Quer ler este este em PDF?

Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TERESINA ANTIGA

Nos festejos de São João acendiam-se inúmeras fogueiras e se enfeitavam as ruas de patis. Defronte do palácio do governo exibia-se o boi do Manoel Foguista. A cidade tinha mais casas de palha do que de telhas. Quase não havia muros nos terrenos, cercados de talos de buriti. Fabricavam-se cigarros de duas marcas: CONDOR e REI DE PAUS. Principais operários da fabricação: Antônio Cazé, Leônidas Carvalho e Domingos Ferreira. Fazedor de imagens de santos, Vitor. As quadrilhas nos bails eram marcadas pelo funileiro Gervásio, de fraque. Fabricante de violão, Lourenço Queirós. BANDAS DE MÚSICA: a dos Almeidas, a do Azevedo. A de pau de corda, composta de violão, flauta, e pandeiro, entre outros instrumentos, propriedade de Pedro Tonga. A professora de música Ana Bugyja Britto mantinha orquestra para tocar nas novenas e aniversários. As bandas da Polícia e do Exército exibiam-se nas retretas da praça Rio Branco, dividida em duas áreas, a da alta-roda, ou gente de PRIMEIRA, e  a de segunda classe: ÁGUA. Denominavam-se cargueiros os animais carregadores de água do rio para as residências, vendida de porta em porta. Pessoas ilustres apanhavam o precioso líquido no seus próprios animais. CAVALOS. O cidadão Boeiro, morador no Barracão, fundou uma escola para que os cavalos aprendessem a marchar, esquipar, trotar. Dia de domingo realizava-se corrida desses quadrúpedes do centro da cidade até a Catarina. Esporte dos ricos. Boeiro vendia fumo de corda. Homem de posses. Emprestava dinheiro até ao Estado em dificuldades. ARROZ. A primeira máquina de beneficiar arroz pertenceu ao cidadão Manoel da ria São José, hoje Félix Pacheco. Ainda trabalho se dava às pisadeiras, no pilão, iniciavam a tarefa pelas três da madrugada no bairro Vermelha. CABARÉS. Animados. Danças até de madrugada. Cada rapariga tinha sua alcova, com cama, rede, penteadeira. Serviço de bar. Mulheres sempre novas. Havia intercâmbio de protistutas de São Luís, Fortaleza e Teresina. Principais lupanares: Rosa Branca, Raimundinha Leite, Greusa, na década de trinta e quarenta. Famoso também o cabaré da Calu na Piçarra. No carnaval as meninas alugavam caminhão e participavam do corso pelas ruas da cidade. As mais aplaudidas pelos machacás. CINEMAS. Quando me entendi, eram 3 as casas exibidoras: Royal, para molecada, bancos de madeira, sem encosto, o "Olímpia", na praça Rio Branco, da elite. Muita elegância nas sessões dominicais. A princípio, fitas mudas acompanhadas de música por artistas da terra, e o Theatro 4 de Setembro, que inaugurou o cinema falado em Teresina, a partir de 1933. Depois surgiram o "Rex", o "São Raimundo", o "São Luís", o "Royal", segundo deste nome. Muito namoro em todos eles. Namoro forte. O Teatro e o "Olímpia" ofereciam, sábado e segunda-feira, respectivamente, entrada gratuitas as meninas da Escola Normal. Os gajos pagavam. Na escuridade das salas de projeção, nesses dias saudosos, vigorava a bolinação. Uma pouca vergonha, rapazes agarrados nos seios das garotas. Uma graça Teresina. Boa de viver. Inesquecível para os que a conheceram nas suas graças e atrativos.

 
A. Tito Filho, 14-15/04/1991, Jornal O Dia - p. 4

SEM JEITO

O "Jornal do Brasil", edição de 13 de março de 1991, publica os nomes dos parentes dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado do Rio recentemente nomeados, com vencimentos de mais de um milhão de cruzeiros mensais. Vejamos. Reinaldo Santana nomeou a mulher, a filha e um irmão. Humberto Braga, a mulher, a filha, o sobrinho e a irmã. Erasmo Martins Pedro, a mulher, três filhos e a nora. Heitor Schiler, a mulher e a filha. Pascoal citadino, a mulher e dois filhos. Paulo ribeiro, o filho. O único conselheiro sem parentela se chama José Luís de Magalhães Lins, herói dos novos tempos.

