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segunda-feira, 21 de maio de 2012

FOLIA PERNICIOSA

Iniciada quinta ou sexta-feira, a folia carnavalesca continuava agitada na manhã de 4ª feira de cinzas, sobretudo em Olinda, Recife, Salvador, Rio de Janeiro. A nação inteira esteve paralisada dias seguidos, com atividades suspensas. No sábado, dia 9 de fevereiro Dom Eugenio de Araujo Sales escreveu em jornal carioca: "A cidade gasta somas consideráveis em sua decoração, pobres economizam dos seus poucos salários, durante todo o ano, para consumi-los em efêmeras extravasões de uma fugaz alegria. Quantias extraordinárias vêm de fontes duvidosas; o luxo e o desperdício chocam-se com a miséria reinante".

Participei de alegres festas carnavalescas, quarenta, cinqüenta anos passados, nas décadas de quarenta, cinqüenta. Era uma festa popular de raros excessos. Muito se brincava, sem erotismo, sem mulheres peladas, sem magotes de veados na exibição dos peitos e nádegas artificiais. Uma folia contagiante, fraterna, iniciada por volta das cinco da tarde e encerrada pelas quatro da manhã do dia seguinte.

A chamada LIBERTAÇÃO da mulher transformou a vida social. Completou-se a circunstância, no Brasil, com a TELEVISÃO e o seu criminoso PROCESSO EDUCATIVO das novelas destinadas à corrupção da família.

Poderosos interesses de uns trinta anos para cá orientam e dirigem os carnavais brasileiros, subornando indivíduos e instituições. Neles se locupletam indústrias e comércio e para tanto a publicidade faz deles exibição permanente de despudoramento e luxúria. Nos bailes em clubes fechados se passam cenas de Sodoma e Gomorra, orgias e bacanais que só uma sociedade doente admite e suporta, e um governo cúmplice as permite e garante. Dissipam-se milhões, bilhões nessas nefastas falsas brincadeiras carnavalescas.

Fraquíssimo o carnaval de Teresina neste 1991. Antigamente não havia entre nós escola de samba e o respectivo desfile. Havia blocos populares, engraçados, que acompanhavam o corso de automóveis. Com o surgimento do carnaval comercializado do Rio de Janeiro, e o aparecimento das suas luxuosas escolas, os foliões de nosso meio quiseram criá-las e também apresentá-las em grotesco e desengonçados desfiles pela avenida Frei Serafim. Logo se buscou o recurso do erário público. Seria o caos sob proteção da Prefeitura e do Estado. Mas desta vez os cofres estaduais emborcados e a negativa salutar o prefeito Heráclito não permitiram os dinheiros para o pagode. Ainda bem.

Vi cenas televisadas de bailes em clubes do Rio de Janeiro. Um deboche. Mulheres quase despidas. Uma tristeza o baile dos GEUIS, Só as mães irresponsáveis permitem a exibição de jovens sexualmente pervertidos num espetáculo em que os próprios locutores da televisão debocham das pobres vitimas, moças de vida sem esperança, a *ço de uma sexualidade anormal e angustiada. As fantasias desses jovens, riquíssimas, reclamam milhões de material e mão-de-obra. As cenas de debocharia eram provocadas por doutora no assunto, a famosa Rogéria, que machucava os ouvidos dos rapazes a cada vez que soltava piadas de mau gosto, ao defini-los.

Quanto o Brasil gastou neste carnaval? Ninguém sabe. Não se pode avaliar o que se perde em valores morais e espirituais. Em deseducação do povo, que assiste, de boca aberta, a tolices referidas nas letras das músicas e ofensas sem contar com a convivência da boa linguagem. A pornografia, corrompe e avilta, representa a principal característica do carnaval do nosso tempo, ao lado da violência à própria dignidade do ser humano.

Quanto o Brasil gasta com hospitais, médicos e medicamentos? Não se sabe. No Rio, terça-feira, os meios de comunicação anunciavam o registro de * assassinatos nos três primeiros dias da festa que o dinheiro transformou em maneira de desregramento moral.

Convocou-me a atenção, nos bailes transmitidos pela TV-Bandeirantes, a circunstância da insistência da câmera em focalizar mulheres de traseiros à mostra, num processo rebolativo monótono. Um rebolo permanente, enjoativo, fazendo crer que a mulher só possui esse degenerado modo de atrair publicidade e admiração. Os homens aguardavam os momentos da depravação sem freios, na madrugada sem-vergonha.


A. Tito Filho, 15/02/1991, Jornal O Dia - p. 4

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* Não está visível no original

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TERESINA ANTIGA

Nos festejos de São João acendiam-se inúmeras fogueiras e se enfeitavam as ruas de patis. Defronte do palácio do governo exibia-se o boi do Manoel Foguista. A cidade tinha mais casas de palha do que de telhas. Quase não havia muros nos terrenos, cercados de talos de buriti. Fabricavam-se cigarros de duas marcas: CONDOR e REI DE PAUS. Principais operários da fabricação: Antônio Cazé, Leônidas Carvalho e Domingos Ferreira. Fazedor de imagens de santos, Vitor. As quadrilhas nos bails eram marcadas pelo funileiro Gervásio, de fraque. Fabricante de violão, Lourenço Queirós. BANDAS DE MÚSICA: a dos Almeidas, a do Azevedo. A de pau de corda, composta de violão, flauta, e pandeiro, entre outros instrumentos, propriedade de Pedro Tonga. A professora de música Ana Bugyja Britto mantinha orquestra para tocar nas novenas e aniversários. As bandas da Polícia e do Exército exibiam-se nas retretas da praça Rio Branco, dividida em duas áreas, a da alta-roda, ou gente de PRIMEIRA, e  a de segunda classe: ÁGUA. Denominavam-se cargueiros os animais carregadores de água do rio para as residências, vendida de porta em porta. Pessoas ilustres apanhavam o precioso líquido no seus próprios animais. CAVALOS. O cidadão Boeiro, morador no Barracão, fundou uma escola para que os cavalos aprendessem a marchar, esquipar, trotar. Dia de domingo realizava-se corrida desses quadrúpedes do centro da cidade até a Catarina. Esporte dos ricos. Boeiro vendia fumo de corda. Homem de posses. Emprestava dinheiro até ao Estado em dificuldades. ARROZ. A primeira máquina de beneficiar arroz pertenceu ao cidadão Manoel da ria São José, hoje Félix Pacheco. Ainda trabalho se dava às pisadeiras, no pilão, iniciavam a tarefa pelas três da madrugada no bairro Vermelha. CABARÉS. Animados. Danças até de madrugada. Cada rapariga tinha sua alcova, com cama, rede, penteadeira. Serviço de bar. Mulheres sempre novas. Havia intercâmbio de protistutas de São Luís, Fortaleza e Teresina. Principais lupanares: Rosa Branca, Raimundinha Leite, Greusa, na década de trinta e quarenta. Famoso também o cabaré da Calu na Piçarra. No carnaval as meninas alugavam caminhão e participavam do corso pelas ruas da cidade. As mais aplaudidas pelos machacás. CINEMAS. Quando me entendi, eram 3 as casas exibidoras: Royal, para molecada, bancos de madeira, sem encosto, o "Olímpia", na praça Rio Branco, da elite. Muita elegância nas sessões dominicais. A princípio, fitas mudas acompanhadas de música por artistas da terra, e o Theatro 4 de Setembro, que inaugurou o cinema falado em Teresina, a partir de 1933. Depois surgiram o "Rex", o "São Raimundo", o "São Luís", o "Royal", segundo deste nome. Muito namoro em todos eles. Namoro forte. O Teatro e o "Olímpia" ofereciam, sábado e segunda-feira, respectivamente, entrada gratuitas as meninas da Escola Normal. Os gajos pagavam. Na escuridade das salas de projeção, nesses dias saudosos, vigorava a bolinação. Uma pouca vergonha, rapazes agarrados nos seios das garotas. Uma graça Teresina. Boa de viver. Inesquecível para os que a conheceram nas suas graças e atrativos.

