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domingo, 20 de maio de 2012

NOVEMBRO FEIO

A pessoa alguma convém testemunhar pessimismo sobre o Brasil. Mas o otimismo tem os seus limites. Não é justo que se adote a crença num país em que as noites e os dias revelam total desagregação de responsabilidades. O desespero prevalece com o seu cortejo de desesperança. Deterioram-se os caracteres. Todas as atitudes negativas se adotam contra o país em que enriquecimento ilícito e a ganância constituem fatos corriqueiros do dia-a-dia, sob denúncias da altivez dos órgãos de comunicação. Os ensinamentos de João XXIII, na sua imensa MATER ET MAGISTRA não encontram acolhida nos governantes nem na compreensão das elites dirigentes. Que pretendeu o Papa admirável na eternidade das suas lições? Queria que os homens SOCIALIZASSEM os bens da vida. A socialização daquelas cousas que fossem as necessidades fundamentais da família, de forma que todos tivessem o lar, o alimento, a educação, a saúde, o pedaço de terra, como filhos de Deus, como criaturas humanas.

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Antigamente o campo produzia. Exportava-se. Juscelino enterrou bilhões de dólares para fazer Brasília, uma cidade cercada de favelas por todos os lados. Os patrícios abandonaram o campo e buscaram as cidades grandes, que hoje suportam dois terços da população, e a zona rural abriga apenas um terço. Os problemas das megalópoles sufocam. Rio, São Paulo, Teresina, Recife mostram crianças famintas buscando restos de comidas nas latas de lixo. As fortunas mirabolantes de poucos afronta a miséria de milhões. A prostituição de meninas de 12 anos tornou-se vergonha nacional. Alta-roda vive de escândalos amorosos. Saqueia-se o país com o conhecimento às vezes de altas autoridades e estas também às vezes praticam os crimes contra os cofres públicos. Vigora o calote oficial. Fecham-se hospitais porque o governo lhes nega o pagamento durante meses. Liquidou-se o sistema educacional brasileiro. Ninguém crê na escola pública, em que professores improvisados se sujeitam a vencimentos infames. Espalha-se por toda parte a escola particular, em que os donos enriquecem e os mestres não recebem fiscalização alguma por parte dos órgãos de governo. Os salários mínimos mal cobrem as despesas de uma péssima refeição diária. Abundam na República imperialista brasileira os chamados marajás, e os tribunais se entopem de parentes e aderentes dos ministros e desembargadores, sem que compareçam ao trabalho, mas percebem contracheques polpudos, da mesma forma que nos gabinetes dos deputados e senadores. O que funciona neste país? Nada, salvo assaltos, vinganças, roubos, tráfico de drogas. A democracia nacional, com milhões de famintos e analfabetos, marcha para o abismo. Recentemente os jornais e as tevês propalaram o superfaturamento de bicicletas, guarda-chuvas, mochilas e sustenta-se que o ministro tinha conhecimento dos fatos passados na Fundação Nacional de Saúde. A acusação parte da exonerada presidenta do órgão. Ao lado desta, verificam-se denúncias de que recursos são atirados fora, atirados aos porcos. e apontam-se repúblicas dentro da República, como escreve a TRIBUNA DA IMPRENSA. Cada ministro, com raras exceções, distribui verbas para o Estado onde nasceu.

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Faz poucos dias, em pronunciamento ao Brasil, o presidente Collor criticou severamente os empresários. QUEM NÃO TEM COMPETÊNCIA NÃO SE ESTABELECE, disse. Se o negócio não rende, deve ser fechado e o dono abrirá um boteco. Achou o primeiro mandatário que se torna fácil liquidar uma indústria ou um comércio e montar um botequim na esquina, esquecendo-se Collor das altas taxas de juros e o aumento constante das matérias-primas. O próprio governo aumenta preços de dez em dez dias. Gasolina, energia, água, telefones, taxas de comércio.

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A imprensa gozou a fala presidencial sustentando também que o presidente não dá conta das promessas feitas na campanha eleitoral. A inflação sobe. Os preços são incontroláveis. Devia pois estabelecer-se com outro negócio.

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Não se resolvem problemas sérios com a mudança de ramo de negócio. Assim seria fácil governar o Brasil.


A. Tito Filho, 24/12/1991, Jornal O Dia - p. 4

sábado, 19 de maio de 2012

GENTE IMPORTANTE

Quando chegava gente importante a Teresina, era um deus-nos-acuda. Alvoroço nas camadas sociais ilustres. Terno branco, engomadíssimo, sapato engraxado, camisa limpa, gravata bonita, assim ficavam os machos. As damas botavam o melhor vestido, perfume afrancesado, pulseiras ricas. Plantavam-se todos no local do desembarque da figura esperada com ansiedade. Banda de música. Nos velhos tempos, fazia-se o cortejo, a pé, à casa da hospedagem.

