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segunda-feira, 21 de maio de 2012

O PIRAJÁ

Naqueles tempos antigos o teresinense viajava outras terras nos paquetes ou navios do Lóide e da ITA. tomavam a embarcação em São Luís e ganhavam o mundo, pelo Rio de Janeiro, por Belém, Manaus, Recife e na volta traziam engradados de mudas de plantas frutíferas para os pomares e chácaras, sempre denominadas QUINTAS. Uma luta possuir uma quinta. Coisa de gente bem, como se diria hoje. Mas pobre também possuía os seus cajus, as suas mangas, as suas laranjas.

Escolhia-se o local, adquiria-se o terreno e surgia a primeira dificuldade, o nome para o futuro celeiro. Um dos melhores e mais lidos cronistas de Teresina, o saboroso Joel Oliveira, escreveu que se reuniam os familiares e cada qual sugeria a denominação de sua preferência. Esteve em moda a escolha de cidades brasileiras, como Olinda, Petrópolis, Pirapora, antecedida de QUINTA: QUINTA MIRITIBA, QUINTA PORANGABA, QUINTA BELO HORIZONTE. Escolhiam-se nomes de cidades européias: Berlim, Zurich, Granada, ou localidades do Rio, a exemplo de Tijuca, Laranjeiras. Havia o batismo de terras santas, Tabaída, Botânica, Betsaida. Fixavam-se ainda denominações diversas: Rosal, Parnaso, Bela Flor, Irani. As esposas eram homenageadas, mas de outro modo, e surgiam as vilas nas residências, sempre distantes das QUINTAS. O processo vigorou durante muito tempo. Em 1933, meu pai construiu casa residencial, em que se lia, no portão de entrada, a denominação VILA EDITH, homenagem à cara-metade, minha madrasta. Pois bem. Aí pelo começo do século, ou antes, apareceu a QUINTA PIRAJÁ.

*   *   *

O mundo inteiro adotou o processo de designações para os palácios oficiais. De modo geral, dizia-se PALÁCIO DO GOVERNO  a sede do executivo, lugar dos despachos e da morada do governante. Palácio dos Leões em São Luís, Palácio do Catete e Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. Em Fortaleza, conheci o Palácio da Luz, onde decidia e residia o interventor Meneses Pimentel, hoje sede da Academia Cearense de Letras. Certa vez, em 1968, discursei no Palácio Piratini, residência oficial e sede administrativa em Porto Alegre. Foi no tempo de um congresso jornalístico de que participou o Piauí, com delegação composta de vários confrades, entre os quais Araújo Mesquita, Deoclécio Dantas, Rodrigues Filho, Vieira Chaves, Paulo José e outros. Gente boa.

Moscou, Paris, Cairo, Roma, nomeiam os seus palácios, costume velho como a serra dos cocos. Karnak, em Teresina, foi nome de chácara, a CHÁCARA DE KARNAK, denominação tomada da estranja. Tornou-se sede do executivo piauiense e residência governamental em 1926, inaugurado por Matias Olímpio. O governador Rocha Furtado residia em casa própria, também Pedro Freitas e outros. Clímaco de Almeida passou algum tempo na residência da praça João Luís, depois se fixou em Karnak. O governante Aberto Silva iniciou, no primeiro governo, o aluguel de mansões de luxo para moradia, imitado por Dirceu Arcoverde e Hugo Napoleão. Os governadores Lucídio Portella e Freitas Neto não quiseram sair da residência particular.

Gayoso e Almendra despachou algum tempo no prédio atual do Tribunal de Contas, se a memória não me deserda, antiga residência de Heitor Castelo Branco, e Alberto Silva despachava da sede do antigo Seminário diocesano. Ninguém se lembrou de denominar esse velho prédio de PALÁCIO HEITOR CASTELO BRANCO ou PALÁCIO DO SEMINÁRIO. Seria tolice refinada batizar o provisório deslocamento da sede administrativa.

Freitas Neto pretende instalar o governo em prédio de uma empresa de assistência técnica, a EMATER, no bairro ou subúrbio do PIRAJÁ, e logo os distintos proclamaram a oportunidade de denominação de PALÁCIO PIRAJÁ.

Que representa esse Pirajá, nome indígena? É nome da antiga QUINTA de fruteiras de Teresina. Nome baiano. Certamente o dono achou bonita a designação, que recorda o combate do Pirajá, na Bahia, ao tempo da luta pela independência nacional, travada a 8 de novembro de 1822. Melhor seria JENIPAPO, onde tombaram os nossos humildes heróis, em 13 de março de 1823. Mas JENIPAPO soa mal, não calha bem à sede da administração do Piauí.

Recorde-se ainda que a QUINTA PIRAJÁ, adquirida no governo do presidente Nilo Peçanha, teve nela instalada a Escola de Aprendizes e Artífices, em 1910, subordinada ao ministério da Agricultura, com oficina de ferreiro e serralheiro. Passou a chamar-se Escola Industrial. Hoje, Escola Técnica Federal.

Se Freitas Neto adotar sede provisória, devia chamar-se PALÁCIO DA ADMINISTRAÇÃO ou PALÁCIO DO GOVERNO. Se pretende fixação definitiva, calha de modo criterioso PALÁCIO 13 DE MARÇO, homenagem aos vaqueiros e agricultores que empurraram as forças militares portuguesas para o Maranhão, em 1823.

É verdade que existe o MONUMENTO DO JENIPAPO, evocativo da batalha do mesmo nome. Prestar-se-iam duas homenagens, em Campo Maior e Teresina. Que tem isso? Em São Paulo executou-se um grande conjunto escultórico, de * metros de cumprimento, 16 de largura e 10 de altura, exaltando os bandeirantes e posteriormente se deu a sede do governo paulista a denominação PALÁCIO DOS BANDEIRANTES.

Será que os baianos dariam ao seu palácio governamental o nome PALÁCIO DO JENIPAPO?. É tempo de mandar a subserviência às favas e pensar no que nos pertence.

    
A. Tito Filho, 09/05/1991, Jornal O Dia - p. 4

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* Não está visível no original

FOLIA PERNICIOSA

Iniciada quinta ou sexta-feira, a folia carnavalesca continuava agitada na manhã de 4ª feira de cinzas, sobretudo em Olinda, Recife, Salvador, Rio de Janeiro. A nação inteira esteve paralisada dias seguidos, com atividades suspensas. No sábado, dia 9 de fevereiro Dom Eugenio de Araujo Sales escreveu em jornal carioca: "A cidade gasta somas consideráveis em sua decoração, pobres economizam dos seus poucos salários, durante todo o ano, para consumi-los em efêmeras extravasões de uma fugaz alegria. Quantias extraordinárias vêm de fontes duvidosas; o luxo e o desperdício chocam-se com a miséria reinante".

Participei de alegres festas carnavalescas, quarenta, cinqüenta anos passados, nas décadas de quarenta, cinqüenta. Era uma festa popular de raros excessos. Muito se brincava, sem erotismo, sem mulheres peladas, sem magotes de veados na exibição dos peitos e nádegas artificiais. Uma folia contagiante, fraterna, iniciada por volta das cinco da tarde e encerrada pelas quatro da manhã do dia seguinte.

