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sexta-feira, 18 de maio de 2012

TEMPOS DE MEMÓRIA (2)

Quando eu deixei Teresina, em janeiro de 1937, havia uma novidade em caminho: o telefone. Operários armavam os cabos duplos nos velhos postes de ferro, sob o comando de um engenheiro alemão ou sueco, louro, vermelho, suado e em mangas de camisa. É claro que, entre as penas que levei comigo, ao tomar em Flores o trenzinho, figurava essa de não assistir a inauguração do telefone. Teresina, que acabava de ajardinar mais uma praça, a Pedro II, e embelezar a pequena avenida em frente ao Palácio, progredia. E progredia no exato momento que eu me ia embora.

Isso não só era irreparável porque eu, como a maioria dos jovens que deixavam a terra natal, pensava em voltar. Voltar para viver ali, naquele chão da infância, em meio àquela gente que sonhava intensamente e que se recusava a crer na própria pobreza.

Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição. No trem, recitava os versos de Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância / ficou longe de mim adormecida...". E me lembrava do poeta Celso Pinheiro a contar a meu pai que, em São Luís, que visitava um dia, ficara tão inconformado por estar distante da sua terra que tinha saudades até das folhas que caíam das árvores de seu quintal.

Teresina, que aos nossos olhos ingênuos se afigurava quase que como uma metrópole, era uma pequena cidade, de trinta a quarenta mil habitantes, se tanto, com casas de telha em sete ou oito ruas e um vasto casario de palha, informe, sem conforto, que abrigava dois terços da população. No entanto, era doce o convívio da família e dos vizinhos, era doce a cidade. O calor, que só vim a perceber mais tarde, não deixou marca na minha infância nem na minha memória. Ele não existia para quem levava a vida solta dos quintais e das ruas, nos regatos que se formava depois das chuvas, nas carrerias noturnas pelos caminhos de terra e capim, no futebol da "bacia", nas brincadeiras que nos conduziam da beira do Parnaíba à beira do Poti.

Entre a rua da Estrela e a rua são José, passando pelas ruas da Glória do Amparo, dos Negros, do Fio, rua Grande, rua Bela e Paissandu - belos nomes que deveriam ressurgir - estava a cidade, toda ela, para as pessoas da nossa condição social. A Avenida Frei Serafim, hoje Getúlio Vargas, era uma promessa e um abrigo para as famílias mais prósperas. Ainda hoje identifico na memória as casas, uma a uma, e as famílias que as habitavam, parente, amigos, conhecidos.

Desconhecido era então só o caixeiro-viajante que se hospedava por algumas noites no Teresina Hotel.

A vida, já se vê, era simples e íntima. O Governador Joca Pires, à noite, sentava-se num banco da Praça, cercado de amigos e das pessoas de prol. lá a retreta, como os outros, o professor, o juiz, o estudante, a mocinha. Ouviam-se as mesmas histórias e a mesma música tocada no coreto pela banda militar.

Havia um único clube, o dos Diários, mas se dançava em qualquer casa onde houvesse moças. No mês que antecedia o carnaval, cada domingo depois da missa das nove na Igreja do Amparo, Joel Oliveira, cabeça branca, e um senhor que tinha o apelido de João Senhora, porque usava leque, e se assinava Carlos Borromeu nos escritos da imprensa local - comandavam os "assaltos" com que se esquentava a cidade para a grande festa. O carnaval era um misto de danças, cordões, corso e divertimento intelectuais, pois se editavam jornaizinhos humorísticos em que se  punha todo mundo na berlinda.

Folguedos populares eram poucos. Havia irrupção de "marujos" no adro das igrejas na Semana Santa e o "bumba-meu-boi" dos bairros distantes na época de São João. E as novenas, com prendas, e os mafuás. No Natal, havia o presépio de dona Quequé, que a cidade inteira ia visitar.

A cidade tinha sua alma e seus intérpretes, poetas e escritores, gramáticos, professores. Geração de bacharéis formada no Recife sob a égide de Tobias Barreto e Sílvio Romero - na qual se integrava entre os mais jovens meu pai, o Desembargador Cristino Castelo Branco, que mantinha o teor do debate intelectual, discutindo em saraus e conferências, reuniões da Academia Piauiense de Letras, na Maçonaria e até em Igrejas, onde pelo menos uma vez o padre teve seu sermão contestado. Mestre Higino Cunha, venerável, que ensinava latim e tocava piano, mantinha acesa a chama e reunia em torno de si escritores e estudantes. A nós, transmitia algo da sua imensa cultura, inclusive o modo de beber e a cronologia dos drinks e dos vinhos. Professor, e a cerveja? 
  
Perguntou-lhe um rapaz ao fim de uma dessas lições. Imperturbável, mestre Higino Cunha respondeu: "Cerveja, meu filho, é refresco. A gente bebe o dia inteiro".

Nem tudo era amenidade na Teresina daquele tempo. A agressividade explodia nas polêmicas jornalísticas, nos panfletos, nas campanhas políticas. Mestre Higino escrevia a "história do Pai do Jumentão" ou soltava boletins contra pessoas que profanavam a loja maçônica; vade retro Satanás... 


A. Tito Filho, 08/08/1991, Jornal O Dia - p. 4

terça-feira, 15 de maio de 2012

TEMPOS DE MEMÓRIA (1)

Quando eu menino, cheguei a Teresina, em 1932, ainda de calças curtas, a cidadezinha gozava de tranqüilidade nunca esquecida. Nada a perturbava. Tinha ruas calçadas, algumas, ou empedradas, e trilho para bonde, mas sem bonde.

Dois cinemas – um tipo poeira, o Roial, de bancos compridos, sem encosto – especialista em bangue-bangue, mas naquele tempo a gente não dizia bangue-bangue – era cinema de artista e de bandido – cinema da molecada do meu tope; o outro, o Olímpia, estava destinado à alta-roda, ao soçaite de hoje. Ambos de filmes mudos – e lá me ia esquecendo – mudos mas gesticulados, como se os gestos fossem a linguagem sonora - e as vezes é, ou pelo menos a transmite, até mais expressivamente. Cinema falado, musicado e sincronizado só em 1933.

E dois cabarés famosos no campo da vida airada: o "Cai Nágua", de madeira, perto do rio, mulherio de segunda categoria, quase bofe, e o da rosa Branca, de pegas vistosas, freqüentado por gente alta, como magistrados, comerciantes abastados, filhinhos-de-papai.

Ainda em 1937, de longe eu olhava o "Cai Nágua", que já não era um mistério para  aminha buliçosa pouca idade, mas era permanente convocação.

A elegância da cidade, de noite, estava na praça Rio Branco - andança na praça, rapazes num sentido, moças noutro sentido. Namoro de olhos, olhares que falavam e diziam tudo.

Tomava-se, e muito, refresco de pega-pinto, diziam que era bom para os rins. Muita garapa de cana, também.

Boa de ver e de morar a Teresina de rodas na calçada, de noite, até que a usina elétrica apitasse ou que a Polícia Militar corneteasse: nove horas. Hora de dormir. Casados e solteiros. Mulher casada e mulher donzela. Exceto nos dias de baile e forró.

