNAK, denominação tomada da estranja. Tornou-se sede do executivo piauiense e residência governamental em 1926, inaugurado por Matias Olímpio. O governador Rocha Furtado residia em casa própria, também Pedro Freitas e outros. Clímaco de Almeida passou algum tempo na residência da praça João Luís, depois se fixou em Karnak. O governante Aberto Silva iniciou, no primeiro governo, o aluguel de mansões de luxo para moradia, imitado por Dirceu Arcoverde e Hugo Napoleão. Os governadores Lucídio Portella e Freitas Neto não quiseram sair da residência particular.

Gayoso e Almendra despachou algum tempo no prédio atual do Tribunal de Contas, se a memória não me deserda, antiga residência de Heitor Castelo Branco, e Alberto Silva despachava da sede do antigo Seminário diocesano. Ninguém se lembrou de denominar esse velho prédio de PALÁCIO HEITOR CASTELO BRANCO ou PALÁCIO DO SEMINÁRIO. Seria tolice refinada batizar o provisório deslocamento da sede administrativa.

Freitas Neto pretende instalar o governo em prédio de uma empresa de assistência técnica, a EMATER, no bairro ou subúrbio do PIRAJÁ, e logo os distintos proclamaram a oportunidade de denominação de PALÁCIO PIRAJÁ.

Que representa esse Pirajá, nome indígena? É nome da antiga QUINTA de fruteiras de Teresina. Nome baiano. Certamente o dono achou bonita a designação, que recorda o combate do Pirajá, na Bahia, ao tempo da luta pela independência nacional, travada a 8 de novembro de 1822. Melhor seria JENIPAPO, onde tombaram os nossos humildes heróis, em 13 de março de 1823. Mas JENIPAPO soa mal, não calha bem à sede da administração do Piauí.

Recorde-se ainda que a QUINTA PIRAJÁ, adquirida no governo do presidente Nilo Peçanha, teve nela instalada a Escola de Aprendizes e Artífices, em 1910, subordinada ao ministério da Agricultura, com oficina de ferreiro e serralheiro. Passou a chamar-se Escola Industrial. Hoje, Escola Técnica Federal.

Se Freitas Neto adotar sede provisória, devia chamar-se PALÁCIO DA ADMINISTRAÇÃO ou PALÁCIO DO GOVERNO. Se pretende fixação definitiva, calha de modo criterioso PALÁCIO 13 DE MARÇO, homenagem aos vaqueiros e agricultores que empurraram as forças militares portuguesas para o Maranhão, em 1823.

É verdade que existe o MONUMENTO DO JENIPAPO, evocativo da batalha do mesmo nome. Prestar-se-iam duas homenagens, em Campo Maior e Teresina. Que tem isso? Em São Paulo executou-se um grande conjunto escultórico, de * metros de cumprimento, 16 de largura e 10 de altura, exaltando os bandeirantes e posteriormente se deu a sede do governo paulista a denominação PALÁCIO DOS BANDEIRANTES.

Será que os baianos dariam ao seu palácio governamental o nome PALÁCIO DO JENIPAPO?. É tempo de mandar a subserviência às favas e pensar no que nos pertence.

    
A. Tito Filho, 09/05/1991, Jornal O Dia - p. 4

________________
* Não está visível no original

A ACADEMIA E O LIVRO

Leônidas Melo, que governou o Piauí de 1935 a 1945, mais de dez anos, praticou alguns atos censuráveis porque violentos. A sua administração, porém, foi das mais benéficas às coletividades estaduais. No aspecto cultural, esteve irrepreensível. Reeditou obra rara como a autobiografia do cabo-de-guerra português Fidié. Incentivou a vida literária de Teresina com a edição de trabalhos de poetas e prosadores, inclusive a primeira história da literatura piauiense, de João Pinheiro. Publicaram-se livros dos mais ilustres escritores da época, como Higino Cunha, Celso Pinheiro, Martins Napoleão, entre outros. Livros de diminuta tiragem e que circulavam nos restritos meios intelectuais, sem que chegassem ao grande público.

Só a partir de 1972, no primeiro governo de Alberto Silva, se verificou a difusão da história política, social e administrativa do Piauí, bem assim das melhores concepções em prosa e poesia dos autores piauienses, e à Academia Piauiense de Letras, sobretudo coube a organização das obras, às vezes a adaptação ortográfica, os comentários dos textos, e a ela atribuiu a tarefa de distribuí-las por todas as áreas federadas. De 1972 até os dias atuais, com o incentivo e o apoio de várias administrações, a Academia promoveu seguidamente a edição de dezenas de bons livros, a exemplo de LIRA SERTANEJA (Hermínio Castelo Branco), PESQUISAS PARA A HISTÓRIA DO PIAUÍ (Odilon Nunes), NAS RIBAS DO GURGUÉIA (Artur Passos), CRONOLOGIA HISTÓRIA DO ESTADO DO PIAUÍ (Pereira da Costa), A GUERRA DO FIDIÉ (Abdias Neves), HISTÓRIA DA IMPRENSA NO PIAUÍ (Celso Pinheiro), O PIAUÍ NA POESIA POPULAR (Félix Aires), DEPOIMENTO PARA A HISTÓRIA DAS REVOLUÇÕES NO PIAUÍ (Moysés Filho), CANTO DA TERRA MÁRTIRE (Martins Vieira), antologias de José Coriolano, Zito Batista e Esmaragdo Freitas (A. Tito Filho), PRAÇA AQUIBADÃ (A. Tito Filho), HISTÓRIA EPISCOPAL DO PIAUÍ (Dagoberto Júnior), CANCIONEIRO GERAL (Martins Napoleão), APONTAMENTOS BIOGRÁFICOS (Padre Joaquim Chaves), GEOGRAFIA FÍSICA DO PIAUÍ (João Gabriel Baptista), POESIA E PROSA (Jônatas Baptista), ANGLO-NORTE-AMERICANISMOS NO PORTUGUÊS DO BRASIL (A. Tito Filho), NOTAS FORA DA PAUTA (Moura Rego), NORDESTE (Hermes Viana), ENDOEMA (William Palha Dias), IDEOLOGIA E CIRCUNSTÂNCIA (Clidenor Freitas Santos), A MISTERIOSA PASSAGEIRA (Lili Castelo Branco), MUSEUS E CASAS DE CULTURA DO PIAUÍ (Lícia Margareth e Marília Coelho), TROPICALISMO (Soares Cordeiro), MOVIMENTOS SOCIAIS (Sônia Nogueira), LICEU PIAUIENSE (A. Tito Filho), O DISCURSO IMPERFEITO (M. Paulo Nunes), MEDICINA E PODER POLÍTICO EM FLORIANO (Bento Bezerra), TERESINA MEU AMOR (A. Tito Filho), UMA FIGURA SINGULAR DE MISSSIONÁRIO (Frei Memória), UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA (Salomão Chaib) - livros que muito contribuem para o conhecimento da terra piauiense ao revelar ainda dos principais autores de ficção, crônicas  e de crítica literária.