 
A. Tito Filho, 14-15/04/1991, Jornal O Dia - p. 4

SEM JEITO

O "Jornal do Brasil", edição de 13 de março de 1991, publica os nomes dos parentes dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado do Rio recentemente nomeados, com vencimentos de mais de um milhão de cruzeiros mensais. Vejamos. Reinaldo Santana nomeou a mulher, a filha e um irmão. Humberto Braga, a mulher, a filha, o sobrinho e a irmã. Erasmo Martins Pedro, a mulher, três filhos e a nora. Heitor Schiler, a mulher e a filha. Pascoal citadino, a mulher e dois filhos. Paulo ribeiro, o filho. O único conselheiro sem parentela se chama José Luís de Magalhães Lins, herói dos novos tempos.

O nepotismo dos tribunais tornou-se uma amoralidade nacional. Vigora nos tribunais de justiça, de contas, do trabalho, em todo o território nacional, e também entupidos de parentes e aderentes se encontram os gabinetes dos parlamentares e polpudos empregos do Poder Executivo igualmente distribuídos por esposas, rebentos, sogras, cunhados, constituindo famílias privilegiadas que carreiam quatro ou cinco ou mais milhões para os seus gastos mensais, enquanto milhões de brasileiros vegetam, suando de sol a sol, na percepção de raquíticos pagamentos.

E mal se extinguem as decepções provocadas por mais uma esperteza de gente grande, os órgãos de comunicação anunciam as fraudes da previdência social, que enriqueceram os felizes beneficiados de bilhões de cruzeiros. A nação já não mais estremece de admiração e espanto. Não. As novas trapaças republicanas constituem rotina. Tornaram-se monótonas.

Quais [as] razões dessa permanente busca de dinheiros fáceis? Mal hereditário ou conseqüência das convocações sociais, num mundo de luxo e de folia? Alguns atribuem o processo nacional de roubalheira aos elementos formadores do chamado povo brasileiro, isto é, o português, o negro e o índio. Não cabe dúvida de que o elemento luso que se enviou para o Brasil se representava por tipos marginais da sociedade dalém-mar. E não se ignora que o índio preguiçoso obrigou os donos da terra a buscar o elemento africano para o trabalho da lavoura – e os três cruzaram e dos cruzamentos saíram mulatos, caboclos, mamelucos. Desacreditamos que a origem da desfaçatez nacional esteja nesses tipos, mas na deterioração do caráter do brasileiro por razões da nociva publicidade dos órgãos comunicativos.

– X –

A influência norte-americana na vida brasileira começou na década de 30, intensificando-se cada vez mais. O brasileiro vivia para o trabalho e para o lar. Tinha o lazer no cinema dominical, nas praias, nos passeios, nas festas familiares. Sociedades de agricultores, comerciantes, industriais, funcionários públicos. A mulher ocupava-se dos afazeres domésticos.

Os Estados Unidos tomaram conta do Brasil. Logo se criam os hábitos dos salgadinhos, das roupas feitas, comemorações fantasiosas do dia das mães, dos pais, do Natal. Instituíram-se as festas de natalícios, de debutação, de boda de prata e ouro. O turismo se tornou coqueluche generalizada, em que a classe média arrebenta os orçamentos nas viagens de recreio. Pregou-se no país a filosofia da compra, do carro particular, do uísque para proteger as coronárias do luxo, o prazer a qualquer preço. Viriam a buate e o motel e os feriadões. Banalizou-se a mulher. Desprestigiou-se o trabalho como valor social e espiritual.

Surgiu uma nova força, o empresariado, que sustenta o desperdício e a futilidade do soçaite. Casamentos milionários. Festas e recepções em que se dissipam fortunas. As mulheres de alta roda gastam num vestido o que o operário não consegue ganhar no emprego durante um ano.

Como sustentar essa grande patuscada da nação e dos estados-membros, como o Piauí, o Ceará, a Bahia? Fácil. Roubando-se a riqueza de todos para o sustento da ganância e da fome de dinheiro, a fim de que se cubram os gastos de marajás e de suas respectivas esposas, as maranis.

A sociedade tem os criminosos que merecem. Pior ficará, se a irresponsabilidade de poucos prosseguir na deterioração do caráter nacional.

 
A. Tito Filho, 12/04/1991, Jornal O Dia - p. 4

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MEUS BONS CABARÉS

Um dia o jornalista Pompílio Santos me pediu depoimento sobre a rua Paissandú, onde se situava a Rosa Branco e em cujas adjacências outros bons lupanares ofereciam quengas bem roliças. Eu disse ao indagador que não havia guardado muitas lembranças da ZONA do meretrício de Teresina. Quando meninote, já taludo, cheguei a Teresina, 1932. Nos primeiros tempos não me era possível freqüentar os cabarés citadinos. Mas quando atingi os 15 ou 16 janeiros, iniciei as visitações. Sem dinheiro e tomado das inibições invitáveis, limitava-me a olhar o ambiente profano, e de vez em quando, recebia um pito de gente madura e das relações paternas: "Prá casa, menino, tu ainda faz xixi na rede, vou contar a teu pai que tu tá freqüentando esta putaria".