Forró das pipiras desejadas e das curicas também. Pipiras e curicas são instituição nossa - e como se incorporaram à paisagem teresinense. Pipiras e curicas - uma delícia. Sambavam noite toda, no forró quente, namoravam pelas esquinas escuras - e a gente não sabia se eram. Hoje se sabe.

De 1938 em diante, vi, como os olhos que a terra há de comer, bolinação em cinema. Pares agarradinhos. Mãos em permanente atividade. Gente alta. Foi um morenão bonito, de cabelos compridos, que me iniciou nas práticas amorosas em salão de cinema.

Veado - dois ou três. Recebiam outros qualificativos. De profissão quase sempre cozinheiros.

Deixei assim Teresina em 1939. A roda na calçada, o carnaval sem porre e lança-perfume, o mercadão repleto de vendeiros e vendeiras, namoro de olhos e de bolinação, avião que baixava nágua, o hidroavião, quermesses em patamar de igreja, jornal de apelidos e descomposturas, quintas e pomares por toda parte, enterro de gente pobre sem banda de música e de gente rica com a respectiva, tocando um troço que espantava e fazia que a gente tivesse mais medo do enterro do que da morte - uma cidade tranqüila, afetiva e pitoresca, em que no meio-dia até uma da tarde quem quisesse fazia pipi no meio da rua, idem idem depois das nove da noite; de velórios de defuntos com mulheres desfiando terços e homens bebendo cachaça ou tiquira, para agüentar o amiudar do galo e a hora da partida do saudoso - mas uma cidade que encontrei na volta, uns dez anos depois, em busca de transformações - transformações em tudo - embora sempre afetiva, tranqüila e pitoresca.

Escritores têm-na definido e revelado; poetas têm-na cantado e exaltado. E são tantos.

De mim, quero-lhe um bem permanente e não a troco por riqueza alguma, por paisagem outra, que seja melhor do que a paisagem teresinense.

Conhecendo-a como a conheço, nas suas virtudes e desvirtudes, e por considerá-la tão original nas suas virtudes e desvirtudes - em razão disto desejo que todos a conheçam, que venham vê-la no seu afeto permanente na sua tranqüilidade espiritual, no pitoresco das suas cousas e da sua gente.

1973 - tantos anos depois dos brincos infantis - eu ainda a sinto e a estimo como a mais afetiva, a mais tranqüila, a mais pitoresca de todas as cidades do mundo.

E tenho razão. Quem aqui chega para o exercício de deveres, ou para serviços de emprego fixado, não quer mais deixá-la. Só se retira a gancho, depois de esgotar os recursos das amizades protetoras, dos padrinhos, dos pistolões. Aqui não há estrangeiros. Há teresinenses. Poucos meses de assento - e o sujeito está dono da cidade. E merecendo homenagem. E casando por aqui mesmo. E fabricando menino na Chapada do Corisco. E menino nascendo na Maternidade São Vicente.

Uma jóia - Teresina. Vem vê-la - brasileiro - e a aclamarás comigo.


A. Tito Filho, 07/08/1991, Jornal O Dia – p. 4

sábado, 12 de maio de 2012

IRRESPONSABILIDADE

Os velhos e saudosos carnavais que eu conheci começavam sábado de noite e prosseguiam até terça-feira. No dia seguinte, cinzas, os cristãos meditavam. Tudo alegria, companheiros, educação. Realizavam-se bailes animadíssimos, coros maravilhosos e um carnaval de rua bem carregado de bom humor. Pobres e remediados se empregavam à folia, sem excessos. Assim se dava também quando eu não havia nascido. Já em 1870 surgiu a primeira sociedade carnavalesca. Folguedos na praça Saraiva. Ano de 1983 criaram-se dois clubes de festas deslumbrantes, o Fenianos e of Fênix. A alta-roda comparecia de ricas fantasias, como a Lili Lopes, avó de Genuzinha Aguiar correia: vestido de cetim branco com apanhado de gaze dourada, volta e pulseira de pérolas brilhantes. Ainda a conheci proprietária da Botica do Povo, na praça Rio Branco. Um dos mais empolgantes foi o de 1914, com os dançarinos Miguel Rosa, Luís Correia, Fenelon castelo Branco, Abdias Neves, Nogueira Tapety, Mário Batista, João Pinheiro, Casusa Avelino, Lindolfo Monteiro, Tote Carvalho, Ney Ferraz, Heli Castelo Branco, intelectuais, médicos, políticos. Entusiástico o de 1920, de carros alegóricos. Batalha de lança-perfume e confete. Intransitável a praça rio Branco. Muita Gente projetada nos bailes. As caboclas, chamadas segunda, também ditas curicas, dançavam nos gostosos forrós dos arredores da cidade. Verdadeiro delírio o carnaval de 1921. Bailes deslumbrantes na Assembléia Legislativa. Pululavam a bom pular João Luís Ferreira, Matias Olímpio, Anfrísio Lobão, Jarbas Martins, Ernesto Batista, Leônidas Melo, Dídimo Castelo Branco, Joel Mendes. Nesse ano surgiu o clube dos Fanfarrões, que promoveu sempre dois bailes, no sábado e na 2ª feira. Surgiria em 1922 o Clube dos diários, ainda de pé, consagrado agora aos velhos e velhas que se esfregam e se arrocham uma vez por semana nos seus salões deteriorados e sujos. Um delírio a folia de 1925. Participaram com inexcedível entusiasmo do carnaval de 1934 Rocha Furtado, Cláudio Pacheco, Salmon Lustosa, Firmino Paz, para citar gente viva. Caiu nos dias 22, 23, 24 e 25 de fevereiro o carnaval de 1941. Presença do primeiro Rei momo, recebido na praça Pedro II pelo interventor Leônidas Melo. Ainda se verificou um excelente carnaval em 1947. Os principais foliões solteiros, alguns falecidos, outros vivos, foram Ângelo Pereira da Silva, Milton Aguiar, Tito Filho, Elói do Egito Coelho, José Lopes Aguiar, João de Deus Fonseca Filho, João Mendes Olímpio de Melo, Carlos Alberto Paz. Jovens mais animadas: Anita Freitas, Iracema Freitas, Maria do Amparo Araújo, Miriam nogueira do Rego Monteiro. Festas maravilhosas no clube dos Diários e no Teatro 4 de Setembro.

Houve o declínio por toda parte. Desanimados folguedos nas ruas, extinção do corso de automóveis e caminhões, e o triste espetáculo das escolas de samba, de caráter competitivo, com o apoio de órgãos públicos.

O carnaval, de certo tempo a esta parte transformou-se em devassidão, com bailes de mulheres peladas, gueis pelo torto e pelo direito e o cenário de sexo despudorado, como se vê nas transmissões televisivas do Rio e de são Paulo.

A festa que tinha inicio no sábado de noite se esticou, indo de quinta ou sexta-feira até quarta ou quinta-feira. a nação pára de trabalhar cinco, seis dias seguidamente, e a violência campeia destravada. Enchem-se os hospitais. Gastam-se as economias de um ano inteiro. Um desperdício de dinheiro inacreditável nas escolas de samba do rio de Janeiro, cada vez mais luxuosas. Já se construiu um SAMBÓDROMO, local dos desfiles milionários, cuja denominação híbrida de grego e africano revela besteirice refina. em Teresina, até pouco tempo passado, o poder público prestava apoio a milhares de pessoas, às quais se distribuíam tonéis de valente cachaça, em circunstância que não se registrava antigamente.