É vigoroso o plano da Academia para 1991, iniciado com um bom romance de José Expedito Rego, MALHADINHA, de costumes familiares sertanejos e amores ilícitos de gente da antiga capital do Piauí. Ainda do ano passado, com lançamento festivo em dezembro, entregou-se ao público MEMÓRIAS E DEPOIMENTOS, do ex-governador José da Rocha Furtado.

Outros livros de variado gênero poderiam ser relacionados como parte do volumoso plano acadêmico dos anos anteriores. Para 1991 se preparam no momento obras de grande utilidade originadas por autores projetados como William Palha Dias, M. Paulo Nunes, Miridan Britto Knox, Orgmar Monteiro, Hardi Filho, Renato Castelo Branco, Sátiro Nogueira, Afrânio Nunes.

Já neste sábado, a Academia lança ASPECTOS DA ARQUITETURA DE FLORIANO, uma obra valiosa, fartamente ilustrada, de autoria do professor José Nunes Fernandes, um jovem de inteligência e dedicação à vida cultural.


A. Tito Filho, 16/02/1991, Jornal O Dia - p. 4

AS BOAS PROMESSAS

A 15 de março de 1991 este jornal "O DIA" publicou a notícia de que uma mulher sofreu choque elétrico e partiu desta para pior vida.

Dois anos passados um jovem professor retornava das aulas noturnas, pilotando a sua motocicleta, alegre, depois do exaustivo trabalho. Agora teria o aconchego do lar e a convivência dileta da patroa e dos filhos. No Mafuá, um fio da rede de eletricidade o alcançou e no local o pobre vivente adquiriu o descanso eterno.

Na década de 50, meu saudoso colega da Academia Piauiense de Letras, Fontes Ibiapina, em casa, apertou um botão de acender lâmpada e padeceu violento tombo e queimaduras. Quase embarca, Sofreu demais, em cima da cama, e só meses depois pôde caminhar, ainda assim caxingou até a morte.

– X –

A luz elétrica pública de Teresina data de 1912, governo Miguel Rosa. Deslumbrante a inauguração. Gente muita, discursos empolgantes. A iluminação restringia-se à praça Rio Branco. Somente a 10 de maio de 1914 funcionaram a máquina diesel e os dois geradores. Era domingo. A cidade iluminada tomou-se de incontida alegria. Postes de madeira, substituídos por potes de ferro em 1923; ano da primeira greve na usina elétrica, cujo diretor, Santídio Monteiro, denunciou publicamente o secretário da Fazenda, Lucrécio Dantas Avelino, de pagar a luz de sua residência por preço inferior ao devido. A safadeza vem de longe. O acusador foi suspenso por dez dias. Os operários declararam-se em greve e Teresina viveu à escuras. Convocaram-se maquinistas para o funcionamento das máquinas. Nada se conseguiu. Os estudantes do Liceu, sempre buliçosos, fizeram passeata de velas acesas. Santídio Monteiro recusou-se a qualquer cooperação. Novos incidentes. A suspensão subiu para noventa dias. Somente com a vinda de engenheiro inglês, chamado de São Luís, a luz voltou às ruas e às casas. Na época, o engenheiro Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves dirigiu as obras de novas instalações da usina.

No ano da revolução paulista contra a ditadura do presidente Getúlio Vargas o teresinense só dispunha de luz até a meia-noite. Em 1940 contrataram-se com o Siemens reparos na rede, que os reclamava com urgência.

Ainda época de interventoria no Brasil. A do Piauí coube ao coronel mineiro José Correia, que se voltou para o problema da iluminação da capital. Prestigiado pelo presidente Dutra, adquiriu na Suécia turbinas termoelétricas que só chegariam e se montariam em 1950. Antes, em 1947, veio de Alagoas para a nossa o motor apelidado pelo povo de Maria Bonita. Governo de José da Rocha Furtado, que * Teresina, quase ao apagar de sua administração farta. Era o Natal de 1950.

O general Gayoso e Almendra, governou de 1955 a 1959, criou o IAEE (Instituto de Águas e Energia Elétrica). Instalou-se a Central Elétrica do Piauí em 1962. A energia de Boa Esperança chegaria em 1970.

– X –

Eis ligeiro histórico do que tem sido feito de Teresina para auferir o conforto do progresso que a energia elétrica proporciona. Ainda perto do ano dois mil, nas noites de chuva e relâmpagos e trovoadas, a luz nos foge, e se fica de livro na mão e carne na geladeira até que a claridade retorne. A vela cumpre o serviço civilizador.

Quem percorre as ruas e praças de Teresina fica estarrecido do cipoal de fios por toda parte. De vez em quando um se desgarra e mata o pobre diabo por ele alcançado. Nas residências o problema é constante. Examinem-se os jornais destes últimos cinco anos e a evidência entristece e amedontra. Crianças, maduros e velhos têm sido vítimas dos mortíferos choques da CEPISA. As cidades civilizadas têm os fios da rede elétrica *, nos postes respectivos.

Olegário Barros Almeida, novo presidente da empresa, promete melhorar serviços, pagar os servidores e positivar novos investimentos. Cobrará preços mais justos. Ótimo. Aguardo esperançoso o cumprimento das promessas. Só peço que inscreva no rol do melhoramentos mais humanos de todos: o respeito da CEPISA pela vida do povo sofredor de Teresina. Aleluia.


A. Tito Filho, 21/03/1991, Jornal O Dia - p. 4
________________
* Não está visível no original

domingo, 20 de maio de 2012

SEMPRE CONTRA

Não se diga que eu desgoste de futebol. Já em Barras, cidade do norte do Piauí, onde me cortaram o umbigo, eu jogava bola quando comecei os estudos primários nos meus sete anos. Eu e os molecotes como eu no beco de velho Fernando Carvalho, sujeito que conheci idoso, cidadão honrado. Abria a loja da esquina cedo, sempre de colete e bonzeguinos, barbicha bem aparada. Tipo respeitável, de fala ligeira, família tradicional. Formava-se os times nos domingos, quando o sol esfriava e a partida só terminava boquinha da noite.

Andei por outras terras e nunca me afastei dos estádios, como em Fortaleza e no Rio de Janeiro. No retorno aos pagos teresinenses, em 1947, encontrei o Estádio Lindolfo Monteiro, se a memória não me engana, construído pelo prefeito do mesmo nome e inaugurado em 1940.

