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segunda-feira, 21 de maio de 2012

PARENTESCO ACADÊMICO

Lucídio Freitas teve a idéia de fundar a Academia Piauiense de Letras e depressa se reuniram dez intelectuais para o objetivo: Clodoaldo Freitas, João Pinheiro, Celso Pinheiro, Fenelon Ferreira Castelo Branco, Jônatas Batista, Edison da Paz Cunha, Benedito Aurélio de Freitas, Higino Cunha, Antônio Chaves, e o próprio Lucídio Freitas. Cada qual escolheu o seu patrono.

Observe-se o parentesco dos primeiros acadêmicos na escolha dos patronos: Clodoaldo escolheu o parente José Manuel de Freitas; Fenelon, o parente Joaquim Sampaio Castelo Branco; Jônatas, o parente Davi Caldas; Lucídio, o irmão Alcides Freitas. Os fundadores guardavam a seguinte relação de família Alcides; João Pinheiro irmão de Celso; Edison, filho de Higino Cunha.

Composta de 40 cadeiras, preenchidas as 10 primeiras, foram escolhidos os demais titulares e estes escolhiam os patronos respectivos, citando-se os parentes: Antônio Ribeiro Gonçalves escolheu o irmão Joaquim; Amélia Freitas Bevilaqua escolheu o parente Lucídio; Nerina Castelo Branco escolheu o parente Antônio Noronha; Darcy Araújo escolheu o irmão Vicente Araújo; Lilizinha Castelo Branco de Carvalho escolheu o pai Heitor Castelo Branco; Celso Barros escolheu o cunhado José Newton de Freitas.

Com o correr dos anos e a morte dos titulares, houve as naturais substituições, do que resultaram novos parentescos. Relacionem-se os demais Castelo Branco escolhidos para a Academia até 1990: Hermínio de Carvalho Castelo Branco, Teodoro Castelo Branco, Antônio Borges Castelo Branco, Cristino Castelo Branco, Carlos Castelo Branco, Renato Castelo Branco, Miguel Borges Castelo Branco, Emília Leite Castelo Branco. Bem que se poderia acrescentar José de Arimathéa Tito e o filho, ambos Castelo Branco, embora o nome familiar não participe do nome de ambos.

Observe-se mais parentesco: José Manoel de Freitas foi irmão de Amélia de Freitas Bevilaqua e pai de João Alfredo de Freitas; João Pinheiro, irmão de Celso, teve outro irmão acadêmico, o jornalista Breno Pinheiro; Cromwell Barbosa de Carvalho foi pai de Robert de Carvalho e * Academia o sobrinho João Gabriel Baptista. D* patronos irmãos: Anísio e Areolino de Abreu. Celso Pinheiro e Celso Pinheiro Filho, pelos nomes constituíram pai e filho; pai e filho são * e Hugo Napoleão, o primeiro sobrinho de Martins Napoleão; Odylo Costa teve outro filho ilustre, Odylo costa filho; parentes eram J* e Jônatas Correia; Gabriel Luiz Ferreira e Félix Pacheco, pai e filho; Mário Baptista e Benjamin Baptista, irmãos; Armando Madeira Brandão e Armando Madeira Basto, tio e sobrinho; pai e filho, Cristino e Carlos Castelo Branco.

Ocuparam as cadeiras dos pais: Carlos Castelo Branco, Odylo Costa filho e Tito Filho.

Aí se relacionaram os que têm parentes próximos. Existem vários outros parentes no quadro da Academia Piauiense de Letras. Só citei os mais chegados. Não se diga, porém, que houve influência de uns na escolha dos outros. De modo geral, os parentes já tinham seguido desta para pior vida quando se escolhiam os novos titulares, sem que houvesse, assim, influências na eleição.

No ingresso, vivos estavam Clodoaldo e Lucídio, João, Celso e Breno Pinheiro, Higino e Edson Cunha. Quando foi eleito Robert, o outro Cromwell estava bem idoso. Por último, o José Miguel de Matos tem parentesco com outros Freitas, o mais próximo dos parentes se chamou Esmaragdo de Freitas e Sousa, da primeira cadeira acadêmica, primo legitimo de Dona Maria do Ó e Sousa, mãe do autor da “Antologia Poética Piauiense".


A. Tito Filho, 17/01/1991, Jornal O Dia - p. 4

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* Não está visível no original

domingo, 20 de maio de 2012

SEMPRE CONTRA

Não se diga que eu desgoste de futebol. Já em Barras, cidade do norte do Piauí, onde me cortaram o umbigo, eu jogava bola quando comecei os estudos primários nos meus sete anos. Eu e os molecotes como eu no beco de velho Fernando Carvalho, sujeito que conheci idoso, cidadão honrado. Abria a loja da esquina cedo, sempre de colete e bonzeguinos, barbicha bem aparada. Tipo respeitável, de fala ligeira, família tradicional. Formava-se os times nos domingos, quando o sol esfriava e a partida só terminava boquinha da noite.

Andei por outras terras e nunca me afastei dos estádios, como em Fortaleza e no Rio de Janeiro. No retorno aos pagos teresinenses, em 1947, encontrei o Estádio Lindolfo Monteiro, se a memória não me engana, construído pelo prefeito do mesmo nome e inaugurado em 1940.

No meio do século, fui ao Rio, num aviãozinho bimotor, que saia de Teresina seis da manha e depois de enjoativo pinga-pinga por algumas cidades, baixava no aeroporto Santos Dumont, da ex-capital, pelas sete horas da noite. Era a inauguração do Maracanã, estadiozão construído pelo prefeito Mendes de Morais, para que, aos urros de sua formidável platéia, houvesse a última partida de uruguaios e brasileiros, em 1950. Assisti ao embate. À derrota nacional. Dois a um em favor dos homens comandados por um meio-campo endiabrado, Obidúlio Varela. Recordei os dias de 1938, nesta sofrida capital piauiense, no tempo do ultimo campeonato mundial de futebol jogado antes da segunda grande guerra. O astro do Brasil o homem de borracha, diamante negro, Leônidas. Os nossos perderam a derradeira partida, em disputa com a Itália, também por dois a um, um gol italiano de pênalti.

Dava gosto o futebol dos velhos tempos. Os craques desconheciam a dinheirama que transformou esse esporte de massa e de entusiasmo num reles balcão de trocas e *. De mim, não perdia jogo dominical em Fortaleza, no Rio. Cheguei a prefaciar um livro de Carlos Said, sobre a história do futebol piauiense, em que figuro como interventor na Federação Piauiense de Desportos, em 1960, quando me possível, com o auxílio de sujeitos capazes e honestos, Péricles * e Eulino Martins, meu tesoureiro e meu secretário, endireitar a entidade mentora do esporte piauiense. Tomei a medida de reduzir o numero de clubes de Teresina a seis. Uma história interessante que ainda ninguém contou.

Mas quando se quis construir o Albertão, estádio enorme de sessenta mil pessoas, fui contra. O único jornalista, o único cidadão, o único brasileiro, o único vivente, contra abertamente, em campanha de jornal e rádio. Insultavam-me. E eu contra. Meu argumento era em que Teresina não podia SUSTENTAR enorme praça esportiva. Os jogos não despertariam interesse público para tantos lugares. Interessante é que, neste ano de 1991, quando mais Teresina aumenta de população, mais a platéia do Albertão míngua de gente. Dídimo de Castro; uma das melhores expressões do velho jornalismo, seca os gorgomilos, todo dia convocando pagantes ao estádio.