O Brasil e o Piauí atravessam crise em todos os sentidos. Há fome, doença, miséria, indigência, hospitais sem funcionamento, escolas públicas fechadas e uma guerra, terrível carnificina, tirando vidas e impondo sofrimentos, enquanto as almas sem solidariedade se entregam a festas vaidosas e maléficas.

O país vive instantes de irresponsabilidade.


A. Tito Filho, 10-11-12-13/02/1991, Jornal O Dia

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MEUS BONS CABARÉS

Um dia o jornalista Pompílio Santos me pediu depoimento sobre a rua Paissandú, onde se situava a Rosa Branco e em cujas adjacências outros bons lupanares ofereciam quengas bem roliças. Eu disse ao indagador que não havia guardado muitas lembranças da ZONA do meretrício de Teresina. Quando meninote, já taludo, cheguei a Teresina, 1932. Nos primeiros tempos não me era possível freqüentar os cabarés citadinos. Mas quando atingi os 15 ou 16 janeiros, iniciei as visitações. Sem dinheiro e tomado das inibições invitáveis, limitava-me a olhar o ambiente profano, e de vez em quando, recebia um pito de gente madura e das relações paternas: "Prá casa, menino, tu ainda faz xixi na rede, vou contar a teu pai que tu tá freqüentando esta putaria".

À beira do Parnaíba mariposas exploravam marinheiros de gaiolas, de lanchas e de balsas. Beira de rio fabrica prostitutas. A prostituição da bisavó na avó, na filha, na neta, na bisneta, da forma que Assis Brasil contou.

Existiriam três famosos cabarés na zona da rua Paissandu. O de Raimundo Leite, cuja esquina e alguns quartos davam para a Paissandu. Era uma cafetina bem morena, de amigação com um gigolô que não queria dinheiro, só amor de graça. O da Gerusa, na rua São José, hoje Félix Pacheco, cabeça escura, arretada por um amigo-meu, o saudoso Salemérico Passos de Carvalho, que, por causa da ciumeira da negra, nela aplicava de quando em quando umas sonoras taponas. E o da rosa Banco, mulatona endinheirada, que ficava na rua Paissandu. As três pensões, como eram chamados esses saudosos cabarés do meu tempo, mantinham danças animadas e muito se dançava com as fogosas quengas, garotas de excessiva senvergonhice. Havia movimentado serviço de bebidas nos salões cobertos e ao ar livre.

As raparigas, no mau sentido, recebiam os fregueses em quartos bem arrumados, de penteadeira, cama e rede. Depois das libidinagens, se o sujeito não queria dormir na tipóia de varandas, dava-se o pagamento. Os quebrados enrolavam as meninas e conseguiam passar CHUMBO, mas as enganadas gritavam e xingavam o chumbista a bom xingar e o acusavam de práticas sexuais condenadas naqueles tempos ainda de anormalidade. As pegas residiam no próprio cabaré. Pagavam diária à cafetina.

No carnaval as raparigas se fantasiavam ricamente para o corso de veículos. Fretavam caminhões, os mais aplaudidos.

Ainda na década de 40 e 50 esses cabarés ofereciam o melhor espetáculo noturno de Teresina. Neles se misturavam estudantes, motoristas, professores, magistrados, comerciantes, pobres, ricos, em busca de sexo.

Na Piçarra, dava os trunfos a Calu. Negra boa. Facilitava as cousas.

Eu gostava dessas casas noturnas de garotas apetitosas vindas do Ceará, do Maranhão, do interior do Piauí. De manhã elas dormiam. De tarde recebiam quase sempre os machos de sua amigação. De noite, faziam o comércio carnaval. Mulheres que viviam o drama humano e social de viver na profissão de que a Bíblia dá conta. Os homens tinham pavor de doenças venéreas.

No cabaré a gente dançava e bebia antes do pecado maior.

Madrugada já, o saxofonista vomitava a dolência da música falando de amor. Ebrios cambaleavam. As garotas mais felizes, depois dos arrulhos, ainda arrumavam pagante da ceia nos freges das redondezas. Com os primeiros traços da claridade do dia, chegava o cansaço da noite, do álcool e dos movimentos na cama do quarto mal iluminado.

Com os amigos, eu ia quase diariamente a esses gostosos antros de prostituição. Nesse tempo as raparigas recebiam a denominação de GATOS. Quando chegavam novas levas de mulheres de São Luís e de Fortaleza, dizia-se que novos GATOS convidativos faziam as noites festivas da Raimundinha, da Rosa e da Gerusa.

Era bom. Sem AIDS. Sem violência. Sem lei da faca e do revólver. Nunca me esqueci dos cabarés da rua Paissandu, os animados cabarés, hoje derribados por força dos novos tempos de MOTÉIS e do capim das praças abandonadas de Teresina.

Era bom. Ah, os meus velhos cabarés, testemunhas de uma época feliz e de muito gozar.


A. Tito Filho, 03/03/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CRONISTAS

Da crônica dizia o bom dicionarista Morais que era a história escrita conforme a ordem dos tempos. O cronista desempenhava função pública, encarregado de escrever os episódios em que se envolviam os reis, as rainhas, os mancebos da corte. À narrativa dos acontecimentos, de intrigas, das valentias de cada época se dava o nome de crônica, e ainda ao noticiário dos jornais, às anotações do cotidiano.

A crônica assume também a posição de verdadeiro gênero literário, quando corresponde a concepções de natureza livre, provocadas pela observação dos fatos no dia-a-dia da vida, no passado e no presente, refletida através de um temperamento.

Também se criou a dita crônica social, que se encarrega de registrar a refinada mobilidade do soçaite, na moda, nos prazeres, nas recepções, nas alegrias, nas festocas, festinhas e festanças. É o colunismo alimentador da vaidade, das tricas e futricas de alta roda.

*   *   *

Quero crer que o primeiro cronista social de Teresina tenha sido o mestre construtor João Isidoro da Silva França, que depois de lançada a pedra fundamental da igreja do Amparo, a 25 de dezembro de 1850, fez a comunicação do acontecimento ao presidente José Antônio Saraiva: "Ao depois de uma missa do senhor vigário dita no meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila... e mais imensidade de povos de fora, que aqui se ajuntou... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada...".

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No Rio de Janeiro, aí pelos anos quarenta, estava na moda o cronista social Ibrahim Sued, amado pelos homens e pelas mulheres endinheirados e infernizado por quantos o invejavam ou desmereciam suas reportagens sobre a gente fina e as respectivas futilidades.

Quando retornei ao Piauí, depois da ausência de cinco anos, aderi ao jornalismo de oposição, representado pelo jornal "O Piauí, valente no combate ao governo. Inaugurei nele, em 1948, com Milton Aguiar, o colunismo social em Teresina. O cenário sempre o mesmo, estava nos bailes matutinos aos domingos e nas festas dançantes do clube dos Diários. Ainda hoje me lembro da reportagem que recolhi na FESTA DA ROSA, que a garota Genú Aguiar promoveu na principal casa de diversões da cidade. Eu assinava as minhas crônicas com o pseudônimo de ÁUREO.