No meio do século, fui ao Rio, num aviãozinho bimotor, que saia de Teresina seis da manha e depois de enjoativo pinga-pinga por algumas cidades, baixava no aeroporto Santos Dumont, da ex-capital, pelas sete horas da noite. Era a inauguração do Maracanã, estadiozão construído pelo prefeito Mendes de Morais, para que, aos urros de sua formidável platéia, houvesse a última partida de uruguaios e brasileiros, em 1950. Assisti ao embate. À derrota nacional. Dois a um em favor dos homens comandados por um meio-campo endiabrado, Obidúlio Varela. Recordei os dias de 1938, nesta sofrida capital piauiense, no tempo do ultimo campeonato mundial de futebol jogado antes da segunda grande guerra. O astro do Brasil o homem de borracha, diamante negro, Leônidas. Os nossos perderam a derradeira partida, em disputa com a Itália, também por dois a um, um gol italiano de pênalti.

Dava gosto o futebol dos velhos tempos. Os craques desconheciam a dinheirama que transformou esse esporte de massa e de entusiasmo num reles balcão de trocas e *. De mim, não perdia jogo dominical em Fortaleza, no Rio. Cheguei a prefaciar um livro de Carlos Said, sobre a história do futebol piauiense, em que figuro como interventor na Federação Piauiense de Desportos, em 1960, quando me possível, com o auxílio de sujeitos capazes e honestos, Péricles * e Eulino Martins, meu tesoureiro e meu secretário, endireitar a entidade mentora do esporte piauiense. Tomei a medida de reduzir o numero de clubes de Teresina a seis. Uma história interessante que ainda ninguém contou.

Mas quando se quis construir o Albertão, estádio enorme de sessenta mil pessoas, fui contra. O único jornalista, o único cidadão, o único brasileiro, o único vivente, contra abertamente, em campanha de jornal e rádio. Insultavam-me. E eu contra. Meu argumento era em que Teresina não podia SUSTENTAR enorme praça esportiva. Os jogos não despertariam interesse público para tantos lugares. Interessante é que, neste ano de 1991, quando mais Teresina aumenta de população, mais a platéia do Albertão míngua de gente. Dídimo de Castro; uma das melhores expressões do velho jornalismo, seca os gorgomilos, todo dia convocando pagantes ao estádio.

Fui contra o Albertão, contra a Poticabana, contra o Metrô, contra os aleijamentos do Theatro 4 de Setembro e da praça Pedro segundo, contra a derrubada da antiga penitenciaria e contra o Verdão.

Sou contra tudo que tira o pão e aumenta a fome do povo.


A. Tito Filho, 23/03/1991, Jornal O Dia - p. 4

________________
* Não está visível no original

PLANO DE LIVROS

Desde 1972 vem a Academia Piauiense de Letras, com dificuldades sem conta, divulgando o livro piauiense. Obras de história, geografia, estudos sociais, romances, contos, novelas, teatro, folclore, não há, no Brasil, instituição que se tenha dedicado mais, com pequenos recursos, mas empregando-os honestamente, do que a referida instituição cultural piauiense. Encontra pessoas de nobre caráter que a ajudam e incentivam. Por preços reduzidíssimos faz entrega das edições aos que as adquirem, prestativos, no exercício de valiosa contribuição.

Dezenas de obras a Casa de Lucídio Freitas entregou ao público, desde que iniciou, quase vinte anos atrás, um efetivo plano editorial, a fim de que estudantes e professores, homens de letras, estudiosos, amantes da leitura séria e útil tivessem a seu dispor as melhores fontes de conhecimento da terra e da gente do Piauí.

São selecionados os livros editados. O ano passado, para citar a mais recente relação de livros, foram publicados e distribuídos pela Academia: MEDICINA E PODER POLÍTICO EM FLORIANO, do médico Bento Bezerra, uma análise da atuação de médicos na administração do importante município piauiense, COISAS E LOISAS, crônicas e memórias de terras sertanejas, de Sátiro Nogueira; UMA FIGURA SINGULAR DE MISSIONÁRIO DO NORDESTE BRASILEIRO, de Frei Memória, biografia de Frei Heliodoro, humilde missionário da caridade cristã em Teresina; UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA, novela de suspense do médico Salomão Chaib; MANIFESTAÇÕES MUSICAIS NO PIAUÍ, de Cláudio Bastos, um dos raros trabalhos sobre a arte musical entre nós; CRÔNICAS, de Tito Filho, em declarações de amor a Teresina; ELOGIO DA SOMBRA, de José Maria Soares Ribeiro, crítica de escritores piauienses mortos; MEMÓRIAS DEPOIMENTOS, de Rocha Furtado, documentário político de fase conturbada da história do Piauí; ARTE E TORMENTO, conjunto lírico encantador do poeta Nogueira Tapety, em prosa e poesia; O OITÃO, de Cléia Napoleão, recordações da romântica Teresina de outros tempos; MALHADINHA, de José Expedito Rego, um dos melhores romances de conteúdo social, com cenário da vida rural de Oeiras; A TALHA DE RETÁBULOS, de Dagoberto Júnior, arte e história religiosa.

A Academia adotou dois planos de distribuição de obras: mensalmente, um livro, por preço mínimo de 500 cruzeiros. Ou seis livros, um por mês, de janeiro a junho, pelo preço total de dois mil e quinhentos cruzeiros. O processo como se vê, beneficia os adquirentes, uma vez que o preço se mostra vantajoso, numa época em que o livro cada vez mais tem os custos elevados e de difícil aquisição por parte dos que têm rendas apenas razoáveis; e os desejosos de boa leitura ficam com a obra previamente garantida, sem os riscos do esgotamento das edições.

Neste mês de março, a Academia inicia a distribuição de TIRA-DÚVIDAS. São três pequenos volumes escritos pelo acatado professor Cineas Santos, em que se resolvem as dúvidas freqüentes de grafia e de emprego de palavras. Constituem lições simples, acessíveis a estudantes, a professores, jornalistas, profissionais em geral, a funcionários públicos, secretários, entrevistadores e entrevistados, noivos distantes, poetas, escritores, locutores de rádio e TV, secretários de empresas e de governadores, epistológrafos. Todos necessitam das LIÇÕEZINHAS grandes de Cineas Santos. Sim, é assim mesmo. O plural de LIÇÃOZINHA é como escrevi, LIÇÕEZINHAS. Aprendi no Cineas.

Estas linhas não constituem publicidade comercial, pois a Academia Piauiense de Letras não pretende lucros, mas apenas proporcionar bons livros aos que querem desanuviar a cachola. O objetivo aqui reside em orientar os leitores, com a devida vênia de Octávio Miranda, sempre estimulador do desenvolvimento cultural do Piauí, e dos coleguinhas inteligentes e prestativos que completam este jornal.