À beira do Parnaíba mariposas exploravam marinheiros de gaiolas, de lanchas e de balsas. Beira de rio fabrica prostitutas. A prostituição da bisavó na avó, na filha, na neta, na bisneta, da forma que Assis Brasil contou.

Existiriam três famosos cabarés na zona da rua Paissandu. O de Raimundo Leite, cuja esquina e alguns quartos davam para a Paissandu. Era uma cafetina bem morena, de amigação com um gigolô que não queria dinheiro, só amor de graça. O da Gerusa, na rua São José, hoje Félix Pacheco, cabeça escura, arretada por um amigo-meu, o saudoso Salemérico Passos de Carvalho, que, por causa da ciumeira da negra, nela aplicava de quando em quando umas sonoras taponas. E o da rosa Banco, mulatona endinheirada, que ficava na rua Paissandu. As três pensões, como eram chamados esses saudosos cabarés do meu tempo, mantinham danças animadas e muito se dançava com as fogosas quengas, garotas de excessiva senvergonhice. Havia movimentado serviço de bebidas nos salões cobertos e ao ar livre.

As raparigas, no mau sentido, recebiam os fregueses em quartos bem arrumados, de penteadeira, cama e rede. Depois das libidinagens, se o sujeito não queria dormir na tipóia de varandas, dava-se o pagamento. Os quebrados enrolavam as meninas e conseguiam passar CHUMBO, mas as enganadas gritavam e xingavam o chumbista a bom xingar e o acusavam de práticas sexuais condenadas naqueles tempos ainda de anormalidade. As pegas residiam no próprio cabaré. Pagavam diária à cafetina.

No carnaval as raparigas se fantasiavam ricamente para o corso de veículos. Fretavam caminhões, os mais aplaudidos.

Ainda na década de 40 e 50 esses cabarés ofereciam o melhor espetáculo noturno de Teresina. Neles se misturavam estudantes, motoristas, professores, magistrados, comerciantes, pobres, ricos, em busca de sexo.

Na Piçarra, dava os trunfos a Calu. Negra boa. Facilitava as cousas.

Eu gostava dessas casas noturnas de garotas apetitosas vindas do Ceará, do Maranhão, do interior do Piauí. De manhã elas dormiam. De tarde recebiam quase sempre os machos de sua amigação. De noite, faziam o comércio carnaval. Mulheres que viviam o drama humano e social de viver na profissão de que a Bíblia dá conta. Os homens tinham pavor de doenças venéreas.

No cabaré a gente dançava e bebia antes do pecado maior.

Madrugada já, o saxofonista vomitava a dolência da música falando de amor. Ebrios cambaleavam. As garotas mais felizes, depois dos arrulhos, ainda arrumavam pagante da ceia nos freges das redondezas. Com os primeiros traços da claridade do dia, chegava o cansaço da noite, do álcool e dos movimentos na cama do quarto mal iluminado.

Com os amigos, eu ia quase diariamente a esses gostosos antros de prostituição. Nesse tempo as raparigas recebiam a denominação de GATOS. Quando chegavam novas levas de mulheres de São Luís e de Fortaleza, dizia-se que novos GATOS convidativos faziam as noites festivas da Raimundinha, da Rosa e da Gerusa.

Era bom. Sem AIDS. Sem violência. Sem lei da faca e do revólver. Nunca me esqueci dos cabarés da rua Paissandu, os animados cabarés, hoje derribados por força dos novos tempos de MOTÉIS e do capim das praças abandonadas de Teresina.

Era bom. Ah, os meus velhos cabarés, testemunhas de uma época feliz e de muito gozar.


A. Tito Filho, 03/03/1991, Jornal O Dia, p. 4

quarta-feira, 9 de maio de 2012

VIÚVA POBRE TAMBÉM É GENTE

Sofrimento de viúva pobre é grande. Marido em casa serve, quando nada faça, ao menos para roncar. Presença de homem tem valor na choupana e no palácio. Dá importância. Se a mulher perde o companheiro, inicia uma existência de atribuições. Ninguém lhe concede prestígio e atenção, excetuada a rica, ou a esbelta, jovem ainda, e esta, por outro lado, padece os cochichos maledicentes e torna-se vítima de grosseiros preconceitos.

De qualquer forma as viúvas desfiam rosário de muitas angústias, sobretudo as pobres, às quais o defunto só tenha legado talvez uma porção de dívidas na quitanda.

Certa vez prestei às viúvas pobres do Piauí grande serviço. Defendi-as com unhas e dentes pelos jornais e consegui que a exigência indevida da lei fosse revogada.

O caso se passou assim.

O governo, num gesto humano, beneficiou as mulheres que haviam perdido ou que viessem a perder os maridos, caso estes, obviamente, exercessem empregos públicos. Antes, a lei de organização judiciária distribuíra pensão às viúvas dos magistrados.

Mas a que concedeu pensão às viúvas dos barnabés trouxe malsinado parágrafo - aquele que reclamava da mulher do supradito barnabé, em estado de viuvez, para que obtivesse o benefício, prova de honestidade. E neste ponto o fato espantava: para que esse testemunho de vida honesta? A quem competia a assinatura do atestado? Ao delegado de polícia. E a autoridade policial teria a evidência da honestidade da viúva, para atestar-lhe tal posição, ou lhe negaria o atestado, como reconhecimento da sua desonestidade? Pareceu-me que esse atestado era ou deveria ser sempre gracioso, salvo se o xerife já houvesse saboreado a viúva e atestasse a desonestidade de conhecimento próprio e assim a referida autoridade colocaria mal.

Demais de tudo, para ajudar a viuvez nos seus encargos do lar e do sustento dos filhos, que tem o Estado com a honestidade das mulheres? Sendo desonesta a viúva, faleceu-lhe a responsabilidade da família?

A viúva tem plena maturidade perante a lei, e a lei não poderia obrigá-la. O marido jaz enterrado e só a ele competiria medidas contra a cara-metade prevaricadora. Que tem o Estado com os prováveis ou certos amores das viúvas? Serão ilícitos esses amores? Nunca dos nuncas, desde que praticados de livre e espontânea vontade por parte dos parceiros de cama e rede, areia de praia ou grama de praça.

A lei protege a menor de 14 anos e considera estupro as relações sexuais com ela mantidas. A lei protege a mulher virgem, de cabaço íntegro, até certa idade, desde que recatada e vítima de sedução. A lei impõe penalidade aos que conseguem amor carnal mediante fraude, ameaça ou violência - e o crime existirá desde que a fraude, a ameaça ou a violência se pratique até contra meretrizes. A lei pune a raparigagem, o lenocínio, a exploração de lupanar. Mas lei alguma proíbe ou considera crime relações de quem pode mantê-las, sem ofensas ao poder público.