Não sei se a memória me abandona, mas no "Jornal do Piauí", em que passei a colaborar de 1951 em diante, se estampava o colunismo daquele que fez da crônica social a razão de ser do seu jornalismo, o repórter de acontecimentos ainda no batente, sempre festejado pelo elemento feminino, Paulo José.

Nesse órgão de imprensa trabalhou outro notável cronista social e que se assinava Josias C?*, recentemente entrevistado por Elvira Raulino, num das tevês teresinenses.

O extraordinário desenvolvimento da crônica social entre nós coube, segundo penso, a Elvira Raulino, que estendeu as cogitações da crônica outros elementos de reportagem, como a notícia de episódios culturais, científicos, as notas políticas de evidência, as decisões administrativas, as anotações de tudo quanto diga respeito ao interesse público, rota ou caminho que outros destacados signatários da crônica social vêm seguindo com aplausos dos que apreciam o difícil gênero.


A. Tito Filho, 11/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

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* Não está visível no original

terça-feira, 8 de maio de 2012

COSTUMES ANTIGOS

Era bom. Quando me entendi em coisas carnavalescas, ainda mascarados se apresentavam pelas ruas. Uma das características dos carnavais brasileiros do passado esteve no uso de máscaras e com esta se fazia intensa comercialização. Igualmente, as fantasias muita beleza deram aos velhos carnavais. Hoje, com elas, os foliões concorrem a prêmios geralmente concedidos pelos poderes e pelas sociedades recreativas. Constituem espetáculos de luxo e riqueza.

As músicas mais apreciadas nos carnavais antigos eram a polca, a quadrilha, a valsa, o cancã, o tango, o maxixe, substituídos pelo samba e pela marcha. Ainda em 1940 a gente cantou aquela deliciosa valsinha que diziam assim: "Antigamente uma valsa de roda/Era de fato o requinte da moda". Era bom. Alcancei, já taludo, músicas que não morrem: "Caninha Verde", "Touradas em Madri", "Jardineira", "Lourinha", "O Pirata da Perna de Pau" - que tempos alegres. Era bom. A gente cantava o samba dengoso "Helena, Helena, vem me consolar", de bonita letra.

Nunca me esqueço do Zé Pereira de outras épocas. Alguns rapazes animados, eu entre eles, numa carroça enfeitada, percorríamos a avenida Frei Serafim, que se chamava Getúlio Vargas.

Quem pode deslembrar-se do lança-perfume, e das batalhas que jovens machos e fêmeas travavam na praça Rio Branco, cinco horas da tarde? A gente procurava acertar o líquido forte da bisnaga nos seios das garotas. Era bom. Também se feriam batalhas animadas de confete. As rodelinhas se atiravam pelos foliões e folionas uns aos outros. Da mesma forma com o talco. Outra animação se promovia com a serpentina, uma fita estreita de papel colorido, enrolada sobre si mesma de disco, e que se desenrolava, quando atirada, mantendo-se uma das pontas segura. Muito usado nos folguedos de rua.

Havia os blocos, representados por conjuntos de amigos que brincavam com os mesmos trajes ou com os mesmos disfarces. Quase sempre se estabelecia muita rivalidade entre eles, em busca de premiação. Participei de blocos animadíssimos.

Quem não se recorda do corso? Cinco da tarde até sete da noite, seguiam veículos lotados de foliões dos dois sexos por determinado itinerário que as autoridades fixavam. Uma beleza de alegria dos participantes. Automóveis e caminhões, jipes e camionetes, um atrás do outro, e os ocupantes em cantoria permanente. Num desses carros, de fantasias berrantes, as raparigas da zona do meretrício. As caboclas obtinham licença da Polícia para o desfile, saias compridas, cantavam cantigas carnavalescas em moda.

Era bom o carnaval de rua. Jovens, maduros e velhos exibiam trajes engraçados, às vezes marginais. Alguns desses foliões se juntavam para a formação de pequenos blocos que desfilavam pelas vias principais de Teresina. A figura central dos tipos carnavalescos dos blocos de rua, pela adesão à folia de todos os anos e esfuziante animação, dançando e cantando, e o alfaiate Bernardo, um dos mais conhecidos dos louros frescos da cidade, assumido, saia comprida e rodada, sutiã e um bocado de colares e pulseiras. Nos dias correntes a veadagem tomou conta do carnaval de rua de Teresina.

Por fim, surgiu a escola de samba, associação popular que desfila em conjunto. Os participantes vestem ricas fantasias, e cantam e dançam. Sobre elas ainda escreveremos algumas linhas noutra edição. Carnaval de antigamente, sim, era bom.


A. Tito Filho, 09/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 5 de maio de 2012

RODA DE CALÇADA

Uma instituição de Teresina, tempos atrás, e roda de calçada. Após o sol posto, boquinha da noite, quando desciam as sombras noturnas, os empregados já tinham ordem de colocar as cadeiras na porta da rua. Formavam-se rodas de conversação entre as pessoas da família e outros freqüentadores, ao cintilar das estrelas, ao clarão do luar ou à luz mortiça da fraca luz elétrica, que às vezes faltava nas vias públicas a fim de que se melhorasse a do interior das residências. Feitas a roda, aguardavam-se os ventos refrescantes soprados do litoral. A capital tinha pouca vida noturna, reduzida aos hotéis, a alguns botiquins e cabarés de mulherio sem freguesia, salvo aos sábados.

Por causa de uma roda de calçada foi assassinado o meritíssimo julgador Lucrécio Dantas Avelino no distante 1927, ano em que também um assassino perverso matou o motorista Gregório, às margens do Poti, do lado de cá. O caso do juiz se deu assim. Apreciava o magistrado a roda na calçada de seu palacete presidencial, onde funcionava o animado prostíbulo Bola Preta, de cunhãs fogosas, e o Colégio Demóstenes Avelino. Nove da noite, os amigos começaram a despedir-se no rumo de casa, em busca das redes macias adornadas de varandas bonitas. em palestra ficou mais um pouco o desembargador Cromwell de Carvalho. Perto das dez, Cromwell se despede. Lucrécio põe as cadeiras no interior do prédio, tranca-se e mal começa a subir a escada para o andar de cima, ouve batidas na porta. Julga que o amigo desembargador talvez se houvesse esquecido de algum assunto, abre a porta, cercam-no dois ou três indivíduos e um deles lhe vibrou facada mortal.

Na rua Bela, agora Teodoro Pacheco , o cidadão Pedro Bezerra residia e tinha comércio. Recebia de Portugal barris de vinho tinto, marca PRR, muito apreciado pelo sabor e de uso generalizado. À noite se formava a roda, em que se viam presentes, com freqüência, mestre Higino cunha, o médico Bonifácio de Carvalho e o poeta Baurélio Mangabeira, personalidades que honravam as noites do comerciante, que lhe vendia e aos outros participantes copos do afamado vinho. A essa ilustre companhia foi levado o famoso improvisador Pedro Britto, que passou a freqüentar habitual.