A. Tito Filho, 28-29-30/03/1991, Jornal O Dia - p. 4

sábado, 19 de maio de 2012

AINDA GOVERNO E LIVRO

No governo Hugo Napoleão se estabeleceu o Projeto Petrônio Portella, para edição de obras sobre o Piauí e de autores piauienses, numa homenagem ao político que tanto engrandeceu a terra natal, figura impressionante, cujas leituras lhe aformosearam o espírito e a inteligência. No início da vitoriosa carreira, chegou a publicar atos de violência, porque o Piauí ensinava que na violência estava a defesa contra os adversários. Sentimos em Petrônio, quando já ministro o visitamos, mais de uma vez, que cada dia mais ele se compenetrava do papel da cultura, a fim de guiar os homens nos caminhos certas da vida. Maduro e prestigiado nos altos escalões republicanos, não guardava ódios, nem queria malquerenças, vivia de fazer o bem. Deu lições aos maiores parlamentares brasileiros, na tribuna do Congresso Nacional. Sentia tão profundo gosto pelas cousas do saber que autorizou a feitura, na gráfica do Senado, de edições sucessivas dos grandes discursos parlamentares proferidos ao tempo do Império, o que lhe valeu a Medalha Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras.

O Projeto Petrônio Portella mereceu execução louvável do secretário Jesualdo Cavalcante, da Cultura. Excelentes livros se distribuíram no Piauí e no Brasil.

O governo seguinte, de Alberto Silva, prestigiou a obra cultural do antecessor. Mantiveram-se as normas do Projeto Petrônio Portella, confiado ao jornalista Kenard Kruel, esforçado e trabalhador.

Em agosto de 1987, o governador Alberto Silva, convocou a Academia Piauiense de Letras para participar desse auspicioso plano editorial. Acertou-se que os recursos se dividiriam entre a Casa de Lucídio Freitas e a Fundação Cultural do Piauí, meio a meio. As edições ficariam subordinadas às duas partes: à primeira, as obras de escritores desparecidos ou vivos considerados úteis ao conhecimento da história piauiense, ou outras, como trabalhos de ficção de autores desaparecidos ou acadêmicos; à segunda competia editar a literatura de novos escritores.

Desnecessário, asseverar que o Projeto Petrônio Portella fracassou na metade do governo Alberto Silva, porque os órgãos responsáveis pelas finanças necessárias ao custeio das edições fugiram, quase todos, dos compromissos publicamente adotados, recusando o pagamento das contribuições. Não lhes interessava senão a politiquice e o desprezo as manifestações culturais da terra.

X   X   X

O filósofo Marcuse ensinou que a sociedade possui três forças de comando: a econômica, a política e a intelectual. A primeira tem a primazia no comando e a ela se subordinam as outras duas. O detentor de grandes cabedais, os donos do poder, os escritores são os tipos que desfrutam de menos prestígio na vida social. O homem se torna escravo do dinheiro e com o vil metal compra mandatos. Satisfaz-se com esses triunfos. Os outros seres humanos contentam-se que os semelhantes lhe rendam homenagem e consideração por intermédio da autoria da obra literária ou de outro conteúdo.

Ao Projeto Petrônio Portella chegavam livros e mais livros de autores de uma triste subliteratura, as mais das vezes, todos apadrinhados ou amanhados. A Academia Piauiense de Letras recusava publicação e arrecadava inimigos. Kenard Kruel achou mais conveniente guardá-los nos arquivos respectivos, pois inclusive a editoração não era possível, uma vez que raros os órgãos governamentais que permaneciam no cumprimento do acordo assinado e chancelado pelo governador em 1990, um só centavo chegou às entidades encarregadas da execução editorial. O mesmo se deu ao brilhante Hardi Filho, sucessor de Kenard.

Morreu, tristemente, o Projeto Petrônio Portella.

O novo governo não pode fechar os olhos para a triste situação cultural do Piauí.


A. Tito Filho, 27-28/01/1991, Jornal O Dia - p. 4

GENTE IMPORTANTE

Quando chegava gente importante a Teresina, era um deus-nos-acuda. Alvoroço nas camadas sociais ilustres. Terno branco, engomadíssimo, sapato engraxado, camisa limpa, gravata bonita, assim ficavam os machos. As damas botavam o melhor vestido, perfume afrancesado, pulseiras ricas. Plantavam-se todos no local do desembarque da figura esperada com ansiedade. Banda de música. Nos velhos tempos, fazia-se o cortejo, a pé, à casa da hospedagem.

No caso dos presidentes da República, os preparativos da recepção começavam dez ou mais dias antes da chegada. Assim se deu com Afonso Pena, eleito para governar o Brasil. Antes da posse, visitou o Piauí, chegando a Teresina a 14 de julho de 1906, pelas 10 horas da manhã. Recebeu homenagem estrondosa. Ao alcançar a igreja de São Benedito, penetrou o templo, ajoelhou e rezou. Seguiu para a Chácara Lavinópolis, do farmacêutico Collect Fonseca, esquina da avenida Frei Serafim, local hoje de posto de gasolina. Regressou no dia seguinte; as cinco da tarde. Dormiu uma noite só, com penico de porcelana no quarto - um penico de pinturas elegantes, que se esqueceram de guardar para o futuro museu.

Nilo Peçanha veio ao Piauí, mas já se havia despedido da presidência. Desempenhava o mandato de senador e pleiteava voltar a ela... Pronunciou conferência no Teatro 4 de Setembro. O eleito chamava-se Epitácio Pessoa, que derrotou Nilo.

Chegaria a vez de outro grandão - agora Getúlio Vargas, diretor eminente, que veio ao Piauí a primeira vez em 1933. Viagem pelo Maranhão, atingiu Teresina por Flores, hoje Timon, depois atravessar o Parnaíba. Percorreu a rua Teodoro Pacheco até o palacete de dois andares do médico Freire de Andrade, no principio da avenida Antonino Freire, esquina da praça Pedro II, mesmo local do Palácio de Karnak - e aí se hospedou, no quarto de cima, de frente. Saudado por Martins Napoleão. Banquete em Karnak, de noite. O povo permaneceu no meio da via pública, furando a madrugada embevecido, extasiado de ter Getúlio a dormir na capital piauiense. Na qualidade de candidato à presidência da República, o grande gaúcho visitaria Teresina em 1950.

Intensas paixões partidárias distanciavam os políticos do PSD e da UDN no Piauí. Na capital a imprensa mais alimentava ódios e malquerenças. O presidente Dutra, pessedista, passou alguns momentos no aeroporto de Teresina, onde conversou com o governador (Udenista) Rocha Furtado, mas não aceitou homenagens nem quis visitar a cidade, que eleito, conhecia. Temeu que os correligionários ficassem aborrecidos.

Outros presidentes vieram até cá - Juscelino, Jânio (como candidato), Goulart, Castelo Branco, costa e Silva (candidato), Médici, Geisel, João Batista Figueiredo.

A cousa foi-se tornando corriqueira.

Ninguém mais se abala com visita presidencial.

Sarney conheceu demais a nossa Teresina.