A chamada LIBERTAÇÃO da mulher transformou a vida social. Completou-se a circunstância, no Brasil, com a TELEVISÃO e o seu criminoso PROCESSO EDUCATIVO das novelas destinadas à corrupção da família.

Poderosos interesses de uns trinta anos para cá orientam e dirigem os carnavais brasileiros, subornando indivíduos e instituições. Neles se locupletam indústrias e comércio e para tanto a publicidade faz deles exibição permanente de despudoramento e luxúria. Nos bailes em clubes fechados se passam cenas de Sodoma e Gomorra, orgias e bacanais que só uma sociedade doente admite e suporta, e um governo cúmplice as permite e garante. Dissipam-se milhões, bilhões nessas nefastas falsas brincadeiras carnavalescas.

Fraquíssimo o carnaval de Teresina neste 1991. Antigamente não havia entre nós escola de samba e o respectivo desfile. Havia blocos populares, engraçados, que acompanhavam o corso de automóveis. Com o surgimento do carnaval comercializado do Rio de Janeiro, e o aparecimento das suas luxuosas escolas, os foliões de nosso meio quiseram criá-las e também apresentá-las em grotesco e desengonçados desfiles pela avenida Frei Serafim. Logo se buscou o recurso do erário público. Seria o caos sob proteção da Prefeitura e do Estado. Mas desta vez os cofres estaduais emborcados e a negativa salutar o prefeito Heráclito não permitiram os dinheiros para o pagode. Ainda bem.

Vi cenas televisadas de bailes em clubes do Rio de Janeiro. Um deboche. Mulheres quase despidas. Uma tristeza o baile dos GEUIS, Só as mães irresponsáveis permitem a exibição de jovens sexualmente pervertidos num espetáculo em que os próprios locutores da televisão debocham das pobres vitimas, moças de vida sem esperança, a *ço de uma sexualidade anormal e angustiada. As fantasias desses jovens, riquíssimas, reclamam milhões de material e mão-de-obra. As cenas de debocharia eram provocadas por doutora no assunto, a famosa Rogéria, que machucava os ouvidos dos rapazes a cada vez que soltava piadas de mau gosto, ao defini-los.

Quanto o Brasil gastou neste carnaval? Ninguém sabe. Não se pode avaliar o que se perde em valores morais e espirituais. Em deseducação do povo, que assiste, de boca aberta, a tolices referidas nas letras das músicas e ofensas sem contar com a convivência da boa linguagem. A pornografia, corrompe e avilta, representa a principal característica do carnaval do nosso tempo, ao lado da violência à própria dignidade do ser humano.

Quanto o Brasil gasta com hospitais, médicos e medicamentos? Não se sabe. No Rio, terça-feira, os meios de comunicação anunciavam o registro de * assassinatos nos três primeiros dias da festa que o dinheiro transformou em maneira de desregramento moral.

Convocou-me a atenção, nos bailes transmitidos pela TV-Bandeirantes, a circunstância da insistência da câmera em focalizar mulheres de traseiros à mostra, num processo rebolativo monótono. Um rebolo permanente, enjoativo, fazendo crer que a mulher só possui esse degenerado modo de atrair publicidade e admiração. Os homens aguardavam os momentos da depravação sem freios, na madrugada sem-vergonha.


A. Tito Filho, 15/02/1991, Jornal O Dia - p. 4

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* Não está visível no original

AS BOAS PROMESSAS

A 15 de março de 1991 este jornal "O DIA" publicou a notícia de que uma mulher sofreu choque elétrico e partiu desta para pior vida.

Dois anos passados um jovem professor retornava das aulas noturnas, pilotando a sua motocicleta, alegre, depois do exaustivo trabalho. Agora teria o aconchego do lar e a convivência dileta da patroa e dos filhos. No Mafuá, um fio da rede de eletricidade o alcançou e no local o pobre vivente adquiriu o descanso eterno.

Na década de 50, meu saudoso colega da Academia Piauiense de Letras, Fontes Ibiapina, em casa, apertou um botão de acender lâmpada e padeceu violento tombo e queimaduras. Quase embarca, Sofreu demais, em cima da cama, e só meses depois pôde caminhar, ainda assim caxingou até a morte.

– X –

A luz elétrica pública de Teresina data de 1912, governo Miguel Rosa. Deslumbrante a inauguração. Gente muita, discursos empolgantes. A iluminação restringia-se à praça Rio Branco. Somente a 10 de maio de 1914 funcionaram a máquina diesel e os dois geradores. Era domingo. A cidade iluminada tomou-se de incontida alegria. Postes de madeira, substituídos por potes de ferro em 1923; ano da primeira greve na usina elétrica, cujo diretor, Santídio Monteiro, denunciou publicamente o secretário da Fazenda, Lucrécio Dantas Avelino, de pagar a luz de sua residência por preço inferior ao devido. A safadeza vem de longe. O acusador foi suspenso por dez dias. Os operários declararam-se em greve e Teresina viveu à escuras. Convocaram-se maquinistas para o funcionamento das máquinas. Nada se conseguiu. Os estudantes do Liceu, sempre buliçosos, fizeram passeata de velas acesas. Santídio Monteiro recusou-se a qualquer cooperação. Novos incidentes. A suspensão subiu para noventa dias. Somente com a vinda de engenheiro inglês, chamado de São Luís, a luz voltou às ruas e às casas. Na época, o engenheiro Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves dirigiu as obras de novas instalações da usina.

No ano da revolução paulista contra a ditadura do presidente Getúlio Vargas o teresinense só dispunha de luz até a meia-noite. Em 1940 contrataram-se com o Siemens reparos na rede, que os reclamava com urgência.

Ainda época de interventoria no Brasil. A do Piauí coube ao coronel mineiro José Correia, que se voltou para o problema da iluminação da capital. Prestigiado pelo presidente Dutra, adquiriu na Suécia turbinas termoelétricas que só chegariam e se montariam em 1950. Antes, em 1947, veio de Alagoas para a nossa o motor apelidado pelo povo de Maria Bonita. Governo de José da Rocha Furtado, que * Teresina, quase ao apagar de sua administração farta. Era o Natal de 1950.

O general Gayoso e Almendra, governou de 1955 a 1959, criou o IAEE (Instituto de Águas e Energia Elétrica). Instalou-se a Central Elétrica do Piauí em 1962. A energia de Boa Esperança chegaria em 1970.

– X –

Eis ligeiro histórico do que tem sido feito de Teresina para auferir o conforto do progresso que a energia elétrica proporciona. Ainda perto do ano dois mil, nas noites de chuva e relâmpagos e trovoadas, a luz nos foge, e se fica de livro na mão e carne na geladeira até que a claridade retorne. A vela cumpre o serviço civilizador.

Quem percorre as ruas e praças de Teresina fica estarrecido do cipoal de fios por toda parte. De vez em quando um se desgarra e mata o pobre diabo por ele alcançado. Nas residências o problema é constante. Examinem-se os jornais destes últimos cinco anos e a evidência entristece e amedontra. Crianças, maduros e velhos têm sido vítimas dos mortíferos choques da CEPISA. As cidades civilizadas têm os fios da rede elétrica *, nos postes respectivos.