No caso dos presidentes da República, os preparativos da recepção começavam dez ou mais dias antes da chegada. Assim se deu com Afonso Pena, eleito para governar o Brasil. Antes da posse, visitou o Piauí, chegando a Teresina a 14 de julho de 1906, pelas 10 horas da manhã. Recebeu homenagem estrondosa. Ao alcançar a igreja de São Benedito, penetrou o templo, ajoelhou e rezou. Seguiu para a Chácara Lavinópolis, do farmacêutico Collect Fonseca, esquina da avenida Frei Serafim, local hoje de posto de gasolina. Regressou no dia seguinte; as cinco da tarde. Dormiu uma noite só, com penico de porcelana no quarto - um penico de pinturas elegantes, que se esqueceram de guardar para o futuro museu.

Nilo Peçanha veio ao Piauí, mas já se havia despedido da presidência. Desempenhava o mandato de senador e pleiteava voltar a ela... Pronunciou conferência no Teatro 4 de Setembro. O eleito chamava-se Epitácio Pessoa, que derrotou Nilo.

Chegaria a vez de outro grandão - agora Getúlio Vargas, diretor eminente, que veio ao Piauí a primeira vez em 1933. Viagem pelo Maranhão, atingiu Teresina por Flores, hoje Timon, depois atravessar o Parnaíba. Percorreu a rua Teodoro Pacheco até o palacete de dois andares do médico Freire de Andrade, no principio da avenida Antonino Freire, esquina da praça Pedro II, mesmo local do Palácio de Karnak - e aí se hospedou, no quarto de cima, de frente. Saudado por Martins Napoleão. Banquete em Karnak, de noite. O povo permaneceu no meio da via pública, furando a madrugada embevecido, extasiado de ter Getúlio a dormir na capital piauiense. Na qualidade de candidato à presidência da República, o grande gaúcho visitaria Teresina em 1950.

Intensas paixões partidárias distanciavam os políticos do PSD e da UDN no Piauí. Na capital a imprensa mais alimentava ódios e malquerenças. O presidente Dutra, pessedista, passou alguns momentos no aeroporto de Teresina, onde conversou com o governador (Udenista) Rocha Furtado, mas não aceitou homenagens nem quis visitar a cidade, que eleito, conhecia. Temeu que os correligionários ficassem aborrecidos.

Outros presidentes vieram até cá - Juscelino, Jânio (como candidato), Goulart, Castelo Branco, costa e Silva (candidato), Médici, Geisel, João Batista Figueiredo.

A cousa foi-se tornando corriqueira.

Ninguém mais se abala com visita presidencial.

Sarney conheceu demais a nossa Teresina.

 
A. Tito Filho, 16/05/1991, Jornal O Dia - p. 4

sexta-feira, 18 de maio de 2012

INCOMPETÊNCIA

Muitas causas se apontam como justificativa de um Brasil cujo povo padece aflições sem conta. Abandonou-se o campo e criaram-se as megalópoles das populações sofridas - cidades imensas com insolúveis problemas de lixo, de água, de higiene, cercada de favelas por todos os lados, em que prevalece afrontosa e condenável promiscuidade. No campo, vigora idêntico modo de viver. Gente sem terra, faminta, desnutrida, sem escola. Revoltante as circunstâncias de que 80 ou mais por cento da população brasileira não participam da riqueza nacional e faltam-lhe os bens primários da existência. O Brasil de 50 anos atrás era outro. Embora o atormentassem dificuldades, funcionavam as escolas públicas, providas de professores capazes e sérios; os hospitais atendiam dedicadamente os que os procuravam; havia solidariedade humana; desconhecia-se a violência urbana e a rural. Inexistiam classes privilegiadas e os governantes, com raras exceções, administravam com rigorosa honestidade, servidos de auxiliares competentes e probos.

Que houve com o Brasil? A construção de Brasília iniciou o processo inflacionário permanente. Liquidou-se o transporte ferroviário e o de cabotagem, em beneficio dos veículos automotores, consumidores dos derivados de petróleo e vendidos por gigantescas empresas norte-americanas. Desapareceu o bonde para que os ônibus tivessem vez. A propaganda do luxo e do conforto, a principio pelo cinema, de forma subliminar, tornou-se permanente na televisão, instrumento perigoso dominado por empresas particulares e responsável também pela extinção do salutar regionalismo brasileiro. Criou-se o soçaite dos milionários cujas fortunas não têm origem senão pelo sistema exploratório e pelo processo da corrupção.

São várias as causas do empobrecimento e do sofrimento da imensa maioria dos nossos patrícios, às quais se deve acrescentar a incompetência, aliada a outros fatores. É grosseira a incapacidade dos homens públicos, com exceções honrosas, desde que o dinheiro a eleger os políticos e a demagogia tem sido a tônica da maior parte dos que buscam cargos importantes, protegidos eleitoralmente por empresários gananciosos.