Baurélio Mangabeira, tempos depois, produziu versos de exaltação à bebida, comparando-a ao sangue de Jesus. Deste modo compôs os tercetos do soneto: "Eu te saúdo Portugal burguês! / Com teu famoso vinho português / As portas dos teus poetas nunca corres... / Que o generoso fluido me endoideça / Mortal não há, talvez, que não o conheça / As virtudes do sacre PÊ e DOIS ERRES...".

Quando eu era frangote, não perdia a rodada de calçada da família, na rua São José, hoje chamada Félix Pacheco, onde morávamos, pertinho da praça Saraiva, no trecho que dava no Parnaíba. Papai me dava um níquel, moeda boa, e eu com a jarra de vidro, pela rua Rui Barbosa, ia comprar pega-pinto, cinco copos por um tostão. Era bom. Os adultos trocavam idéias e notícias, e a negra velha, cozinheira vinda do Peixe, agora nossa Senhora dos Remédios, me contava estórias maravilhosas de reis poderosos e príncipes encantados. Dez horas o sono pegava a gente e se buscava a rede convidativa.

Uma senhora inteligente, proprietária de linguagem simples e de estilo agradável, escreveu O OITÃO, uma narrativa sobre a deliciosa [e] tranqüila Teresina dos anos 50. Chama-se Ana Clélia Napoleão. Uma gostosoura de livro, com a história do avô Pedro Britto e de sua roda de calçada. Depois eu digo mais do trabalho da autora.


A. Tito Filho, 03-04/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

ASSUNTOS

Heráclito Fortes, administrador de Teresina dos melhores que já houve, com certeza tem mais nas suas preocupações a desfiguração de Teresina, cidade onde nasceu. não lhe cabe culpa alguma do que fizeram com a cidade de Saraiva.

Teresina é das mais maltratadas cidades brasileiras. Vigoram as paisagens deformadas, como se estivessem constantemente sob apedrejamento. Certas áreas de lazer são sujas, incentivam a malandragem e fogem aos objetivos para os quais foram criadas. Contam-se por todos os dedos e mais alguns os aspectos desfigurados da outrora singela capital. Fizeram-se calçadões e estes vivem repletos de camelôs, criando-se o comércio paralelo. A praça Rio Branco, outrora recanto repousante e alegre, semelha nos dias que correm uma concentração de desocupados. A praça João Luís Ferreira, de elegantes bambuais nos velhos tempos, local de espairecimento de crianças nos jogos inocentes das bolinhas de gude, serve agora de mercado, onde se vendem frutas, brequefeste para os pobres diabos da previdência que não pregaram o olho, e outros tipos de alimentação de vítimas da quebradeira. Que dizer da pracinha querida, de namoricos dos bons tempos, alegre, convidativa, a Pedro II? Corresponde hoje a uma vasta concentração de mundanas, cachaceiros, qualiras, drogados, sapatões e indivíduos sem aptidão para o trabalho.

Fez-se a chamada PRAINHA para a diversão, os encontros amigos, o descanso sexta-feirinho, sabativo e dominical, o que ocorreu nos primeiros dias. Jaz como área de favela, e os bares típicos acolhem farristas e respectivas cachaçadas. Não há nela segurança e viceja o crime, sempre que se desentendem os deseducados para a vida.

Uma lástima o Parque da Cidade. Foi feito para o companheirismo, para a prática desportiva, para as refeições fora de casa, nos dias festivos da semana. Os desabusados depredaram-no.

Ao cabo de contas, nenhum respeito merece a cidade que José Antônio Saraiva idealizou e construiu com sacrifício e coragem. Os teresinenses, na sua maioria, insolentes e desrespeitadores, não têm sido fiéis à memória do saudoso e querido patrício.

*   *   *

Ninguém mais se lembra de Job Vial, de crônicas saborosas sobre esta Teresina deformada. Job Vial outro não se era Joel Oliveira, pesquisador, humorista, colecionador de estórias de gente e de bichos da cidade a que ele dedicava afeição permanente. Busquei-o agora nos meus arquivos e reli "Quintas e Quintais", numa das recordações de Joel - e nessa crônica está o teresinense preocupado com o cultivo das árvores frutíferas abundantes na capital piauiense - a cidade verde, hoje de matas derribadas e sem pés de frutas de colheita segura para as merendas fartas. Havia terrenos plantados por toda parte, e cada celeiro possuía denominação ligada a mulher do proprietário, como a célebre Lavinópolis, ou recebia nomes de cidades, a exemplo de Olinda, Petrópolis, ou nomes de terras distantes - Granada, Zurich, Catânia, ainda se lembravam santos, Tebaida, Betânia, - e por esta forma se conheciam dezenas de quintas e quintais de Teresina, de abundante produção de variadas frutas - goiaba, groselha, pitomba, carambola, banana, limão, figo, sapoti, laranja - e a laranja tinha variedade enorme e dava trabalho livrá-las dos pulgões, das brocas e de outros males. Quantos nomes de laranjas estão na lembrança da gente: a seleta, a bahia, o mimo-do-céu, pingo-de-ouro, natal, pêra, mel-rosa, da-china, tanja, lima, mandarim, cada uma melhor que a outra. Nos dias que correm ainda se encontram alguns tipos desses ricos alimentos cítricos. Já agora em 1987 sumiu-se o caju. Safra pequeníssima. O caju que nada custava a quem o comia, apanhando-o debaixo dos cajuais nas matas teresinenses, derribadas pelo machado das construtoras. O caju da castanha de que o índio se servia para contar a idade. Cada castanha, mais um ano de vida. Menina de castanha, sim, era menina prendada. Jogava-se castanha nas calçadas, sem lambança. O caju dava ainda a cajuada, a cajuína, o doce, o tira-gosto. O pequenino, o cajuí, tinha também seu emprego. Sumiu-se a manga, ou quase está a desaparecer: a de biquinho, a governadora, moscatel, a jambo, a vovó, a espada, a vista-alegre, a de leite - restam hoje a rosa, a lira, a de fiapo, a manguita-do-correio, por preços inacessíveis.

Joel Oliveira, o Job Vial das crônicas saborosas de antigamente, cultor do humorismo à inglesa, se vivo estivesse se decepcionaria com uma Teresina sem arvores frutíferas, a sua riqueza de antigamente - fartura das mesas pobres e da classe média, num tempo em que os pobres podiam viver e a classe média governava uma sociedade justa e decente.

 
A. Tito Filho, 18/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O VELHO CLUBE

Senhores da mais alta evidência, pelo dinheiro e pelo prestígio político e intelectual, fundaram a sociedade recreativa Clube dos Diários, no ano do centenário da Independência do Brasil, 1922. Coube a primeira presidência ao comerciante e proprietário Antônio Ferraz. Deu-se o baile inaugural a 31 de dezembro do mesmo ano, na casa residencial do negociante Antônio Campos, batizada de CAMPINA MODESTA. Disseram-me depois que a festa esteve maravilhosa. Presença da fina flor da alta roda, mulheres vestidas de muito luxo e beleza. Anotaram-se na crônica da época nomes prestigiosos de homens e suas famílias, como Matias Olimpio, Miguel Rosa, Valdivino Tito, Jarbas Martins, Mário Baptista, Evandro Rocha, Sotero da Silveira, Simplício Mendes, Antonino Freire, Heli Castelo Branco, Antônio Costa Araújo Filho, Heitor Castelo Branco, Álvaro Freire, Agripino Oliveira, Antônio Chaves, Dídimo Castelo Branco, Joel Oliveira, com destaque especial para o solteirão governador João Luís Ferreira e outros.