 
A. Tito Filho, 16/05/1991, Jornal O Dia - p. 4

quarta-feira, 16 de maio de 2012

TRÂNSITO

Em 1941, no governo intervencional de Leônidas Melo, foi criada a Delegacia de Trânsito. Parece-me que em seguida houve reforma na polícia civil e criaram-se em Teresina três delegacias especializadas: Delegacia de Segurança e Ordem Pública, Delegacia de Investigações e Capturas e Delegacia de Trânsito e Costumes. Quando, em 1947, fui chamado a desempenhar funções policiais, coube-me a Delegacia de Trânsito e Costumes, depois desaparecida com a criação do Departamento Estadual de Trânsito.

A princípio, na cidade fundada por José Antônio Saraiva, transitavam pedestres e quadrúpedes. Havia o costume chique de passeios a cavalo pela cidade. Vigorava o sistema de carros de aluguel, puxados por animais; para casamentos, batizados, cortejos de baile e de teatro. Padre Chagas, nas suas encantadoras páginas de Teresina antiga, anota que na cidade foram surgindo, pouco a pouco, carros puxados a cavalo. Inovação gostosa. E conta que em 1874 funcionava na capital grande empresa de caleças, propriedade de Domingos Gonçalves Pombo, que atendia a chamados a qualquer hora, dia e noite. Aluguel também para visitas, missas no cemitério, serviços médicos, passeios pelo Poti.

As crianças constituíram, com os anos, o meio de condução de cargas da preferência geral. Em 1895 os seus condutores, os carroceiros, já estavam obrigados a matricular-se na intendência, que assim se chamava a prefeitura da época.

Em duas carroças puxadas por bovinos, em 1900, se transportava carne para o mercado central.

Em 1910 deu-se a proibição de carros e carroças que não estivessem matriculados na repartição competente. O primeiro caminhão destinado à coleta de lixo da cidade chegaria em 1911, adquirido pelo cidadão contratante do serviço de limpeza urbana.

Colhi em velhos jornais que os primeiros automóveis chegaram a Teresina em 1922. Consta que a iniciativa coube ao médico Manoel Francisco Afonso Ferreira. Sabe-se que os primeiros motoristas se chamavam Avelino Augusto de Carvalho, Manuel Augusto de Carvalho e José Góis.

O intendente (prefeito) Anfrísio Lobão Veras Filho, em 1925, baixou o regulamento do trânsito de veículos do município e da cidade de Teresina. Criou-se também o lugar de inspetor de veículos. O mesmo ilustre administrador mandou realizar, em 1927, exame de habilitação para motoristas e adquiriu bonde de motor em São Paulo para a limpeza da estrada de ferra ao rio Parnaíba.

Coube ao chefe de polícia interino Edgar Nogueira estabelecer ruas preferenciais na capital, bem assim proibir o tráfego de automóveis e outros carros oficiais e particulares na cidade, a fim de que se correspondesse ao esforço da grande guerra iniciada em 1939.

Os primeiros sinais luminosos na cidade se instalaram em 1952, no governo Pedro Freitas, na esquina das ruas Coelho Rodrigues e Barroso e junto ao relógio da praça Rio Branco, por iniciativa do delegado Matias Melo Filho.

Escrevo estas notas ao correr da pena, com os recursos da memória. Recorde-se que nas ruas de Teresina automóveis e caminhões passavam uns pelos outros, folgadamente, o que atesta que José Antônio Saraiva e o seu braço direito João Isidoro da Silva França estabeleceram a largura das vias públicas como se previssem o futuro do homem e da sua criatura diabólica, a máquina.

X   X   X

O trânsito de Teresina necessita de um historiador para contar-lhe a longa história, rica de episódios alegres, pitorescos e trágicos. Entre os pitorescos está aquele registrado pela pena irônica de Eurípedes de Aguiar, num artigo do jornal, em que o impenitente articulista critica o gesto do saudoso delegado Matias Melo Filho, ao colocar, no ponto central do cruzamento das ruas Coelho Rodrigues e Simplício Mendes, um bisonho policial, sobre estrado de madeira de meio metro de altura, para orientar os motoristas, que se aproximavam. Segundo o mesmo percurso ou dobrando, os guiadores tinham pouco espaço para manobrar, por causa do palanque do delegado. Eurípedes conta no seu estilo gracioso e debochativo, que o pobre guarda, em vez de controlar o trânsito, largava o estrado, de carreira apressada, a medo de ser atropelado. Matias não agüentou o segundo artigo, extinguiu o melhoramento.


A. Tito Filho, 27/02/1991, Jornal O Dia – p. 4

quarta-feira, 9 de maio de 2012

VIÚVA POBRE TAMBÉM É GENTE

Sofrimento de viúva pobre é grande. Marido em casa serve, quando nada faça, ao menos para roncar. Presença de homem tem valor na choupana e no palácio. Dá importância. Se a mulher perde o companheiro, inicia uma existência de atribuições. Ninguém lhe concede prestígio e atenção, excetuada a rica, ou a esbelta, jovem ainda, e esta, por outro lado, padece os cochichos maledicentes e torna-se vítima de grosseiros preconceitos.

De qualquer forma as viúvas desfiam rosário de muitas angústias, sobretudo as pobres, às quais o defunto só tenha legado talvez uma porção de dívidas na quitanda.

Certa vez prestei às viúvas pobres do Piauí grande serviço. Defendi-as com unhas e dentes pelos jornais e consegui que a exigência indevida da lei fosse revogada.

O caso se passou assim.

O governo, num gesto humano, beneficiou as mulheres que haviam perdido ou que viessem a perder os maridos, caso estes, obviamente, exercessem empregos públicos. Antes, a lei de organização judiciária distribuíra pensão às viúvas dos magistrados.

Mas a que concedeu pensão às viúvas dos barnabés trouxe malsinado parágrafo - aquele que reclamava da mulher do supradito barnabé, em estado de viuvez, para que obtivesse o benefício, prova de honestidade. E neste ponto o fato espantava: para que esse testemunho de vida honesta? A quem competia a assinatura do atestado? Ao delegado de polícia. E a autoridade policial teria a evidência da honestidade da viúva, para atestar-lhe tal posição, ou lhe negaria o atestado, como reconhecimento da sua desonestidade? Pareceu-me que esse atestado era ou deveria ser sempre gracioso, salvo se o xerife já houvesse saboreado a viúva e atestasse a desonestidade de conhecimento próprio e assim a referida autoridade colocaria mal.

Demais de tudo, para ajudar a viuvez nos seus encargos do lar e do sustento dos filhos, que tem o Estado com a honestidade das mulheres? Sendo desonesta a viúva, faleceu-lhe a responsabilidade da família?

A viúva tem plena maturidade perante a lei, e a lei não poderia obrigá-la. O marido jaz enterrado e só a ele competiria medidas contra a cara-metade prevaricadora. Que tem o Estado com os prováveis ou certos amores das viúvas? Serão ilícitos esses amores? Nunca dos nuncas, desde que praticados de livre e espontânea vontade por parte dos parceiros de cama e rede, areia de praia ou grama de praça.