Olegário Barros Almeida, novo presidente da empresa, promete melhorar serviços, pagar os servidores e positivar novos investimentos. Cobrará preços mais justos. Ótimo. Aguardo esperançoso o cumprimento das promessas. Só peço que inscreva no rol do melhoramentos mais humanos de todos: o respeito da CEPISA pela vida do povo sofredor de Teresina. Aleluia.


A. Tito Filho, 21/03/1991, Jornal O Dia - p. 4
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* Não está visível no original

sábado, 19 de maio de 2012

O BONDE

Quando vim de Barras para Teresina, em 1932, já não existia bonde na cidade. Ainda encontrei os trilhos. Conheci esse veículo, do tipo elétrico, em Fortaleza, ano de 1939. Mais comprido do que um ônibus, era do tamanho e da largura de um trem. Quase diariamente eu subia num deles. A gente pisava no estribo, uma tábua do comprimento do carro, de um lado só, e alcançava os bancos de madeira para cinco pessoas. Pelo estribo o chamado condutor cobrava as passagens, dependurado nos balaústres entre os assentos e pulando nos estribos para receber os níqueis dos passageiros.

Encontrei novamente esse transporte civilizado no Rio de Janeiro, começo dos anos quarenta, sempre o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a animação da cidade, como escreveu Bilac. Morador de Ipanema, eu viajava nos bondes de preços mais do que baixos, duzentos réis por longos percursos. Defronte da gente, em todos os carros, se lia o cartaz de propaganda de popular remédio da época, em versos: "Veja, ilustre passageiro / O belo tipo faceiro / Que o senhor tem ao seu lado / e no entanto acredita / Quase morreu de bronquite / Salvou-o o Rum Creosotado". Desapareceu o santo medicamento, eu nunca, porém, esqueci os versos pendurados nos bondes cariocas.

Seis horas da tarde, agoniado momento de regresso a casa. Gente que nem formigueiro no centro do Rio. Pessoas apressadas na busca de transporte. São milhares que se acotovelam nos pontos de embarque. Preferência dos bondes, que circulam com lotação excessiva. A minha hora também. Esforçadamente conseguia um lugarzinho no bonde, entre mulheres. Era bom. Quando o carro ganhava velocidade, havia o balanço para a direita e para a esquerda. Dava-se a impressão de que o veículo afastaria dos trilhos. Esquerda e direita e vice-versa, os passageiros acompanhavam a movimentação, pra um lado e para o outro, e alguém podia fugir ao rolar de coxas e de braços nos braços e nas coxas da garota ou da balzaquiana ao lado da gente, e o esfrega-esfrega era chamava de bolinação, termo de náutica. Assim à bolina correspondia ao fato de o navio estar inclinado. De termo do mar, passou aos sacolejos dos bondes e ainda, na escuridade dos cinemas, aos amassamentos e beliscos nos seios. Era bom bolinar as namoradas.

Deixei o Rio e à cidade maravilhosa retorno em passeio algumas vezes até que, em 19* não encontrei os populares bondes do meu tempo, veículos despoluídos, de passagem barata, românticas, higiênicos, de viagens propiciadoras de namoros inesquecíveis. Foram desativados, por determinação do poder econômico. Contra eles se fez censuras me*sas, acusados de atrapalhação do trânsito, mas a idéia estava em privilegiar os veículos a gasolina, dispendiosos e poluidores, um excesso de exploração das empresas de ônibus.

Leio agora no jornal carioca "Tribuna da Imprensa" que os bondes vão voltar. Grande idéia. Maravilhosa demonstração de bom senso das autoridades. E com eles retornarão os dias felizes de antigamente no transporte de enormes cidades brasileiras.

Tenho saudades dos velhos bondes da Light, companhia inglesa que os mantinha. Uma graça esses bons veículos no momento do RUSH. Bancos completos de passageiros, a gente imprensado entre duas garotas, aventura gostosa de coxas unidas e braços roçando no carro. Uma gostosura dos velhos tempos românticos.


A. Tito Filho, 16/03/1991, Jornal O Dia - p. 4

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*Não está visível no original

sexta-feira, 18 de maio de 2012

TEMPOS DE MEMÓRIA (2)

Quando eu deixei Teresina, em janeiro de 1937, havia uma novidade em caminho: o telefone. Operários armavam os cabos duplos nos velhos postes de ferro, sob o comando de um engenheiro alemão ou sueco, louro, vermelho, suado e em mangas de camisa. É claro que, entre as penas que levei comigo, ao tomar em Flores o trenzinho, figurava essa de não assistir a inauguração do telefone. Teresina, que acabava de ajardinar mais uma praça, a Pedro II, e embelezar a pequena avenida em frente ao Palácio, progredia. E progredia no exato momento que eu me ia embora.

Isso não só era irreparável porque eu, como a maioria dos jovens que deixavam a terra natal, pensava em voltar. Voltar para viver ali, naquele chão da infância, em meio àquela gente que sonhava intensamente e que se recusava a crer na própria pobreza.

Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição. No trem, recitava os versos de Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância / ficou longe de mim adormecida...". E me lembrava do poeta Celso Pinheiro a contar a meu pai que, em São Luís, que visitava um dia, ficara tão inconformado por estar distante da sua terra que tinha saudades até das folhas que caíam das árvores de seu quintal.

Teresina, que aos nossos olhos ingênuos se afigurava quase que como uma metrópole, era uma pequena cidade, de trinta a quarenta mil habitantes, se tanto, com casas de telha em sete ou oito ruas e um vasto casario de palha, informe, sem conforto, que abrigava dois terços da população. No entanto, era doce o convívio da família e dos vizinhos, era doce a cidade. O calor, que só vim a perceber mais tarde, não deixou marca na minha infância nem na minha memória. Ele não existia para quem levava a vida solta dos quintais e das ruas, nos regatos que se formava depois das chuvas, nas carrerias noturnas pelos caminhos de terra e capim, no futebol da "bacia", nas brincadeiras que nos conduziam da beira do Parnaíba à beira do Poti.

Entre a rua da Estrela e a rua são José, passando pelas ruas da Glória do Amparo, dos Negros, do Fio, rua Grande, rua Bela e Paissandu - belos nomes que deveriam ressurgir - estava a cidade, toda ela, para as pessoas da nossa condição social. A Avenida Frei Serafim, hoje Getúlio Vargas, era uma promessa e um abrigo para as famílias mais prósperas. Ainda hoje identifico na memória as casas, uma a uma, e as famílias que as habitavam, parente, amigos, conhecidos.

Desconhecido era então só o caixeiro-viajante que se hospedava por algumas noites no Teresina Hotel.

A vida, já se vê, era simples e íntima. O Governador Joca Pires, à noite, sentava-se num banco da Praça, cercado de amigos e das pessoas de prol. lá a retreta, como os outros, o professor, o juiz, o estudante, a mocinha. Ouviam-se as mesmas histórias e a mesma música tocada no coreto pela banda militar.