Em 1927, houve a festiva inauguração da sede própria, no terreno doado pelo governador Matias Olimpio, a mesma que atravessou os anos até hoje, e que, de vez em quando, sofria alterações para atendimento dos novos sócios que se filiavam ano por ano. A atual sede está aumentada mais ou menos da metade do que foi antigamente.

Tornou-se essa sociedade recreativa o centro social da intensa atividade. Era a instituição querida dos teresinenses. Deslumbrantes as suas festas dançantes. Muitos namoros, noivados e casamentos tiveram inicio nos seus salões. Homenagens a políticos, banquetes, recepções ainda hoje estão na lembrança da cidade. Carnavais formidáveis vivem na recordação permanente de velhos foliões. Ali se realizaram conferencias literárias e posses acadêmicas aclamadíssimas. Eleições de misses. Reuniões de objetivo vário.
Ainda na década de 60 o Clube dos Diários, apesar do nascimento e florescimento de outros grêmios, mantinha-se altivo, como uma relíquia, freqüentado por uma sociedade que já afrouxava os freios morais de homens e mulheres. A juventude entregava-se aos primeiros passos da constatação de costumes nas coletividades humanas.

Nos fins dos anos 60 e principio da década seguinte, a agremiação tão querida entrou em decadência e chegou ao estado que chegou, requentada pelos que apreciam o jogo noturno e madrugadino, por homossexuais dos dois tipos, garotos vadios, pivetes. Ainda algumas personalidades ilustres nela espairecem, chorando intimamente as recordações de um tempo romântico que não volta mais. O ambiente está hoje de sujeira e integral desagregação física, do solo ao teto. Sombra dorida de um passado de riqueza espiritual. Em tudo, os fantasmas dos que bailaram, cantaram e se divertiram na magia de um mundo maravilhoso que a imbecilidade dos homens maus não soube preservar.

Resta ainda como vigilante do encantamento de outrora, o antigo funcionário Marcelino Rocha, o popular Marcelino, com o seu bom comércio de comes e bebes, certamente de coração em lágrimas simbólicas pela morte do bem-querer de todos nós.


A. Tito Filho, 12/07/1991, Jornal O Dia, p. 4

segunda-feira, 23 de abril de 2012

GRANDE TERESINA

Metropolitano significa pertencente ou relativo a metrópole. Que quer dizer METRÓPOLE? Palavra vinda do grego originariamente CIDADE MÃE. Diz-se da capital de país, de província, cidade principal, e por extensão, grande cidade ou cidade importante.

De certos anos aos dias de hoje, esses grandes centros populacionais passaram a ser considerados em dois aspectos: na sua área normal, composta do centro e dos seus bairros próximos e distantes, e na chamada ARÉA METROPOLITANA, que compreende as comunidades que têm íntima e constante comunicação com as cidades enormes, e em razão disto estas passam a denominar-se GRANDE seguida do nome de batismo de cada qual. Bueno Aires tem três milhões de habitantes, mas GRANDE BUENOS AIRES chega a mais de dez milhões. Nova Iorque possui uns nove milhões de almas. A GRANDE NOVA IORQUE atinge quase vinte milhões.

O Brasil criou também regiões metropolitanas, parece que em 1972, com o objetivo de que se conseguisse o desenvolvimento econômico e social de áreas homogêneas, justamente nos grandes centros urbanos integrados por um ou vários municípios de problemas idênticos. Parece que pouco se conseguiu até agora. A primeira região metropolitana foi a de são Paulo, abrangendo trinta e sete municípios da GRANDE SÃO PAULO. Depois se criaram outras, como a Grande Belém, a Grande Fortaleza (Aquiraz, Caucaia, Maranguape, Pacatuba), Grande Recife (Jaboatão, Olinda e outros), Grande Salvador, Grande Belo Horizonte, Grande Rio de Janeiro (Duque de Caxias, Maricá, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Petrópolis e outros).

Nos programas de rádio a gente ouve constantemente que o sujeito recebeu pancadas na praça Pedro II da GRANDE TERESINA. Mas a qualificação não se mostra convincente. Teresina pertence à GRANDE TERESINA em lei, mas não representa a GRANDE TERESINA.

Teresina se distribui em bairros, como a Vermelha, a Piçarra, o Saci, o Porenquanto, o Poti Velho, o Jóquei Clube, o São Cristóvão e quantos mais. Tudo isto constitui Teresina. A GRANDE TERESINA compreende Timon, Demerval Lobão, Monsenhor Gil, Altos, União, José de Freitas, cidadezinhas que correspondem a verdadeiros subúrbios da cidade grande. Se a humanidade chegar ao fim do terceiro milênio, talvez todas essas comunidades interioranas das proximidades do município-capital sejam uma cidade só.

Quando o sujeito assalta o próximo na praça Rio Branco, o assalto se verificou em Teresina. Se o individuo mata em Timon, o que é comum, então o crime se deu em Timon e ao mesmo tempo na GRANDE TERESINA.

A cooperação hoje dou de graça a meus distintos colegas locutores e fazedores de programa de rádio. Cooperação de bom sentido, limpa e correta.

Nada custa que a comunidade se eduque. Cabe observar a inexistência da PRAÇA DA BANDEIRA, situado na PRAÇA MARECHAL DEODORO. É tão fácil compreender.


A. Tito Filho, 25/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

terça-feira, 17 de abril de 2012

POMBAIS

José Eduardo Pereira, inteligente e culto, jornalista arguto e atualizado, tratou, nesta página, faz dois ou três dias, dos conjuntos habitacionais de Teresina, e trouxe à baila angustiantes problemas relacionados com a cidade. Um sobre quem administra a capital do Piauí, o outro a respeito das casinholas que uma multimilionária companhia de habitação constrói para auferir lucros inacreditáveis à custa da perversidade com os pobres. Parece que se trata de órgão de banqueiros nacionais ou financiadoras internacionais. Não sei.

No começo do século um bom governador fez o abastecimento dágua canalizada de Teresina, e outro, Miguel Rosa, inaugurou a luz elétrica, conquistas que ainda hoje permanecem com o Estado. A raquítica rede de esgotos de algumas ruas centrais foi obra estadual.

No caso da construção de obras, os governadores bem que poderiam efetuar as derribadas dos prédios antigos, mas submeter as novas construções a rigorosa obediência de normas urbanísticas, e assim também relativamente às modificações nas cousas públicas.

