Quer ler este este em PDF?

Mostrando postagens com marcador jornalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jornalismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de maio de 2012

SEMPRE CONTRA

Não se diga que eu desgoste de futebol. Já em Barras, cidade do norte do Piauí, onde me cortaram o umbigo, eu jogava bola quando comecei os estudos primários nos meus sete anos. Eu e os molecotes como eu no beco de velho Fernando Carvalho, sujeito que conheci idoso, cidadão honrado. Abria a loja da esquina cedo, sempre de colete e bonzeguinos, barbicha bem aparada. Tipo respeitável, de fala ligeira, família tradicional. Formava-se os times nos domingos, quando o sol esfriava e a partida só terminava boquinha da noite.

Andei por outras terras e nunca me afastei dos estádios, como em Fortaleza e no Rio de Janeiro. No retorno aos pagos teresinenses, em 1947, encontrei o Estádio Lindolfo Monteiro, se a memória não me engana, construído pelo prefeito do mesmo nome e inaugurado em 1940.

No meio do século, fui ao Rio, num aviãozinho bimotor, que saia de Teresina seis da manha e depois de enjoativo pinga-pinga por algumas cidades, baixava no aeroporto Santos Dumont, da ex-capital, pelas sete horas da noite. Era a inauguração do Maracanã, estadiozão construído pelo prefeito Mendes de Morais, para que, aos urros de sua formidável platéia, houvesse a última partida de uruguaios e brasileiros, em 1950. Assisti ao embate. À derrota nacional. Dois a um em favor dos homens comandados por um meio-campo endiabrado, Obidúlio Varela. Recordei os dias de 1938, nesta sofrida capital piauiense, no tempo do ultimo campeonato mundial de futebol jogado antes da segunda grande guerra. O astro do Brasil o homem de borracha, diamante negro, Leônidas. Os nossos perderam a derradeira partida, em disputa com a Itália, também por dois a um, um gol italiano de pênalti.

Dava gosto o futebol dos velhos tempos. Os craques desconheciam a dinheirama que transformou esse esporte de massa e de entusiasmo num reles balcão de trocas e *. De mim, não perdia jogo dominical em Fortaleza, no Rio. Cheguei a prefaciar um livro de Carlos Said, sobre a história do futebol piauiense, em que figuro como interventor na Federação Piauiense de Desportos, em 1960, quando me possível, com o auxílio de sujeitos capazes e honestos, Péricles * e Eulino Martins, meu tesoureiro e meu secretário, endireitar a entidade mentora do esporte piauiense. Tomei a medida de reduzir o numero de clubes de Teresina a seis. Uma história interessante que ainda ninguém contou.

Mas quando se quis construir o Albertão, estádio enorme de sessenta mil pessoas, fui contra. O único jornalista, o único cidadão, o único brasileiro, o único vivente, contra abertamente, em campanha de jornal e rádio. Insultavam-me. E eu contra. Meu argumento era em que Teresina não podia SUSTENTAR enorme praça esportiva. Os jogos não despertariam interesse público para tantos lugares. Interessante é que, neste ano de 1991, quando mais Teresina aumenta de população, mais a platéia do Albertão míngua de gente. Dídimo de Castro; uma das melhores expressões do velho jornalismo, seca os gorgomilos, todo dia convocando pagantes ao estádio.

Fui contra o Albertão, contra a Poticabana, contra o Metrô, contra os aleijamentos do Theatro 4 de Setembro e da praça Pedro segundo, contra a derrubada da antiga penitenciaria e contra o Verdão.

Sou contra tudo que tira o pão e aumenta a fome do povo.


A. Tito Filho, 23/03/1991, Jornal O Dia - p. 4

________________
* Não está visível no original

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CRONISTAS

Da crônica dizia o bom dicionarista Morais que era a história escrita conforme a ordem dos tempos. O cronista desempenhava função pública, encarregado de escrever os episódios em que se envolviam os reis, as rainhas, os mancebos da corte. À narrativa dos acontecimentos, de intrigas, das valentias de cada época se dava o nome de crônica, e ainda ao noticiário dos jornais, às anotações do cotidiano.

A crônica assume também a posição de verdadeiro gênero literário, quando corresponde a concepções de natureza livre, provocadas pela observação dos fatos no dia-a-dia da vida, no passado e no presente, refletida através de um temperamento.

Também se criou a dita crônica social, que se encarrega de registrar a refinada mobilidade do soçaite, na moda, nos prazeres, nas recepções, nas alegrias, nas festocas, festinhas e festanças. É o colunismo alimentador da vaidade, das tricas e futricas de alta roda.

*   *   *

Quero crer que o primeiro cronista social de Teresina tenha sido o mestre construtor João Isidoro da Silva França, que depois de lançada a pedra fundamental da igreja do Amparo, a 25 de dezembro de 1850, fez a comunicação do acontecimento ao presidente José Antônio Saraiva: "Ao depois de uma missa do senhor vigário dita no meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila... e mais imensidade de povos de fora, que aqui se ajuntou... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada...".