O nepotismo dos tribunais tornou-se uma amoralidade nacional. Vigora nos tribunais de justiça, de contas, do trabalho, em todo o território nacional, e também entupidos de parentes e aderentes se encontram os gabinetes dos parlamentares e polpudos empregos do Poder Executivo igualmente distribuídos por esposas, rebentos, sogras, cunhados, constituindo famílias privilegiadas que carreiam quatro ou cinco ou mais milhões para os seus gastos mensais, enquanto milhões de brasileiros vegetam, suando de sol a sol, na percepção de raquíticos pagamentos.

E mal se extinguem as decepções provocadas por mais uma esperteza de gente grande, os órgãos de comunicação anunciam as fraudes da previdência social, que enriqueceram os felizes beneficiados de bilhões de cruzeiros. A nação já não mais estremece de admiração e espanto. Não. As novas trapaças republicanas constituem rotina. Tornaram-se monótonas.

Quais [as] razões dessa permanente busca de dinheiros fáceis? Mal hereditário ou conseqüência das convocações sociais, num mundo de luxo e de folia? Alguns atribuem o processo nacional de roubalheira aos elementos formadores do chamado povo brasileiro, isto é, o português, o negro e o índio. Não cabe dúvida de que o elemento luso que se enviou para o Brasil se representava por tipos marginais da sociedade dalém-mar. E não se ignora que o índio preguiçoso obrigou os donos da terra a buscar o elemento africano para o trabalho da lavoura – e os três cruzaram e dos cruzamentos saíram mulatos, caboclos, mamelucos. Desacreditamos que a origem da desfaçatez nacional esteja nesses tipos, mas na deterioração do caráter do brasileiro por razões da nociva publicidade dos órgãos comunicativos.

– X –

A influência norte-americana na vida brasileira começou na década de 30, intensificando-se cada vez mais. O brasileiro vivia para o trabalho e para o lar. Tinha o lazer no cinema dominical, nas praias, nos passeios, nas festas familiares. Sociedades de agricultores, comerciantes, industriais, funcionários públicos. A mulher ocupava-se dos afazeres domésticos.

Os Estados Unidos tomaram conta do Brasil. Logo se criam os hábitos dos salgadinhos, das roupas feitas, comemorações fantasiosas do dia das mães, dos pais, do Natal. Instituíram-se as festas de natalícios, de debutação, de boda de prata e ouro. O turismo se tornou coqueluche generalizada, em que a classe média arrebenta os orçamentos nas viagens de recreio. Pregou-se no país a filosofia da compra, do carro particular, do uísque para proteger as coronárias do luxo, o prazer a qualquer preço. Viriam a buate e o motel e os feriadões. Banalizou-se a mulher. Desprestigiou-se o trabalho como valor social e espiritual.

Surgiu uma nova força, o empresariado, que sustenta o desperdício e a futilidade do soçaite. Casamentos milionários. Festas e recepções em que se dissipam fortunas. As mulheres de alta roda gastam num vestido o que o operário não consegue ganhar no emprego durante um ano.

Como sustentar essa grande patuscada da nação e dos estados-membros, como o Piauí, o Ceará, a Bahia? Fácil. Roubando-se a riqueza de todos para o sustento da ganância e da fome de dinheiro, a fim de que se cubram os gastos de marajás e de suas respectivas esposas, as maranis.

A sociedade tem os criminosos que merecem. Pior ficará, se a irresponsabilidade de poucos prosseguir na deterioração do caráter nacional.

 
A. Tito Filho, 12/04/1991, Jornal O Dia - p. 4

terça-feira, 15 de maio de 2012

TEMPOS DE MEMÓRIA (1)

Quando eu menino, cheguei a Teresina, em 1932, ainda de calças curtas, a cidadezinha gozava de tranqüilidade nunca esquecida. Nada a perturbava. Tinha ruas calçadas, algumas, ou empedradas, e trilho para bonde, mas sem bonde.