Tivemos homens públicos respeitáveis no primeiro como no segundo império. Outros, patriotas, insubornáveis. Quantos cidadãos atingiram fama e projeção pelos ensinamentos, pela lealdade e probidade, pelas atitudes e respeito que sugeriam. Na República, os homens que administravam o país até o primeiro período de Getúlio Vargas gozavam de consideração popular. Os Estados foram confiados a oficiais das Forças Armadas, alguns inexperientes, mas de honestidade irrecusável. Parece-nos que a incompetência teve começo na ditadura getuliana, inaugurada em 1937. Daí para diante ainda se anotavam brasileiros ilustres na chefia dos Estados e dos ministérios. As ditaduras, porém, sobretudo quando se alongam, chafurdam na violência, na perversidade e no capachismo. Retornou-se às eleições de presidentes e congressistas, seguidas da escolha de governadores e legisladores nos Estados. Floresceram ambições. Firmaram-se conluídos. A politiquice dominava o país. Por toda parte no país e nas áreas federais, não mais se firmava o município da competência e da probidade na escolha de auxiliares, mas exclusivamente o critério da política partidária.

A incapacidade viceja por toda parte. Existem titulares ministeriais, de secretariado, de reitores de órgãos públicos sem conhecimento dos assuntos dos cargos que lhe são entregues. De certo tempo aos dias atuais o mal cresceu, multiplicou-se. Alguns brasileiros, exerceram vários ministérios - Educação, Justiça, Trabalho -, como se fosse possível conhecer os problemas de setores diferenciados em tudo, sobretudo quando o titular pertenceu as Forças Armadas. Transferem-se administradores de uma pasta a outra como se o exercício das responsabilidades se considerassem de menos importância no trato da função pública.

A incompetência alastrou-se como doença infecciosa. Atinge o funcionalismo de todos os níveis, pois varreu-se da órbita administrativa o concurso. A administração, nas mais diversas áreas, como assessores, conselheiros, chefes de gabinete - os cunhados, os sogros, os filhos e filhas, os genros, toda a constelação familiar do detentor do cargo importante.

Ministros, secretários bem aquinhoados revelam ignorância até nos pronunciamentos televisionados. Assassinando a língua pelo torto e pelo direito.

O Brasil pode dizer-se um deserto de homens e de idéias, como queria Osvaldo Aranha, bem assim de incompetência dos seus homens públicos, excetuadas as raridades dignas de respeito.

 
A. Tito Filho, 14-15/07/1991, Jornal O Dia - p. 4

terça-feira, 15 de maio de 2012

"EU SEI ONDE ESTÁ O DINHEIRO"

A Academia Brasileira de Letras conferiu uma de suas poltronas a José Américo de Almeida, o paraibano cuja vida pública tem sido um grito angustiante pela felicidade do Brasil. Está de parabéns a Casa de Machado de Assis, chamando o seu seio um grande escritor.

Era um paraibano baixote, míope desde moço, encheu de compostura a vida nacional. Formou-se em Recife, em 1908, com os piauienses Simplício Mendes e Arimathéa Tito. Parece que chegou a residir com os dois na mesma "república" de estudante; pelo menos é certo que foi companheiro de quarto de Arimathéia. Formado, José Américo achou fascinante a vida política, e nela ingressou. Ei-lo, em 1930, como um dos chefes civis do movimento revolucionário que derribou Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e entregou o governo da República a Getúlio Vargas, de quem foi ministro da Viação, um grande ministro, voltado para os graves problemas do Nordeste. Enfrentou a terrível seca de 1932. Impôs-se à admiração do país, pelo trabalho, pela sinceridade, pela inatacável honestidade.

O esforço gigantesco como ministro, a linguagem franca de que se utilizava para o debate dos problemas políticos e administrativos, os brados de revolta contra o atraso da terra e a penúria do homem, a bravura com que desafiava os maus, a consagração do romancista de A Bagaceira - tudo isto lhe valeu imensa popularidade, na Paraíba como no Brasil.

"A Bagaceira" (romance) deu a José Américo uma posição invejável no cenário da literatura brasileira. Consentiu o autor em que o livro "é a tragédia da própria realidade". Livro violento, que agasalhou "almas semibárbaras pela violência dos instintos". O escritor interpreta essas almas sem artificialismo, nuamente, para não suprimir delas a grandeza: "Seria tirar-lhe a própria alma".

O livro semelha um protesto contra "a miséria maior do que morrer de fome no deserto" que "é não ter o que comer na terra de Canaã".

Romance do sofrimento do homem na terra escaldante - "A Bagaceira" também constitui um romance de amor, "concessão lírica ao clima e à raça", como diz José Américo - "problema de moralidade com o preconceito da vingança privada", da forma que ele define as paixões brutais do sertão.

