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segunda-feira, 21 de maio de 2012

FOLIA PERNICIOSA

Iniciada quinta ou sexta-feira, a folia carnavalesca continuava agitada na manhã de 4ª feira de cinzas, sobretudo em Olinda, Recife, Salvador, Rio de Janeiro. A nação inteira esteve paralisada dias seguidos, com atividades suspensas. No sábado, dia 9 de fevereiro Dom Eugenio de Araujo Sales escreveu em jornal carioca: "A cidade gasta somas consideráveis em sua decoração, pobres economizam dos seus poucos salários, durante todo o ano, para consumi-los em efêmeras extravasões de uma fugaz alegria. Quantias extraordinárias vêm de fontes duvidosas; o luxo e o desperdício chocam-se com a miséria reinante".

Participei de alegres festas carnavalescas, quarenta, cinqüenta anos passados, nas décadas de quarenta, cinqüenta. Era uma festa popular de raros excessos. Muito se brincava, sem erotismo, sem mulheres peladas, sem magotes de veados na exibição dos peitos e nádegas artificiais. Uma folia contagiante, fraterna, iniciada por volta das cinco da tarde e encerrada pelas quatro da manhã do dia seguinte.

A chamada LIBERTAÇÃO da mulher transformou a vida social. Completou-se a circunstância, no Brasil, com a TELEVISÃO e o seu criminoso PROCESSO EDUCATIVO das novelas destinadas à corrupção da família.

Poderosos interesses de uns trinta anos para cá orientam e dirigem os carnavais brasileiros, subornando indivíduos e instituições. Neles se locupletam indústrias e comércio e para tanto a publicidade faz deles exibição permanente de despudoramento e luxúria. Nos bailes em clubes fechados se passam cenas de Sodoma e Gomorra, orgias e bacanais que só uma sociedade doente admite e suporta, e um governo cúmplice as permite e garante. Dissipam-se milhões, bilhões nessas nefastas falsas brincadeiras carnavalescas.

Fraquíssimo o carnaval de Teresina neste 1991. Antigamente não havia entre nós escola de samba e o respectivo desfile. Havia blocos populares, engraçados, que acompanhavam o corso de automóveis. Com o surgimento do carnaval comercializado do Rio de Janeiro, e o aparecimento das suas luxuosas escolas, os foliões de nosso meio quiseram criá-las e também apresentá-las em grotesco e desengonçados desfiles pela avenida Frei Serafim. Logo se buscou o recurso do erário público. Seria o caos sob proteção da Prefeitura e do Estado. Mas desta vez os cofres estaduais emborcados e a negativa salutar o prefeito Heráclito não permitiram os dinheiros para o pagode. Ainda bem.

Vi cenas televisadas de bailes em clubes do Rio de Janeiro. Um deboche. Mulheres quase despidas. Uma tristeza o baile dos GEUIS, Só as mães irresponsáveis permitem a exibição de jovens sexualmente pervertidos num espetáculo em que os próprios locutores da televisão debocham das pobres vitimas, moças de vida sem esperança, a *ço de uma sexualidade anormal e angustiada. As fantasias desses jovens, riquíssimas, reclamam milhões de material e mão-de-obra. As cenas de debocharia eram provocadas por doutora no assunto, a famosa Rogéria, que machucava os ouvidos dos rapazes a cada vez que soltava piadas de mau gosto, ao defini-los.

Quanto o Brasil gastou neste carnaval? Ninguém sabe. Não se pode avaliar o que se perde em valores morais e espirituais. Em deseducação do povo, que assiste, de boca aberta, a tolices referidas nas letras das músicas e ofensas sem contar com a convivência da boa linguagem. A pornografia, corrompe e avilta, representa a principal característica do carnaval do nosso tempo, ao lado da violência à própria dignidade do ser humano.

Quanto o Brasil gasta com hospitais, médicos e medicamentos? Não se sabe. No Rio, terça-feira, os meios de comunicação anunciavam o registro de * assassinatos nos três primeiros dias da festa que o dinheiro transformou em maneira de desregramento moral.

Convocou-me a atenção, nos bailes transmitidos pela TV-Bandeirantes, a circunstância da insistência da câmera em focalizar mulheres de traseiros à mostra, num processo rebolativo monótono. Um rebolo permanente, enjoativo, fazendo crer que a mulher só possui esse degenerado modo de atrair publicidade e admiração. Os homens aguardavam os momentos da depravação sem freios, na madrugada sem-vergonha.


A. Tito Filho, 15/02/1991, Jornal O Dia - p. 4

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* Não está visível no original

domingo, 20 de maio de 2012

NOVEMBRO FEIO

A pessoa alguma convém testemunhar pessimismo sobre o Brasil. Mas o otimismo tem os seus limites. Não é justo que se adote a crença num país em que as noites e os dias revelam total desagregação de responsabilidades. O desespero prevalece com o seu cortejo de desesperança. Deterioram-se os caracteres. Todas as atitudes negativas se adotam contra o país em que enriquecimento ilícito e a ganância constituem fatos corriqueiros do dia-a-dia, sob denúncias da altivez dos órgãos de comunicação. Os ensinamentos de João XXIII, na sua imensa MATER ET MAGISTRA não encontram acolhida nos governantes nem na compreensão das elites dirigentes. Que pretendeu o Papa admirável na eternidade das suas lições? Queria que os homens SOCIALIZASSEM os bens da vida. A socialização daquelas cousas que fossem as necessidades fundamentais da família, de forma que todos tivessem o lar, o alimento, a educação, a saúde, o pedaço de terra, como filhos de Deus, como criaturas humanas.