Dois cinemas – um tipo poeira, o Roial, de bancos compridos, sem encosto – especialista em bangue-bangue, mas naquele tempo a gente não dizia bangue-bangue – era cinema de artista e de bandido – cinema da molecada do meu tope; o outro, o Olímpia, estava destinado à alta-roda, ao soçaite de hoje. Ambos de filmes mudos – e lá me ia esquecendo – mudos mas gesticulados, como se os gestos fossem a linguagem sonora - e as vezes é, ou pelo menos a transmite, até mais expressivamente. Cinema falado, musicado e sincronizado só em 1933.

E dois cabarés famosos no campo da vida airada: o "Cai Nágua", de madeira, perto do rio, mulherio de segunda categoria, quase bofe, e o da rosa Branca, de pegas vistosas, freqüentado por gente alta, como magistrados, comerciantes abastados, filhinhos-de-papai.

Ainda em 1937, de longe eu olhava o "Cai Nágua", que já não era um mistério para  aminha buliçosa pouca idade, mas era permanente convocação.

A elegância da cidade, de noite, estava na praça Rio Branco - andança na praça, rapazes num sentido, moças noutro sentido. Namoro de olhos, olhares que falavam e diziam tudo.

Tomava-se, e muito, refresco de pega-pinto, diziam que era bom para os rins. Muita garapa de cana, também.

Boa de ver e de morar a Teresina de rodas na calçada, de noite, até que a usina elétrica apitasse ou que a Polícia Militar corneteasse: nove horas. Hora de dormir. Casados e solteiros. Mulher casada e mulher donzela. Exceto nos dias de baile e forró.

Forró das pipiras desejadas e das curicas também. Pipiras e curicas são instituição nossa - e como se incorporaram à paisagem teresinense. Pipiras e curicas - uma delícia. Sambavam noite toda, no forró quente, namoravam pelas esquinas escuras - e a gente não sabia se eram. Hoje se sabe.

De 1938 em diante, vi, como os olhos que a terra há de comer, bolinação em cinema. Pares agarradinhos. Mãos em permanente atividade. Gente alta. Foi um morenão bonito, de cabelos compridos, que me iniciou nas práticas amorosas em salão de cinema.

Veado - dois ou três. Recebiam outros qualificativos. De profissão quase sempre cozinheiros.

Deixei assim Teresina em 1939. A roda na calçada, o carnaval sem porre e lança-perfume, o mercadão repleto de vendeiros e vendeiras, namoro de olhos e de bolinação, avião que baixava nágua, o hidroavião, quermesses em patamar de igreja, jornal de apelidos e descomposturas, quintas e pomares por toda parte, enterro de gente pobre sem banda de música e de gente rica com a respectiva, tocando um troço que espantava e fazia que a gente tivesse mais medo do enterro do que da morte - uma cidade tranqüila, afetiva e pitoresca, em que no meio-dia até uma da tarde quem quisesse fazia pipi no meio da rua, idem idem depois das nove da noite; de velórios de defuntos com mulheres desfiando terços e homens bebendo cachaça ou tiquira, para agüentar o amiudar do galo e a hora da partida do saudoso - mas uma cidade que encontrei na volta, uns dez anos depois, em busca de transformações - transformações em tudo - embora sempre afetiva, tranqüila e pitoresca.

Escritores têm-na definido e revelado; poetas têm-na cantado e exaltado. E são tantos.

De mim, quero-lhe um bem permanente e não a troco por riqueza alguma, por paisagem outra, que seja melhor do que a paisagem teresinense.

Conhecendo-a como a conheço, nas suas virtudes e desvirtudes, e por considerá-la tão original nas suas virtudes e desvirtudes - em razão disto desejo que todos a conheçam, que venham vê-la no seu afeto permanente na sua tranqüilidade espiritual, no pitoresco das suas cousas e da sua gente.

1973 - tantos anos depois dos brincos infantis - eu ainda a sinto e a estimo como a mais afetiva, a mais tranqüila, a mais pitoresca de todas as cidades do mundo.