Fui contra o Albertão, contra a Poticabana, contra o Metrô, contra os aleijamentos do Theatro 4 de Setembro e da praça Pedro segundo, contra a derrubada da antiga penitenciaria e contra o Verdão.

Sou contra tudo que tira o pão e aumenta a fome do povo.


A. Tito Filho, 23/03/1991, Jornal O Dia - p. 4

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* Não está visível no original

PLANO DE LIVROS

Desde 1972 vem a Academia Piauiense de Letras, com dificuldades sem conta, divulgando o livro piauiense. Obras de história, geografia, estudos sociais, romances, contos, novelas, teatro, folclore, não há, no Brasil, instituição que se tenha dedicado mais, com pequenos recursos, mas empregando-os honestamente, do que a referida instituição cultural piauiense. Encontra pessoas de nobre caráter que a ajudam e incentivam. Por preços reduzidíssimos faz entrega das edições aos que as adquirem, prestativos, no exercício de valiosa contribuição.

Dezenas de obras a Casa de Lucídio Freitas entregou ao público, desde que iniciou, quase vinte anos atrás, um efetivo plano editorial, a fim de que estudantes e professores, homens de letras, estudiosos, amantes da leitura séria e útil tivessem a seu dispor as melhores fontes de conhecimento da terra e da gente do Piauí.

São selecionados os livros editados. O ano passado, para citar a mais recente relação de livros, foram publicados e distribuídos pela Academia: MEDICINA E PODER POLÍTICO EM FLORIANO, do médico Bento Bezerra, uma análise da atuação de médicos na administração do importante município piauiense, COISAS E LOISAS, crônicas e memórias de terras sertanejas, de Sátiro Nogueira; UMA FIGURA SINGULAR DE MISSIONÁRIO DO NORDESTE BRASILEIRO, de Frei Memória, biografia de Frei Heliodoro, humilde missionário da caridade cristã em Teresina; UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA, novela de suspense do médico Salomão Chaib; MANIFESTAÇÕES MUSICAIS NO PIAUÍ, de Cláudio Bastos, um dos raros trabalhos sobre a arte musical entre nós; CRÔNICAS, de Tito Filho, em declarações de amor a Teresina; ELOGIO DA SOMBRA, de José Maria Soares Ribeiro, crítica de escritores piauienses mortos; MEMÓRIAS DEPOIMENTOS, de Rocha Furtado, documentário político de fase conturbada da história do Piauí; ARTE E TORMENTO, conjunto lírico encantador do poeta Nogueira Tapety, em prosa e poesia; O OITÃO, de Cléia Napoleão, recordações da romântica Teresina de outros tempos; MALHADINHA, de José Expedito Rego, um dos melhores romances de conteúdo social, com cenário da vida rural de Oeiras; A TALHA DE RETÁBULOS, de Dagoberto Júnior, arte e história religiosa.

A Academia adotou dois planos de distribuição de obras: mensalmente, um livro, por preço mínimo de 500 cruzeiros. Ou seis livros, um por mês, de janeiro a junho, pelo preço total de dois mil e quinhentos cruzeiros. O processo como se vê, beneficia os adquirentes, uma vez que o preço se mostra vantajoso, numa época em que o livro cada vez mais tem os custos elevados e de difícil aquisição por parte dos que têm rendas apenas razoáveis; e os desejosos de boa leitura ficam com a obra previamente garantida, sem os riscos do esgotamento das edições.

Neste mês de março, a Academia inicia a distribuição de TIRA-DÚVIDAS. São três pequenos volumes escritos pelo acatado professor Cineas Santos, em que se resolvem as dúvidas freqüentes de grafia e de emprego de palavras. Constituem lições simples, acessíveis a estudantes, a professores, jornalistas, profissionais em geral, a funcionários públicos, secretários, entrevistadores e entrevistados, noivos distantes, poetas, escritores, locutores de rádio e TV, secretários de empresas e de governadores, epistológrafos. Todos necessitam das LIÇÕEZINHAS grandes de Cineas Santos. Sim, é assim mesmo. O plural de LIÇÃOZINHA é como escrevi, LIÇÕEZINHAS. Aprendi no Cineas.

Estas linhas não constituem publicidade comercial, pois a Academia Piauiense de Letras não pretende lucros, mas apenas proporcionar bons livros aos que querem desanuviar a cachola. O objetivo aqui reside em orientar os leitores, com a devida vênia de Octávio Miranda, sempre estimulador do desenvolvimento cultural do Piauí, e dos coleguinhas inteligentes e prestativos que completam este jornal.


A. Tito Filho, 28-29-30/03/1991, Jornal O Dia - p. 4

sábado, 19 de maio de 2012

AINDA GOVERNO E LIVRO

No governo Hugo Napoleão se estabeleceu o Projeto Petrônio Portella, para edição de obras sobre o Piauí e de autores piauienses, numa homenagem ao político que tanto engrandeceu a terra natal, figura impressionante, cujas leituras lhe aformosearam o espírito e a inteligência. No início da vitoriosa carreira, chegou a publicar atos de violência, porque o Piauí ensinava que na violência estava a defesa contra os adversários. Sentimos em Petrônio, quando já ministro o visitamos, mais de uma vez, que cada dia mais ele se compenetrava do papel da cultura, a fim de guiar os homens nos caminhos certas da vida. Maduro e prestigiado nos altos escalões republicanos, não guardava ódios, nem queria malquerenças, vivia de fazer o bem. Deu lições aos maiores parlamentares brasileiros, na tribuna do Congresso Nacional. Sentia tão profundo gosto pelas cousas do saber que autorizou a feitura, na gráfica do Senado, de edições sucessivas dos grandes discursos parlamentares proferidos ao tempo do Império, o que lhe valeu a Medalha Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras.

O Projeto Petrônio Portella mereceu execução louvável do secretário Jesualdo Cavalcante, da Cultura. Excelentes livros se distribuíram no Piauí e no Brasil.

O governo seguinte, de Alberto Silva, prestigiou a obra cultural do antecessor. Mantiveram-se as normas do Projeto Petrônio Portella, confiado ao jornalista Kenard Kruel, esforçado e trabalhador.

Em agosto de 1987, o governador Alberto Silva, convocou a Academia Piauiense de Letras para participar desse auspicioso plano editorial. Acertou-se que os recursos se dividiriam entre a Casa de Lucídio Freitas e a Fundação Cultural do Piauí, meio a meio. As edições ficariam subordinadas às duas partes: à primeira, as obras de escritores desparecidos ou vivos considerados úteis ao conhecimento da história piauiense, ou outras, como trabalhos de ficção de autores desaparecidos ou acadêmicos; à segunda competia editar a literatura de novos escritores.