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Antigamente o campo produzia. Exportava-se. Juscelino enterrou bilhões de dólares para fazer Brasília, uma cidade cercada de favelas por todos os lados. Os patrícios abandonaram o campo e buscaram as cidades grandes, que hoje suportam dois terços da população, e a zona rural abriga apenas um terço. Os problemas das megalópoles sufocam. Rio, São Paulo, Teresina, Recife mostram crianças famintas buscando restos de comidas nas latas de lixo. As fortunas mirabolantes de poucos afronta a miséria de milhões. A prostituição de meninas de 12 anos tornou-se vergonha nacional. Alta-roda vive de escândalos amorosos. Saqueia-se o país com o conhecimento às vezes de altas autoridades e estas também às vezes praticam os crimes contra os cofres públicos. Vigora o calote oficial. Fecham-se hospitais porque o governo lhes nega o pagamento durante meses. Liquidou-se o sistema educacional brasileiro. Ninguém crê na escola pública, em que professores improvisados se sujeitam a vencimentos infames. Espalha-se por toda parte a escola particular, em que os donos enriquecem e os mestres não recebem fiscalização alguma por parte dos órgãos de governo. Os salários mínimos mal cobrem as despesas de uma péssima refeição diária. Abundam na República imperialista brasileira os chamados marajás, e os tribunais se entopem de parentes e aderentes dos ministros e desembargadores, sem que compareçam ao trabalho, mas percebem contracheques polpudos, da mesma forma que nos gabinetes dos deputados e senadores. O que funciona neste país? Nada, salvo assaltos, vinganças, roubos, tráfico de drogas. A democracia nacional, com milhões de famintos e analfabetos, marcha para o abismo. Recentemente os jornais e as tevês propalaram o superfaturamento de bicicletas, guarda-chuvas, mochilas e sustenta-se que o ministro tinha conhecimento dos fatos passados na Fundação Nacional de Saúde. A acusação parte da exonerada presidenta do órgão. Ao lado desta, verificam-se denúncias de que recursos são atirados fora, atirados aos porcos. e apontam-se repúblicas dentro da República, como escreve a TRIBUNA DA IMPRENSA. Cada ministro, com raras exceções, distribui verbas para o Estado onde nasceu.

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Faz poucos dias, em pronunciamento ao Brasil, o presidente Collor criticou severamente os empresários. QUEM NÃO TEM COMPETÊNCIA NÃO SE ESTABELECE, disse. Se o negócio não rende, deve ser fechado e o dono abrirá um boteco. Achou o primeiro mandatário que se torna fácil liquidar uma indústria ou um comércio e montar um botequim na esquina, esquecendo-se Collor das altas taxas de juros e o aumento constante das matérias-primas. O próprio governo aumenta preços de dez em dez dias. Gasolina, energia, água, telefones, taxas de comércio.

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A imprensa gozou a fala presidencial sustentando também que o presidente não dá conta das promessas feitas na campanha eleitoral. A inflação sobe. Os preços são incontroláveis. Devia pois estabelecer-se com outro negócio.

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Não se resolvem problemas sérios com a mudança de ramo de negócio. Assim seria fácil governar o Brasil.


A. Tito Filho, 24/12/1991, Jornal O Dia - p. 4

sábado, 19 de maio de 2012

O BONDE

Quando vim de Barras para Teresina, em 1932, já não existia bonde na cidade. Ainda encontrei os trilhos. Conheci esse veículo, do tipo elétrico, em Fortaleza, ano de 1939. Mais comprido do que um ônibus, era do tamanho e da largura de um trem. Quase diariamente eu subia num deles. A gente pisava no estribo, uma tábua do comprimento do carro, de um lado só, e alcançava os bancos de madeira para cinco pessoas. Pelo estribo o chamado condutor cobrava as passagens, dependurado nos balaústres entre os assentos e pulando nos estribos para receber os níqueis dos passageiros.

Encontrei novamente esse transporte civilizado no Rio de Janeiro, começo dos anos quarenta, sempre o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a animação da cidade, como escreveu Bilac. Morador de Ipanema, eu viajava nos bondes de preços mais do que baixos, duzentos réis por longos percursos. Defronte da gente, em todos os carros, se lia o cartaz de propaganda de popular remédio da época, em versos: "Veja, ilustre passageiro / O belo tipo faceiro / Que o senhor tem ao seu lado / e no entanto acredita / Quase morreu de bronquite / Salvou-o o Rum Creosotado". Desapareceu o santo medicamento, eu nunca, porém, esqueci os versos pendurados nos bondes cariocas.

Seis horas da tarde, agoniado momento de regresso a casa. Gente que nem formigueiro no centro do Rio. Pessoas apressadas na busca de transporte. São milhares que se acotovelam nos pontos de embarque. Preferência dos bondes, que circulam com lotação excessiva. A minha hora também. Esforçadamente conseguia um lugarzinho no bonde, entre mulheres. Era bom. Quando o carro ganhava velocidade, havia o balanço para a direita e para a esquerda. Dava-se a impressão de que o veículo afastaria dos trilhos. Esquerda e direita e vice-versa, os passageiros acompanhavam a movimentação, pra um lado e para o outro, e alguém podia fugir ao rolar de coxas e de braços nos braços e nas coxas da garota ou da balzaquiana ao lado da gente, e o esfrega-esfrega era chamava de bolinação, termo de náutica. Assim à bolina correspondia ao fato de o navio estar inclinado. De termo do mar, passou aos sacolejos dos bondes e ainda, na escuridade dos cinemas, aos amassamentos e beliscos nos seios. Era bom bolinar as namoradas.