Havia um único clube, o dos Diários, mas se dançava em qualquer casa onde houvesse moças. No mês que antecedia o carnaval, cada domingo depois da missa das nove na Igreja do Amparo, Joel Oliveira, cabeça branca, e um senhor que tinha o apelido de João Senhora, porque usava leque, e se assinava Carlos Borromeu nos escritos da imprensa local - comandavam os "assaltos" com que se esquentava a cidade para a grande festa. O carnaval era um misto de danças, cordões, corso e divertimento intelectuais, pois se editavam jornaizinhos humorísticos em que se  punha todo mundo na berlinda.

Folguedos populares eram poucos. Havia irrupção de "marujos" no adro das igrejas na Semana Santa e o "bumba-meu-boi" dos bairros distantes na época de São João. E as novenas, com prendas, e os mafuás. No Natal, havia o presépio de dona Quequé, que a cidade inteira ia visitar.

A cidade tinha sua alma e seus intérpretes, poetas e escritores, gramáticos, professores. Geração de bacharéis formada no Recife sob a égide de Tobias Barreto e Sílvio Romero - na qual se integrava entre os mais jovens meu pai, o Desembargador Cristino Castelo Branco, que mantinha o teor do debate intelectual, discutindo em saraus e conferências, reuniões da Academia Piauiense de Letras, na Maçonaria e até em Igrejas, onde pelo menos uma vez o padre teve seu sermão contestado. Mestre Higino Cunha, venerável, que ensinava latim e tocava piano, mantinha acesa a chama e reunia em torno de si escritores e estudantes. A nós, transmitia algo da sua imensa cultura, inclusive o modo de beber e a cronologia dos drinks e dos vinhos. Professor, e a cerveja? 
  
Perguntou-lhe um rapaz ao fim de uma dessas lições. Imperturbável, mestre Higino Cunha respondeu: "Cerveja, meu filho, é refresco. A gente bebe o dia inteiro".

Nem tudo era amenidade na Teresina daquele tempo. A agressividade explodia nas polêmicas jornalísticas, nos panfletos, nas campanhas políticas. Mestre Higino escrevia a "história do Pai do Jumentão" ou soltava boletins contra pessoas que profanavam a loja maçônica; vade retro Satanás... 


A. Tito Filho, 08/08/1991, Jornal O Dia - p. 4

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TERESINA ANTIGA

Nos festejos de São João acendiam-se inúmeras fogueiras e se enfeitavam as ruas de patis. Defronte do palácio do governo exibia-se o boi do Manoel Foguista. A cidade tinha mais casas de palha do que de telhas. Quase não havia muros nos terrenos, cercados de talos de buriti. Fabricavam-se cigarros de duas marcas: CONDOR e REI DE PAUS. Principais operários da fabricação: Antônio Cazé, Leônidas Carvalho e Domingos Ferreira. Fazedor de imagens de santos, Vitor. As quadrilhas nos bails eram marcadas pelo funileiro Gervásio, de fraque. Fabricante de violão, Lourenço Queirós. BANDAS DE MÚSICA: a dos Almeidas, a do Azevedo. A de pau de corda, composta de violão, flauta, e pandeiro, entre outros instrumentos, propriedade de Pedro Tonga. A professora de música Ana Bugyja Britto mantinha orquestra para tocar nas novenas e aniversários. As bandas da Polícia e do Exército exibiam-se nas retretas da praça Rio Branco, dividida em duas áreas, a da alta-roda, ou gente de PRIMEIRA, e  a de segunda classe: ÁGUA. Denominavam-se cargueiros os animais carregadores de água do rio para as residências, vendida de porta em porta. Pessoas ilustres apanhavam o precioso líquido no seus próprios animais. CAVALOS. O cidadão Boeiro, morador no Barracão, fundou uma escola para que os cavalos aprendessem a marchar, esquipar, trotar. Dia de domingo realizava-se corrida desses quadrúpedes do centro da cidade até a Catarina. Esporte dos ricos. Boeiro vendia fumo de corda. Homem de posses. Emprestava dinheiro até ao Estado em dificuldades. ARROZ. A primeira máquina de beneficiar arroz pertenceu ao cidadão Manoel da ria São José, hoje Félix Pacheco. Ainda trabalho se dava às pisadeiras, no pilão, iniciavam a tarefa pelas três da madrugada no bairro Vermelha. CABARÉS. Animados. Danças até de madrugada. Cada rapariga tinha sua alcova, com cama, rede, penteadeira. Serviço de bar. Mulheres sempre novas. Havia intercâmbio de protistutas de São Luís, Fortaleza e Teresina. Principais lupanares: Rosa Branca, Raimundinha Leite, Greusa, na década de trinta e quarenta. Famoso também o cabaré da Calu na Piçarra. No carnaval as meninas alugavam caminhão e participavam do corso pelas ruas da cidade. As mais aplaudidas pelos machacás. CINEMAS. Quando me entendi, eram 3 as casas exibidoras: Royal, para molecada, bancos de madeira, sem encosto, o "Olímpia", na praça Rio Branco, da elite. Muita elegância nas sessões dominicais. A princípio, fitas mudas acompanhadas de música por artistas da terra, e o Theatro 4 de Setembro, que inaugurou o cinema falado em Teresina, a partir de 1933. Depois surgiram o "Rex", o "São Raimundo", o "São Luís", o "Royal", segundo deste nome. Muito namoro em todos eles. Namoro forte. O Teatro e o "Olímpia" ofereciam, sábado e segunda-feira, respectivamente, entrada gratuitas as meninas da Escola Normal. Os gajos pagavam. Na escuridade das salas de projeção, nesses dias saudosos, vigorava a bolinação. Uma pouca vergonha, rapazes agarrados nos seios das garotas. Uma graça Teresina. Boa de viver. Inesquecível para os que a conheceram nas suas graças e atrativos.

 
A. Tito Filho, 14-15/04/1991, Jornal O Dia - p. 4

quarta-feira, 16 de maio de 2012

TRÂNSITO

Em 1941, no governo intervencional de Leônidas Melo, foi criada a Delegacia de Trânsito. Parece-me que em seguida houve reforma na polícia civil e criaram-se em Teresina três delegacias especializadas: Delegacia de Segurança e Ordem Pública, Delegacia de Investigações e Capturas e Delegacia de Trânsito e Costumes. Quando, em 1947, fui chamado a desempenhar funções policiais, coube-me a Delegacia de Trânsito e Costumes, depois desaparecida com a criação do Departamento Estadual de Trânsito.

A princípio, na cidade fundada por José Antônio Saraiva, transitavam pedestres e quadrúpedes. Havia o costume chique de passeios a cavalo pela cidade. Vigorava o sistema de carros de aluguel, puxados por animais; para casamentos, batizados, cortejos de baile e de teatro. Padre Chagas, nas suas encantadoras páginas de Teresina antiga, anota que na cidade foram surgindo, pouco a pouco, carros puxados a cavalo. Inovação gostosa. E conta que em 1874 funcionava na capital grande empresa de caleças, propriedade de Domingos Gonçalves Pombo, que atendia a chamados a qualquer hora, dia e noite. Aluguel também para visitas, missas no cemitério, serviços médicos, passeios pelo Poti.