E tenho razão. Quem aqui chega para o exercício de deveres, ou para serviços de emprego fixado, não quer mais deixá-la. Só se retira a gancho, depois de esgotar os recursos das amizades protetoras, dos padrinhos, dos pistolões. Aqui não há estrangeiros. Há teresinenses. Poucos meses de assento - e o sujeito está dono da cidade. E merecendo homenagem. E casando por aqui mesmo. E fabricando menino na Chapada do Corisco. E menino nascendo na Maternidade São Vicente.

Uma jóia - Teresina. Vem vê-la - brasileiro - e a aclamarás comigo.


A. Tito Filho, 07/08/1991, Jornal O Dia – p. 4

sábado, 12 de maio de 2012

IRRESPONSABILIDADE

Os velhos e saudosos carnavais que eu conheci começavam sábado de noite e prosseguiam até terça-feira. No dia seguinte, cinzas, os cristãos meditavam. Tudo alegria, companheiros, educação. Realizavam-se bailes animadíssimos, coros maravilhosos e um carnaval de rua bem carregado de bom humor. Pobres e remediados se empregavam à folia, sem excessos. Assim se dava também quando eu não havia nascido. Já em 1870 surgiu a primeira sociedade carnavalesca. Folguedos na praça Saraiva. Ano de 1983 criaram-se dois clubes de festas deslumbrantes, o Fenianos e of Fênix. A alta-roda comparecia de ricas fantasias, como a Lili Lopes, avó de Genuzinha Aguiar correia: vestido de cetim branco com apanhado de gaze dourada, volta e pulseira de pérolas brilhantes. Ainda a conheci proprietária da Botica do Povo, na praça Rio Branco. Um dos mais empolgantes foi o de 1914, com os dançarinos Miguel Rosa, Luís Correia, Fenelon castelo Branco, Abdias Neves, Nogueira Tapety, Mário Batista, João Pinheiro, Casusa Avelino, Lindolfo Monteiro, Tote Carvalho, Ney Ferraz, Heli Castelo Branco, intelectuais, médicos, políticos. Entusiástico o de 1920, de carros alegóricos. Batalha de lança-perfume e confete. Intransitável a praça rio Branco. Muita Gente projetada nos bailes. As caboclas, chamadas segunda, também ditas curicas, dançavam nos gostosos forrós dos arredores da cidade. Verdadeiro delírio o carnaval de 1921. Bailes deslumbrantes na Assembléia Legislativa. Pululavam a bom pular João Luís Ferreira, Matias Olímpio, Anfrísio Lobão, Jarbas Martins, Ernesto Batista, Leônidas Melo, Dídimo Castelo Branco, Joel Mendes. Nesse ano surgiu o clube dos Fanfarrões, que promoveu sempre dois bailes, no sábado e na 2ª feira. Surgiria em 1922 o Clube dos diários, ainda de pé, consagrado agora aos velhos e velhas que se esfregam e se arrocham uma vez por semana nos seus salões deteriorados e sujos. Um delírio a folia de 1925. Participaram com inexcedível entusiasmo do carnaval de 1934 Rocha Furtado, Cláudio Pacheco, Salmon Lustosa, Firmino Paz, para citar gente viva. Caiu nos dias 22, 23, 24 e 25 de fevereiro o carnaval de 1941. Presença do primeiro Rei momo, recebido na praça Pedro II pelo interventor Leônidas Melo. Ainda se verificou um excelente carnaval em 1947. Os principais foliões solteiros, alguns falecidos, outros vivos, foram Ângelo Pereira da Silva, Milton Aguiar, Tito Filho, Elói do Egito Coelho, José Lopes Aguiar, João de Deus Fonseca Filho, João Mendes Olímpio de Melo, Carlos Alberto Paz. Jovens mais animadas: Anita Freitas, Iracema Freitas, Maria do Amparo Araújo, Miriam nogueira do Rego Monteiro. Festas maravilhosas no clube dos Diários e no Teatro 4 de Setembro.