Desnecessário, asseverar que o Projeto Petrônio Portella fracassou na metade do governo Alberto Silva, porque os órgãos responsáveis pelas finanças necessárias ao custeio das edições fugiram, quase todos, dos compromissos publicamente adotados, recusando o pagamento das contribuições. Não lhes interessava senão a politiquice e o desprezo as manifestações culturais da terra.

X   X   X

O filósofo Marcuse ensinou que a sociedade possui três forças de comando: a econômica, a política e a intelectual. A primeira tem a primazia no comando e a ela se subordinam as outras duas. O detentor de grandes cabedais, os donos do poder, os escritores são os tipos que desfrutam de menos prestígio na vida social. O homem se torna escravo do dinheiro e com o vil metal compra mandatos. Satisfaz-se com esses triunfos. Os outros seres humanos contentam-se que os semelhantes lhe rendam homenagem e consideração por intermédio da autoria da obra literária ou de outro conteúdo.

Ao Projeto Petrônio Portella chegavam livros e mais livros de autores de uma triste subliteratura, as mais das vezes, todos apadrinhados ou amanhados. A Academia Piauiense de Letras recusava publicação e arrecadava inimigos. Kenard Kruel achou mais conveniente guardá-los nos arquivos respectivos, pois inclusive a editoração não era possível, uma vez que raros os órgãos governamentais que permaneciam no cumprimento do acordo assinado e chancelado pelo governador em 1990, um só centavo chegou às entidades encarregadas da execução editorial. O mesmo se deu ao brilhante Hardi Filho, sucessor de Kenard.

Morreu, tristemente, o Projeto Petrônio Portella.

O novo governo não pode fechar os olhos para a triste situação cultural do Piauí.


A. Tito Filho, 27-28/01/1991, Jornal O Dia - p. 4

sexta-feira, 18 de maio de 2012

TEMPOS DE MEMÓRIA (2)

Quando eu deixei Teresina, em janeiro de 1937, havia uma novidade em caminho: o telefone. Operários armavam os cabos duplos nos velhos postes de ferro, sob o comando de um engenheiro alemão ou sueco, louro, vermelho, suado e em mangas de camisa. É claro que, entre as penas que levei comigo, ao tomar em Flores o trenzinho, figurava essa de não assistir a inauguração do telefone. Teresina, que acabava de ajardinar mais uma praça, a Pedro II, e embelezar a pequena avenida em frente ao Palácio, progredia. E progredia no exato momento que eu me ia embora.

Isso não só era irreparável porque eu, como a maioria dos jovens que deixavam a terra natal, pensava em voltar. Voltar para viver ali, naquele chão da infância, em meio àquela gente que sonhava intensamente e que se recusava a crer na própria pobreza.

Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição. No trem, recitava os versos de Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância / ficou longe de mim adormecida...". E me lembrava do poeta Celso Pinheiro a contar a meu pai que, em São Luís, que visitava um dia, ficara tão inconformado por estar distante da sua terra que tinha saudades até das folhas que caíam das árvores de seu quintal.

Teresina, que aos nossos olhos ingênuos se afigurava quase que como uma metrópole, era uma pequena cidade, de trinta a quarenta mil habitantes, se tanto, com casas de telha em sete ou oito ruas e um vasto casario de palha, informe, sem conforto, que abrigava dois terços da população. No entanto, era doce o convívio da família e dos vizinhos, era doce a cidade. O calor, que só vim a perceber mais tarde, não deixou marca na minha infância nem na minha memória. Ele não existia para quem levava a vida solta dos quintais e das ruas, nos regatos que se formava depois das chuvas, nas carrerias noturnas pelos caminhos de terra e capim, no futebol da "bacia", nas brincadeiras que nos conduziam da beira do Parnaíba à beira do Poti.

Entre a rua da Estrela e a rua são José, passando pelas ruas da Glória do Amparo, dos Negros, do Fio, rua Grande, rua Bela e Paissandu - belos nomes que deveriam ressurgir - estava a cidade, toda ela, para as pessoas da nossa condição social. A Avenida Frei Serafim, hoje Getúlio Vargas, era uma promessa e um abrigo para as famílias mais prósperas. Ainda hoje identifico na memória as casas, uma a uma, e as famílias que as habitavam, parente, amigos, conhecidos.

Desconhecido era então só o caixeiro-viajante que se hospedava por algumas noites no Teresina Hotel.

A vida, já se vê, era simples e íntima. O Governador Joca Pires, à noite, sentava-se num banco da Praça, cercado de amigos e das pessoas de prol. lá a retreta, como os outros, o professor, o juiz, o estudante, a mocinha. Ouviam-se as mesmas histórias e a mesma música tocada no coreto pela banda militar.

Havia um único clube, o dos Diários, mas se dançava em qualquer casa onde houvesse moças. No mês que antecedia o carnaval, cada domingo depois da missa das nove na Igreja do Amparo, Joel Oliveira, cabeça branca, e um senhor que tinha o apelido de João Senhora, porque usava leque, e se assinava Carlos Borromeu nos escritos da imprensa local - comandavam os "assaltos" com que se esquentava a cidade para a grande festa. O carnaval era um misto de danças, cordões, corso e divertimento intelectuais, pois se editavam jornaizinhos humorísticos em que se  punha todo mundo na berlinda.

Folguedos populares eram poucos. Havia irrupção de "marujos" no adro das igrejas na Semana Santa e o "bumba-meu-boi" dos bairros distantes na época de São João. E as novenas, com prendas, e os mafuás. No Natal, havia o presépio de dona Quequé, que a cidade inteira ia visitar.

A cidade tinha sua alma e seus intérpretes, poetas e escritores, gramáticos, professores. Geração de bacharéis formada no Recife sob a égide de Tobias Barreto e Sílvio Romero - na qual se integrava entre os mais jovens meu pai, o Desembargador Cristino Castelo Branco, que mantinha o teor do debate intelectual, discutindo em saraus e conferências, reuniões da Academia Piauiense de Letras, na Maçonaria e até em Igrejas, onde pelo menos uma vez o padre teve seu sermão contestado. Mestre Higino Cunha, venerável, que ensinava latim e tocava piano, mantinha acesa a chama e reunia em torno de si escritores e estudantes. A nós, transmitia algo da sua imensa cultura, inclusive o modo de beber e a cronologia dos drinks e dos vinhos. Professor, e a cerveja? 
  
Perguntou-lhe um rapaz ao fim de uma dessas lições. Imperturbável, mestre Higino Cunha respondeu: "Cerveja, meu filho, é refresco. A gente bebe o dia inteiro".

Nem tudo era amenidade na Teresina daquele tempo. A agressividade explodia nas polêmicas jornalísticas, nos panfletos, nas campanhas políticas. Mestre Higino escrevia a "história do Pai do Jumentão" ou soltava boletins contra pessoas que profanavam a loja maçônica; vade retro Satanás... 


A. Tito Filho, 08/08/1991, Jornal O Dia - p. 4

quarta-feira, 16 de maio de 2012

LEONARDO MOTA

Nos tempos passados Teresina hospedou escritores famosos, de prestígio nacional. Quase fim do século XIX houve a visita de Coelho Neto, recebido por grande massa popular, sob aplausos e foguetório. Ofereceram-lhe baile no Teatro 4 de Setembro e o autor de TURBILHÃO dançou com meninas de muita faceirice.