As crianças constituíram, com os anos, o meio de condução de cargas da preferência geral. Em 1895 os seus condutores, os carroceiros, já estavam obrigados a matricular-se na intendência, que assim se chamava a prefeitura da época.

Em duas carroças puxadas por bovinos, em 1900, se transportava carne para o mercado central.

Em 1910 deu-se a proibição de carros e carroças que não estivessem matriculados na repartição competente. O primeiro caminhão destinado à coleta de lixo da cidade chegaria em 1911, adquirido pelo cidadão contratante do serviço de limpeza urbana.

Colhi em velhos jornais que os primeiros automóveis chegaram a Teresina em 1922. Consta que a iniciativa coube ao médico Manoel Francisco Afonso Ferreira. Sabe-se que os primeiros motoristas se chamavam Avelino Augusto de Carvalho, Manuel Augusto de Carvalho e José Góis.

O intendente (prefeito) Anfrísio Lobão Veras Filho, em 1925, baixou o regulamento do trânsito de veículos do município e da cidade de Teresina. Criou-se também o lugar de inspetor de veículos. O mesmo ilustre administrador mandou realizar, em 1927, exame de habilitação para motoristas e adquiriu bonde de motor em São Paulo para a limpeza da estrada de ferra ao rio Parnaíba.

Coube ao chefe de polícia interino Edgar Nogueira estabelecer ruas preferenciais na capital, bem assim proibir o tráfego de automóveis e outros carros oficiais e particulares na cidade, a fim de que se correspondesse ao esforço da grande guerra iniciada em 1939.

Os primeiros sinais luminosos na cidade se instalaram em 1952, no governo Pedro Freitas, na esquina das ruas Coelho Rodrigues e Barroso e junto ao relógio da praça Rio Branco, por iniciativa do delegado Matias Melo Filho.

Escrevo estas notas ao correr da pena, com os recursos da memória. Recorde-se que nas ruas de Teresina automóveis e caminhões passavam uns pelos outros, folgadamente, o que atesta que José Antônio Saraiva e o seu braço direito João Isidoro da Silva França estabeleceram a largura das vias públicas como se previssem o futuro do homem e da sua criatura diabólica, a máquina.

X   X   X

O trânsito de Teresina necessita de um historiador para contar-lhe a longa história, rica de episódios alegres, pitorescos e trágicos. Entre os pitorescos está aquele registrado pela pena irônica de Eurípedes de Aguiar, num artigo do jornal, em que o impenitente articulista critica o gesto do saudoso delegado Matias Melo Filho, ao colocar, no ponto central do cruzamento das ruas Coelho Rodrigues e Simplício Mendes, um bisonho policial, sobre estrado de madeira de meio metro de altura, para orientar os motoristas, que se aproximavam. Segundo o mesmo percurso ou dobrando, os guiadores tinham pouco espaço para manobrar, por causa do palanque do delegado. Eurípedes conta no seu estilo gracioso e debochativo, que o pobre guarda, em vez de controlar o trânsito, largava o estrado, de carreira apressada, a medo de ser atropelado. Matias não agüentou o segundo artigo, extinguiu o melhoramento.


A. Tito Filho, 27/02/1991, Jornal O Dia – p. 4

terça-feira, 15 de maio de 2012

TEMPOS DE MEMÓRIA (1)

Quando eu menino, cheguei a Teresina, em 1932, ainda de calças curtas, a cidadezinha gozava de tranqüilidade nunca esquecida. Nada a perturbava. Tinha ruas calçadas, algumas, ou empedradas, e trilho para bonde, mas sem bonde.

Dois cinemas – um tipo poeira, o Roial, de bancos compridos, sem encosto – especialista em bangue-bangue, mas naquele tempo a gente não dizia bangue-bangue – era cinema de artista e de bandido – cinema da molecada do meu tope; o outro, o Olímpia, estava destinado à alta-roda, ao soçaite de hoje. Ambos de filmes mudos – e lá me ia esquecendo – mudos mas gesticulados, como se os gestos fossem a linguagem sonora - e as vezes é, ou pelo menos a transmite, até mais expressivamente. Cinema falado, musicado e sincronizado só em 1933.

E dois cabarés famosos no campo da vida airada: o "Cai Nágua", de madeira, perto do rio, mulherio de segunda categoria, quase bofe, e o da rosa Branca, de pegas vistosas, freqüentado por gente alta, como magistrados, comerciantes abastados, filhinhos-de-papai.

Ainda em 1937, de longe eu olhava o "Cai Nágua", que já não era um mistério para  aminha buliçosa pouca idade, mas era permanente convocação.

A elegância da cidade, de noite, estava na praça Rio Branco - andança na praça, rapazes num sentido, moças noutro sentido. Namoro de olhos, olhares que falavam e diziam tudo.

Tomava-se, e muito, refresco de pega-pinto, diziam que era bom para os rins. Muita garapa de cana, também.

Boa de ver e de morar a Teresina de rodas na calçada, de noite, até que a usina elétrica apitasse ou que a Polícia Militar corneteasse: nove horas. Hora de dormir. Casados e solteiros. Mulher casada e mulher donzela. Exceto nos dias de baile e forró.

Forró das pipiras desejadas e das curicas também. Pipiras e curicas são instituição nossa - e como se incorporaram à paisagem teresinense. Pipiras e curicas - uma delícia. Sambavam noite toda, no forró quente, namoravam pelas esquinas escuras - e a gente não sabia se eram. Hoje se sabe.

De 1938 em diante, vi, como os olhos que a terra há de comer, bolinação em cinema. Pares agarradinhos. Mãos em permanente atividade. Gente alta. Foi um morenão bonito, de cabelos compridos, que me iniciou nas práticas amorosas em salão de cinema.

Veado - dois ou três. Recebiam outros qualificativos. De profissão quase sempre cozinheiros.

Deixei assim Teresina em 1939. A roda na calçada, o carnaval sem porre e lança-perfume, o mercadão repleto de vendeiros e vendeiras, namoro de olhos e de bolinação, avião que baixava nágua, o hidroavião, quermesses em patamar de igreja, jornal de apelidos e descomposturas, quintas e pomares por toda parte, enterro de gente pobre sem banda de música e de gente rica com a respectiva, tocando um troço que espantava e fazia que a gente tivesse mais medo do enterro do que da morte - uma cidade tranqüila, afetiva e pitoresca, em que no meio-dia até uma da tarde quem quisesse fazia pipi no meio da rua, idem idem depois das nove da noite; de velórios de defuntos com mulheres desfiando terços e homens bebendo cachaça ou tiquira, para agüentar o amiudar do galo e a hora da partida do saudoso - mas uma cidade que encontrei na volta, uns dez anos depois, em busca de transformações - transformações em tudo - embora sempre afetiva, tranqüila e pitoresca.

Escritores têm-na definido e revelado; poetas têm-na cantado e exaltado. E são tantos.

De mim, quero-lhe um bem permanente e não a troco por riqueza alguma, por paisagem outra, que seja melhor do que a paisagem teresinense.