*   *   *

No Rio de Janeiro, aí pelos anos quarenta, estava na moda o cronista social Ibrahim Sued, amado pelos homens e pelas mulheres endinheirados e infernizado por quantos o invejavam ou desmereciam suas reportagens sobre a gente fina e as respectivas futilidades.

Quando retornei ao Piauí, depois da ausência de cinco anos, aderi ao jornalismo de oposição, representado pelo jornal "O Piauí, valente no combate ao governo. Inaugurei nele, em 1948, com Milton Aguiar, o colunismo social em Teresina. O cenário sempre o mesmo, estava nos bailes matutinos aos domingos e nas festas dançantes do clube dos Diários. Ainda hoje me lembro da reportagem que recolhi na FESTA DA ROSA, que a garota Genú Aguiar promoveu na principal casa de diversões da cidade. Eu assinava as minhas crônicas com o pseudônimo de ÁUREO.

Não sei se a memória me abandona, mas no "Jornal do Piauí", em que passei a colaborar de 1951 em diante, se estampava o colunismo daquele que fez da crônica social a razão de ser do seu jornalismo, o repórter de acontecimentos ainda no batente, sempre festejado pelo elemento feminino, Paulo José.

Nesse órgão de imprensa trabalhou outro notável cronista social e que se assinava Josias C?*, recentemente entrevistado por Elvira Raulino, num das tevês teresinenses.

O extraordinário desenvolvimento da crônica social entre nós coube, segundo penso, a Elvira Raulino, que estendeu as cogitações da crônica outros elementos de reportagem, como a notícia de episódios culturais, científicos, as notas políticas de evidência, as decisões administrativas, as anotações de tudo quanto diga respeito ao interesse público, rota ou caminho que outros destacados signatários da crônica social vêm seguindo com aplausos dos que apreciam o difícil gênero.


A. Tito Filho, 11/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

_____________
* Não está visível no original

sexta-feira, 20 de abril de 2012

QUARENTA ANOS

Em 1937, Getúlio Vargas, a 10 de novembro, fundou perverso sistema ditatorial no país. Aferrolhou-se a imprensa, com o estabelecimento de severa censura. Se não me deslembro, circulavam em Teresina uns três jornais: o "Diário Oficial", "O Tempo", "O Momento". Desapareceram em pouco tempo, os dois últimos. A liberdade retornou em 1945. Surgiram outras folhas, agora na defesa de partidos políticos.

O jornal "O DIA", sob a direção de Abdias Neves, surgiu em 14 de julho de 1923, e como dizemos de outros teve a vida efêmera. Ressurgiria, porém, em 1 de fevereiro de 1951, fundado e dirigido por Raimundo Leão Monteiro, conhecido por Mundico Santídio, certamente porque o pai se chamou Santídio Monteiro, que dirigiu a Usina Elétrica de Teresina e que denunciou o secretário da Fazenda de pagar a luz de sua residência o castigo de suspensão por dez dias. Os operários declararam-se em greve e a cidade passou a viver às escuras.

Mundico Santídio havia andado pela Alemanha. Até arranhava mais ou menos a língua desse país europeu. Dedicou-se em Teresina ao magistério e a outras atividades. Acabou por criar um jornal com o mesmo nome de outro que se havia finado. Tinha queda para trabalhar com máquinas. Baixote, roliço, pançudo, vermelhão, exibia defeito numa das mãos, que era um tanto enrolada e voltada para trás, o que lhe valeu o apelido de Mão de Paca. Assim mesmo, de mão boba, despertava grande paixão nas mulheres.

O jornal, de formato regular, saía de manhã, duas vezes por semana. Mundico compunha os, revisava-os, paginava-os. Também entendia da impressão. Não escrevia uma linha sequer, mas possuía uma equipe de jornalistas talentosos, que refletiam o pensamento e as idéias dos autores, que nada assinavam. Mundico Santídio publicava-os com os pseudônimos, pois não queria assumir responsabilidades. Não se estampavam reportagens, nem o dono e diretor da folha expunha opinião alguma, exonerava-se dos chamados editoriais. Nesta fase, o órgão contou com a valiosa colaboração de um jornalista entendido no assunto, Oriosvaldo Bugyja Britto, sujeito de memória formidável, ainda hoje vivo.

Deixei o jornal quando Mundico, interrogado pela justiça, sustentou que a autoria de artigo de critica a Lucídio Portella Nunes me pertencia. Fui processado e absolvido por unanimidade, num júri descontraído e alegre que um dia relatarei.

Voltei ao "O DIA" sob a direção de Octávio Miranda, que o adquiriu por compra. Trabalhava com Deoclécio Dantas, jornalista de pulso, e a mim cabia a redação dos editoriais de primeira página. Era bom. Ao lado da sede, funcionava o bar do Raimundão, dono e ao mesmo [tempo] garçom do estabelecimento. Na mesa do boteco eu escrevia os artigos, esperava sempre por duas revisões, muita paciência conseguida com cervejas geladas. Eu e Deoclécio dirigíamos a opinião pública. O jornal ditava a lei e os costumes. Mas entre mim e Octávio Miranda se davam desentendimentos. Despedia-me do trabalho, sempre gratuito, mas a ele voltava ao menor aceno do chefe.