Que tem o Estado a ver com a liberdade sexual das viúvas? O Estado não deve submeter-se a preconceitos, porque o preconceito nasce da ignorância ou do interesse escuso, e o Estado pode e não deve guiar-se pela ignorância ou escuso interesse. Integralmente liberta da fidelidade matrimonio com a morte do marido, que tem o Estado com a honestidade ou desonestidade da viúva?

Saliente-se a humilhação imposta às viúvas obrigadas ao petitório de atestados a autoridades policiais, que não têm como testemunhar senão de modo falso, uma vez que não lhes compete o conhecimento dos íntimos episódios em que se envolvem as pessoas, muitas das quais desconhecidas. Por essa forma, os testemunhos dessa honestidade ou desonestidade das viúvas jamais poderiam refletir a verdade. Só em casos excepcionais.

Interessante: para a viúva dos magistrados do Piauí a lei não exigiu atestado algum. Exigiu somente que a beneficiária fosse viúva do falecido. Por que a distinção? Viúva de magistrado tem, perante o Estado, a presunção de honestidade? A dos outros servidores cairia em dúvida?

Viúva nunca poderia praticar desonestidade sexual, salvo se contra a própria consciência, enganado o amante, se fosse o caso.

Com estes argumentos consegui revogar a exigência de honestidade para as viúvas dos servidores públicos do Piauí. Viúva de barnabé também é gente - gritei. E o parágrafo foi postado fora.


A. Tito Filho, 30/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 27 de abril de 2012

PRIVILÉGIOS

Sinceramente, a mulher gozava de muitas regalias e perdeu-as com a história do feminismo. É verdade que não tinha a liberdade de andar batendo coxas pelas ruas. As casadas saíam com os maridos, as outras podiam ir à escola, à missa. Em compensação, de vez em quando havia matinê de danças e bailezinhos bons de namorar de noite. Quando o namoro estava pegado, podiam ir com o futuro noivo ao cinema. Hoje pode a mulher fazer tudo o que pensa, salvo se não tem dinheiro. Anda como quer e com quem quer, de dia e ou de madrugada.

Mulher de classe média ou de alta-roda não trabalhava em casa. Estava sempre servida de cozinheira, copeira, lavadeira. Mulher de operário, sim, realizava as tarefas caseiras.

A mulher, de modo geral, gozava de cobiçados privilégios. Todas as mazelas da vida se verificavam com os machacás: desde a cobrança de contas do quitandeiro aos desaforos de marido alheio por causa das picuinhas das esposas vizinhas.

Mulher nunca tinha nome: solteiras ou casadas, eram conhecidas pelo nome do legitimo esposo. Quando amancebada, pela denominação do amante respectivo. Era até bonito ser rapariga de cabo da polícia, chofer de caminhão ou gigolô.

Recebiam as filhas-de-eva tratamento excepcional e de fina educação por toda parte. Nas estradas lamacentas, se o caminhão atolava, os adões logo estavam convocados para o empurramento. Elas, nunca, que em tempo algum botaram força, só no ato da parição, antigamente. Nos ônibus lotados, fêmea não ficava de pé. Aparecia o tipo fino, elegante, se levantava e oferecia-lhe o lugar por ele ocupado. Mas agora ninguém lhe cede o assento, até as buchudas ficam se rebolando dentro dos coletivos. De primeiro, se o lenço do rabo-de-saia caia na calçada, o homem corria, apanhava-o e devolvia-o, às vezes sujo de catarro. O individuo namorado, noivo, casado, se via à frente buraco na rua, protegia a companheira, segurando-a pelo braço e advertindo-o do perigo. Agora o pessoal empurra a dona para o precipício. Também os gajos abriam o guarda-chuva, ficavam debaixo d'água, mas cobriam a mulher ao lado, com todo o respeito e aptidão. Hoje elas que se danem.

Quantos privilégios. Regalias sem conta. As mulheres deviam lutar por um retorno aos tempos antigos, às suas origens caseiras. E estou achando que as inteligentes cronistas sociais de Teresina, mulheres antes de tudo, iniciaram, veladamente, a marcha para a volta à submissão do sexo frágil ao homem, a ressurreição do machismo. Pois não é que as nossas cronistas escrevem todo dia o nome do pessoal festeiro, citando o sujeito, seguido de SUA fulana, como se esta fosse dele propriedade? Observem os registros. Compareceram na recepção: o Dr. Pancrário e sua Bigorna, o Dr. Creolino e sua Lascívia, o Dr. Matapasto e sua Estrepolia.

Um bom começo. A mulher nas nossas registradoras de notícias elegantes têm dono. E isto é bom, porque nós sempre as possuímos ao longo da vida, no bom sentido.


A. Tito Filho, 13/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

MÃES

Quem inventou um dia dedicado às mães, e a invenção coube a cidadã norte-americana, certamente se animou de boas intenções. Pretendeu que se homenageasse a mulher-bondade, a educadora do lar, embora as mães desde muito tempo se tenham esquecido dos seus deveres. São poucas as que hoje cumprem o papel sublime que a sociedade lhes confiou. De modo geral as mães abandonaram o lar, e assim, quando têm posses, os filhotes caem nos beliscões das babás descarinhosas. Para as pobres, existem creches, onde passam horas, sem contar os orfãozinhos de afeto. Quando mais taludos, garotos e garotas passam ao processo deseducativo das ruas e nestas adquirem todos os vícios e a convivência dos mais perniciosos companheiros. Nos dias atuais a televisão faz o resto.

A mãe, com o desenvolvimento industrial e a fabricação de produtos em massa, pouco a pouco passou a objeto de propaganda. Os negociantes anunciam os mais requintados presentes para aquelas que conceberam o milagre da vida. Ninguém se preocupa com as dádivas maravilhosas do amor, da amizade e do respeito. Haja dinheiro. Existe um sentimento de mágoa, de abatimento, de vergonha nos que não possuem o vil metal ou o reles papelucho inflacionado para comprar o presente pelo dobro na loja enfeitada de colorido estoque. Os ricos facilmente adquirem os mimos caros, as cousas da moda, as novidades do dia que se anunciam aos quatro cantos da cidade de pouquíssimos esgotos. Os pobres suam na entrada e nas prestações a juros de banqueiro. Quem não se ajeita no fiado, paga no meter das buchas. Uns e outros talvez não saibam que por conta dos fregueses corre o elevadíssimo preço da publicidade. Passada a data solene, o preço dos objetos cai pela metade.