Humberto de Campos esteve nesta Chapada do Corisco e visitou a Escola Modelo, uma beleza de educandário que Firmina Sobreira criou e fez funcionar às mil maravilhas. O visitante elogiou a obra educacional da mestra querida. Outra que andou de visita por Teresina se chamava Paschoal Carlos Magno, poeta e prosador de nomeada. Estava-se no ano de 1929. Dois anos antes, a Academia Piauiense de Letras recepcionava o cearense Leonardo Ferreira da Mota, afirmação de folclorista. Saudou-o, numa sessão solene realizada na Escola Normal, mestre Higino Cunha, respeitável intelectual que os piauienses aplaudiam com admiração. Orador fluente, sério, de idéias e conceitos plenos de emoções literárias, era na época o mais apreciado dos nossos homens de letras. Discursou também em homenagem a Leonardo o padre Cirilo chaves, um dos mais conhecidos oradores da história religiosa piauiense. Além da oratória sacra, cultivava ainda o discurso estético, rico de imagens emocionantes. Na mesma solenidade se ouviram bem conhecidas poesias do nosso Antônio Chaves, opulento cultor do lirismo no soneto e nos poemas telúricos. Leonardo Mota empolgou a assistência enorme, com narrativas matutas e vasto anedotário do interior nordestino, contados com graça e riqueza vocabular.

*   *   *

Estudei no Liceu Cearense, de noite, curso pré-juridico. Excelentes professores. Bem me lembro de Antônio Martins Filho, que se tornaria, tempos depois, o admirável reitor da Universidade Federal do Ceará. E outros que a memória guarda com gratidão.

Era bom. Antes de tomar o bonde de Jacarecanga, a estudantada do Piauí em Fortaleza se reunia na praça do Ferreira para umas doses de palestração. Ponto de reunião de altos servidores públicos, jornalistas, escritores, gente célebre, para a troca de novidades. Nos sábados, noitinha já, íamos para o MAJESTIC, cinema que mantinha bar numa das suas áreas. Aí conheci Demócrito Rocha, fundador do jornal O POVO. Do outro lado da comprida praça, ficava A GRUTA, restaurante e local de intelectuais, para a cerveja gelada e o trago da pinga gostosa. Neste recanto, vi mais de uma vez Leonardo Mota, cujo nome se reduzia a Leota, escritor de muita fama, e estimado por todos os cearenses, que lhe conheciam a verve e o talento. Nascido à 10 de maio de 1891, faleceu em Fortaleza à 2 de janeiro de 1948.

Deixou Leota livros de encanto insuperável. Possuía grande capacidade humorística. Conferencista. Viajava sempre para recolher o material dos CAUSOS que sabia contar ajudado dos gestos, do ritmo, do sotaque.

Se vivo fosse, estaria neste próximo 10 de maio,a  comemorar o primeiro centenário de vida. Morreu novo, antes de completar 57 anos de idade. Entregou à inteligência brasileira, entre outros, "Cantadores", "Violeiros do Norte" e "Sertão Alegre", obras raras nos dias que correm.

*   *   *

A família de Leonardo, o Instituto Histórico do Ceará, a Academia Cearense de Letras, a Universidade Federal do Ceará, a Associação Cearense de Imprensa, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e o Banco do nordeste do Brasil, conjuntamente, homenagearão a memória do inesquecível folclorista, que é sócio honorário da Academia Piauiense de Letras, título outorgado quando de sua visita a Teresina. A Casa de Lucídio Freitas se representará nas comemorações pelo acadêmico José Eduardo Pereira.


A. Tito Filho, 07/05/1991, Jornal O Dia - p. 4

TRÂNSITO

Em 1941, no governo intervencional de Leônidas Melo, foi criada a Delegacia de Trânsito. Parece-me que em seguida houve reforma na polícia civil e criaram-se em Teresina três delegacias especializadas: Delegacia de Segurança e Ordem Pública, Delegacia de Investigações e Capturas e Delegacia de Trânsito e Costumes. Quando, em 1947, fui chamado a desempenhar funções policiais, coube-me a Delegacia de Trânsito e Costumes, depois desaparecida com a criação do Departamento Estadual de Trânsito.

A princípio, na cidade fundada por José Antônio Saraiva, transitavam pedestres e quadrúpedes. Havia o costume chique de passeios a cavalo pela cidade. Vigorava o sistema de carros de aluguel, puxados por animais; para casamentos, batizados, cortejos de baile e de teatro. Padre Chagas, nas suas encantadoras páginas de Teresina antiga, anota que na cidade foram surgindo, pouco a pouco, carros puxados a cavalo. Inovação gostosa. E conta que em 1874 funcionava na capital grande empresa de caleças, propriedade de Domingos Gonçalves Pombo, que atendia a chamados a qualquer hora, dia e noite. Aluguel também para visitas, missas no cemitério, serviços médicos, passeios pelo Poti.

As crianças constituíram, com os anos, o meio de condução de cargas da preferência geral. Em 1895 os seus condutores, os carroceiros, já estavam obrigados a matricular-se na intendência, que assim se chamava a prefeitura da época.

Em duas carroças puxadas por bovinos, em 1900, se transportava carne para o mercado central.

Em 1910 deu-se a proibição de carros e carroças que não estivessem matriculados na repartição competente. O primeiro caminhão destinado à coleta de lixo da cidade chegaria em 1911, adquirido pelo cidadão contratante do serviço de limpeza urbana.

Colhi em velhos jornais que os primeiros automóveis chegaram a Teresina em 1922. Consta que a iniciativa coube ao médico Manoel Francisco Afonso Ferreira. Sabe-se que os primeiros motoristas se chamavam Avelino Augusto de Carvalho, Manuel Augusto de Carvalho e José Góis.

O intendente (prefeito) Anfrísio Lobão Veras Filho, em 1925, baixou o regulamento do trânsito de veículos do município e da cidade de Teresina. Criou-se também o lugar de inspetor de veículos. O mesmo ilustre administrador mandou realizar, em 1927, exame de habilitação para motoristas e adquiriu bonde de motor em São Paulo para a limpeza da estrada de ferra ao rio Parnaíba.

Coube ao chefe de polícia interino Edgar Nogueira estabelecer ruas preferenciais na capital, bem assim proibir o tráfego de automóveis e outros carros oficiais e particulares na cidade, a fim de que se correspondesse ao esforço da grande guerra iniciada em 1939.

Os primeiros sinais luminosos na cidade se instalaram em 1952, no governo Pedro Freitas, na esquina das ruas Coelho Rodrigues e Barroso e junto ao relógio da praça Rio Branco, por iniciativa do delegado Matias Melo Filho.

Escrevo estas notas ao correr da pena, com os recursos da memória. Recorde-se que nas ruas de Teresina automóveis e caminhões passavam uns pelos outros, folgadamente, o que atesta que José Antônio Saraiva e o seu braço direito João Isidoro da Silva França estabeleceram a largura das vias públicas como se previssem o futuro do homem e da sua criatura diabólica, a máquina.