Houve o declínio por toda parte. Desanimados folguedos nas ruas, extinção do corso de automóveis e caminhões, e o triste espetáculo das escolas de samba, de caráter competitivo, com o apoio de órgãos públicos.

O carnaval, de certo tempo a esta parte transformou-se em devassidão, com bailes de mulheres peladas, gueis pelo torto e pelo direito e o cenário de sexo despudorado, como se vê nas transmissões televisivas do Rio e de são Paulo.

A festa que tinha inicio no sábado de noite se esticou, indo de quinta ou sexta-feira até quarta ou quinta-feira. a nação pára de trabalhar cinco, seis dias seguidamente, e a violência campeia destravada. Enchem-se os hospitais. Gastam-se as economias de um ano inteiro. Um desperdício de dinheiro inacreditável nas escolas de samba do rio de Janeiro, cada vez mais luxuosas. Já se construiu um SAMBÓDROMO, local dos desfiles milionários, cuja denominação híbrida de grego e africano revela besteirice refina. em Teresina, até pouco tempo passado, o poder público prestava apoio a milhares de pessoas, às quais se distribuíam tonéis de valente cachaça, em circunstância que não se registrava antigamente.

O Brasil e o Piauí atravessam crise em todos os sentidos. Há fome, doença, miséria, indigência, hospitais sem funcionamento, escolas públicas fechadas e uma guerra, terrível carnificina, tirando vidas e impondo sofrimentos, enquanto as almas sem solidariedade se entregam a festas vaidosas e maléficas.

O país vive instantes de irresponsabilidade.


A. Tito Filho, 10-11-12-13/02/1991, Jornal O Dia

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CRONISTAS

Da crônica dizia o bom dicionarista Morais que era a história escrita conforme a ordem dos tempos. O cronista desempenhava função pública, encarregado de escrever os episódios em que se envolviam os reis, as rainhas, os mancebos da corte. À narrativa dos acontecimentos, de intrigas, das valentias de cada época se dava o nome de crônica, e ainda ao noticiário dos jornais, às anotações do cotidiano.

A crônica assume também a posição de verdadeiro gênero literário, quando corresponde a concepções de natureza livre, provocadas pela observação dos fatos no dia-a-dia da vida, no passado e no presente, refletida através de um temperamento.

Também se criou a dita crônica social, que se encarrega de registrar a refinada mobilidade do soçaite, na moda, nos prazeres, nas recepções, nas alegrias, nas festocas, festinhas e festanças. É o colunismo alimentador da vaidade, das tricas e futricas de alta roda.

*   *   *

Quero crer que o primeiro cronista social de Teresina tenha sido o mestre construtor João Isidoro da Silva França, que depois de lançada a pedra fundamental da igreja do Amparo, a 25 de dezembro de 1850, fez a comunicação do acontecimento ao presidente José Antônio Saraiva: "Ao depois de uma missa do senhor vigário dita no meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila... e mais imensidade de povos de fora, que aqui se ajuntou... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada...".

*   *   *

No Rio de Janeiro, aí pelos anos quarenta, estava na moda o cronista social Ibrahim Sued, amado pelos homens e pelas mulheres endinheirados e infernizado por quantos o invejavam ou desmereciam suas reportagens sobre a gente fina e as respectivas futilidades.

Quando retornei ao Piauí, depois da ausência de cinco anos, aderi ao jornalismo de oposição, representado pelo jornal "O Piauí, valente no combate ao governo. Inaugurei nele, em 1948, com Milton Aguiar, o colunismo social em Teresina. O cenário sempre o mesmo, estava nos bailes matutinos aos domingos e nas festas dançantes do clube dos Diários. Ainda hoje me lembro da reportagem que recolhi na FESTA DA ROSA, que a garota Genú Aguiar promoveu na principal casa de diversões da cidade. Eu assinava as minhas crônicas com o pseudônimo de ÁUREO.

Não sei se a memória me abandona, mas no "Jornal do Piauí", em que passei a colaborar de 1951 em diante, se estampava o colunismo daquele que fez da crônica social a razão de ser do seu jornalismo, o repórter de acontecimentos ainda no batente, sempre festejado pelo elemento feminino, Paulo José.