Conhecendo-a como a conheço, nas suas virtudes e desvirtudes, e por considerá-la tão original nas suas virtudes e desvirtudes - em razão disto desejo que todos a conheçam, que venham vê-la no seu afeto permanente na sua tranqüilidade espiritual, no pitoresco das suas cousas e da sua gente.

1973 - tantos anos depois dos brincos infantis - eu ainda a sinto e a estimo como a mais afetiva, a mais tranqüila, a mais pitoresca de todas as cidades do mundo.

E tenho razão. Quem aqui chega para o exercício de deveres, ou para serviços de emprego fixado, não quer mais deixá-la. Só se retira a gancho, depois de esgotar os recursos das amizades protetoras, dos padrinhos, dos pistolões. Aqui não há estrangeiros. Há teresinenses. Poucos meses de assento - e o sujeito está dono da cidade. E merecendo homenagem. E casando por aqui mesmo. E fabricando menino na Chapada do Corisco. E menino nascendo na Maternidade São Vicente.

Uma jóia - Teresina. Vem vê-la - brasileiro - e a aclamarás comigo.


A. Tito Filho, 07/08/1991, Jornal O Dia – p. 4

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MEUS BONS CABARÉS

Um dia o jornalista Pompílio Santos me pediu depoimento sobre a rua Paissandú, onde se situava a Rosa Branco e em cujas adjacências outros bons lupanares ofereciam quengas bem roliças. Eu disse ao indagador que não havia guardado muitas lembranças da ZONA do meretrício de Teresina. Quando meninote, já taludo, cheguei a Teresina, 1932. Nos primeiros tempos não me era possível freqüentar os cabarés citadinos. Mas quando atingi os 15 ou 16 janeiros, iniciei as visitações. Sem dinheiro e tomado das inibições invitáveis, limitava-me a olhar o ambiente profano, e de vez em quando, recebia um pito de gente madura e das relações paternas: "Prá casa, menino, tu ainda faz xixi na rede, vou contar a teu pai que tu tá freqüentando esta putaria".

À beira do Parnaíba mariposas exploravam marinheiros de gaiolas, de lanchas e de balsas. Beira de rio fabrica prostitutas. A prostituição da bisavó na avó, na filha, na neta, na bisneta, da forma que Assis Brasil contou.

Existiriam três famosos cabarés na zona da rua Paissandu. O de Raimundo Leite, cuja esquina e alguns quartos davam para a Paissandu. Era uma cafetina bem morena, de amigação com um gigolô que não queria dinheiro, só amor de graça. O da Gerusa, na rua São José, hoje Félix Pacheco, cabeça escura, arretada por um amigo-meu, o saudoso Salemérico Passos de Carvalho, que, por causa da ciumeira da negra, nela aplicava de quando em quando umas sonoras taponas. E o da rosa Banco, mulatona endinheirada, que ficava na rua Paissandu. As três pensões, como eram chamados esses saudosos cabarés do meu tempo, mantinham danças animadas e muito se dançava com as fogosas quengas, garotas de excessiva senvergonhice. Havia movimentado serviço de bebidas nos salões cobertos e ao ar livre.

As raparigas, no mau sentido, recebiam os fregueses em quartos bem arrumados, de penteadeira, cama e rede. Depois das libidinagens, se o sujeito não queria dormir na tipóia de varandas, dava-se o pagamento. Os quebrados enrolavam as meninas e conseguiam passar CHUMBO, mas as enganadas gritavam e xingavam o chumbista a bom xingar e o acusavam de práticas sexuais condenadas naqueles tempos ainda de anormalidade. As pegas residiam no próprio cabaré. Pagavam diária à cafetina.

No carnaval as raparigas se fantasiavam ricamente para o corso de veículos. Fretavam caminhões, os mais aplaudidos.

Ainda na década de 40 e 50 esses cabarés ofereciam o melhor espetáculo noturno de Teresina. Neles se misturavam estudantes, motoristas, professores, magistrados, comerciantes, pobres, ricos, em busca de sexo.

Na Piçarra, dava os trunfos a Calu. Negra boa. Facilitava as cousas.

Eu gostava dessas casas noturnas de garotas apetitosas vindas do Ceará, do Maranhão, do interior do Piauí. De manhã elas dormiam. De tarde recebiam quase sempre os machos de sua amigação. De noite, faziam o comércio carnaval. Mulheres que viviam o drama humano e social de viver na profissão de que a Bíblia dá conta. Os homens tinham pavor de doenças venéreas.

No cabaré a gente dançava e bebia antes do pecado maior.

Madrugada já, o saxofonista vomitava a dolência da música falando de amor. Ebrios cambaleavam. As garotas mais felizes, depois dos arrulhos, ainda arrumavam pagante da ceia nos freges das redondezas. Com os primeiros traços da claridade do dia, chegava o cansaço da noite, do álcool e dos movimentos na cama do quarto mal iluminado.

Com os amigos, eu ia quase diariamente a esses gostosos antros de prostituição. Nesse tempo as raparigas recebiam a denominação de GATOS. Quando chegavam novas levas de mulheres de São Luís e de Fortaleza, dizia-se que novos GATOS convidativos faziam as noites festivas da Raimundinha, da Rosa e da Gerusa.

Era bom. Sem AIDS. Sem violência. Sem lei da faca e do revólver. Nunca me esqueci dos cabarés da rua Paissandu, os animados cabarés, hoje derribados por força dos novos tempos de MOTÉIS e do capim das praças abandonadas de Teresina.

Era bom. Ah, os meus velhos cabarés, testemunhas de uma época feliz e de muito gozar.


A. Tito Filho, 03/03/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CRONISTAS

Da crônica dizia o bom dicionarista Morais que era a história escrita conforme a ordem dos tempos. O cronista desempenhava função pública, encarregado de escrever os episódios em que se envolviam os reis, as rainhas, os mancebos da corte. À narrativa dos acontecimentos, de intrigas, das valentias de cada época se dava o nome de crônica, e ainda ao noticiário dos jornais, às anotações do cotidiano.

A crônica assume também a posição de verdadeiro gênero literário, quando corresponde a concepções de natureza livre, provocadas pela observação dos fatos no dia-a-dia da vida, no passado e no presente, refletida através de um temperamento.

Também se criou a dita crônica social, que se encarrega de registrar a refinada mobilidade do soçaite, na moda, nos prazeres, nas recepções, nas alegrias, nas festocas, festinhas e festanças. É o colunismo alimentador da vaidade, das tricas e futricas de alta roda.

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Quero crer que o primeiro cronista social de Teresina tenha sido o mestre construtor João Isidoro da Silva França, que depois de lançada a pedra fundamental da igreja do Amparo, a 25 de dezembro de 1850, fez a comunicação do acontecimento ao presidente José Antônio Saraiva: "Ao depois de uma missa do senhor vigário dita no meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila... e mais imensidade de povos de fora, que aqui se ajuntou... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada...".