X   X   X

O trânsito de Teresina necessita de um historiador para contar-lhe a longa história, rica de episódios alegres, pitorescos e trágicos. Entre os pitorescos está aquele registrado pela pena irônica de Eurípedes de Aguiar, num artigo do jornal, em que o impenitente articulista critica o gesto do saudoso delegado Matias Melo Filho, ao colocar, no ponto central do cruzamento das ruas Coelho Rodrigues e Simplício Mendes, um bisonho policial, sobre estrado de madeira de meio metro de altura, para orientar os motoristas, que se aproximavam. Segundo o mesmo percurso ou dobrando, os guiadores tinham pouco espaço para manobrar, por causa do palanque do delegado. Eurípedes conta no seu estilo gracioso e debochativo, que o pobre guarda, em vez de controlar o trânsito, largava o estrado, de carreira apressada, a medo de ser atropelado. Matias não agüentou o segundo artigo, extinguiu o melhoramento.


A. Tito Filho, 27/02/1991, Jornal O Dia – p. 4

HISTÓRIA DA PROPAGANDA

Editou-se recentemente uma história da propaganda no Brasil, que teve em Renato Castelo Branco, trabalhador, desde novo, em grandes empresas de propaganda, um dos mais notáveis publicitários deste país, com serviços na Europa, na América do Sul, na Ásia. Escritor de obras aplaudidas.

Renato nasceu na Parnaíba de onde partiu em busca de novos caminhos. Ele conta que na sua cidade os burros cruzavam as ruas carregando produtos. Nas noites de domingo, a charanga tocava na praça e as moças passeavam olhando os rapazes com os olhos do desejo. As empregadinhas e as caboclas duvidosas ficavam do outro lado do logradouro, separadas das donzelas brancas e importantes.

A história lembra a nossa Teresina, quase do mesmo jeito, o rio, as lavadeiras, a pracinha modesta, os namoros platônicos, a jumentaria pelas ruas, passo curto, no transporte das ancoretas de vender água.

O nordestino buscava o sul, o sul rico, mais convidativo de bons empregos. Não esqueceu antes da viagem longa os fantasmas da terra natal - povoadores da meninice peralta.

Nesse tempo, não havia linhas aéreas, nem asfalto, paus-de-arara inexistiam, de ônibus não se falava. Havia os Itas - Itapagé, o Itaquice - os vapores que singravam o mar grande e despejavam no Rio de Janeiro centenas de nordestinos, todos os anos, à procura de horizontes mais amplos, dos doutoramentos e do triunfo.

Uma crueldade espiritual a separação da família. Também fizemos a viagem, de Teresina ao Rio, por terra, pelo São Francisco, pelos resfolegantes trens de Pirapora a Corinto e de Corinto a Belo Horizonte e à antiga capital da República. Perdemos cedo a proteção materna. Mas nunca deslembramos, na hora da despedida, as lágrimas furtivas que desciam do rosto do carinhoso pai - e durante todo o percurso nos vinha o nó na garganta, o pior dos choros, o choro que não sai, que machuca como representação da própria dor.

A história de Renato, que relembramos com emoção, fala do pedaço da terra em que * saudoso da mãe extraordinária, que sempre * a família e deu-lhe força, nos exemplos de * cidade, de disciplina, de afeto, - e o pai, político perseguido, mas generoso, bom companheiro, leal, solidário.

Os episódios da sua vida comovem e emocionam. Antes do Rio, estudou na capital do Maranhão, quando o pai obteve alguma prosperidade. Esteve num internato, e nele viveu o clima de erotismo que deixou em meninos e adolescentes marcas que talvez muitos tenham influído na formação das respectivas personalidades.

Um dia retornou ao machão do primeiro *. Estudou nos ginásios da cidade. Fixou as belezas femininas do tempo em páginas de recordações. Rememorou os bailes, o sereno dos curiosos, os cochichos críticos, pregando comentários irreverentes. Ginasiano, recebeu, recolheu as primeiras impressões sobre Deus. Chegaria a ver sua partida para o sul, a vez da partida para o sul, a viagem da esperança. * que lá se defrontou com as profundas diferenças entre o vilarejo e a metrópole, a simplicidade e a sofisticação.

O sofrido homem chegou ao Rio em 1933, cidade que quase também encontramos dez anos depois - a Cinelândia, a Galeria, o Hotel A* e Getúlio no Poder. Os heróis do teatro - Procópio, Dulcina, Odilon, e os ídolos do futebol Leônidas, Domingos da Guia, e a consagração de Ary Barroso e Orlando Silva. Topamos o Centro e as suas pensões ordinárias ricas de percevejos nas camas sem conforto. Praias bonitas, * O Amarelinho - o melhor ponto de bebericar e bater papo. A Lapa e o Mangue de prostitutas baratas.

Apareceu-lhe o primeiro emprego. Ingressou no trabalho da propaganda. Em 1935 estava em São Paulo, vitorioso, sim, vitorioso.

 
A. Tito Filho, 07/02/1991, Jornal O Dia – p. 4

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terça-feira, 15 de maio de 2012

"EU SEI ONDE ESTÁ O DINHEIRO"

A Academia Brasileira de Letras conferiu uma de suas poltronas a José Américo de Almeida, o paraibano cuja vida pública tem sido um grito angustiante pela felicidade do Brasil. Está de parabéns a Casa de Machado de Assis, chamando o seu seio um grande escritor.

Era um paraibano baixote, míope desde moço, encheu de compostura a vida nacional. Formou-se em Recife, em 1908, com os piauienses Simplício Mendes e Arimathéa Tito. Parece que chegou a residir com os dois na mesma "república" de estudante; pelo menos é certo que foi companheiro de quarto de Arimathéia. Formado, José Américo achou fascinante a vida política, e nela ingressou. Ei-lo, em 1930, como um dos chefes civis do movimento revolucionário que derribou Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e entregou o governo da República a Getúlio Vargas, de quem foi ministro da Viação, um grande ministro, voltado para os graves problemas do Nordeste. Enfrentou a terrível seca de 1932. Impôs-se à admiração do país, pelo trabalho, pela sinceridade, pela inatacável honestidade.

O esforço gigantesco como ministro, a linguagem franca de que se utilizava para o debate dos problemas políticos e administrativos, os brados de revolta contra o atraso da terra e a penúria do homem, a bravura com que desafiava os maus, a consagração do romancista de A Bagaceira - tudo isto lhe valeu imensa popularidade, na Paraíba como no Brasil.

"A Bagaceira" (romance) deu a José Américo uma posição invejável no cenário da literatura brasileira. Consentiu o autor em que o livro "é a tragédia da própria realidade". Livro violento, que agasalhou "almas semibárbaras pela violência dos instintos". O escritor interpreta essas almas sem artificialismo, nuamente, para não suprimir delas a grandeza: "Seria tirar-lhe a própria alma".

O livro semelha um protesto contra "a miséria maior do que morrer de fome no deserto" que "é não ter o que comer na terra de Canaã".

Romance do sofrimento do homem na terra escaldante - "A Bagaceira" também constitui um romance de amor, "concessão lírica ao clima e à raça", como diz José Américo - "problema de moralidade com o preconceito da vingança privada", da forma que ele define as paixões brutais do sertão.