Getúlio Vargas, depois de três anos de governo discricionário, premido pelas circunstâncias, convocou eleições para uma Assembléia Constituinte. Esta se reuniu e votou a Constituição de 1943, que adotou a fórmula de eleições indiretas para o primeiro período presidencial. Findo este, daí por diante o processo de escolha dos presidentes seria direto. Elegeu-se Getúlio presidente por quatro anos.

(Em 1937, arregimentam-se os políticos. Campanha eleitoral a vista. Eleições presidenciais marcadas para 3 de janeiro de 1938. Plínio Salgado, chefe do Integralismo (camisas verdes), candidata-se. Também se candidata Armando de Sales Oliveira, governador de São Paulo, político de grande conceito e prestígio. Getúlio manda que seus partidários apresentem José Américo como candidato oficial. O lançamento é feito por Benedito Valadares, governador de Minas. O paraibano aceita o encargo. Ganha as ruas, as cidades, pregando idéias, defendendo ideais).

Mas Getúlio preparava com Góis Monteiro, desde o carnaval de 1937, um golpe, no ritmo político de três tempos, na correta apreciação de Nehemian - coup d'etat - ditadura.

(Veio o golpe de Getúlio no dia 10 de novembro de 1937. Fechamento do Congresso Nacional. Prisão de adversários. Liquidação dos partidos políticos. Encerramento das atividades integralistas. Nova Constituição, em que Getúlio se tornava chefe do Estado Nacional. Interventorias nos Estados, com exceção de Minas. Nas Alterosas, Valadares se mantinha como governador. Ostracismo para José Américo).

(O paraibano tem sete fôlegos. Corajosamente, dia 22 de fevereiro de 1945, decreta, numa entrevista dada a Carlos Lacerda, a queda do regime getuliano).

Com ilustres chefes políticos, cria a UDN. Lança-se Eduardo Gomes candidato à presidência. Vibrante campanha derriba Getúlio, dia 29 de outubro de 1945.

José Américo e o antigo ditador elegem-se para o Senado. Em 1950, Getúlio elege-se presidente da República. O paraibano sai governador da Paraíba, cargo de onde obtém licença da Assembléia para atender ao convite presidencial de entregar-lhe o Ministério da Viação e Obras Públicas.

Sobrevieram as crises. A Oposição não poupava o governo de Vargas. Em 1954, atendendo a Lacerda. Assassinato de Rubens Florentino Vaz. Suicídio do presidente na véspera do Dia do Soldado.

Volta o paraibano ao governo da Paraíba. Cumpre mandato. Antes, presta depoimento sobre a grande crise de agosto de 1954. Palavras candentes, fortes, verdadeiras.

José Américo de Almeida reassume o lugar vital de ministro do Tribunal de Contas da União. Atingindo idade compulsória, aposenta-se retirando-se para a amada Paraíba, onde vive cercado do afeto e do respeito da família e dos brasileiros.

Deu-lhe poltrona a Academia Brasileira de Letras, homenagem a um gigante de inteligência, a um criador da literatura - a um homem de trabalho intelectual constante em favor da verdade e em favor de um Brasil feliz.

Na campanha presidencial de 1937, num comício no Rio, fez ele análise da realidade brasileira e gritou: A terra é infeliz porque é pobre. Mas eu sei onde está o dinheiro para o soerguimento do Brasil".

E por isso não foi presidente.


A. Tito Filho, 29/06/1991, Jornal O Dia – p. 4

domingo, 13 de maio de 2012

SALÁRIOS

Até 1943 não havia este negócio de salário mínimo. O valor do serviço alheio se fixava de acordo com entendimento entre o contratante e o contratado, e ambos gozavam de inteira liberdade para cobrar o valor do trabalho prestado ou valor pretendido pelo empregador. Era um regime em que cada um buscava o principio da justa remuneração. O preço pedido podia ser recusado, e o pagamento oferecido também. Nesse tempo não se declaravam greves. Parece que patrões e operários viviam em paz, e ao que parece os raros surtos grevistas antes de 1930 pretendiam outras cousas que não o aumento de salários.

A 1º de maio de 1943, Getúlio Vargas, ditador da República, decretou o salário mínimo e desse tempo até hoje e grita generalizada se verifica com base na reivindicação de ganhos que correspondam as necessidades primárias da vida.

O salário mínimo tem sido um dos fundamentos da chamada política econômica dos governos do país, desde o presidente que o decretou, quase cinqüenta anos passados.

A ausência de sindicatos fortes e a falta de consciência dos trabalhadores no tocante à sua sindicalização, constituem motivos pelos quais os governos impõem normas de grave desequilíbrio entre o maior e o menor salário que os patrões devem pagar e os ganhos enormes atribuídos a certas classes de servidores públicos, por exemplo.

Não somos contra as rendas altas obtidas por alguns, mas somos contra as pagas miseráveis que se atribuem aos humildes.