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No Rio de Janeiro, aí pelos anos quarenta, estava na moda o cronista social Ibrahim Sued, amado pelos homens e pelas mulheres endinheirados e infernizado por quantos o invejavam ou desmereciam suas reportagens sobre a gente fina e as respectivas futilidades.

Quando retornei ao Piauí, depois da ausência de cinco anos, aderi ao jornalismo de oposição, representado pelo jornal "O Piauí, valente no combate ao governo. Inaugurei nele, em 1948, com Milton Aguiar, o colunismo social em Teresina. O cenário sempre o mesmo, estava nos bailes matutinos aos domingos e nas festas dançantes do clube dos Diários. Ainda hoje me lembro da reportagem que recolhi na FESTA DA ROSA, que a garota Genú Aguiar promoveu na principal casa de diversões da cidade. Eu assinava as minhas crônicas com o pseudônimo de ÁUREO.

Não sei se a memória me abandona, mas no "Jornal do Piauí", em que passei a colaborar de 1951 em diante, se estampava o colunismo daquele que fez da crônica social a razão de ser do seu jornalismo, o repórter de acontecimentos ainda no batente, sempre festejado pelo elemento feminino, Paulo José.

Nesse órgão de imprensa trabalhou outro notável cronista social e que se assinava Josias C?*, recentemente entrevistado por Elvira Raulino, num das tevês teresinenses.

O extraordinário desenvolvimento da crônica social entre nós coube, segundo penso, a Elvira Raulino, que estendeu as cogitações da crônica outros elementos de reportagem, como a notícia de episódios culturais, científicos, as notas políticas de evidência, as decisões administrativas, as anotações de tudo quanto diga respeito ao interesse público, rota ou caminho que outros destacados signatários da crônica social vêm seguindo com aplausos dos que apreciam o difícil gênero.


A. Tito Filho, 11/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

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* Não está visível no original

terça-feira, 8 de maio de 2012

COSTUMES ANTIGOS

Era bom. Quando me entendi em coisas carnavalescas, ainda mascarados se apresentavam pelas ruas. Uma das características dos carnavais brasileiros do passado esteve no uso de máscaras e com esta se fazia intensa comercialização. Igualmente, as fantasias muita beleza deram aos velhos carnavais. Hoje, com elas, os foliões concorrem a prêmios geralmente concedidos pelos poderes e pelas sociedades recreativas. Constituem espetáculos de luxo e riqueza.

As músicas mais apreciadas nos carnavais antigos eram a polca, a quadrilha, a valsa, o cancã, o tango, o maxixe, substituídos pelo samba e pela marcha. Ainda em 1940 a gente cantou aquela deliciosa valsinha que diziam assim: "Antigamente uma valsa de roda/Era de fato o requinte da moda". Era bom. Alcancei, já taludo, músicas que não morrem: "Caninha Verde", "Touradas em Madri", "Jardineira", "Lourinha", "O Pirata da Perna de Pau" - que tempos alegres. Era bom. A gente cantava o samba dengoso "Helena, Helena, vem me consolar", de bonita letra.

Nunca me esqueço do Zé Pereira de outras épocas. Alguns rapazes animados, eu entre eles, numa carroça enfeitada, percorríamos a avenida Frei Serafim, que se chamava Getúlio Vargas.

Quem pode deslembrar-se do lança-perfume, e das batalhas que jovens machos e fêmeas travavam na praça Rio Branco, cinco horas da tarde? A gente procurava acertar o líquido forte da bisnaga nos seios das garotas. Era bom. Também se feriam batalhas animadas de confete. As rodelinhas se atiravam pelos foliões e folionas uns aos outros. Da mesma forma com o talco. Outra animação se promovia com a serpentina, uma fita estreita de papel colorido, enrolada sobre si mesma de disco, e que se desenrolava, quando atirada, mantendo-se uma das pontas segura. Muito usado nos folguedos de rua.

Havia os blocos, representados por conjuntos de amigos que brincavam com os mesmos trajes ou com os mesmos disfarces. Quase sempre se estabelecia muita rivalidade entre eles, em busca de premiação. Participei de blocos animadíssimos.

Quem não se recorda do corso? Cinco da tarde até sete da noite, seguiam veículos lotados de foliões dos dois sexos por determinado itinerário que as autoridades fixavam. Uma beleza de alegria dos participantes. Automóveis e caminhões, jipes e camionetes, um atrás do outro, e os ocupantes em cantoria permanente. Num desses carros, de fantasias berrantes, as raparigas da zona do meretrício. As caboclas obtinham licença da Polícia para o desfile, saias compridas, cantavam cantigas carnavalescas em moda.

Era bom o carnaval de rua. Jovens, maduros e velhos exibiam trajes engraçados, às vezes marginais. Alguns desses foliões se juntavam para a formação de pequenos blocos que desfilavam pelas vias principais de Teresina. A figura central dos tipos carnavalescos dos blocos de rua, pela adesão à folia de todos os anos e esfuziante animação, dançando e cantando, e o alfaiate Bernardo, um dos mais conhecidos dos louros frescos da cidade, assumido, saia comprida e rodada, sutiã e um bocado de colares e pulseiras. Nos dias correntes a veadagem tomou conta do carnaval de rua de Teresina.

Por fim, surgiu a escola de samba, associação popular que desfila em conjunto. Os participantes vestem ricas fantasias, e cantam e dançam. Sobre elas ainda escreveremos algumas linhas noutra edição. Carnaval de antigamente, sim, era bom.


A. Tito Filho, 09/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 5 de maio de 2012

RODA DE CALÇADA

Uma instituição de Teresina, tempos atrás, e roda de calçada. Após o sol posto, boquinha da noite, quando desciam as sombras noturnas, os empregados já tinham ordem de colocar as cadeiras na porta da rua. Formavam-se rodas de conversação entre as pessoas da família e outros freqüentadores, ao cintilar das estrelas, ao clarão do luar ou à luz mortiça da fraca luz elétrica, que às vezes faltava nas vias públicas a fim de que se melhorasse a do interior das residências. Feitas a roda, aguardavam-se os ventos refrescantes soprados do litoral. A capital tinha pouca vida noturna, reduzida aos hotéis, a alguns botiquins e cabarés de mulherio sem freguesia, salvo aos sábados.

Por causa de uma roda de calçada foi assassinado o meritíssimo julgador Lucrécio Dantas Avelino no distante 1927, ano em que também um assassino perverso matou o motorista Gregório, às margens do Poti, do lado de cá. O caso do juiz se deu assim. Apreciava o magistrado a roda na calçada de seu palacete presidencial, onde funcionava o animado prostíbulo Bola Preta, de cunhãs fogosas, e o Colégio Demóstenes Avelino. Nove da noite, os amigos começaram a despedir-se no rumo de casa, em busca das redes macias adornadas de varandas bonitas. em palestra ficou mais um pouco o desembargador Cromwell de Carvalho. Perto das dez, Cromwell se despede. Lucrécio põe as cadeiras no interior do prédio, tranca-se e mal começa a subir a escada para o andar de cima, ouve batidas na porta. Julga que o amigo desembargador talvez se houvesse esquecido de algum assunto, abre a porta, cercam-no dois ou três indivíduos e um deles lhe vibrou facada mortal.