Deixei o Rio e à cidade maravilhosa retorno em passeio algumas vezes até que, em 19* não encontrei os populares bondes do meu tempo, veículos despoluídos, de passagem barata, românticas, higiênicos, de viagens propiciadoras de namoros inesquecíveis. Foram desativados, por determinação do poder econômico. Contra eles se fez censuras me*sas, acusados de atrapalhação do trânsito, mas a idéia estava em privilegiar os veículos a gasolina, dispendiosos e poluidores, um excesso de exploração das empresas de ônibus.

Leio agora no jornal carioca "Tribuna da Imprensa" que os bondes vão voltar. Grande idéia. Maravilhosa demonstração de bom senso das autoridades. E com eles retornarão os dias felizes de antigamente no transporte de enormes cidades brasileiras.

Tenho saudades dos velhos bondes da Light, companhia inglesa que os mantinha. Uma graça esses bons veículos no momento do RUSH. Bancos completos de passageiros, a gente imprensado entre duas garotas, aventura gostosa de coxas unidas e braços roçando no carro. Uma gostosura dos velhos tempos românticos.


A. Tito Filho, 16/03/1991, Jornal O Dia - p. 4

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*Não está visível no original

sexta-feira, 18 de maio de 2012

VESTIBULAR

Sobre o chamado exame vestibular para acesso às universidades brasileiras já escrevi algumas crônicas publicadas em humildes livrinhos. Nelas digo que anualmente milhões de jovens de ambos os sexos buscam o cobiçado título de doutor, no país em que se assentou o preço do triunfo num anel de grau. E haja anel de grau para todos os dedos, como se ele conferisse o respectivo mercado de trabalho. Criou-se a mística da universidade.

A verdade é que a juventude não estuda. Freqüenta cursinhos, que, bem ou mal, procuram realizar o seu trabalho preparatório, suprimido o péssimo ensinamento das escolas.

O exame vestibular se fez com a utilização de testes. Os candidatos vivem verdadeira tormenta memória. Os testes semelham quebra-cabeças em torno dos quais gravitam moças e moços, que, durante meses, andam pelas ruas, cadernos debaixo dos braços, com o pensamento no exame reprovador:

Quem descobriu o Brasil? 1) Foi você? 2) Foi Pedro Álvares Cabral? 3) Foi Pelé? 4) Ninguém até hoje descobriu o Brasil?

O candidato lê duas vezes os quatros caminhos. E conclui, depois de muito suor: eu nunca descobri cousa alguma, logo não descobri o Brasil. Mas alguém o descobriu. As perguntas 1 e 4 ficam exoneradas, portanto. Tenho certeza de que Pelé se encontra na história do futebol. Resta Pedro Álvares Cabral. Xis nele.

Há necessidade de novos rumos. Os escritores escolhidos para as provas nunca foram lidos pelo candidato. E quanto este, por através de conhecimentos de televisão, acerta o nome do autor de Capitães de Areia, nunca leu o livro e desconhece o grave problema social que o livro agasalha, como uma reportagem viva, no universo do seu regionalismo.

Os moços deixaram os livros, não lêem, pois consideram desnecessário o estudo e a leitura. O candidato ao doutoramento sabe que tudo se resume na arte e habilidade de decifrar testes. Melhor a revista de quadrinhos e de sexo, ou livros de violência. Machado de Assis passa a ser um sujeito tolo e chato que andou falando da vida alheia. O teste suplantou a cultura nas suas variadas manifestações.

Ainda vive o Brasil subservientemente com a exigência da língua estrangeira no vestibular, como o inglês, ou outra que seja. Que necessidade tem o doutor de saber inglês? E por que não se exigem o alemão, o italiano, o russo, o holandês, o chinês?

O inglês se revela tão necessário a um doutor brasileiro como a primeira cueca que ele vestiu. O inglês pode participar da cultura especializada de quem quer que seja, nunca de maneira obrigatória da compostura intelectual de ninguém. Argumenta-se que as grandes obras para a formação de um doutor sejam escritas em inglês, ou francês, o que não corresponde à verdade. Mas se fossem, essas obras poderiam existir também em tradução portuguesa, como existem traduções de obras alemãs, italianas, russas, espanholas. A própria "Divina Comédia", de difícil tradução, está traduzida.

Nem doutor turista necessita de inglês, ou francês. Em toda parte do mundo existem guias e intérpretes.

Será que na Inglaterra, nos Estados Unidos, na França se exige português nas provas de ingresso nas universidades? Eis aí assunto para um teste do próximo vestibular brasileiro.

 
A. Tito Filho, 15/01/1991, Jornal O Dia - p. 4

INCOMPETÊNCIA

Muitas causas se apontam como justificativa de um Brasil cujo povo padece aflições sem conta. Abandonou-se o campo e criaram-se as megalópoles das populações sofridas - cidades imensas com insolúveis problemas de lixo, de água, de higiene, cercada de favelas por todos os lados, em que prevalece afrontosa e condenável promiscuidade. No campo, vigora idêntico modo de viver. Gente sem terra, faminta, desnutrida, sem escola. Revoltante as circunstâncias de que 80 ou mais por cento da população brasileira não participam da riqueza nacional e faltam-lhe os bens primários da existência. O Brasil de 50 anos atrás era outro. Embora o atormentassem dificuldades, funcionavam as escolas públicas, providas de professores capazes e sérios; os hospitais atendiam dedicadamente os que os procuravam; havia solidariedade humana; desconhecia-se a violência urbana e a rural. Inexistiam classes privilegiadas e os governantes, com raras exceções, administravam com rigorosa honestidade, servidos de auxiliares competentes e probos.