Getúlio Vargas, depois de três anos de governo discricionário, premido pelas circunstâncias, convocou eleições para uma Assembléia Constituinte. Esta se reuniu e votou a Constituição de 1943, que adotou a fórmula de eleições indiretas para o primeiro período presidencial. Findo este, daí por diante o processo de escolha dos presidentes seria direto. Elegeu-se Getúlio presidente por quatro anos.

(Em 1937, arregimentam-se os políticos. Campanha eleitoral a vista. Eleições presidenciais marcadas para 3 de janeiro de 1938. Plínio Salgado, chefe do Integralismo (camisas verdes), candidata-se. Também se candidata Armando de Sales Oliveira, governador de São Paulo, político de grande conceito e prestígio. Getúlio manda que seus partidários apresentem José Américo como candidato oficial. O lançamento é feito por Benedito Valadares, governador de Minas. O paraibano aceita o encargo. Ganha as ruas, as cidades, pregando idéias, defendendo ideais).

Mas Getúlio preparava com Góis Monteiro, desde o carnaval de 1937, um golpe, no ritmo político de três tempos, na correta apreciação de Nehemian - coup d'etat - ditadura.

(Veio o golpe de Getúlio no dia 10 de novembro de 1937. Fechamento do Congresso Nacional. Prisão de adversários. Liquidação dos partidos políticos. Encerramento das atividades integralistas. Nova Constituição, em que Getúlio se tornava chefe do Estado Nacional. Interventorias nos Estados, com exceção de Minas. Nas Alterosas, Valadares se mantinha como governador. Ostracismo para José Américo).

(O paraibano tem sete fôlegos. Corajosamente, dia 22 de fevereiro de 1945, decreta, numa entrevista dada a Carlos Lacerda, a queda do regime getuliano).

Com ilustres chefes políticos, cria a UDN. Lança-se Eduardo Gomes candidato à presidência. Vibrante campanha derriba Getúlio, dia 29 de outubro de 1945.

José Américo e o antigo ditador elegem-se para o Senado. Em 1950, Getúlio elege-se presidente da República. O paraibano sai governador da Paraíba, cargo de onde obtém licença da Assembléia para atender ao convite presidencial de entregar-lhe o Ministério da Viação e Obras Públicas.

Sobrevieram as crises. A Oposição não poupava o governo de Vargas. Em 1954, atendendo a Lacerda. Assassinato de Rubens Florentino Vaz. Suicídio do presidente na véspera do Dia do Soldado.

Volta o paraibano ao governo da Paraíba. Cumpre mandato. Antes, presta depoimento sobre a grande crise de agosto de 1954. Palavras candentes, fortes, verdadeiras.

José Américo de Almeida reassume o lugar vital de ministro do Tribunal de Contas da União. Atingindo idade compulsória, aposenta-se retirando-se para a amada Paraíba, onde vive cercado do afeto e do respeito da família e dos brasileiros.

Deu-lhe poltrona a Academia Brasileira de Letras, homenagem a um gigante de inteligência, a um criador da literatura - a um homem de trabalho intelectual constante em favor da verdade e em favor de um Brasil feliz.

Na campanha presidencial de 1937, num comício no Rio, fez ele análise da realidade brasileira e gritou: A terra é infeliz porque é pobre. Mas eu sei onde está o dinheiro para o soerguimento do Brasil".

E por isso não foi presidente.


A. Tito Filho, 29/06/1991, Jornal O Dia – p. 4

sábado, 12 de maio de 2012

IRRESPONSABILIDADE

Os velhos e saudosos carnavais que eu conheci começavam sábado de noite e prosseguiam até terça-feira. No dia seguinte, cinzas, os cristãos meditavam. Tudo alegria, companheiros, educação. Realizavam-se bailes animadíssimos, coros maravilhosos e um carnaval de rua bem carregado de bom humor. Pobres e remediados se empregavam à folia, sem excessos. Assim se dava também quando eu não havia nascido. Já em 1870 surgiu a primeira sociedade carnavalesca. Folguedos na praça Saraiva. Ano de 1983 criaram-se dois clubes de festas deslumbrantes, o Fenianos e of Fênix. A alta-roda comparecia de ricas fantasias, como a Lili Lopes, avó de Genuzinha Aguiar correia: vestido de cetim branco com apanhado de gaze dourada, volta e pulseira de pérolas brilhantes. Ainda a conheci proprietária da Botica do Povo, na praça Rio Branco. Um dos mais empolgantes foi o de 1914, com os dançarinos Miguel Rosa, Luís Correia, Fenelon castelo Branco, Abdias Neves, Nogueira Tapety, Mário Batista, João Pinheiro, Casusa Avelino, Lindolfo Monteiro, Tote Carvalho, Ney Ferraz, Heli Castelo Branco, intelectuais, médicos, políticos. Entusiástico o de 1920, de carros alegóricos. Batalha de lança-perfume e confete. Intransitável a praça rio Branco. Muita Gente projetada nos bailes. As caboclas, chamadas segunda, também ditas curicas, dançavam nos gostosos forrós dos arredores da cidade. Verdadeiro delírio o carnaval de 1921. Bailes deslumbrantes na Assembléia Legislativa. Pululavam a bom pular João Luís Ferreira, Matias Olímpio, Anfrísio Lobão, Jarbas Martins, Ernesto Batista, Leônidas Melo, Dídimo Castelo Branco, Joel Mendes. Nesse ano surgiu o clube dos Fanfarrões, que promoveu sempre dois bailes, no sábado e na 2ª feira. Surgiria em 1922 o Clube dos diários, ainda de pé, consagrado agora aos velhos e velhas que se esfregam e se arrocham uma vez por semana nos seus salões deteriorados e sujos. Um delírio a folia de 1925. Participaram com inexcedível entusiasmo do carnaval de 1934 Rocha Furtado, Cláudio Pacheco, Salmon Lustosa, Firmino Paz, para citar gente viva. Caiu nos dias 22, 23, 24 e 25 de fevereiro o carnaval de 1941. Presença do primeiro Rei momo, recebido na praça Pedro II pelo interventor Leônidas Melo. Ainda se verificou um excelente carnaval em 1947. Os principais foliões solteiros, alguns falecidos, outros vivos, foram Ângelo Pereira da Silva, Milton Aguiar, Tito Filho, Elói do Egito Coelho, José Lopes Aguiar, João de Deus Fonseca Filho, João Mendes Olímpio de Melo, Carlos Alberto Paz. Jovens mais animadas: Anita Freitas, Iracema Freitas, Maria do Amparo Araújo, Miriam nogueira do Rego Monteiro. Festas maravilhosas no clube dos Diários e no Teatro 4 de Setembro.

Houve o declínio por toda parte. Desanimados folguedos nas ruas, extinção do corso de automóveis e caminhões, e o triste espetáculo das escolas de samba, de caráter competitivo, com o apoio de órgãos públicos.

O carnaval, de certo tempo a esta parte transformou-se em devassidão, com bailes de mulheres peladas, gueis pelo torto e pelo direito e o cenário de sexo despudorado, como se vê nas transmissões televisivas do Rio e de são Paulo.