É possível viver com pouco mais de doze mil cruzeiros, valor do salário mínimo neste mês de janeiro? Nem um imbecil nato admitiria que se sustentasse uma família, por menos que fossem os seus membros, com tal importância distribuída em habitação, comida, roupas, calçados, educação, saúde, lazer. Se o sujeito e os seus familiares comem, ao menos mal, não têm dinheiro para as outras necessidades.

Quanto ganha o presidente da República? Quase dois milhões por mês, e os guarda no baú, pois a nação lhe dá mordomia à larga: carros, helicópteros, aviões. Quanto arrecada um deputado? Mais de um milhão, e mais de um milhão aufere o magistrado dos tribunais. No Piauí, a filha solteira de um desembargador falecido faz uns 15 anos, percebe cerca de um milhão por mês, com idade acima dos 70 anos, nunca trabalhou, goza a vida no Rio de Janeiro à custa do Piauí, que paga a 80 por cento dos servidores e migalha de TRÊS MIL E QUINHENTOS dada a circunstância do atraso de três meses.

O Legislativo concedeu gorda pensão aos ex-governadores, na base dos vencimentos de desembargador. Recebem eles ordenados altíssimos, noutras funções, e mais a referida pensão, de que não necessitam.

O governo federal deveria ter assumido a postura de isenção no tocante a salários, deixando-os como de livre contratação entre os patrões e empregados. Mas já que adota a norma da intervenção naquilo que foge da sua competência, fixaria igualmente o salário máximo evitando-se a diferença imposta entre barrigas dos mesmos seres humanos, necessitados de idênticas substâncias nutritivas, ou ao menos se confira aos humildes ordenado mensal com que possam satisfazer aquelas necessidades mínimas referidas por Getúlio Vargas e muitos anos depois pelo Papa João XXIII alimentação, vestuário, habitação, educação, saúde. do jeito em que se encontra o desequilíbrio social, violência.


A. Tito Filho, 09/01/1991, Jornal O Dia – p. 4

domingo, 6 de maio de 2012

TEATRO

George Balandier, numa obra de muita acuidade de observação, acentuou que por trás de todas as formas de arranjo da sociedade e de organização dos poderes existe, mandando nos bastidores, a teatrocracia, ou o governo dos atores, dos artistas. Um teatro de zombaria, se for melhor assim como disse o russo Nicolau Evreinov. Os políticos pagam tributo quotidiano à teatralidade. O mundo inteiro é uma cena - definiu.

Shakespeare. No enorme palco ou picadeiro brasileiro se agitam personagens que perturbam toda a lógica social, contradizem a moral comum, e revelam o exagero e a farsa de que se entretém a vida nacional. Discutem-se mais uma vez os princípios constitucionais do país. Em 1822, separou-se o Brasil de Portugal, com a proclamação do príncipe Pedro. Convocaram-se representantes para a discussão e votação da primeira carta magna do novo Estado soberano. Dom Pedro dissolveu a assembléia e outorgou a constituição em 1824. em 1889, instituía-se o regime republicano, e outra constituição surgiria em 1891. As forças militares derribaram a chamada República Velha em 1930. Inaugurou-se fase ditatorial. Ano de 1934, votou-se mais uma carta - de duração até 1937, quando se proclamou a ferrenha ditadura militarizada e impôs-se ao povo uma constituição fabricada nos subterrâneos políticos, vigorante até 1945, época em que caiu Getúlio Vargas e acenou-se aos brasileiros com a nova panacéia - mais uma carta magna, promulgada, sob fogos de artifícios e tiros de festim, em 1946. Ditadura mais terrível e pecaminosa chegaria em 1964 - e o seu chefão logo exigiria do Congresso Nacional outro modelo constitucional, o que se fez, debaixo de ordens generalícias. Enterrado o regime das quatro-estrelas, neste 1987 se discute e vota mais uma constituição. Quantas? Este país bem que deveria possuir constituições de plantão, pois a cada mudança de regime ou queda de ditadura surge logo a idéia de uma constituinte. No Congresso atual os pontos mais importantes se situam, ao que parece e segundo as repercussões jornalísticas, no sistema de governo, nas raquíticas conquistas dos trabalhadores. Só. Não se toca no império de um grupo privilegiado e insaciável de lucro. Nada se discute sobre a onipresença do Estado na atividade econômica. Na política de mãos dadas ao dinheiro. Nos poderosos advogados administrativos. A reforma agrária passou a segundo ou terceiro plano. Léguas e léguas de sesmarias ainda se encontram em poder de poucos, como herança das cartas-régias. Que se estabeleceu sobre o processo cultural? O livro nacional se derrota no nascedouro, por falta de publicidade, uma vez que esta se faz em favor das grandes editoras norte-americanas. A educação em todos os graus, se ministra por uma rede particular, subvencionada pelo próprio governo - uma rede de colégios e cursos milionários, freqüentada por uma elite preconceitual contra os pobres e contra os negros, aos quais restam os estabelecimentos oficiais, mal-equipados e sobretudo de professores de baixos salários. A fome, mal endêmico, prevalece na quase totalidade dos lares brasileiros, uma vez que os preços das utilidades são inacessíveis a quase todos. Que dizer da habitação desumana, promíscua, que o governo distribui para, arrancando prestações de gente paupérrima, engordar casas bancárias e caixas econômicas? O brasileiro paga às empresas norte-americanas uso de fórmulas, de produto, de marca de produto, de máquina para fabricação de produto, um pagamento cobrado sob a denominação de royalty. A verdade está em que o povo tupiniquim vive de teimoso, explorado, espoliado, faminto, miserável, ignorante dos seus deveres e direitos cívicos, sem a informação verdadeira do que se passa nos subterrâneos da política, mas tão somente ouvindo loas a respeito do paraíso nacional, ou presenciando conversas televisadas de alegres comadres, cúmplices, cúmplices de sobejas regalias.