Veio abaixo o prédio em que se abrigam várias repartições e no lugar se quis levantar o centro administrativo do Piauí.  O esqueleto monumental, por falta de dinheiro, foi vendido, e no lugar se encontra o espigão do Ministério da Fazenda, quebrando-se o alinhamento da rua Rui Barbosa. Liquidou-se a praça Pedro II, tão bonita, de muitas recordações espirituais, e no lugar se estabeleceu grande concentração de prostitutas, alcoólatras, veados, viciados em droga e pivetes. A quem cabe a nova feição? Ao governo estadual. Outro governador pôs por terra a velha penitenciária e construiu o vaidoso Verdão, depois que se inutilizou o trânsito em ruas da cidade. Antes, houve o governante que mandou construir um prédio no meio da praça Demóstenes Avelino, e o espalhafato horroroso continua lá, agora de propriedade particular, e nele, no prédio, se vendem carnes, bofes, vísceras, cabeças de porco, peixes e outros produtos, espalhando-se fedentina por todos os arredores.

São inúmeros os exemplos nocivos. Ninguém sabe quem administra a cidade. Antigamente essas práticas aberrantes constituíram crime contra o patrimônio popular.

Observe-se o caso desses conjuntos habitacionais em que residem os humildes párias de Teresina e os milhares que, vindos do interior, foge ao tristissimo quadro da zona rural e das comunidadezinhas mortas, cada vez mais pobres e sem condições de vida. Nessas centenas de casinholas, todas do mesmo jeito, se alojam famílias de cinco, seis ou mais pessoas. Com pouco tempo esses POMBAIS passam a favelas e se enriquecem de biroscas, prostibulos, freges, botecos, bocas-de-fumo e crimes. Meninas que ainda não menstruam já constituem raparigagem. Os últimos tipos residenciais receberam o nome de EMBRIÃO, constituídos de saleta, quarto e banheiro. Só. Nessas residências os casais só se relacionam sexualmente depois da última novela, quando a filharada consegue dormir. Se um menino ou menina acorda arregala os olhos na presença do espetáculo dos pais pelados.

Esses conjuntos habitacionais são feios, casas emendadas uma nas outras. Alguns felizardos ganham fortuna na venda de terrenos para que nestes se levantem esses prediozitos que ofendem a dignidade de todos os enteados de Deus, filhos da injustiça dos homens maus, os banqueiros, e dos políticos de boa fé, que apenas agravam problemas comunitários.


A. Tito Filho, 20/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 13 de abril de 2012

LOUVAÇÃO

A cidade alcançou progresso em todos os setores. Antes de tudo tranqüila e afetiva. Vale um beijo quente de fraternidade. Manhãs e tardes coloridas. Corações alegres. Gente que gosta da humanidade, recitando o poema da convivência irmã. As suas noites são de amor. Nos bancos das pracinhas de encanto, pares agarradinhos, arrulhando afeto, cheirando-se, mordendo, polícia distante, gente que passa fazendo que não vê. Juca Chaves disse no Rio de Janeiro: "Se peito fosse buzina, ninguém dormia em Teresina".

As mulheres teresinenses são as mais carinhosas destes brasis. E criaram a linguagem dos olhos para a revelação do sublime sentimento do amor. Elas têm olhos de querer e de não-querer.

Vem brasileiro, irmão de outras paisagens, TERESINAR, um verbo doce, expressivo, que se reza com carinho. O centro é uma festa permanente. Da praça Rio Branco, coração comercial da cidade, parte-se para o Parque da Bandeira, bem cuidado, convite ao descanso. Além o rio Parnaíba, o velho monge de barbas brancas alongando... Junto às margens, lavadeiras batendo roupa, alguma de seios à mostra. Num dos lados do Parque, o antigo Palácio da Justiça. Antes, sede do Poder Executivo e residência dos presidentes da província e governadores até que foi adquirido o Palácio de Karnak.

Partinho do Parnaíba, o Mercado Velho ou Central, construído há mais de cem anos. Aí de tudo se vende: carnes, peixes, verduras, frutas, sandálias, calças, lamparinas, panelas, louça, mezinhas, beberagens eróticas como a famosa catuaba, pós mágicos. Camelôs propagam cura-tudo, literatura de cordel, alguns cegos recitam lamurientos versos de arrecadar esmolas. E dezenas de restaurantes ao ar livre, com comida feita sob as vistas do freguês, servem os mais variados pratos, sempre apimentados: fritos, sarapatel, buchada, panelada, mão-de-vaca, vísceras. Um arremedo dos mercadões de Fortaleza e Salvador. Um colorido especial à vida da cidade. No mercadão a gente encontra o sujeito que vende maconha, o bicheiro anunciando o milhar do jacaré e as mulatas mais desconfiadas do mundo, cheirando a brilhantina flor do amor. E muito chá-de-burro, o talentoso mucunzá.

A Casa Anísio Brito merece visitação. Museu e Arquivo do estado, guarda muita preciosidade que precisa de ser vista e consultada.

Da praça Rio Branco - rumorejo matutino e vespertino de morenões, louras, casadas, solteiras, intituladas, brotos, coroas e matronas circunspectas, senhores sisudos, estudantes, tipos de variegado naipe, muitos machos no exercício da paqueração - daí o sujeito pode indagar e orientar-se no rumo de outro ponto de muita fofoca e aprazimento: a praça Pedro II, antiga Aquibadã, bonita como quê.

Ergue-se nesse recanto de recreio o Teatro 4 de Setembro, inaugurado quase no fim do século passado. Em 1975, ganhou fatiota nova, uma beleza de teatro, com galerias, salas de exposições - só vendo o chiquismo da mui leal casa de espetáculos, coisa que não se vê em muito derredor de Brasil. Nele Coelho Neto dançou, em 1899, e discursou para apelidar Teresina de cidade-verde.

Mais umas passadas e eis Carnaque, também Karnak, nome egípcio, antiga residência de barão e baronesa. Branquinho, harmonioso, cheio de fontes d'água, luzes, salas caprichadas, local de trabalho do governador. De noite, tudo acesso, parece de conto de fadas.

Ao lado de Carnaque, existe o lugar que antigamente se chamou Alto da Jurubeba, elevação em que um santo, frei Serafim de Catânia, constituiu e inaugurou, no século passado, imponente templo católico.

Por trás da igreja, o avenidão espaçoso, que tem o nome do frade - espaçoso e comprido até alcançar o rio Poti. Avenidão de trânsito intenso. Pedestre nele come fogo para a travessia. Veículos feios e bonitos, de variado formato, transitam. Ciclista como praga. De noite, um quadro de tentação: as garotas apresentam-se para o amor, que começa no automóvel e se acaba nos castelos dentro das matas. Um paraíso de afeto.

Na frei Serafim, o Palácio Arquiepiscopal, residência de três arcebispos virtuosos e trabalhadores, - o inesquecível Dom Severino, o Cardeal Dom Avelar e o atual Dom José Falcão.

Por perto, a Biblioteca Cromwell Carvalho, bem organizada, bem rica de boas obras.

E acolhedores templos protestantes em vários pontos. E os pastores convocando para as belezas da Bíblia.


A. Tito Filho, 06/08/1991, Jornal O Dia, p. 4

domingo, 8 de abril de 2012

A PRAÇA E O PARQUE

O mestre-de-obras João Isidoro da Silva França, escolhido por José Antônio Saraiva, encarregou-se da construção da igreja do Amparo e para dirigir os trabalhos construiu casa de palha, de três divisões - uma de residência, outra dos soldados, a última dos escravos. A primeira situava-se na esquina do grande largo, onde se encontra hoje o Banco do Nordeste, seguida das demais, no rumo da rua que agora se denomina Álvaro Mendes. Na praça enorme ficariam os principais prédios públicos.