Lá um dia saí mais uma vez para retornar anos depois. E agora me encontro, festejando, com os operários, os redatores, os revisores e o devotado José Fortes Filho, capaz e tarimbado, os triunfos de Octávio Miranda, de cuja estima gosto de participar, no zelo de um órgão de imprensa que pertence ao patrimônio histórico, social e espiritual dos teresinenses, graças à firmeza com que o dirige, faz anos, a força de vontade do seu proprietário e dos seus auxiliares.

Ainda escreverei a minha longa trajetória neste jornal.

Os quarentas anos de "O DIA" constituem uma lição de trabalho a serviço da coletividade piauiense, um exemplo sobretudo de extraordinário bem-querer notadamente aos teresinenses. As dores e as alegrias de Teresina se registraram, durante quatro décadas, nas páginas deste jornal, numa dedicação constante dos sentimentos de todos os que o fazem, material como intelectualmente.


A. Tito Filho, 01/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 25 de fevereiro de 2012

VELHO PIAUÍ

Desde muitos anos o Piauí participa da debochação nacional, por causa das tolices que noutras Estados correm a respeito de nossas cousas. Já enviamos ao Senado da República um senador grosso nos modos e na fala, celebrizando como o Vaca Braba. Outro membro da Câmara Alta do país, filho de Piracuruca, era tipo rude, sem papas na língua, cujas besteiras a imprensa carioca gozava a valer. Certa feita os jornais do Rio narravam o episodio. Gervásio de Brito, assim se chamava o homem, participava de banquete oferecido ao presidente da República. Sentou-se ao lado de elegante senhora. Em dado momento, o representante piauiense soltou estrondoso arroto e ela quis atenuar os efeitos da incivilidade, perguntando-lhe se estava gripado. Obteve a resposta: - Não, minha senhora, eu estou é arrotando...

Pobre e triste terra, rica de episódios ridículos por parte de suas figuras políticas. Num dos seus livros, o famoso e insubstituível Stanislaw Ponte Preta, que viveu pouco, mas fez o Brasil gargalhar, narrou um caso de são Raimundo Nonato, em que as duas ARENAS não se entendiam na vida local, mas ambas apoiavam o governador Helvídio Nunes de Barros. Uma das correntes queria manter fechado o colégio que coube ao comando da outra corrente, e esta pretendia que o hospital confiado ao adversário não funcionasse. Diz o escritor que Helvídio satisfez as duas: fechou o colégio e o hospital.

Na campanha política do ano passado, o governador Alberto Silva provocou risadas frouxas numa entrevista televisada concedida a Jô Soares. Contou que no Piauí o governo construíra um novo tipo de casa, cuja cobertura, em vez de telhas, se prestava a excelente cultivo de hortaliças, de forma que o sujeito tinha as duas cousas conjugadas: a moradia e a alimentação.

A platéia riu muito e riu muito mais quando Alberto Silva deu como bem altos os vencimentos de uma professorinha cada mês, por um turno de aulas: seis mil cruzeiros.

Farto e rico anedotário piauiense que cobre o Estado e os seus filhos de ridículo. Agripino Grieco pilheriava na imprensa carioca com os nossos poetas. Dizia deles que escreviam versos quase maus.

A história do Piauí nunca se levou a sério. Nenhuma obra didática faz referencia à luta do Jenipapo. Desconhece-se o heroísmo piauiense na guerra do Paraguai e na luta de Canudos.

A imprensa do Rio, de Recife, de São Paulo, em 1931, fez gozações permanente sobre a revolução do cabo Amador, que dominou dois quartéis, o do Exército e o da Polícia, e prendeu o interventor Landri Sales.

A respeito de Teresina, aí por fora circulam piadas e deboches. Terra já teve. Aparecia e ainda aparece na imprensa com a denominação deturpada: TERESINHA. Tudo aqui chegou com muito atraso. Até a República só foi proclamada no dia 16 de novembro.

O irreverente Vitor do Espírito Santo colheu copiosas asneiras piauienses e espalhou-as pelo Brasil, pois mantinha coluna permanente em vários jornais. Não esqueceu de narrar a mancada constitucional de 1947, quando os constituintes, nas disposições transitórias, obrigaram os cearenses a construir estrada de ferro do Ceará ao Piauí.

A última do Piauí se passa no Instituto de Assistência e Previdência do Estado, o famoso IAPEP, e possivelmente noutras repartições oficiais, em que se proibiu, para recebimento de vencimento, o uso de procuração particular, mandato que o código civil brasileiro permite de maneira incontestável. Só se aceita procuração pública, passada em cartório, revogando-se a lei brasileira, que é competência do Congresso Nacional.

Deixo o meu apelo ao presidente do IAPEP, ao secretário Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, ao governador Freitas Neto.

Procuração particular ou pública tem o mesmo valor. Procuração pública é obrigatória para os analfabetos. Chega de suplicar os humildes.


A. Tito Filho, 04/07/1991, Jornal O Dia