A festa que tinha inicio no sábado de noite se esticou, indo de quinta ou sexta-feira até quarta ou quinta-feira. a nação pára de trabalhar cinco, seis dias seguidamente, e a violência campeia destravada. Enchem-se os hospitais. Gastam-se as economias de um ano inteiro. Um desperdício de dinheiro inacreditável nas escolas de samba do rio de Janeiro, cada vez mais luxuosas. Já se construiu um SAMBÓDROMO, local dos desfiles milionários, cuja denominação híbrida de grego e africano revela besteirice refina. em Teresina, até pouco tempo passado, o poder público prestava apoio a milhares de pessoas, às quais se distribuíam tonéis de valente cachaça, em circunstância que não se registrava antigamente.

O Brasil e o Piauí atravessam crise em todos os sentidos. Há fome, doença, miséria, indigência, hospitais sem funcionamento, escolas públicas fechadas e uma guerra, terrível carnificina, tirando vidas e impondo sofrimentos, enquanto as almas sem solidariedade se entregam a festas vaidosas e maléficas.

O país vive instantes de irresponsabilidade.


A. Tito Filho, 10-11-12-13/02/1991, Jornal O Dia

OS TRÊS SILVESTRES

Não conheci o meu avô paterno. Quando vim ao mundo, ele já se havia despedido desta vida para outra que suponho pior. Chamava-se SILVESTRE TITO CASTELO BRANCO. Foi vereador em Barras do Maratoã, uma vilazinha pacata do norte piauiense. Pobre, mas respeitado. Família de muitos filhos, mulheres e dois varões. Estes se educaram com a ajuda de amigos. Quando morreu, meu pai lhe herdou as dívidas e as saldou, um por uma.

No livro de memórias ÚLTIMAS PÁGINAS, Cristino Castelo Branco escreveu este trecho: "Lembro-me agora em março do desembargador José de Arimathéa Tito, meu antigo companheiro do Tribunal de Justiça do Piauí, cinco anos mais velhos do que eu, pois nascera a 18 de março de 1887. Pertencia à família Castelo Branco, filho que era de Silvestre Tito Castelo Branco, mas o pai, brigado com os parentes, tirou dos filhos o nome de família".

De feito, meu avô não quis que nenhum dos filhos se assinasse CASTELO BRANCO, homens e mulheres. O primeiro varão chamou-se SILVESTRE, por extenso SILVESTRE TITO FILHO. Deveria ser SILVESTRE TITO CASTELO BRANCO FILHO, mas o pai, teimoso que nem mula, lhe decepou o nome familiar famoso. Na família foi o segundo SILVETRE. Bem alvo, olhos azuis, andou pela capital no Pará feito funcionário público. Adquiriu banhas. Um tanto buchudo. Gostava dos livros, sobretudo os de direito. Danou-se de saudades e regressou à casa paterna, em Barras. Tornou-se advogado, embora sem diploma de faculdade. Escrevia bem. Apreciava uma boa pinga, como de modo geral sempre a apreciaram os barrenses de todas as categorias.

Silvestre Tito Filho nunca se casou. Era meu padrinho, boníssimo padrinho, que sempre me presenteava uns tostões para os rebuçados e os bolinhos que as doceiras de Barras faziam com requintes da difícil arte culinária.

Nunca me esqueci do episódio. Noitinha do dia 6 de fevereiro de 1933 eu me despedi do meu querido padrinho e tio, e ele me deu uma moedinha de bom metal, de mil réis, que na época se denominava CENTENÁRIO, cunhada em homenagem aos primeiros cem anos da independência nacional. Trazia de um lado as efígies de Pedro I e Epitácio Pessoa, o presidente das festas comemorativas.

Dia 7 de fevereiro, madrugada, viajei no caminhão do Crueira, motorista mito conhecido e estimado dos barrenses. Nove da noite, cheguei a Teresina, no Colégio diocesano, como aluno interno, e o padre Joaquim nonato, bom amigo, diretor do educandário, me transmitia a notícia triste que tio Silvestre havia falecido de modo repentino.

Faz poucos dias faleceu em Teresina um terceiro SILVESTRE, nome todo SILVESTRE TITO NETO. Deveria ser Silvestre Tito Castelo Branco Neto. Morreu-lhe a mãe muito cedo, irmã de meu pai, e o pai viúvo logo se casou de novo e deixou com duas tias solteironas os dois filhos havidos do primeiro casamento. Largou a segunda esposa, e tornou-se comissário do Lóide Brasileiro, em cujos navios transitava pelos mares do planeta. Faleceu no começo da década de 50.

Silvestre Tito Filho criou-se sempre pobre, sustentado pelas tias, que lhe davam afeto e carinho. Não teve recursos para estudar. Garoto ainda prestou concurso de carteiro e empregou-se nos Correios de Teresina, fez carreira e aposentou-se. Sempre de exemplar honestidade. Dedicado chefe de família. De inatacável fidelidade à palavra empenhada. Meu companheiro de férias, ao velho Marruás, aonde fomos com os outros primos, no final de cada ano, para os festejos religiosos promovidos pela humilde igrejinha da vila, depois cidade.

Ma(i)s um bom Castelo Branco dos bons que se foi.


A. Tito Filho, 05-06/05/1991, Jornal O Dia

sexta-feira, 11 de maio de 2012

HOMEM-PLURAL

Clidenor Freitas Santos tem sido um homem-plural nas atividades e na inteligência, sobretudo homem alegre, porque rico de afeição à vida. Nasceu na antiga comunidadezinha de Miguel Alves, no Piauí, uma cidade pequena e sonolenta à beira do Parnaíba, a 16 de fevereiro de 1913. Teve infância e adolescência simples. Estudou no tradicional Liceu Piauiense e formou-se médico no Recife em dezembro de 1936. Trabalhou em laboratório de patologia, com os minguados vencimentos de cinqüenta mil réis mensais. Exerceu emprego no Pará e no Instituto Osvaldo Cruz, do Rio, quando padeceu saudades e voltou aos pagos naturais, a tranqüila Miguel Alves de rudimentar agricultura e criatório de gado pé-duro, e nesse meio bucólico e alegre montou consultório. Convocado para progredir, fez estudos em São Paulo, no Hospital do Juqueri, em contacto com gente sem juízo. Especializou-se em psiquiatria. Esteve ainda no serviço do Hospital da Praia Vermelha, no Rio. Cada vez mais conhecia o Homem na sua atitude mental e se empolgava com o romance de cérebro-humano. Regressando ao Piauí em 1940, fixou-se nesta Teresina de pessoas humildes e recebeu chamado, dentre em pouco tempo, para dirigir o ASILO DOS ALIENADOS, o HOSPÍCIO, denominação que amedrontava mais do que a loucura. Foi quando deparou com cenários tenebrosos de loucos acorrentados. Mandou retirar os pesados grilhões dos infelizes e deu-lhes tratamento decente, revolucionando a ignorância dos costumes sociais. A casa de tratamento deixou de chamar-se HOSPÍCIO DOS DOIDOS e passou a HOSPITAL AREOLINO DE ABREU, em homenagem ao governante que o criou e construiu. Foi distinguindo com outras funções de responsabilidade. Médico psiquiatra do Serviço de Doenças Mentais do Ministério da Saúde. Professor de filosofia do Liceu Piauiense. Deputado federal de consagradora votação no Piauí. Presidente nacional do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, nomeado pelo presidente João Goulart, posto em que o alcançou a rebeldia militar de 1964, e ele se viu compelido, para evitar violências, a buscar asilo no Peru e depois no Uruguai. Padeceu a suspensão dos direitos políticos, mas sem temer as perseguições do militarismo vitorioso, retornou à terra natal, porque tinha inatacável a honradez pessoal e pública.