Tornou-se o dia das mães um dia de angústia, de aperreio, de aflições, de ânsias para a classe média e o operariado, ambos assalariados e maltrapilhos, pois difícil de encontrar dinheiro, que é escasso e raro e chorado e vasqueiro nos bolsos dos machacás e bolsinhas das mulheres da plebe ignara e vociferante. Obtidos os miseráveis cruzados, a segunda parte da tormenta está em conseguir a harmonia das pelegas com o custo do objeto que o coitado (a) consegue comprar, depois de mudanças desgastantes, espiando, indagando, pechinchando debaixo da barulheira infernal dos alto-falantes e dos pregões de caixeiros esqueléticos à porta das lojas ou camelos de enjoativa palração.

O dia das mães parece instrumento de suplício. E já se aproxima o dia dos namorados, que facilmente encontram oportunos e baratos presentes, as CAMISINHAS, de não muito segura atuação, mas quebram o galho.

Olhei os jornais teresinenses do dia das mães. Páginas inteiras de fotografias das mais ilustres, finas e ricas senhoras do socaite da terra. Uma festa de mulheres bonitas e elegantes. Reconheci algumas delas, dignas de minha admiração.

A mim mesmo fiz a pergunta. Por que também não se homenageiam as mães mortas e as mães vivas pobres? As roubadas pela morte cumpriram a obrigação e deixaram saudade, as pobrezinhas de Cristo são heroínas, criam os filhos sabe Deus como. Mortas e pobres merecem a cara nos jornais. Por que só as ricas? E a minha santa que se foi ainda nova? E minha comadre CEIÇA, que ainda está de pé, depois de realizar o milagre da vida em quinze novos rebentos, vadiando muito com o Bitonho no jirau do casebre?


A. Tito Filho, 12/05/1991, Jornal O Dia – p. 4

ESCOLAS

Quando me entendi em Teresina as mães viviam em casa, amamentando os pequerruchos, ou no preparo de mamadeiras ou dando fraldas, bem assim educando os meninos até que, aos sete anos, ingressavam na escola primária, ou no grupo escolar. A garotada começava o estudo de manhãzinha e nele permanecia até as onze horas, no bom recitativo da tabuada e na soletração de palavras. Os estabelecimentos pertenciam ao governo. Exigência apenas da fardinha caprichada, sapato ou botina e meia. Certamente que por baixo havia a calcinha das meninas, que os machos andavam descuecados. Havia escolas particulares, de professores e professoras, de irrisório pagamento.

Ainda no começo da década de 30, segundo me contam, existiam na capital piauiense dois educandários oficiais de ensino secundário, o Liceu e a Escola Normal. Ensino integralmente gratuito, a rapaziada só gastava a farda e o calçado ganho dos pais. Um prestígio de dar inveja a situação de liceísta e normalista. A merenda, que hoje pernosticamente se chama lanche, se fazia numa espécie de quiosque das imediações, geralmente constituída de garapa de cana e um pãozinho redondo, de nome caramujo.

Dois estabelecimentos particulares havia, cada qual de muito conceito, ambos com internato e externato: o Colégio Diocesano de homens e o Colégio das Irmãs de mulheres, que ainda desafiam os tempos. Os internos tinham saída aos domingos - e a gente via pelas ruas fardados donzelos e donzelas, pálidos, como quem viu alma do outro mundo, depois de seis dias prisioneiros, quando internos.

Professores famosos, os do ensino primário e os do secundário. Capazes, sérios, respeitados. Mestres que fizeram história e educação.

Quase os estudantes não gastavam com livros, se não os que queriam nas raras livrarias da cidade. As aulas eram suficientes para o aprendizado, o que não acontece hoje, com aulas mastigadas, incompreensíveis pelos pobres e abandonados pupilos. Tanto faz que entendam ou não o ensinamento, nada se repete.

Hoje as mães vivem nas ruas. Instituíram-se creches, onde os meninos aprendem a engatinhar. Em seguida, escola maternal. Depois, jardim, alfabetização - e a seguir o primeiro e o segundo graus, tudo em estabelecimento de negócios particulares. As escolas do governo, ditas hoje do primeiro e segundo grau, oferecem péssimas condições de ensino, razão pela qual os pais se sacrificam nas escolas particulares, de elevado preço e exigências absurdas de vinte cadernos, coleções de madeira, de cera, hidrocor, figurinhas de jogador de futebol, resmas de chamex, cinco tesouras, um binóculo, vinte rolos de papel higiênico, trinta pacotes de absorventes para as mulheres, vinte folhas de estêncil, uma máquina de escrever, um computador dos Estados Unidos e contribuições para as festocas. Os jovens, machos e fêmeas, carregam tanto peso que ficam tortos de um dos lados - fora lencinho de papel, toalha, escova de dente, pasta, sabonete, desodorante, roupa de banho e outros ingredientes que me fogem da memória. Tudo moderno e amplamente atual. Tudo Brasil.


A. Tito Filho, 06/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

domingo, 22 de abril de 2012

ESCOLAS

Quando me entendi em Teresina as mães viviam em casa, amamentando os pequerruchos, ou no preparo de mamadeiras ou dando fraldas, bem assim educando os meninos até que, aos sete anos, ingressavam na escola primária, ou no grupo escolar. A garotada começava o estudo de manhãzinha e nele permanecia até as onze horas, no bom recitativo da tabuada e na soletração de palavras. Os estabelecimentos pertenciam ao governo. Exigência apenas da fardinha caprichada, sapato ou botina e meia. Certamente que por baixo havia a calcinha das meninas, que os machos andavam descuecados. Havia escolas particulares, de professores e professoras, de irrisório pagamento.

Ainda no começo da década de 30, segundo me contam, existiam na capital piauiense dois educandários oficiais de ensino secundário, o Liceu e a Escola Normal. Ensino integralmente gratuito, a rapaziada só gastava a farda e o calçado ganho dos pais. Um prestígio de dar inveja a situação de liceísta e normalista. A merenda, que hoje pernosticamente se chama lanche, se fazia numa espécie de quiosque das imediações, geralmente constituída de garapa de cana e um pãozinho redondo, de nome caramujo.

Dois estabelecimentos particulares havia, cada qual de muito conceito, ambos com internato e externato: o Colégio Diocesano de homens e o Colégio das Irmãs de mulheres, que ainda desafiam os tempos. Os internos tinham saída aos domingos - e a gente via pelas ruas fardados donzelos e donzelas, pálidos, como quem viu alma do outro mundo, depois de seis dias prisioneiros.

Professores famosos, os do ensino primário e os do secundário. Capazes, sérios, respeitados. Mestres que fizeram história e educação.