A lei protege a menor de 14 anos e considera estupro as relações sexuais com ela mantidas. A lei protege a mulher virgem, de cabaço íntegro, até certa idade, desde que recatada e vítima de sedução. A lei impõe penalidade aos que conseguem amor carnal mediante fraude, ameaça ou violência - e o crime existirá desde que a fraude, a ameaça ou a violência se pratique até contra meretrizes. A lei pune a raparigagem, o lenocínio, a exploração de lupanar. Mas lei alguma proíbe ou considera crime relações de quem pode mantê-las, sem ofensas ao poder público.

Que tem o Estado a ver com a liberdade sexual das viúvas? O Estado não deve submeter-se a preconceitos, porque o preconceito nasce da ignorância ou do interesse escuso, e o Estado pode e não deve guiar-se pela ignorância ou escuso interesse. Integralmente liberta da fidelidade matrimonio com a morte do marido, que tem o Estado com a honestidade ou desonestidade da viúva?

Saliente-se a humilhação imposta às viúvas obrigadas ao petitório de atestados a autoridades policiais, que não têm como testemunhar senão de modo falso, uma vez que não lhes compete o conhecimento dos íntimos episódios em que se envolvem as pessoas, muitas das quais desconhecidas. Por essa forma, os testemunhos dessa honestidade ou desonestidade das viúvas jamais poderiam refletir a verdade. Só em casos excepcionais.

Interessante: para a viúva dos magistrados do Piauí a lei não exigiu atestado algum. Exigiu somente que a beneficiária fosse viúva do falecido. Por que a distinção? Viúva de magistrado tem, perante o Estado, a presunção de honestidade? A dos outros servidores cairia em dúvida?

Viúva nunca poderia praticar desonestidade sexual, salvo se contra a própria consciência, enganado o amante, se fosse o caso.

Com estes argumentos consegui revogar a exigência de honestidade para as viúvas dos servidores públicos do Piauí. Viúva de barnabé também é gente - gritei. E o parágrafo foi postado fora.


A. Tito Filho, 30/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 5 de maio de 2012

ASSUNTOS

Heráclito Fortes, administrador de Teresina dos melhores que já houve, com certeza tem mais nas suas preocupações a desfiguração de Teresina, cidade onde nasceu. não lhe cabe culpa alguma do que fizeram com a cidade de Saraiva.

Teresina é das mais maltratadas cidades brasileiras. Vigoram as paisagens deformadas, como se estivessem constantemente sob apedrejamento. Certas áreas de lazer são sujas, incentivam a malandragem e fogem aos objetivos para os quais foram criadas. Contam-se por todos os dedos e mais alguns os aspectos desfigurados da outrora singela capital. Fizeram-se calçadões e estes vivem repletos de camelôs, criando-se o comércio paralelo. A praça Rio Branco, outrora recanto repousante e alegre, semelha nos dias que correm uma concentração de desocupados. A praça João Luís Ferreira, de elegantes bambuais nos velhos tempos, local de espairecimento de crianças nos jogos inocentes das bolinhas de gude, serve agora de mercado, onde se vendem frutas, brequefeste para os pobres diabos da previdência que não pregaram o olho, e outros tipos de alimentação de vítimas da quebradeira. Que dizer da pracinha querida, de namoricos dos bons tempos, alegre, convidativa, a Pedro II? Corresponde hoje a uma vasta concentração de mundanas, cachaceiros, qualiras, drogados, sapatões e indivíduos sem aptidão para o trabalho.

Fez-se a chamada PRAINHA para a diversão, os encontros amigos, o descanso sexta-feirinho, sabativo e dominical, o que ocorreu nos primeiros dias. Jaz como área de favela, e os bares típicos acolhem farristas e respectivas cachaçadas. Não há nela segurança e viceja o crime, sempre que se desentendem os deseducados para a vida.

Uma lástima o Parque da Cidade. Foi feito para o companheirismo, para a prática desportiva, para as refeições fora de casa, nos dias festivos da semana. Os desabusados depredaram-no.

Ao cabo de contas, nenhum respeito merece a cidade que José Antônio Saraiva idealizou e construiu com sacrifício e coragem. Os teresinenses, na sua maioria, insolentes e desrespeitadores, não têm sido fiéis à memória do saudoso e querido patrício.

*   *   *

Ninguém mais se lembra de Job Vial, de crônicas saborosas sobre esta Teresina deformada. Job Vial outro não se era Joel Oliveira, pesquisador, humorista, colecionador de estórias de gente e de bichos da cidade a que ele dedicava afeição permanente. Busquei-o agora nos meus arquivos e reli "Quintas e Quintais", numa das recordações de Joel - e nessa crônica está o teresinense preocupado com o cultivo das árvores frutíferas abundantes na capital piauiense - a cidade verde, hoje de matas derribadas e sem pés de frutas de colheita segura para as merendas fartas. Havia terrenos plantados por toda parte, e cada celeiro possuía denominação ligada a mulher do proprietário, como a célebre Lavinópolis, ou recebia nomes de cidades, a exemplo de Olinda, Petrópolis, ou nomes de terras distantes - Granada, Zurich, Catânia, ainda se lembravam santos, Tebaida, Betânia, - e por esta forma se conheciam dezenas de quintas e quintais de Teresina, de abundante produção de variadas frutas - goiaba, groselha, pitomba, carambola, banana, limão, figo, sapoti, laranja - e a laranja tinha variedade enorme e dava trabalho livrá-las dos pulgões, das brocas e de outros males. Quantos nomes de laranjas estão na lembrança da gente: a seleta, a bahia, o mimo-do-céu, pingo-de-ouro, natal, pêra, mel-rosa, da-china, tanja, lima, mandarim, cada uma melhor que a outra. Nos dias que correm ainda se encontram alguns tipos desses ricos alimentos cítricos. Já agora em 1987 sumiu-se o caju. Safra pequeníssima. O caju que nada custava a quem o comia, apanhando-o debaixo dos cajuais nas matas teresinenses, derribadas pelo machado das construtoras. O caju da castanha de que o índio se servia para contar a idade. Cada castanha, mais um ano de vida. Menina de castanha, sim, era menina prendada. Jogava-se castanha nas calçadas, sem lambança. O caju dava ainda a cajuada, a cajuína, o doce, o tira-gosto. O pequenino, o cajuí, tinha também seu emprego. Sumiu-se a manga, ou quase está a desaparecer: a de biquinho, a governadora, moscatel, a jambo, a vovó, a espada, a vista-alegre, a de leite - restam hoje a rosa, a lira, a de fiapo, a manguita-do-correio, por preços inacessíveis.

Joel Oliveira, o Job Vial das crônicas saborosas de antigamente, cultor do humorismo à inglesa, se vivo estivesse se decepcionaria com uma Teresina sem arvores frutíferas, a sua riqueza de antigamente - fartura das mesas pobres e da classe média, num tempo em que os pobres podiam viver e a classe média governava uma sociedade justa e decente.