A. Tito Filho, 31/12/1991, Jornal O Dia, p. 4

segunda-feira, 30 de abril de 2012

TEMPO DE RUMINAR

De primeiro o pessoal se formava em Medicina, engenharia e Direito, também em Odontologia e Farmácia. Era só. Famosos os bacharéis da Faculdade do Recife e os médicos da Faculdade da Bahia. Engenheiro, cousa rara. Criaram-se depois os cursos de filosofia para o preparo de professores. Difícil encontrar veterinário. Agrônomo constituía animal raro. Com a instituição das universidades, nas capitais, nas grandes cidades, nas pequenas coletividades - às vezes quatro ou mais no mesmo centro populacional, a tradição de doutores se tornou problema sem solução, por causa da ociosidade desses milhares de novos médicos, advogados, engenheiros, dentistas, boticários e professores sem mercado de trabalho. Não se cumprem os objetivos universitários mais importantes: a preparação das lideranças e a educação integral da coletividade. A escola superior mal prepara centenas e centenas de profissionais ano por ano.

Milhões de analfabetos povoam o território nacional. Meninos doentes, famintos, sem roupa, sem transporte. O ensino médio cada dia mais se desacredita. As escolas oficiais não ensinam nem educam. As particulares exploram e engordam os proprietários ricos e poderosos. Dá-se o Brasil o luxo de criar universidades acessíveis aos jovens milionários que podem pagar a peso de ouro cursinhos preparatórios de perguntas e respostas empacotadas, como se cultura a gente pudesse comprar na quitanda da esquina.

Dizem os maledicentes que o Piauí não dá alfaiate, garçom e governador que prestem. Nem tanto. Alfaiate constitui tipo profissional exclusivo de grandes empresários, ministros, presidente da República, e dentre estes últimos se deve citar Sarney, usador de antiquados paletós de seis botões, o velho jaquetão. Conheço alguns garçons de bom serviço, educados e bem postos, sobretudo os que se aprumam no dinner-jacket, como se estivessem enfeitados para um réveillon de clube dos granfas. Quanto a governantes, o Piauí tem dado alguns de bom desempenho. Mas seria honesto que as universidades nacionais preparassem alfaiates, garçons e governadores e também mulheres cortadoras de pano, garçoas e governatrizes para abastecimento dos Estados ditos membros da República Federativa.

Igualmente as centenas de universidades espalhadas até no arraial de Pendura Saia poderiam preparar com esmero pichadores de paredes e cassadores, motoristas, trocadores de ônibus, passistas de escolas de samba, estripitiseres, policiais, garis - e até que se criassem escolas para que pistoleiros matassem sem violência, de modo afetuoso, e que remarcadores de supermercados fossem mais humanos e dono de boi tivesse mais pena da gente.

Enfim, o Brasil deve cuidar do ensino das humanidades - aquele ensino que preparou gerações e gerações de moços de futuro certo e promissor. A universidade tem outra finalidade, nunca a de fabricar homens para a mendicância de empregos públicos, humilhados de uma vida vazia, sem caminho, sem triunfo - o triunfo da utilidade pelo trabalho construtivo.

É tempo de ruminar sobre estas inofensivas considerações.