Que houve com o Brasil? A construção de Brasília iniciou o processo inflacionário permanente. Liquidou-se o transporte ferroviário e o de cabotagem, em beneficio dos veículos automotores, consumidores dos derivados de petróleo e vendidos por gigantescas empresas norte-americanas. Desapareceu o bonde para que os ônibus tivessem vez. A propaganda do luxo e do conforto, a principio pelo cinema, de forma subliminar, tornou-se permanente na televisão, instrumento perigoso dominado por empresas particulares e responsável também pela extinção do salutar regionalismo brasileiro. Criou-se o soçaite dos milionários cujas fortunas não têm origem senão pelo sistema exploratório e pelo processo da corrupção.

São várias as causas do empobrecimento e do sofrimento da imensa maioria dos nossos patrícios, às quais se deve acrescentar a incompetência, aliada a outros fatores. É grosseira a incapacidade dos homens públicos, com exceções honrosas, desde que o dinheiro a eleger os políticos e a demagogia tem sido a tônica da maior parte dos que buscam cargos importantes, protegidos eleitoralmente por empresários gananciosos.

Tivemos homens públicos respeitáveis no primeiro como no segundo império. Outros, patriotas, insubornáveis. Quantos cidadãos atingiram fama e projeção pelos ensinamentos, pela lealdade e probidade, pelas atitudes e respeito que sugeriam. Na República, os homens que administravam o país até o primeiro período de Getúlio Vargas gozavam de consideração popular. Os Estados foram confiados a oficiais das Forças Armadas, alguns inexperientes, mas de honestidade irrecusável. Parece-nos que a incompetência teve começo na ditadura getuliana, inaugurada em 1937. Daí para diante ainda se anotavam brasileiros ilustres na chefia dos Estados e dos ministérios. As ditaduras, porém, sobretudo quando se alongam, chafurdam na violência, na perversidade e no capachismo. Retornou-se às eleições de presidentes e congressistas, seguidas da escolha de governadores e legisladores nos Estados. Floresceram ambições. Firmaram-se conluídos. A politiquice dominava o país. Por toda parte no país e nas áreas federais, não mais se firmava o município da competência e da probidade na escolha de auxiliares, mas exclusivamente o critério da política partidária.

A incapacidade viceja por toda parte. Existem titulares ministeriais, de secretariado, de reitores de órgãos públicos sem conhecimento dos assuntos dos cargos que lhe são entregues. De certo tempo aos dias atuais o mal cresceu, multiplicou-se. Alguns brasileiros, exerceram vários ministérios - Educação, Justiça, Trabalho -, como se fosse possível conhecer os problemas de setores diferenciados em tudo, sobretudo quando o titular pertenceu as Forças Armadas. Transferem-se administradores de uma pasta a outra como se o exercício das responsabilidades se considerassem de menos importância no trato da função pública.

A incompetência alastrou-se como doença infecciosa. Atinge o funcionalismo de todos os níveis, pois varreu-se da órbita administrativa o concurso. A administração, nas mais diversas áreas, como assessores, conselheiros, chefes de gabinete - os cunhados, os sogros, os filhos e filhas, os genros, toda a constelação familiar do detentor do cargo importante.

Ministros, secretários bem aquinhoados revelam ignorância até nos pronunciamentos televisionados. Assassinando a língua pelo torto e pelo direito.

O Brasil pode dizer-se um deserto de homens e de idéias, como queria Osvaldo Aranha, bem assim de incompetência dos seus homens públicos, excetuadas as raridades dignas de respeito.

 
A. Tito Filho, 14-15/07/1991, Jornal O Dia - p. 4

quinta-feira, 17 de maio de 2012

BARULHEIROS

No meu modesto livrinho ANGLO-NORTE-AMERICANISMO NO PORTUGUÊS DO BRASIL, registrei ROCK-AND-ROLL e expliquei que ROCK aí se emprega na qualidade de agitar, ROLL vale o mesmo que enrolar, gingar. O composto designa a dança de movimentos extravagantes nos Estados Unidos, por volta de 1952, refletindo as profundas mudanças na psicologia da juventude, que surgia, violenta, de um dos períodos mais dolorosos da história, a II Grande Guerra.

Nestes últimos dias do triste janeiro de 1991, a Rede Globo se dividiu entre dois acontecimentos imbecis: a guerra do Golfo Pérsico e os espetáculos do ROCK-IN-RIO, uma propaganda subserviente da música dos STATES. Embora não suporte essas estúpidas grosserias contra a arte musical, consenti em presenciar, pela televisão, algumas cenas da maluquice de objetivo determinado: a conquista do dinheiro de milhares de moçoilas e moçoilos nacionais, ébrios de futilidade.

Notei logo a cabeçola dos intérpretes principais. Cabelos compridos até os peitos, oferecendo idéias de pederastia e falta de higiene.

Houve tempo em que meninos e meninas usavam cachinhos. A trunfa foi símbolo de coragem pessoal, como o cacho usado pelos homens do cangaço nordestino. As prostitutas recebiam o castigo do cabelo raspado. Nos colégios, os alunos de cabelo aparado recebiam vaia. No romantismo a condição de poeta exigia basta cabeleira.