Quase os estudantes não gastavam com livros, se não os que queriam nas raras livrarias da cidade. As aulas eram suficientes para o aprendizado, o que não acontece hoje, com aulas mastigadas, incompreensíveis pelos pobres e abandonados pupilos. Tanto faz que entendam ou não o ensinamento, nada se repete.

Hoje as mães vivem nas ruas. Instituíram-se creches, onde os meninos aprendem a engatinhar. Em seguida, escola maternal. Depois, jardim, alfabetização - e a seguir o primeiro e o segundo graus, tudo em estabelecimento de negócios particulares. As escolas do governo, ditas hoje do primeiro e segundo grau, oferecem péssimas condições de ensino, razão pela qual os pais se sacrificam nas escolas particulares, de elevado preço e exigências absurdas de vinte cadernos, coleções de madeira, de cera, hidrocor, figurinhas de jogador de futebol, resmas de chamex, cinco tesouras, um binóculo, vinte rolos de papel higiênico, trinta pacotes de absorventes para as mulheres, vinte folhas de estêncil, uma máquina de escrever, um computador dos Estados Unidos e contribuições para as festocas. Os jovens, machos e fêmeas, carregam tanto peso que ficam tortos de um dos lados - fora lencinho de papel, toalha, escova de dente, pasta, sabonete, desodorante, roupa de banho e outros ingredientes que me fogem da memória. Tudo moderno e amplamente atual.


A. Tito Filho, 09/07/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 21 de abril de 2012

EMPREGO

Ninguém recusa a evidência da inchação populacional. Vigora o crescei e multiplicai bíblico. Raras as coletividades no mundo que adotaram o planejamento familiar, como se faz em algumas da Europa, sobretudo nos países nórdicos. No Brasil, quanto mais pobre o casal, mais menino. Mulher rica usa pílula anticoncepcional. Garota de segunda ou terceira classe cria bucho. As cidades grandes, plenas de convocações para a vida supérflua e dissipadora, de empregos enganosos, se transformaram em megalópoles faveladas, nas quais os pobres tropeçam em mil dificuldades, para que possam comer e vestir. Enfim, vegetar, ao menos. A indústria arrancou a mulher do lar. As fábricas produzem todas as utilidades, o leite, a salsicha, o doce, a massa de tomate, a feijoada, o tempero, o pão, por preços triplicados. A chamada alta costura, de empresários inteligentes, costureiros que gastam fortunas em publicidade, faz que as fêmeas enlouqueçam. Criaram-se os clubes sociais e de uísque, sob a capa de caridade cristã, para desfile de vestidos caríssimos, comprados a peso de ouro, nas butiques que enriqueceram as proprietárias. Gastando a rodo, a mulher do soçaite precisa de muito cobre, finanças fortes, a fim de que acompanhe a moda e sustente o HOBBY alegre dos comes e bebes e recepções festivas.

A classe média, sem renda, as cousas da barriga e os panos nos queimas das lojas vendedoras custando os olhos da cara. O chefe de família apenas remediado, dinheiro contado para os pirões de cada dia, não pode sustentar os desejos de três ou quatros mocinhas que reclamam dos pais sandálias, desodorante, xampu e tecidos de cetim, fora JEANS e US-TOP, que elas vêem noite após noite nos anúncios de televisão.

Faminto também é gente. A classe do salário mínimo igualmente fabrica mocinhas e estas necessitam de cobrir as excelências.

A solução está no emprego. Já não existem garotas como antigamente, um vestidinho por mês, perfume de brilhantina Flor do Amor e Tentação.

Criem-se empregos. Na alta-roda existe a Marani, como se chama a mulher do Marajá. Na classe média, o burro de carga tem no lar rabos-de-saia desocupadas e os dinheiros que ganha do governo mal chegam para os pirões do almoço. Naturalmente que as meninas querem emprego. Na classe dita assalariada, a falta de dinheiro dos cofres públicos para as despesas das moças bem desenvolvidas de anseios provoca mais problemas sociais. Elas querem pouco, somente um contratinho de zeladora.

O jeito está no emprego. Cem mil funcionárias, duzentas mil, a metade de licença, muitas dispensadas de serviço, algumas em Tóquio, Rio de Janeiro, na Holanda, e no batente as que sabem trabalhar.

Haja emprego. Se acaso eu pudesse, se papai do céu me desse, eu vivia cercado de funcionárias por todos os lados, com uma ilha de felicidade.


A. Tito Filho, 05/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

quarta-feira, 18 de abril de 2012

CORTA O CABELO DELE

O fenômeno dos cabeludos é universal!

O homem crescido está usando cabelo crescido, cabelo grande. Não são poucos os rapazes cabeludos que desfilam nas ruas e nos clubes. Com eles se vêm preocupando intelectuais, estudiosos, jornalistas, psicólogos, psiquiatras, bem assim todas as camadas da sociedade. Já gozam da aprovação geral as cabeçolas cobrindo orelhas, cobrindo o cogote.

Do ponto-de-vista legal, ninguém lhes recusa o direito à moda que adotaram.

Os cabelos estão na história e na lenda dos humanos. Constituem material folclórico de subido valor. Houve tempo em que os cachinhos cortados de meninos e meninas eram usados pelos pais, encastoados em ouro, como berloques. A escritora francesa George Sand chegou a decepar a cabeleira e enviou-a a Musset, "como lembrança bárbara de sua dedicação sexual".

E as promessas de doação de rolo de cabelos aos santos? Refere Cascudo que essas promessas ainda são tradicionais no Brasil. A Cascudo também pertence esta informação: os cabelos valem material precioso para os processos de bruxaria. Os da cabeça enlouquecem ou matam. Os das partes pudendas anulam a virilidade.

Cabelo muito é atestado de masculinidade. Cabelo no peito indica valentia. De modo geral, os cabelos traduzem a força física, tradição filiada ao episódio de Sansão, com sua poderosa energia muscular, desaparecida no momento em que Dalila fez cortar a maçaroca do herói.

E a trunfa? Foi símbolo de coragem pessoal, como o cacho usado pelos homens do cangaço nordestino.

Meretriz, mariposa, horizontal, ou outro nome que tivesse a mulher de vida airada, durante muito tempo recebia a punição de ter o cabelo cortado, às vezes raspado. Conta Cascudo que houve antigamente a descalvação: descalvar era colocar a cabeça condenada em estado de calvície. Diz-se hoje mostrar a calva, quando se divulga crime escondido de alguém. Aplicava-se a descalvação aos crimes de felonia, falsidade e covardia.

Quem não se recorda das vaias dadas, nos colégios, aos alunos que apareciam de cabelo aparado? Ninguém esqueceu os versos do "Cabeça pelada. Urubu camarada".