 
A. Tito Filho, 18/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 4 de maio de 2012

DOENÇA E MORTE NO PODER

Doença e morte no poder

O primeiro governador se chamou João Pereira Caldas. Pertencia ao exército de Portugal e se encontra no Pará quando o rei o mandou governar o Piauí. Como o rei era José, depressa a Capitania teve o batismo de São José do Piauí, nos conformes de uma puxada de mestre.

Os caminhos para o Piauí tinham lonjuras sem conta. Longíssimos e ruins. Faziam-se os percursos imensos em dias e meses de viagem, em lombo de cavalo.

Em 15 de setembro de 1789, faleceu o governador nomeado Francisco d'Eça de Castro, de sezões, no lugar chamado Passagem de Santo Antônio, margem do rio Parnaíba, lado piauiense.

Em 1812, antes de haver tomado posse, faleceu o governador nomeado Amaro Joaquim Raposo de Albuquerque, na Fazenda Tapera, de viagem para Oeiras. As crônicas não rezam a natureza da doença do infeliz cidadão.

Elias José Ribeiro de Carvalho governou o Piauí mais de dois anos (1819-1821). Depois teve eleição como presidente de uma junta de Governo, mas recusou o mandato por virtudes de saúde precária.

Em razão de grave enfermidade, deixou o governo o governador João José Guimarães e Silva. Faleceu em Oeiras em 1831. Era mineiro de nascimento.

Antônio Francisco Pereira de Carvalho, pernambucano de nascimento, esteve governando de 5-12-1853 a 9-8-1855. Faleceu no governo.

Acometido de grave enfermidade, o presidente José Amaro Machado, que governou de 27-2-1872 a 16-3-1872, faleceu no governo.

Em dezembro de 1907, já doente de tuberculose, faleceu o governador Álvaro de Assis Osório Mendes, substituído no mesmo dia pelo vice Areolino Antônio de Abreu.

Areolino devia governar até julho de 1908, mas adoeceu e entrou em gozo de licença por seis meses. Passou o governo ao presidente do tribunal de justiça, desembargador José Lourenço de Morais e silva, em virtude de haver terminado o mandato do presidente da Assembléia Legislativa.

O governador Areolino governou até 31-3-1908. Tornou-se governador definitivo o digno desembargador José Lourenço, que não teve direito a pensão, pois a época não era de imoralidades. Não havia pensão para que o sujeito vivesse à custa do contribuinte, à tripa forra.

Outro que abotoou o paletó antes do término do mandato foi Anísio Auto de Abreu. Faleceu a 6-12-1909.

Petrônio Portela Nunes como candidato ao governo andou ruim de saúde durante a campanha eleitoral, em 1962. Recuperou-se e ganhou as eleições com consagradora maioria.

Não estou bem seguro. Parece que na última campanha, em 1990, para o governo, Wall Ferraz esteve em são Paulo buscando uma segunda safenação.

Chegaria a vez de Antônio de Almendra Freitas Neto. Empossado a 15 de março de 1991, exerceu vários atos de governo aparentemente sadio e disposto, até que se viu obrigado a procurar recursos médicos, do que resultou bem sucedida cirurgia, chefiada por esse homem sério de poucas palavras, cara fechada, que tive orgulho de ter como aluno - José Pergentino Lobão de Castro Lima.

Tudo deu certo. O governante tem muito que fazer. Que a imprensa lhe permita o trabalho necessário.

 
A. Tito Filho, 29/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 7 de abril de 2012

ADMINISTRAÇÃO DE TERESINA

A 26 de dezembro de 1889, Gregório Taumaturgo de Azevedo assume o cargo de governador do Piauí. No ano seguinte, 20 de janeiro de 1890, baixou ato, também assinado por Clóvis Bevilaqua, criando, em cada município, os conselhos de intendência municipal. Para o de Teresina foram nomeados os seguintes membros: João da Cruz e Santos, barão de Uruçuí (presidente), capitão Mariano Gil Castelo Branco, barão de Castelo Branco; Teodoro Alves Pacheco, Simplício Coelho de Resende, cônego Tomás de Morais Rego e capitão José Antônio de Santana, ao todo 06 conselheiros. O segundo presidente foi o barão de Castelo Branco.

O Conselho adotou iniciativa de alterar denominações de vias públicas e de administrar os cemitérios, retirando-se da Santa Casa de misericórdia. Também houve substituição de conselheiros.

Dia de 4 de junho de 1890, Gregório Taumaturgo de Azevedo deixou o cargo de governador. A 27 de dezembro do mesmo ano, depois de outros governantes, assume a chefia do Executivo Álvaro Moreira de Barros Oliveira Lima, que decretou uma constituição para o Piauí, ad referendum do congresso constituinte, que se reuniria no ano seguinte, mês de março. Nessa Carta, de 12 de janeiro de 1891, foram criados os conselhos municipais e os cargos de intendente e vice-intendente em todos os municípios.

A constituição votada pelos deputados e promulgada a 13 de junho de 1892 manteve os dispositivos acima referidos, de modo que Teresina deveria escolher os seus dirigentes e os seus legisladores.

Mas antes que se verificassem eleições e a posse dos eleitos, o Conselho de Intendência tomou interessante deliberação, determinando que os habitantes da cidade estavam obrigados, nos dias de sábado, a varrer a frente de suas casas, até o meio da rua.

Registrem-se mais os seguintes acontecimentos: instalação do 35º Batalhão de Infantaria (Exército), o batalhão querido da cidade, que lutou no sul de 1893 a 1896 e em Canudos (BA), onde, de 498 soldados teve 338 mortos. Em janeiro de 1900 esse admirável corpo de heróis foi transferido para são Luís. No ano de 1891, o Piauí criou a sua primeira loteria (a atual apareceu no governo Chagas Rodrigues) e instalou o Tribunal de Justiça, composto de 05 membros.

A iniciativa particular foi de pouco monta em 1890: criação do Clube dos Artistas (já desaparecido) e do Instituto de Karnak, estabelecimento de ensino secundário, com internato e externato. Fundador: Gabriel Luís Ferreira. Esse órgão educacional já desapareceu.

O primeiro pleito para escolha do intendente, do vice e dos conselheiros municipais realizou-se a 31 de outubro de 1892. Foram eleitos, com o número de votos entre os parênteses: intendente, Manuel Raimundo da Paz (472), vice, Honório Parentes (473). Conselheiros: militar e proprietário Raimundo Antônio de Farias (472), farmacêutico Alfredo Gentil de Albuquerque Rosa (475), os militares e comerciantes Joaquim José da Cunha (475), Raimundo Elias de Sousa (475), Leôncio Pereira de Araújo (475), Jardelino Francisco Barbosa d'Amorim (475), Viriato Rios do Carmo (369), Francisco da Silva Rabelo (369) e Manuel Lopes Correia Lima (369), poeta e jornalista. Ao todo, 9 conselheiros.