Na rua Bela, agora Teodoro Pacheco , o cidadão Pedro Bezerra residia e tinha comércio. Recebia de Portugal barris de vinho tinto, marca PRR, muito apreciado pelo sabor e de uso generalizado. À noite se formava a roda, em que se viam presentes, com freqüência, mestre Higino cunha, o médico Bonifácio de Carvalho e o poeta Baurélio Mangabeira, personalidades que honravam as noites do comerciante, que lhe vendia e aos outros participantes copos do afamado vinho. A essa ilustre companhia foi levado o famoso improvisador Pedro Britto, que passou a freqüentar habitual.

Baurélio Mangabeira, tempos depois, produziu versos de exaltação à bebida, comparando-a ao sangue de Jesus. Deste modo compôs os tercetos do soneto: "Eu te saúdo Portugal burguês! / Com teu famoso vinho português / As portas dos teus poetas nunca corres... / Que o generoso fluido me endoideça / Mortal não há, talvez, que não o conheça / As virtudes do sacre PÊ e DOIS ERRES...".

Quando eu era frangote, não perdia a rodada de calçada da família, na rua São José, hoje chamada Félix Pacheco, onde morávamos, pertinho da praça Saraiva, no trecho que dava no Parnaíba. Papai me dava um níquel, moeda boa, e eu com a jarra de vidro, pela rua Rui Barbosa, ia comprar pega-pinto, cinco copos por um tostão. Era bom. Os adultos trocavam idéias e notícias, e a negra velha, cozinheira vinda do Peixe, agora nossa Senhora dos Remédios, me contava estórias maravilhosas de reis poderosos e príncipes encantados. Dez horas o sono pegava a gente e se buscava a rede convidativa.

Uma senhora inteligente, proprietária de linguagem simples e de estilo agradável, escreveu O OITÃO, uma narrativa sobre a deliciosa [e] tranqüila Teresina dos anos 50. Chama-se Ana Clélia Napoleão. Uma gostosoura de livro, com a história do avô Pedro Britto e de sua roda de calçada. Depois eu digo mais do trabalho da autora.


A. Tito Filho, 03-04/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

ASSUNTOS

Heráclito Fortes, administrador de Teresina dos melhores que já houve, com certeza tem mais nas suas preocupações a desfiguração de Teresina, cidade onde nasceu. não lhe cabe culpa alguma do que fizeram com a cidade de Saraiva.

Teresina é das mais maltratadas cidades brasileiras. Vigoram as paisagens deformadas, como se estivessem constantemente sob apedrejamento. Certas áreas de lazer são sujas, incentivam a malandragem e fogem aos objetivos para os quais foram criadas. Contam-se por todos os dedos e mais alguns os aspectos desfigurados da outrora singela capital. Fizeram-se calçadões e estes vivem repletos de camelôs, criando-se o comércio paralelo. A praça Rio Branco, outrora recanto repousante e alegre, semelha nos dias que correm uma concentração de desocupados. A praça João Luís Ferreira, de elegantes bambuais nos velhos tempos, local de espairecimento de crianças nos jogos inocentes das bolinhas de gude, serve agora de mercado, onde se vendem frutas, brequefeste para os pobres diabos da previdência que não pregaram o olho, e outros tipos de alimentação de vítimas da quebradeira. Que dizer da pracinha querida, de namoricos dos bons tempos, alegre, convidativa, a Pedro II? Corresponde hoje a uma vasta concentração de mundanas, cachaceiros, qualiras, drogados, sapatões e indivíduos sem aptidão para o trabalho.

Fez-se a chamada PRAINHA para a diversão, os encontros amigos, o descanso sexta-feirinho, sabativo e dominical, o que ocorreu nos primeiros dias. Jaz como área de favela, e os bares típicos acolhem farristas e respectivas cachaçadas. Não há nela segurança e viceja o crime, sempre que se desentendem os deseducados para a vida.

Uma lástima o Parque da Cidade. Foi feito para o companheirismo, para a prática desportiva, para as refeições fora de casa, nos dias festivos da semana. Os desabusados depredaram-no.

Ao cabo de contas, nenhum respeito merece a cidade que José Antônio Saraiva idealizou e construiu com sacrifício e coragem. Os teresinenses, na sua maioria, insolentes e desrespeitadores, não têm sido fiéis à memória do saudoso e querido patrício.

*   *   *

Ninguém mais se lembra de Job Vial, de crônicas saborosas sobre esta Teresina deformada. Job Vial outro não se era Joel Oliveira, pesquisador, humorista, colecionador de estórias de gente e de bichos da cidade a que ele dedicava afeição permanente. Busquei-o agora nos meus arquivos e reli "Quintas e Quintais", numa das recordações de Joel - e nessa crônica está o teresinense preocupado com o cultivo das árvores frutíferas abundantes na capital piauiense - a cidade verde, hoje de matas derribadas e sem pés de frutas de colheita segura para as merendas fartas. Havia terrenos plantados por toda parte, e cada celeiro possuía denominação ligada a mulher do proprietário, como a célebre Lavinópolis, ou recebia nomes de cidades, a exemplo de Olinda, Petrópolis, ou nomes de terras distantes - Granada, Zurich, Catânia, ainda se lembravam santos, Tebaida, Betânia, - e por esta forma se conheciam dezenas de quintas e quintais de Teresina, de abundante produção de variadas frutas - goiaba, groselha, pitomba, carambola, banana, limão, figo, sapoti, laranja - e a laranja tinha variedade enorme e dava trabalho livrá-las dos pulgões, das brocas e de outros males. Quantos nomes de laranjas estão na lembrança da gente: a seleta, a bahia, o mimo-do-céu, pingo-de-ouro, natal, pêra, mel-rosa, da-china, tanja, lima, mandarim, cada uma melhor que a outra. Nos dias que correm ainda se encontram alguns tipos desses ricos alimentos cítricos. Já agora em 1987 sumiu-se o caju. Safra pequeníssima. O caju que nada custava a quem o comia, apanhando-o debaixo dos cajuais nas matas teresinenses, derribadas pelo machado das construtoras. O caju da castanha de que o índio se servia para contar a idade. Cada castanha, mais um ano de vida. Menina de castanha, sim, era menina prendada. Jogava-se castanha nas calçadas, sem lambança. O caju dava ainda a cajuada, a cajuína, o doce, o tira-gosto. O pequenino, o cajuí, tinha também seu emprego. Sumiu-se a manga, ou quase está a desaparecer: a de biquinho, a governadora, moscatel, a jambo, a vovó, a espada, a vista-alegre, a de leite - restam hoje a rosa, a lira, a de fiapo, a manguita-do-correio, por preços inacessíveis.

Joel Oliveira, o Job Vial das crônicas saborosas de antigamente, cultor do humorismo à inglesa, se vivo estivesse se decepcionaria com uma Teresina sem arvores frutíferas, a sua riqueza de antigamente - fartura das mesas pobres e da classe média, num tempo em que os pobres podiam viver e a classe média governava uma sociedade justa e decente.

 
A. Tito Filho, 18/05/1991, Jornal O Dia, p. 4