Os cabelos estão na história e na lenda. Material folclórico de subido valor. A escritora George Sand decepou a maçaroca e enviou-a a Musset como lembrança de Sansão e Dalila revela que os cabelos trazem força física.

Que deseja nos dias de hoje essa mocidade de cocó e brincos? Trajes espalhafatosos e desenfreio? Simplesmente protestar contra a sociedade gananciosa que a abandonou e ganhar dinheiro por conta dos trouxas.

Vi as cenas televisivas em que cantores cantavam aos gritos e se movimentavam de todos os modos, para a frente, para trás, cabelões rebolados dum lado para o outro, a imensa massa humana, atoleimada, braços levantados, gritinhos sufocados. Um espetáculo de loucura coletiva como a do Golfo Pérsico.

Recordei os meus velhos tempos de garoto ginasiano do Liceu Piauiense. Se me lembro quanto dos dias de gala do Teatro 4 de Setembro, com a exibição de notáveis companhias teatrais, as de Jaime Costa, Álvaro Pires, Barreto Júnior. E a Marquise Branca? Naquele dia saí de casa calçado nas gastas botinhas feitas na penitenciária que os gênios tupiniquins derribaram. Papai me deu dois mil réis, dinheiro de lei, bem sonante. Fui ver a Marquise Branca, de carnes bem brancas; apetitosas, com as garotas de coxas e pedaços de barriga de fora, curiosidades ainda escondidas. Meu pai não podia comparecer a essas noitadas gostosas. Os maridos ficavam privados, permaneciam em casa, caladões, na rede cheirosa, sonhando de olhos abertos com os mimosos repostas novos que o espetáculo oferecia. As garotas dançavam e cantavam. Umas gostosuras. * números artísticos. Cantores e cantoras consagrados. Na moda, o samba, o tango, a mazurca. Composições divinas. Interpretações magníficas. Nunca me abandonou a memória a cena de arte verdadeira. No palco, o público junto ao poste, saiazinha erótica, mecha de cabelo atrapalhando um dos olhos, ela, a rainha das cenas, num momento inesquecível, cantando o famoso FUMANDO ESPERO, AQUILO QUE MAIS QUERO. Um tango inspirado na beleza das lições eternas da arte musical.

Era bom. Dormia-se tranqüilo, doido por uma das meninas de Marquise Branca de tela com a gente.

Era bom, mas tudo passa. Hoje, roqueiros metaleiros e, ao cabo de contas, BARULHEIROS fazem que a vida seja ruindade.

 
A. Tito Filho, 30/01/1991, Jornal O Dia - p. 4

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* Não está visível no original

SEM JEITO

O "Jornal do Brasil", edição de 13 de março de 1991, publica os nomes dos parentes dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado do Rio recentemente nomeados, com vencimentos de mais de um milhão de cruzeiros mensais. Vejamos. Reinaldo Santana nomeou a mulher, a filha e um irmão. Humberto Braga, a mulher, a filha, o sobrinho e a irmã. Erasmo Martins Pedro, a mulher, três filhos e a nora. Heitor Schiler, a mulher e a filha. Pascoal citadino, a mulher e dois filhos. Paulo ribeiro, o filho. O único conselheiro sem parentela se chama José Luís de Magalhães Lins, herói dos novos tempos.

O nepotismo dos tribunais tornou-se uma amoralidade nacional. Vigora nos tribunais de justiça, de contas, do trabalho, em todo o território nacional, e também entupidos de parentes e aderentes se encontram os gabinetes dos parlamentares e polpudos empregos do Poder Executivo igualmente distribuídos por esposas, rebentos, sogras, cunhados, constituindo famílias privilegiadas que carreiam quatro ou cinco ou mais milhões para os seus gastos mensais, enquanto milhões de brasileiros vegetam, suando de sol a sol, na percepção de raquíticos pagamentos.

E mal se extinguem as decepções provocadas por mais uma esperteza de gente grande, os órgãos de comunicação anunciam as fraudes da previdência social, que enriqueceram os felizes beneficiados de bilhões de cruzeiros. A nação já não mais estremece de admiração e espanto. Não. As novas trapaças republicanas constituem rotina. Tornaram-se monótonas.

Quais [as] razões dessa permanente busca de dinheiros fáceis? Mal hereditário ou conseqüência das convocações sociais, num mundo de luxo e de folia? Alguns atribuem o processo nacional de roubalheira aos elementos formadores do chamado povo brasileiro, isto é, o português, o negro e o índio. Não cabe dúvida de que o elemento luso que se enviou para o Brasil se representava por tipos marginais da sociedade dalém-mar. E não se ignora que o índio preguiçoso obrigou os donos da terra a buscar o elemento africano para o trabalho da lavoura – e os três cruzaram e dos cruzamentos saíram mulatos, caboclos, mamelucos. Desacreditamos que a origem da desfaçatez nacional esteja nesses tipos, mas na deterioração do caráter do brasileiro por razões da nociva publicidade dos órgãos comunicativos.

– X –

A influência norte-americana na vida brasileira começou na década de 30, intensificando-se cada vez mais. O brasileiro vivia para o trabalho e para o lar. Tinha o lazer no cinema dominical, nas praias, nos passeios, nas festas familiares. Sociedades de agricultores, comerciantes, industriais, funcionários públicos. A mulher ocupava-se dos afazeres domésticos.