A. Tito Filho, 15/08/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O GOVERNO E O LIVRO

O Plano Editorial chegou ao fim no momento em que determinou o primeiro governo Alberto Silva; incentivando as letras e o conhecimento da história do Piauí com umas quarenta obras publicadas. A administração seguinte ignorou o salutar projeto. O governador Dirceu Arcoverde teve início já em inimizade com o anterior e a praxe sempre foi de o sucesso ignorar as virtudes do sucedido. O chefe do Executivo fixou esforços noutras áreas, publicando-se poucos livros. Lembro-me das edições da história da independência no Piauí, do padre Joaquim Chaves, de um livro de poesias de Isabel Vilhena e de um de filosofia de Antônio Veríssimo de Castro. Se houve outros, a memória não me acode.

Lucídio Portella, governador seguinte, concedeu valioso apoio ao livro piauiense e para tanto contou com os bons serviços de Paulo Henrique de Araújo na direção da Companhia Editora do Piauí.

Chegaria a vez de Hugo Napoleão, com arrojado Projeto Petrônio Portella, que se equiparou ao Plano editorial de Alberto Silva. O governante contou com a inteligência e o esforço de equipe trabalhadora e decidida. Obras de criteriosa escolha foram entregues ao público. Prestei os humildes e gratuitos serviços que me atribuíram, inclusive organizando a reedição comentada do romance UM MANICACA, de Abdias Neves.

A partir de Leônidas Melo, com algumas exceções, por causa de prementes dificuldades financeiras, os governos cumpriram, uns mais, outros menos, o dever para com as letras. Muito se tem publicado sobre história, crítica, poesia, estudos sociais, geografia, ficção. Alguns livros piauienses se estenderam a outros Estados.

O Piauí viveu em grande atraso anos a fio. No tempo da independência ao menos escola pública havia. Criaram-se educandários que nunca funcionavam.

Afastado dos meios comunicativos com o Brasil e o mundo, podia-se dizer que o Piauí representava um vazio, um território imenso sem habitantes, e o pânico, pelo medo que os poucos que o habitavam tinham da indiada, das forças da natureza e dos bichos da selva. O Piauí atravessou as fases literárias do Brasil sem que delas participasse. Os primeiros poetas, o herói da independência Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco e Ovídio Saraiva, que chegou a escrever a primeira letra do Hino Nacional, são simples imitadores de clássicos portugueses. Tardio o romantismo piauiense. Quase ninguém no realismo senão os poetas parnasianos e o naturalista Abdias Neves, retratista da pecadora Teresina do fim do século XIX. A Teresina de boatos, de intrigas, de bacharelismo, do anticlericalismo da rapaziada vinda do Recife. Não se pode esquecer Da Costa e Silva, que tanto tocou o coração piauiense. O admirável Martins Napoleão, em depoimento a Herculano Moraes, se disse um neoclássico. O modernismo chegou tarde. Os novos fizeram muita cousa, e ainda aguardam que o Piauí apercebido das suas responsabilidades, enfrente as dificuldades que são grandes, na falta de mercado ledor, por razões de pobreza, a triste postura dos que podem ler e não lêem, mas exoneram o livro das suas preocupações.

Infelizmente no segundo governo Alberto Silva o Projeto Petrônio Portella praticamente foi extinto, em virtude das deficiências financeiras do Estado.


A. Tito Filho, 25/01/1991, Jornal O Dia

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O LIVRO NO FUTURO GOVERNO

No tempo do Piauí-Província, quando faleceu José Coriolano, os amigos do poeta quiseram homenagear-lhe a memória, publicando as suas poesias românticas, cujo conjunto recebeu o nome de IMPRESSÕES E GEMIDOS. Não sei se o governo participou das despesas. No Piauí-República, o governador Anísio de Abreu faz a edição da CRONOLOGIA HISTÓRICA DO ESTADO DO PIAUÍ. Leônidas Melo mandou publicar, na Imprensa Oficial, obras de João Pinheiro, Higino Cunha, Celso Pinheiro, Moura Rego, Martins Napoleão e de outros intelectuais piauienses de renome, numa das mais brilhantes fases da vida literária da terra. Adiante, Pedro Freitas mandou que as oficinas do Estado editassem o interessante trabalho que o engenheiro Sampaio escreveu sobre as nossas possibilidades econômicas. Outro governante, Helvídio Nunes, patrocinou a publicação de algumas obras aplaudidas.

Chegaria o primeiro tempo de Alberto Silva, época em que o setor da comunicação se confiou a um sujeito de valor, apaixonado pelas cousas do Piauí, chamado Armando Basto, que idealizou o PLANO EDITORIAL, convocando-se uma plêiade de prosadores, poetas e jornalistas para executá-lo. Vetou-se a minha inclusão nesse grupo de pessoas ilustres. Era o ano de 1972. Um dia recebi chamado de Armando, que autorizava nova edição de LIRA SERTANEJA, e o trabalho, feito na companhia Editora do Piauí, saíra com imperfeições, por engano do organizador da obra de Hermínio Castelo Branco. Inutilizaram-se os mil exemplares confeccionados. Recebi a tarefa de preparar edição segura, e o fiz, confiada a Deoclécio Dantas; que superintendeu a valiosa publicação, à qual juntei humildes ensinamentos sobre o vocabulário sertanejo empregado pelo autor.

Armando Bastos me determinou que preparasse outras obras. Aceitei a incumbência com a condição de me ocupar somente de autores mortos, ou de trabalhos sérios a respeito de assuntos históricos e sociais da terra piauiense.

Entreguei os originais a Deoclécio, que dirigia, com raro devotamento, a Companhia Editora do Piauí, e os livros foram publicados, com primorosa revisão, reunindo as concepções de autores notáveis como José Coriolano (reedição), Esmaragdo de Freitas, Zito Batista, José de Lima Pires Rebelo.

Armando pretendeu que mais livros se fizessem, e assim se confiaram novas edições a empresa editora do Rio de Janeiro, de cujas oficinas saiu outra vez a famosa CRONOLOGIA HISTÓRICA DO ESTADO DO PIAUÍ, de Francisco Augusto Pereira da Costa. Orientamos, Armando Basto, Deoclécio Dantas e eu, a publicação de umas quarenta obras, admirável esforço para divulgar os autores piauienses, entre os quais Odilon Nunes, nas PESQUISAS PARA A HISTÓRIA DO PIAUÍ.

Interessante ressaltar que as obras dessa fase administrativa do Piauí confiaram-se ao público e às instituições GRATUITAMENTE, dentro como fora do Estado.

Torna-se necessário que se acabe no Piauí com a triste e viciosa praxe de o governo pagar a edição e o autor vender os exemplares da obra publicada ao próprio governo.

O assunto merece mais considerações. O nosso intuito está em oferecer ao futuro governador subsídios que sirvam a administração para incentivar corretamente a cultura no Estado.


A. Tito Filho, 24/01/1991, Jornal O Dia