A. Tito Filho, 17/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

COMENTÁRIO

O presidente George Washington costumava dizer que não existem nações amigas, mas nações interessadas na exploração de outras. Pura verdade. Em 1929 os Estados Unidos estiveram em espantoso sufoco financeiro. Houve a quebra da chamada bolsa. O CRAQUE. Faliram os bancos. Desemprego em massa. Miséria por toda parte. O jeito estava em buscar riquezas alheias. Sabia-se que o Brasil queria derribar um presidente, em 1930, e substituir as oligarquias. Os norte-americanos não tinham alimento mas tinham armas. Fácil foi apoiar a rebelião dos militares e de Getúlio Vargas, apear Washington Luís do poder e criar o QUINTAL brasileiro. Dominaram o país. A propaganda cinematográfica do automóvel, do turismo, da roupa feita, da viagem de turismo, da cozinha eletrificada, do uísque para as coronárias, dos enlatados, das festinhas, dos concursos de misses, dos cassinos luxuosos. Iniciou-se o império da gasolina e dos estradões asfaltados. O transporte barato do trem desapareceu. Passou-se ao ônibus bonitão e poluidor. Liquidou-se a navegação de cabotagem, tão útil e tão módica no transporte de mercadorias. O governo Dutra adquiriu todo o estoque de ioiôs da produção estadunidense, gastando imensas reservas cambiais. Dava gosto ver nossas crianças e adolescentes na prática desse besteirol da matéria plástica que nos sugou riquezas sem conta. Nossas caboclinhas aprenderam a mostrar os bumbuns nas espertezas dos desfiles de beleza. Juscelino incentivou a criação de um empresariado ganancioso e malvado. A produção em massa de automóvel afastou das cidades o popularíssimo bonde, barato e de agradável andança. E provocou loucura na classe média, na professorinha de pouca renda, que compra o carro e não pode comprar o sustento do combustível. Instituiu-se a civilização do elevador de fabricação norte-americana e o Rio, São Paulo, Belo Horizonte se transformaram em selvas de pedra, com as respectivas tragédias do pobre homem brasileiro.

A tragédia nacional pode ser observada nos programas televisivos. Violência, perversidade, megalópoles de problemas mil, fome, moradias desumanas, escola falida, cárceres entupidos e perversos, dia-a-dia de angústias e desesperanças.

Que funciona neste país? A jogatina oficial, a que brevemente se incorporarão os cassinos. Loto, loteca, sena, raspadinha, bicho. Desde que acorde até que dorme vive o brasileiro da sua fezinha, contribuindo para a POBREZINHA Caixa Econômica Federal, que cobre juros legais quando empresta os seus trilhões. O país vive de roubalheiras, de fraudes, de peculatos, de maracutaias. Ministros, desembargadores, altos funcionários têm dinheiro à tripa forra, enquanto 90% dos patrícios são obrigados a uma existência mais miserável do que os felás egípcios.

Sucedeu-se [sic] os governos e sempre e cada vez mais o país afunda no fosso da podridão moral. Vinte anos houve de uma ditadura criminosa que realizou muito no terreno da castração de direitos e na execução capital dos adversários. Depois dela, o povo, nas urnas, elegem o presidente Fernando Collor, com graves e grandes promessas de recuperar o país e socorrer os pobres diabos. Brevemente o governo atual, a 15 de setembro, completará um ano e meio no comando administrativo e nada se viu senão um regime inflacionário sem tampa e sem fundo, como penico de português, e a intensificação dos maiores e menores problemas do país, que, por força dos norte-americanos, trocam a sua riqueza agropecuária e agrícola por uma industrialização sem mercado interno e externo.

Ilegalmente, tomaram-se os depósitos dos brasileiros e nada se conseguiu. O país continua à matroca, sem governo sério e sem jeito de solução das suas mínimas dificuldades.


A. Tito Filho, 20/08/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 27 de abril de 2012

JÂNIO

Inexperiente, andei votando nuns nomes que a publicidade endeusava para presidente da República. Votei no Brigadeiro Eduardo Gomes, para quem Prado Kelly escrevia a discurseira de homem puro. Foi derrotado. Puseram Dutra no Catete, general cercado de genros e filhos de criação. Dutra gastou as divisas nas estranjas comprando porcaria de matéria plástica aos gringos. Amedrontado do barulho da banda de música da UDN, o general fez acordo político com Otávio Mangabeira, baiano esperto, e outros tocadores de instrumentos como bombo e bombardão. Em seguida pus meu voto no Getúlio. Um novo Getúlio Vargas, sério, nacionalista, criador da PETROBRÁS que o ditador Geisel, anos depois, sem lei e sem decreto, espatifou nos contratos de riscos. Um país pândego. Pois bem. Formou-se uma onda de impiedade contra um dos raros estadistas deste país e Getúlio, levado a cruel desespero, meteu uma bala no peito numa tristíssima manhã de agosto, no quartinho desconfortável do palácio presidencial, o Catete. Novamente fui convocado ao voto. Três candidatos, nem me lembrou, um deles o Juscelino, em quem votei. Tinha mania de grandeza, num país de cegos, aleijados, famintos, desgraçados. Quando prefeito de Belo Horizonte, fez a Pampulha, cousa de rico, enfeitada de lago artificial, com cassino e outras dissipações. Por perto o povo pedia esmola. Na presidência, chamou os sábios das escrituras e mandou que se projetasse uma nova capital para o Brasil, no cerradão bruto do planalto central. Todos os dinheiros deste país se destinavam ao sorvedouro nacional. Derribou-se a mata raquítica, torta, que nem passarinho queria. Os animais de caça fugiram para as matas distantes. Construiu-se a monstruosidade. Cimento armado. Um dia Vitorino Correia andava atrás de emprego melhor que o de general reformado. Correu a Juscelino, que lhe ofereceu a presidência nacional do IPASE, contando que toda a arrecadação se metesse na buraqueira de Brasília. O general desistiu, era homem sério com os dinheiros alheios. Sucedeu mais uma eleição presidencial. Votei em Jânio, cabra bom, brasileiro. Nele sobrava o principio da autoridade. Governou uns sete meses. Mandou que os políticos trabalhassem no Congresso - e assim se engavetaram os projetos necessários ao governo. Revogou os subsídios oficiais à gasolina, pagamento que o Brasil fazia em beneficio da bolsa dos ricaços, pois pobre mal pedala bicicleta. A malandragem da jogatina de futebol e da corrida de éguas e cavalos só sábado e domingo. Aboliu a perversidade da briga de galo. Proibiu a sem-vergonhice do biquíni. Botou funcionário público no trabalho. Caloteiro passou a pagar imposto. Jânio deixou a presidência com altivez e dignidade. Quis dar um golpe. Não pôde, infelizmente.