Nesse órgão de imprensa trabalhou outro notável cronista social e que se assinava Josias C?*, recentemente entrevistado por Elvira Raulino, num das tevês teresinenses.

O extraordinário desenvolvimento da crônica social entre nós coube, segundo penso, a Elvira Raulino, que estendeu as cogitações da crônica outros elementos de reportagem, como a notícia de episódios culturais, científicos, as notas políticas de evidência, as decisões administrativas, as anotações de tudo quanto diga respeito ao interesse público, rota ou caminho que outros destacados signatários da crônica social vêm seguindo com aplausos dos que apreciam o difícil gênero.


A. Tito Filho, 11/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

_____________
* Não está visível no original

sexta-feira, 27 de abril de 2012

PRIVILÉGIOS

Sinceramente, a mulher gozava de muitas regalias e perdeu-as com a história do feminismo. É verdade que não tinha a liberdade de andar batendo coxas pelas ruas. As casadas saíam com os maridos, as outras podiam ir à escola, à missa. Em compensação, de vez em quando havia matinê de danças e bailezinhos bons de namorar de noite. Quando o namoro estava pegado, podiam ir com o futuro noivo ao cinema. Hoje pode a mulher fazer tudo o que pensa, salvo se não tem dinheiro. Anda como quer e com quem quer, de dia e ou de madrugada.

Mulher de classe média ou de alta-roda não trabalhava em casa. Estava sempre servida de cozinheira, copeira, lavadeira. Mulher de operário, sim, realizava as tarefas caseiras.

A mulher, de modo geral, gozava de cobiçados privilégios. Todas as mazelas da vida se verificavam com os machacás: desde a cobrança de contas do quitandeiro aos desaforos de marido alheio por causa das picuinhas das esposas vizinhas.

Mulher nunca tinha nome: solteiras ou casadas, eram conhecidas pelo nome do legitimo esposo. Quando amancebada, pela denominação do amante respectivo. Era até bonito ser rapariga de cabo da polícia, chofer de caminhão ou gigolô.

Recebiam as filhas-de-eva tratamento excepcional e de fina educação por toda parte. Nas estradas lamacentas, se o caminhão atolava, os adões logo estavam convocados para o empurramento. Elas, nunca, que em tempo algum botaram força, só no ato da parição, antigamente. Nos ônibus lotados, fêmea não ficava de pé. Aparecia o tipo fino, elegante, se levantava e oferecia-lhe o lugar por ele ocupado. Mas agora ninguém lhe cede o assento, até as buchudas ficam se rebolando dentro dos coletivos. De primeiro, se o lenço do rabo-de-saia caia na calçada, o homem corria, apanhava-o e devolvia-o, às vezes sujo de catarro. O individuo namorado, noivo, casado, se via à frente buraco na rua, protegia a companheira, segurando-a pelo braço e advertindo-o do perigo. Agora o pessoal empurra a dona para o precipício. Também os gajos abriam o guarda-chuva, ficavam debaixo d'água, mas cobriam a mulher ao lado, com todo o respeito e aptidão. Hoje elas que se danem.

Quantos privilégios. Regalias sem conta. As mulheres deviam lutar por um retorno aos tempos antigos, às suas origens caseiras. E estou achando que as inteligentes cronistas sociais de Teresina, mulheres antes de tudo, iniciaram, veladamente, a marcha para a volta à submissão do sexo frágil ao homem, a ressurreição do machismo. Pois não é que as nossas cronistas escrevem todo dia o nome do pessoal festeiro, citando o sujeito, seguido de SUA fulana, como se esta fosse dele propriedade? Observem os registros. Compareceram na recepção: o Dr. Pancrário e sua Bigorna, o Dr. Creolino e sua Lascívia, o Dr. Matapasto e sua Estrepolia.

Um bom começo. A mulher nas nossas registradoras de notícias elegantes têm dono. E isto é bom, porque nós sempre as possuímos ao longo da vida, no bom sentido.


A. Tito Filho, 13/04/1991, Jornal O Dia, p. 4