Partindo-se da igreja do Amparo, no rumo do Parnaíba dava-se sensível abaixamento do nível do terreno, e em virtude de tal circunstância o povo chamava a parte do logradouro de bacia - local em que, durante muitos anos, se armavam os bons e inesquecíveis circos visitantes, em que os molecotes do seu tope gostavam de passear em bicicletas alugadas e em que as alunas da Escola Normal faz mais de 40 anos, praticavam educação física.

Diz-se que Saraiva tinha hospedagem na casa de João Isidoro e nela assinou alguns papéis oficiais. Se verdadeiro o fato, o segundo palácio do Governo situou-se no lugar da Justiça Federal, até 1856, quando passou ao edifício do atual Museu do Piauí.

Nesse bonito e comprido largo foram construídos o antigo Tribunal de Justiça, o Departamento da Fazenda, o Teatro Santa, a Escola Normal, além de outras repartições.

Chamavam ao logradouro inicialmente Largo do Palácio. Passou a Praça da constituição. Ao depois, Praça Marechal Deodoro, nome dos dias que correm.

Muitos confundem a Praça Marechal Deodoro com o Parque da Bandeira - mas este foi criação do prefeito Lindolfo Monteiro, no tempo do Governo Leônidas Melo, em 1941. O governante da cidade arborizou certa área do terreno, adquiriu pássaros de linda plumagem e alguns bichos, colocou-os em viveiros e alojamentos próprios. Cercou todo de arame farpado. Com a vitória da oposição a Leônidas, em 1947, os partidários da UDN triunfante - segundo contam - carregaram quase toda a passarada e bicharada e a totalidade do arame, modesto prêmio aos vencedores.

Recompôs-se o Parque - outros pássaros e outros bichos novamente participavam da curiosidade dos visitantes. Deu-se, porém, reforma total do belo patrimônio de Teresina. Retiraram-se os animais bípedes e os quadrúpedes. Em redor das plantações, grades imponentes. Local de aprazível lazer, parece-me obra do ex-prefeito Joel Ribeiro, no primeiro Governo Alberto Silva.

Não se confundam as cousas. Existe Praça Marechal Deodoro e existe Parque da Bandeira. Este fica situado naquela, melhor dizendo: o Parque faz parte da Praça. Caracterizando-se: o Parque é a parte cercada da Praça.


A. Tito Filho, 23-24/06/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

IGNORÂNCIA E PRECONCEITO

Desde que me dediquei ao estudo da história do Piauí, sempre atribui a minha humildade grande admiração a Oeiras. Várias vezes a visitei, por convite dos filhos ilustres dessa cidade-monumento de civismo. Nela compareci nas festas comemorativas das suas datas maiores, em companhia de familiares, enfrentando horas e horas de estrada em nosso próprio carro, por vezes com sacrifício do repouso. Na Academia Piauiense de Letras, publiquei livros dos seus escritores. A pedido de B. Sá e Pedro Ferrer conseguiu levar Luis Carlos Prestes à velha capital. Ainda no ano passado dei tudo de mim para homenagear a memória de Nogueira Tapety.

No recente aniversário de Teresina fui procurado por uma jornalista para entrevistar. E ela me perguntou qual a primeira razão que teria levado José Antônio Saraiva a retirar o governo de Oeiras e plantá-lo numa cidade nova construída pelo baiano. Respondi que certamente a primeira razão estava em que a cidade não prestava. Ninguém ignora a circunstância de que essas repórteres de TV passem quase uma hora a dirigir perguntas ao entrevistado, filmam a gente de várias maneiras, mas só exibem ao público um minuto da entrevista. Pura verdade. Se a minha tivesse sido toda televisada, os telespectadores teriam ouvido explicações corretas, e uma delas representada pelo completo isolamento de Oeiras, isolamento do Piauí, do Brasil e do mundo. Culpa não me cabe se Saraiva não gostava da cidade, da cidade daquele tempo. Oeiras hoje é outra, simpática e hospitaleira.

José Expedito Rego, oeirense de sete costados, romancistas de mérito, o mais notável conhecedor da velha Oeiras, escreveu que a vida na cidade antigamente seguia parada e sem futuro. Diz mais que Manuel de Sousa Martins se não tivesse a mãe velha e doente se mudava para a Bahia. Um governador confessou ao Padre Marcos que "isto aqui fica muito perdido no mundo...", "E os anos passavam no velho marasmo...", sustenta Expedito. Descreve o romancista o palácio do governo preparado para um novo presidente da Província: "... um prédio de paredes rachadas, soalho grosseiro, portas e janelas com rachaduras, móveis toscos, as cadeiras de assento preto e pregos de latão". Era o palácio do governo.

Rio Pardo, outro presidente, teve estas referências de José Expedito Rego: "Fazia-lhe mal a água de Oeiras, pouco salgada ao sensível estômago presidencial. Padecia do fígado desde a chegada. As comidas gostosas, carregavam-se de gorduras, inadequadas ao clima quente da região. Por vezes, carne enfezada. Bom mesmo, entretanto incomodativo, só o sino da matiz, batendo às onze da noite, forte, de som agradável, como os das velhas igrejas da Bahia".

Em razão disto, Rio Pardo escreveu uns versos, mais ou menos assim:

Oeiras do Piauí a capital
Em estéril terreno edificada
Só tem bom o relógio da matriz...

A jornalista me perguntou o motivo primeiro pelo qual Saraiva queria mudar a capital, respondi que Oeiras não prestava, sim, não prestava para Saraiva, pois não vivi nesse tempo. Mas sobre mim caíram raios e trovões da ignorância, mãe do preconceito e da burrice. Eis o telegrama que me passaram nove gatos-pingados que se dizem INTÉRPRETES DO SENTIMENTO POPULAR: "Interpretando sentimento popular repudiamos seu juizo sobre Oeiras infeliz e debochativa entrevista TV Clube pt Teresina merece nosso respeito pt Oeiras merece também seu respeito pt Vossência talvez não seja digno do respeito que nós lhe conferimos pt Atenciosamente aa) Rossana Ferreira, Manoel Felipe Rego, Darcy Filho, Mauro Tapety, Claudete Maria, Raimundo Batista, Celia Carneiro, Inamorato Reis, Carlos Rubem".

Meus pés, se Deus quiser me ajudar, nunca mais pisarão em Oeiras, onde existem pelo menos alguns débeis mentais.

O telegrama acima tem a responsabilidade perante o telégrafo do individuo Carlos Rubem, meio analfabeto, sem nenhuma autoridade moral para julgar quem seja digno de respeito, pois vive na gostosa maracutaia de ser promotor público de Simplício Mendes e residir em Oeiras. Aparece na comarca para enfiar na bolsa ambiciosa os dinheiros fartos do pobre Estado do Piauí.

Só se exige a dignidade alheia quando em primeiro lugar nós a possuímos.


A. Tito Filho, 24/01/1991, Jornal O Dia