Os Estados Unidos tomaram conta do Brasil. Logo se criam os hábitos dos salgadinhos, das roupas feitas, comemorações fantasiosas do dia das mães, dos pais, do Natal. Instituíram-se as festas de natalícios, de debutação, de boda de prata e ouro. O turismo se tornou coqueluche generalizada, em que a classe média arrebenta os orçamentos nas viagens de recreio. Pregou-se no país a filosofia da compra, do carro particular, do uísque para proteger as coronárias do luxo, o prazer a qualquer preço. Viriam a buate e o motel e os feriadões. Banalizou-se a mulher. Desprestigiou-se o trabalho como valor social e espiritual.

Surgiu uma nova força, o empresariado, que sustenta o desperdício e a futilidade do soçaite. Casamentos milionários. Festas e recepções em que se dissipam fortunas. As mulheres de alta roda gastam num vestido o que o operário não consegue ganhar no emprego durante um ano.

Como sustentar essa grande patuscada da nação e dos estados-membros, como o Piauí, o Ceará, a Bahia? Fácil. Roubando-se a riqueza de todos para o sustento da ganância e da fome de dinheiro, a fim de que se cubram os gastos de marajás e de suas respectivas esposas, as maranis.

A sociedade tem os criminosos que merecem. Pior ficará, se a irresponsabilidade de poucos prosseguir na deterioração do caráter nacional.

 
A. Tito Filho, 12/04/1991, Jornal O Dia - p. 4

sábado, 12 de maio de 2012

IRRESPONSABILIDADE

Os velhos e saudosos carnavais que eu conheci começavam sábado de noite e prosseguiam até terça-feira. No dia seguinte, cinzas, os cristãos meditavam. Tudo alegria, companheiros, educação. Realizavam-se bailes animadíssimos, coros maravilhosos e um carnaval de rua bem carregado de bom humor. Pobres e remediados se empregavam à folia, sem excessos. Assim se dava também quando eu não havia nascido. Já em 1870 surgiu a primeira sociedade carnavalesca. Folguedos na praça Saraiva. Ano de 1983 criaram-se dois clubes de festas deslumbrantes, o Fenianos e of Fênix. A alta-roda comparecia de ricas fantasias, como a Lili Lopes, avó de Genuzinha Aguiar correia: vestido de cetim branco com apanhado de gaze dourada, volta e pulseira de pérolas brilhantes. Ainda a conheci proprietária da Botica do Povo, na praça Rio Branco. Um dos mais empolgantes foi o de 1914, com os dançarinos Miguel Rosa, Luís Correia, Fenelon castelo Branco, Abdias Neves, Nogueira Tapety, Mário Batista, João Pinheiro, Casusa Avelino, Lindolfo Monteiro, Tote Carvalho, Ney Ferraz, Heli Castelo Branco, intelectuais, médicos, políticos. Entusiástico o de 1920, de carros alegóricos. Batalha de lança-perfume e confete. Intransitável a praça rio Branco. Muita Gente projetada nos bailes. As caboclas, chamadas segunda, também ditas curicas, dançavam nos gostosos forrós dos arredores da cidade. Verdadeiro delírio o carnaval de 1921. Bailes deslumbrantes na Assembléia Legislativa. Pululavam a bom pular João Luís Ferreira, Matias Olímpio, Anfrísio Lobão, Jarbas Martins, Ernesto Batista, Leônidas Melo, Dídimo Castelo Branco, Joel Mendes. Nesse ano surgiu o clube dos Fanfarrões, que promoveu sempre dois bailes, no sábado e na 2ª feira. Surgiria em 1922 o Clube dos diários, ainda de pé, consagrado agora aos velhos e velhas que se esfregam e se arrocham uma vez por semana nos seus salões deteriorados e sujos. Um delírio a folia de 1925. Participaram com inexcedível entusiasmo do carnaval de 1934 Rocha Furtado, Cláudio Pacheco, Salmon Lustosa, Firmino Paz, para citar gente viva. Caiu nos dias 22, 23, 24 e 25 de fevereiro o carnaval de 1941. Presença do primeiro Rei momo, recebido na praça Pedro II pelo interventor Leônidas Melo. Ainda se verificou um excelente carnaval em 1947. Os principais foliões solteiros, alguns falecidos, outros vivos, foram Ângelo Pereira da Silva, Milton Aguiar, Tito Filho, Elói do Egito Coelho, José Lopes Aguiar, João de Deus Fonseca Filho, João Mendes Olímpio de Melo, Carlos Alberto Paz. Jovens mais animadas: Anita Freitas, Iracema Freitas, Maria do Amparo Araújo, Miriam nogueira do Rego Monteiro. Festas maravilhosas no clube dos Diários e no Teatro 4 de Setembro.

Houve o declínio por toda parte. Desanimados folguedos nas ruas, extinção do corso de automóveis e caminhões, e o triste espetáculo das escolas de samba, de caráter competitivo, com o apoio de órgãos públicos.

O carnaval, de certo tempo a esta parte transformou-se em devassidão, com bailes de mulheres peladas, gueis pelo torto e pelo direito e o cenário de sexo despudorado, como se vê nas transmissões televisivas do Rio e de são Paulo.

A festa que tinha inicio no sábado de noite se esticou, indo de quinta ou sexta-feira até quarta ou quinta-feira. a nação pára de trabalhar cinco, seis dias seguidamente, e a violência campeia destravada. Enchem-se os hospitais. Gastam-se as economias de um ano inteiro. Um desperdício de dinheiro inacreditável nas escolas de samba do rio de Janeiro, cada vez mais luxuosas. Já se construiu um SAMBÓDROMO, local dos desfiles milionários, cuja denominação híbrida de grego e africano revela besteirice refina. em Teresina, até pouco tempo passado, o poder público prestava apoio a milhares de pessoas, às quais se distribuíam tonéis de valente cachaça, em circunstância que não se registrava antigamente.