No romantismo, a condição de poeta exigia uma basta cabeleira, à Castro Alves, como exigia tosse e pulmão fraco. Cabeludo e tuberculoso, eis o poeta romântico.

Por que os moços deixaram crescer os cabelos?

Seria o caso de perguntar também: por que praticam os jovens, crimes graves? Por que usam roupas berrantes? Por que dançam tomadas de frenesi, música quente, movimentadas, estonteante, provocante?

É que a mocidade está abandonada pelos pais, tomada de angústia, a angústia dos filhos injustamente apelidados de transviados, "quando eles só se transviam como uma reação contra a negligência, o amoralismo, o egoísmo dos pais, estes, sim, realmente transviados".

Que fazem as mães nos dias que correm? Entregam-se às atividades sociais, moram nos salões de beleza, passam as noites nos clubes de diversão ou nas salas elegantes de jogatina, sustentadas por tranqüilizantes.

Que deseja essa mocidade, frustrada, com os cabelos grandes, os trajes espalhafatosos, e bebida, a dança movimentada, o desenfreio? Protestar contra a sociedade que a abandonou, a principiar do abandono dos pais desafetuosos.

Leia-se a grande lição de um dos mais notáveis psiquiatras brasileiros: "Esses jovens procuram um meio de se fazerem personagens, com o objetivo de atrair sobre si a atenção dos pais e utilizam-se de toda sorte de estratagemas, dos mais simples e complexos aos mais condenáveis, da simples boemia vagabunda, como reação ao exemplo do pai que freqüenta bordéis, até às formas mais graves de transviamento moral, como reação contra a mãe que passeia de biquíni diante dos seus colegas de curso, ou se esquece de certas precauções à hora dos seus colóquios telefônicos adulterinos" - (Cláudio Araújo Lima - Imperialismo e Angústia).

Traje, cabelos grandes, música delirante - tudo simboliza protesto da mocidade contra o abandono em que a colocaram, abandono que gera a angústia dominadora da juventude.


Justifica-se o processo de rebeldia dos cabeludos. Esses cabeludos grandes, que dão cocó, têm uma causa. Muito bem. Mas são ridículos por dois motivos: oferecem uma idéia de pederastia e uma demonstração de falta de higiene. Convocam atenção para o ridículo. A música popular já ensinou que os cabeludos sugerem o desagradável:

"Olha a cabeleira do Zezé,
Será que ele é? Será que ele é"?

Demais disto, essas cabeleiras compridas criam uma expressão de esquisitice, de piolheira, de coisa comichona, sarnenta.

A mocidade pode ter razão de deixar crescer a cabeçola para atrair atenções. Mas a moda é feia a antipática. E já contagiou maduros e velhos, na ânsia da imitação. Maduros e velhos querem ser moços, pelo menos nos cabelos compridos.


A. Tito Filho, 19/07/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 6 de abril de 2012

COMADRE PULU

Este ano de 88 passei a Semana Santa em casa, na leitura leve de revistas e de boas piadas do barão de Itararé, que eu conheci no Rio de Janeiro, famoso e querido. Também verei na televisão.

Na segunda-feira, boca da noite, minha comadre Pulu, batizada Pulquéria, ainda apetecível, pesar dos seis molecotes que já botou no mundo, me apareceu para requerer de meus magros bolsos o respectivo jejum. Dei-lhe um pedaço de bacalhau do lado do rabo, sardinha, macarrão, feijão, doce, uns trocados para os temperos e o transporte nos luxuosos ônibus da cidade. Perguntei pelo Bitonho, marido dela. O caboclo obteve licença na penitenciária para repouso religioso em casa.

Minha boa comadre nunca pôde passar a Semana Santa na praia, comendo peixe e bebendo uísque, os casais alegres, mas sem a lembrança de Deus, comem e bebem que adoecem, buscam os especialistas para cura dos andaços, que eles chamam disenteria.

O mundo está assim mesmo - disse eu à mãe do meu afilhado Toinho, já um pouco taludo, o mais velho dos dois filhos, que sonha com um emprego público, sem concurso e sem trabalho - o mundo está dividido entre os que deglutem bacalhoadas no repuxo do uísque e os que comem piabinhas fritas do rio Parnaíba, empurradas com boa cana.

Os programas de televisão estavam normais ainda na sexta-feira, morte de Cristo, que veio ao mundo para salvar as mulheres e os homens. Deus na Bíblia teve a desobediência da esperta Eva comendo a maça de que ela provou e gostou e deu-a, safada, a Adão. Aí Deus mandou Jesus habitar na terra - e Judas praticou a canalhice. Mulher e homem são, como se vê, farinha do mesmo saco, aquela engana Deus, este traiu Jesus.

Meditei em tudo. Na quaresma dos bons tempos, os sermões nas igrejas, o pano rôxo cobrindo santo e santas. As procissões silenciosas, as donas ricas vestidas de seda preta, as pobres com os mulambos tingidos de luto. Os anjinhos de asas as vestidoras de anjos, solteironas narigudas. Velhotas tabaquentes, cheirando a rapé. Havia o pessoal das irmandades religiosas, metidos na opa. Lembro-me do Zé Pindoba acompanhando o andor, cabeça baixa, como que arrependido das safadezas praticadas na sua quitanda de secos e molhados. A matraca de vez em quando convocava atenções, com as batidas fortes e espantadoras. Bons tempos.

Recordei estas quitandas antigas, bonitas, e minha comadre Pulu me ajudou nas lembranças. Em casa, caminhava-se devagar, falava-se baixo ninguém ria. Não se deixava varrer casa em que pessoa alguma tomasse banho. Raros jejuavam de verdade. Comia-se muito, peixe, bacalhau, maxixe, jerimum, canjica e as inesquecíveis frigideiras. As beatas, sim, quase nada engoliam. Minha tia Iaiá, que Deus a tenha no seu reino, passava a sexta-feira santa de preto, ajoelhada horas seguidas, rezando terços, sem nada na barriga.

Comadre Pulu despediu-se, deu-me quebra-costelas demorado, pediu que a visitasse no casebre. Comunicou-me a notícia do almoção que ia preparar na quinta e na sexta-feira. Estava enjoada de jejuar o ano todo. Só escapava da fome nos dias maiores da Semana Santa, pelas boas graças do comadre caridoso. Ainda pretendia comprar, com os cobres que lhe dei, uma cachacinha para ajudar no apetite.