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No exílio, leu e estudou ciências sociais para uma visão mais ampla do mundo e do homem. Aprendeu a interpretar a história.

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De regresso, corajoso sempre, pois de coração sincero e de espírito para o afeto, já no Piauí do seu bem querer, fundou empresas privadas como a Cajulândia do Brasil, e do Alkool Motor do Piauí, sem que se concretizassem por virtudes dos ódios intransigentes dos militares no poder.

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Correram os anos e Clidenor, sempre criativo e de olhos no futuro, promoveu as AGROVILAS e o projeto da APICULTURA.

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De admirável capacidade para produzir trabalhos de enriquecimento espiritual do homem nos domínios da psicopatologia, da crítica literária e musical, publicou exemplo de definição da personalidade integral do homem numa carta aos filhos, definiu o fundador de Teresina, o baiano José Antônio Saraiva, dissertou sobre o amor-símbolo, deu aula sobre o latifúndio, revelou as bases psicológicas do nacionalismo, leu os gregos e enalteceu a profunda lição de sabedoria desse povo. Tem títulos e honrarias de entidades projetadas do país e do estrangeiro. Faz pouco tempo reuniu no livro IDEOLOGIA E CIRCUNSTÂNCIA pensamentos e idéias sobre assuntos da mais alta relevância em área de conhecimento humano.

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A grande obra cívica, espiritual, científica, humana de Clidenor está no Sanatório Meduna, um dos melhores hospitais do Brasil, que serviços do mais extraordinário valor social tem prestado aos patrícios. Ele o construiu lutando contra a pobreza.

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A 16 de fevereiro de 1991, Clidenor Freitas Santos integrou 78 anos bem vividos. Jovial sempre. Alegre. Amigo do próximo. Honesto de palavras e de ações. Dedica parte enorme do tempo a educar o próximo para a vida de convivência. Ao belo. Cultiva a sabedoria. Sabe conquistar admiração e distribuir afeto. Pai virtuoso. Esposo de caráter nobre. Divide o tempo entre o lar e o mundo. * a família total. De franqueza educada. Veste-se de aprumo e decência, sem ser excessivo. Aprecia mesa farta e o manjar de culinária sem defeito. Bebe o vinho como quem bebe a saúde e copia os deuses. Passeia as ruas como distribuidor de melodias, no realejo, para alegrar os que lhe ouvem a sensatez das palavras. Admirado de todos, também dedica admiração aos que se enriquecem de saber pela aceitação dos dias ruins e dos dias felizes como se fossem ambos necessários à compreensão dos ditames divinos.

Em torno desse homem sem medo e de agradável sensibilidade, na sua aconchegante mansão, se reuniram os seus colegas da Academia Piauiense de Letras, à mesa de iguarias elogiadas de vinhos de sabor educado. Uma bela reunião com a presença dos filhos de Clidenor e de uma senhora invejável na postura de esposa sem defeitos, como inspiradora de um lar amigo - D. Aracy.


A. Tito Filho, 03/04/1991, Jornal O Dia, p. 4
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quinta-feira, 10 de maio de 2012

O HOMEM E A SUBSTÂNCIA

Ano de 1940. Cursava eu o colégio Estadual do Ceará. Não me lembro o dia. Sei que nesse ano tive, em Fortaleza, notícia da morte de José Pires de Lima Rebelo. Escoaram-se dias e mais dias. Cinqüenta anos faz que meu conterrâneo de Barras deixou a vida, legando aos penitentes terrenos exemplos sem conta de beleza de personalidade. Foi o homem-mensagem.

Berdiaeff, o lúcido Berdiaeff das "Cinq Méditations sur I'Existence" ou de "La Destination de I'Homme", escreveu que a "exacerbada inquietação" da humanidade promana da subordinação do homem ao tempo - a temporalização do homem: "O perpassar do tempo é desesperadamente triste, triste o olhar do homem sobre o tempo que se vai" - e o remédio para a moléstia do tempo está, como quer Proust, "em restituir ao homem temporalizado o sentido do seu destino de eternidade, em Deus".

Lima Rebelo não sofreu, na sua época, a nostalgia do tempo passado nem a incerteza do tempo futuro. Viveu o presente, com devotamento exemplar, e adquiriu o sentido do seu destino de eternidade.

Cada um de nós traz consigo uma mensagem. A de Lima Rebelo era pedir que lhe dissessem o segredo do coração alheio, para amar melhor o semelhante, para compreender a alma do próximo, para educar o jovem, sim, para educar o jovem sequioso de ternura, de alegria, de liberdade. Quis dar a todos uma doce moradia de paz. Foi educador no verdadeiro e apostólico sentido da expressão. Dentro da escola pôs um clarão de beleza e espiritualidade.

Quintino Bocaiúva disse a Machado de Assis: "O grande homem é o homem de bem". Neste particular, Lima Rebelo foi exemplo inatacável de pureza de princípios. Não pôde ser vulgar porque atuou entre caracteres viscosos de ambições e de perfídias - e sobressaiu pela personalidade sem mancha. Nele resplandece a caridade cristã, porque não se externava para não humilhar. Combateu o mal com capacidade de sacrifício e com renúncias silenciosas.

Espírito aberto a indagações, palavras fáceis, estilo corrente; legou ao Piauí um pouco de tudo em todos os ramos da atividade mental: crônica, história, sociologia, jornalismo; economia, humanismo. 

Poucas produções José Pires de Lima Rebelo enriquecem a vida intelectual do Piauí - dois discursos e uma página de educação, todas reveladoras de um escritor sincero e culto, de linguagem asseada e vibrante, estilo e clareza e comunicabilidade impressionante, em par com a profundidade dos conhecimentos.

José Pires de Lima Rebelo colocou-se entre os homens de bem. foi um centro nobre da vida piauiense. Corajoso e fiel, sempre falou de cabeça erguida, para realizar o seu grande e laborioso destino de educar a coletividade.

Dele eu diria como disse em versos Tagore: Se tu quiseres, deixarei de cantar. Se assusto o teu coração, deixarei de te olhar. Se te aborrece a minha presença, irei para outro lugar. Se te esquivas quando estás colhendo flores, não irei mais ao teu jardim solitário. Se os remos turvam a água, não levarei mais meu barco à tua margem. Não me escondas o segredo de teu coração! Dize-me a mim que sou teu amigo, só a mim!... Dize-me tão docemente como sorris, que não ouçam os meus ouvidos mas sim o meu coração. A noite é profunda; a casa está silenciosa, o som amortalha os ninhos dos pássaros... Anda, dize-me num choro trêmulo, com uma doce vergonha, com uma suave dor, o segredo do teu coração".


A. Tito Filho, 06/03/1991, Jornal O Dia, p. 4