O Brasil e o Piauí atravessam crise em todos os sentidos. Há fome, doença, miséria, indigência, hospitais sem funcionamento, escolas públicas fechadas e uma guerra, terrível carnificina, tirando vidas e impondo sofrimentos, enquanto as almas sem solidariedade se entregam a festas vaidosas e maléficas.

O país vive instantes de irresponsabilidade.


A. Tito Filho, 10-11-12-13/02/1991, Jornal O Dia

sábado, 21 de abril de 2012

EMPREGO

Ninguém recusa a evidência da inchação populacional. Vigora o crescei e multiplicai bíblico. Raras as coletividades no mundo que adotaram o planejamento familiar, como se faz em algumas da Europa, sobretudo nos países nórdicos. No Brasil, quanto mais pobre o casal, mais menino. Mulher rica usa pílula anticoncepcional. Garota de segunda ou terceira classe cria bucho. As cidades grandes, plenas de convocações para a vida supérflua e dissipadora, de empregos enganosos, se transformaram em megalópoles faveladas, nas quais os pobres tropeçam em mil dificuldades, para que possam comer e vestir. Enfim, vegetar, ao menos. A indústria arrancou a mulher do lar. As fábricas produzem todas as utilidades, o leite, a salsicha, o doce, a massa de tomate, a feijoada, o tempero, o pão, por preços triplicados. A chamada alta costura, de empresários inteligentes, costureiros que gastam fortunas em publicidade, faz que as fêmeas enlouqueçam. Criaram-se os clubes sociais e de uísque, sob a capa de caridade cristã, para desfile de vestidos caríssimos, comprados a peso de ouro, nas butiques que enriqueceram as proprietárias. Gastando a rodo, a mulher do soçaite precisa de muito cobre, finanças fortes, a fim de que acompanhe a moda e sustente o HOBBY alegre dos comes e bebes e recepções festivas.

A classe média, sem renda, as cousas da barriga e os panos nos queimas das lojas vendedoras custando os olhos da cara. O chefe de família apenas remediado, dinheiro contado para os pirões de cada dia, não pode sustentar os desejos de três ou quatros mocinhas que reclamam dos pais sandálias, desodorante, xampu e tecidos de cetim, fora JEANS e US-TOP, que elas vêem noite após noite nos anúncios de televisão.

Faminto também é gente. A classe do salário mínimo igualmente fabrica mocinhas e estas necessitam de cobrir as excelências.

A solução está no emprego. Já não existem garotas como antigamente, um vestidinho por mês, perfume de brilhantina Flor do Amor e Tentação.

Criem-se empregos. Na alta-roda existe a Marani, como se chama a mulher do Marajá. Na classe média, o burro de carga tem no lar rabos-de-saia desocupadas e os dinheiros que ganha do governo mal chegam para os pirões do almoço. Naturalmente que as meninas querem emprego. Na classe dita assalariada, a falta de dinheiro dos cofres públicos para as despesas das moças bem desenvolvidas de anseios provoca mais problemas sociais. Elas querem pouco, somente um contratinho de zeladora.

O jeito está no emprego. Cem mil funcionárias, duzentas mil, a metade de licença, muitas dispensadas de serviço, algumas em Tóquio, Rio de Janeiro, na Holanda, e no batente as que sabem trabalhar.

Haja emprego. Se acaso eu pudesse, se papai do céu me desse, eu vivia cercado de funcionárias por todos os lados, com uma ilha de felicidade.


A. Tito Filho, 05/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 14 de abril de 2012

TELEVISÃO

Estudiosos em geral depõem que a televisão se tornou um processo dos mais ativos para que se inquiete o homem, sobretudo o futuro homem, a criança, quando deveria ser importantíssimo meio educar as coletividades para a vida.

Há países, como a Inglaterra, em que o rádio e a televisão pertencem ao poder público, e só ao poder público. Proibi-se que a empresa privada os explore, para evitar que a força econômica pratique o endeusamento dos seus magnatas, imponha, pela propaganda, marcas de produtos industriais, evidencie idéias contrárias aos interesses gerais e deforma os aspectos mais caros do civismo nacional, como, por exemplo, a linguagem.

A TV tornou-se poderosa via de comunicação, justamente porque se utiliza do som e da imagem. Mal conduzida, leva aos lares exemplos maus e angústias, pelo noticiário que distribui de catástrofes, de violências, de atentados aos costumes. Junte-se a isso a freqüência das novelas de conteúdo passional e emocional, novelas que conseguem convocar assistentes numerosos, sobretudo de moças, que recitam os enredos novelescos com primor de pormenores, e sabem de cor os nomes reais e fictícios das personagens e dos que interpretam os respectivos papéis. A novela transformou-se em coceira nacional. Todos largam ocupações e responsabilidades no momento do capítulo seguinte. Os artistas gozam dos aplausos dos pais e obscurecem até os grandes cultores da literatura, das artes, da ciência. Não está longe o dia em que os vestibulares das universidades intrometam nos exames perguntas sobre as cenas de novelas e sobre astros e estrelas televisados.

Há, na TV brasileira, falta quase inteira de programas educativos, porque eles não rendem do ponto de vista comercial. Aqui e ali surge uma explicação de caráter educacional, ainda assim por métodos nem sempre aconselháveis.