Gosto de minha comadre Pulu. conformado. Temente a Deus. Cozinha bem, embora, em casa, pouco acenda fogo, salvo o próprio. Vive de lavações e gomações de roupa de gente rica - aquela gente das mansões e das festanças à custa dos papagaios bancários e da inflação desnaturada e perversa, bem assim dos contracheques multiplicados.


A. Tito Filho, 27/03/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 5 de abril de 2012

VERDADES

Conheci Apparicio Torelly no Rio, quando na velha capital fui estudante e ele jornalista. Conheci-o de vista, como se diz, barbudão, cheio de corpo. Costumava vê-lo na extinta Galeria Cruzeiro, ponto de encontro dos mais variados tipos humanos. Adotou o pseudônimo de APORELLY e assinava deste modo as melhores crônicas humorísticas do Brasil. Gaúcho. Criou na cidade maravilhosa o famoso seminário A MANHÃ, quando passou a denominar-se BARÃO DE ITARARÉ, em homenagem à terrível batalha de Itararé, em são Paulo, ano de 1930, a batalha QUE NÃO HOUVE. O Barão foi lido e admirado. Ferino e verdadeiro. Cumpriu um destino sagrado, o de fazer que a humanidade risse e gargalhasse. Escreveu muito sobre as mulheres e nesta coluna de esquerda página transcrevo algumas verdades que o Barão assentou:

- As mulheres de certa idade não têm idade certa.

- Para as mulheres os velhos são de duas categorias: os insuportáveis e os ricos.

- Há mulheres que são como as estradas. Têm curvas perigosas.

- O homem é um animal que pensa. A mulher, um animal que pensa o contrário. O homem é uma máquina que fala. A mulher, uma máquina que dá o que falar.

- Há duas espécies de mulheres: as feias e as pintadas.

- Uma mulher atormenta-se mais com um segredo do que com uma cólica.

- Décimo de segundo é a fração de tempo necessária para uma mulher verificar que outra mulher, que acaba de lhe ser apresentada, tem olhos azuis, sapatos amarelos, colar de pérolas falsas, meias de náilon sem costura, cinto fingindo jacaré de matéria plástica e dentadura postiça.

- Quando uma mulher diz a um homem: QUERO-TE COM LOUCURA, é sempre verdade. A mulher não mente. Ela é sincera. E se diz que quer, quer mesmo. Sim, ela quer uma jóia bonita ou tirar as jóias do prego.

- A amizade entre as mulheres é apenas uma suspensão de hostilidades.

- Há homens despeitados que dizem que as mulheres não pensam. É mentira. As mulheres pensam e, muitas vezes, até com muito acerto, principalmente quando arquitetam um plano de ação para tirar dinheiro dos homens que pensam que elas não pensam.

Itararé foi uma espécie de Don Quixote nacional, malandro, generoso e gozador, dele disse Jorge Amado. Durante anos lhe esconderam a obra de crítica mordaz a uma sociedade pecaminosa e leviana, de sagazes administradores oficiais descompetentes. Não convém a verdade às ditaduras ou aos falsíssimos democratas. Reeditada nestes últimos tempos, Itararé continua atual e oportuno, como a gente sente nos seus pensamentos sobre as nossas sabidas filhas-de-eva.

Ainda me lembro de Itararé, na Galeria Cruzeiro, bonachão. Sempre alegre. Nascido em 1985, proclamava-se um HERÓI DE DOIS SÉCULOS.


A. Tito Filho, 10/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

FEMINISMO

Macho provém das alterações fonéticas sofridas pelo latim MASCULU. De macho se fez MACHISMO, qualidade ou modos de macho, o mesmo que macheza, dominação do homem sobre a mulher. Do latim FEMINA, em português fêmea, deriva FEMINISMO, que se define como a luta pela ampliação dos direitos civis e políticos do antigo sexo frágil ou equiparação, dos seus direitos aos do homem, - vitórias que elas já conseguiram, abolindo-se quaisquer diferenças entre os dois sexos, salvo o apêndice de alguns centímetros abaixo do umbigo, o gogó, uma costela a menos, circunstâncias privativas dos adões, e as regras que são prerrogativas dos rabos-de-saia. Sim, quase esqueço da pensão que o pobre desgraçado tem que desembolsar, quando o casório se desmancha.

A liberdade se faz total nos dois tipos. Ambos, moço e moça, saem sós e voltam de madrugada. Amam-se em qualquer lugar até nos motéis. Ninguém pede mais a mão da garota, que já não namora como antigamente debaixo da vigilância da tia velha ou da vovó, ou do irmãozinho chato que só deixava o casal quando o sujeito lhe dava a moeda para o sorvete na esquina.

Acabou-se a supremacia do gênero masculino. Ensinou-se durante anos seguidos que o masculino tinha supremacia sobre o feminino. Dizia-se: o brasileiro é obrigado a ter vergonha - e o brasileiro aí envolvia os dois tipos. Sarney mesmo liquidou o mandamento e reconheceu o feminino com direito ao primeiro lugar, usando sempre o vocativo BRASILEIRAS E BRASILEIROS.

Nos dias que correm o chefe do casal está representado pela mulher. Retornou-se ao matriarcado. Jamais se viu a supracitada com tanto prestígio e forma de mandar. As donas se metem em todos os assuntos, inclusive naqueles para os quais não são chamadas. Discutem besteiras colossais. Lêem mediocridades. Fumam. Consomem muito álcool, chegam a grandes pileques. Foi-se a virgindade - e raríssimas mantêm o fogo sagrado.

Se machismo era o poder do mando incontestável por parte do gajo, feminismo deve tomar outra significação, justamente a de domínio completo do varão pela mulher, machona de corpo e alma, - médica, advogada, prefeita, deputada, senadora, jornalista, policial, romancista, motorista de ônibus, assaltante, maconheira. Em nenhum tipo de emprego o elemento feminino padece qualquer modalidade de discriminação, salvo, como é obvio, com relação às incompetentes feias. Bonitonas, ninguém as recusa, não precisam de concurso ou pistolão. Diz-se que existe atitude discriminatória com a gente de cor, o que não corresponde à verdade, exceto quando a mulata não possui nenhuma competência no corpo. E as diabinhas têm armas de convencimento. Se nada alcançam com o palavreado, com o grito, com os gestos dengosos, buscam o choro e derretem os corações mais duros dos bestalhões para os caprichos supinamente desmiolados.

As costelas-de-Adão venceram a luta. Transformaram os antigos machos em tristes manicacas. Feminismo vale dominação. De qualquer maneira, a mulher sempre será divina, uma graça, e quando boazuda - Deus do céu, fica gostosa e desconcerta a cabeça da gente.


A. Tito Filho, 14/04/1991, Jornal O Dia, p. 4