Examinar problemas de modo simples, revelar o mundo nas suas paisagens físicas e sociais, analisar as conquistas artísticas e científicas para o progresso das coletividades - eis como pode a televisão conscientizar o povo, a fim de que compreenda o instante que se vive e saiba conduzir-se por através desse entendimento.

Divulgar, mas divulgar para educar, assim funcionariam os televisores no grande e grave papel de transmitir idéias e difundir lições.

Televisão vale cultura, sabendo-se que a cultura de uma gente está na sua própria maneira de viver. Cultura compreende vestuário, hábitos alimentares, religiosidade, manifestações espirituais, o colégio, o clube, a civilização em mudança, a linguagem e a história - e por intermédio desses tipos culturais se diz que o corpo social se encontra doente ou sadio.

Mostrando os costumes das coletividades, combatendo tabus e preconceitos, ministrando ensino literário e cientifico - televisão desempenha o grande papel de promover a higiene da sociedade.


A. Tito Filho, 21/06/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

OS CAMINHOS DA VIOLÊNCIA

Mais um ano se foi no dia 31 de dezembro de 1990, com o seu rosário de atribulações. Veja-se o passado recente. Quantas decepções desde a quartelada de 1930. Regime ditatorial. Fracasso da legislação trabalhista. A derriba de Goulart pela hipocrisia da classe média e pelos de Goulart pela hipocrisia da classe média e pelos interesses das elites, que, amedrontadas, saíram às ruas, nas grotescas marchas em nome de Deus, da pátria e da família, em busca de generais e tanques respectivos para a afirmação de uma longa e desalmada ditadura. Vinte anos de militarismo, continuação de antiga e criminosa dissipação de dinheiros públicos, o mesmo processo endêmico da fome e da doença. Passam-se os anos e chega-se à vergonhosa deterioração do ensino público, hospitais falidos, roubalheiras, enriquecimento fácil, descrédito generalizado. A cada ano diminui a renda dos 90 por cento dos patrícios que auferem ganhos miseráveis.

Ano por ano o brasileiro desespera. O país se torna abúlico. Milhões de analfabetos. Instituições públicas desacreditadas. Burocracia enervante e obtusa. Burlam-se as leis e suas determinações pelo torto e pelo direito. No dia-a-dia do tempo descobrem-se cada vez mais fraudes, capiloçadas, mordomias vergonhosas. Jamais se viu o Brasil na situação das últimas épocas. Nada mais funciona. Cultura abandonada e empacotada, a arremedar costumes e hábitos dos Estados Unidos. Desemprego e subemprego. Incompetência. Instituição do ócio para o funcionário público, consubstanciado nos feriadões e multiplicação de feriados desnecessários.

A euforia industrializante de Juscelino Kubistchek deu no que deu, a fuga do campo, de onde se desviaram os recursos da agricultura, em muitas áreas nacionais. Busca da cidade e a criação das megalópoles, de falso ganho. Favelização intensiva de enormes centros urbanos, inclusive debaixo das pontes de concreto.

A ignorância tem levado à inchação populacional. O desequilíbrio social, representado pelas elites fúteis, ociosas e esbanjadores, de número reduzido, e pelos milhões de párias famintos e andrajosos e doentes, vem provocando a violência dos seqüestros, dos assaltos, dos assassinatos brutais. Os preços não há quem os siga, sobem sempre e descontroladamente.

O presidente Fernando Collor, na campanha eleitoral, fez promessas que o tornaram símbolo das esperanças dos brasileiros. Desapareceriam os marajás, indivíduos privilegiados de lucros absurdos. Haveria a moralização da vida pública. Derrotar-se-ia a inflação. Chegou o Natal. Prossegue o cortejo de malefícios. A única medida real até agora foi o confisco absurdo e ilegal dos dinheiros dos brasileiros confiados aos estabelecimentos bancários.

A ministra Zélia Melo culpa os empresários por tantas aflições. Mas como evitar que a indústria e o comércio não aumentem preços, se o próprio governo presidencial aumenta mês por mês o preço dos combustíveis, as taxas de correio, de luz, e telefone, do pão, do leite, dos transportes?

Inflação, deflação, recessão, choques, e quanto vocabulário haja, tudo faz parte do quotidiano do brasileiro. As despesas do tesouro continuam espantosas. Agora mesmo, quando se gastou com a visita de Bush ao Brasil, por pouco mais de 24 horas? Quanto custou o aparato policial? A comedoria e a bebedoria para que dois governantes se abraçassem e se fizessem rapapés? Os dois presidentes, com as técnicas avançadas de hoje, bem poderiam entender-se por telefone, com a circunstância de que se dispensariam intérpretes, uma vez que o presidente brasileiro domina a língua inglesa.

O Brasil, desde março, vive também o problema dos salários, um dos fundamentos da política econômica do governo. A partir de janeiro de 1991, o salário mínimo passará a pouco mais de doze mil cruzeiros. É possível viver com essa raquítica paga do trabalho humano? Nem um débil mental admitiria que tal importância pudesse prover as necessidades do individuo, quanto mais da constelação familiar.

Quanto ganham o presidente, os ministros, os parlamentares, os magistrados dos tribunais, os técnicos, os altos servidores das estatais? Ganham milhões, mas não há diferença entre as barrigas dos bem aquinhoados e os pobres diabos dos mínimos salários.

Do jeito em que se encontra o desequilíbrio social, ninguém pode ignorar de onde vem a violência.


A. Tito Filho, 26/01/1991, Jornal O Dia