Muito anos depois, eleito, voltou à Prefeitura de São Paulo. Ninguém lhe conhece a obra monumental que vem realizando, pois não compra nem paga publicidade. Vou, porém, transcrever, amanhã, a insuspeita opinião de "Jornal do Brasil".

De mim, sou janista de quantos costados eu possua.


A. Tito Filho, 11/09/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 21 de abril de 2012

CANTIGAS

A poesia dos tempos medievais foi quase essencialmente amorosa, feita de heroísmo e de aventura sobre a base do amor, da valorização da mulher. Os poetas cantaram episódios heróicos e amorosos, estes apoiados no típico sentimentalismo provençal. A canção provençal é um hino de amor integral, do amor puro e do amor da carne e a poesia do amor carnal provinha da inspiração popular.

A poesia popular retrata a vida, mais precisamente critica a sociedade de determinada época. Quem quiser conhecer os tempos e os homens, nos seus caracteres reais, estuda a poesia popular numa das suas interessantes manifestações, a letra das músicas. Em 1945, os figurões da política endeusaram Getúlio Vargas, por necessidade do formidável prestígio eleitoral do presidente. Bastou que as Forças Armadas apeassem o gaúcho do governo, dia 29 de outubro daquele ano, "a turma toda evoluiu de opinião", e passou ao puxa-saquismo com o general Dutra. O canto do povo caricaturou o episódio: "Lá vem o cordão dos puxa-sacos, / Dando vivas aos seus maiorais... / Quem está na frente é passado pra trás / E o cordão dos puxa-sacos / Cada vez aumenta mais... / Vossa Excelência! Vossa Eminência! / Quanta reverência / Nos cordões eleitorais / Mas se o doutor / Escorrega e cai no chão / A turma toda evolui de opinião / E o cordão dos puxa-sacos / Cada vez aumenta mais...".

Li certa vez que a música popular moderna também é fruto do desespero de uma época, como se fora a mensagem do morro, da favela, da aflição, da fome, que Nara Leão mandou ao asfalto: "Se não tem água / Eu furo um poço / Se não tem carne / Eu pego um osso e boto na sopa e deixo andar...".

A verdade está em que o povo, em todas as idades, procura, nas alegrias e nas angústias da vida, a motivação das cantigas. O povo sempre conserva a sua sabedoria milenar e através dela compreende as fases da existência, como numa viagem, de variante em variante. As canções dos dias de hoje se assentam na alma popular, com as suas características, os seus costumes as suas virtudes, as suas paisagens, os seus sentimentos e as suas condenações.

Existem exemplos notáveis de semelhança da poesia de séculos atrás e da poesia de hoje: exemplos do canto do passado e do canto do presente, o de ontem e o dagora nascidos da inesgotável inspiração popular.

*   *   *

A época provençal trouxe-nos a influência purificadora de sua poesia. Houve a forma importada para os salões, a canção, o cantar d'amor, e adquire forças de cidadania a cantiga d'amigo, cujo agente criador era a mulher. Nasceria a poesia da corte ou palaciana e com ele se enfeitaria a poesia popular, nos seus tipos fundamentais, o de inspiração burguesa, que se ligam a vida social evoluída, e o da atmosfera virgem do campo para o ambiente convencional da vida citadina.

Os estudiosos encontrarão as raízes da poesia no popular e nas canções dos dias que correm nas velhíssimas concepções dos poetas e trovadores da Idade Média.


A. Tito Filho, 02/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

OS CAMINHOS DA VIOLÊNCIA

Mais um ano se foi no dia 31 de dezembro de 1990, com o seu rosário de atribulações. Veja-se o passado recente. Quantas decepções desde a quartelada de 1930. Regime ditatorial. Fracasso da legislação trabalhista. A derriba de Goulart pela hipocrisia da classe média e pelos de Goulart pela hipocrisia da classe média e pelos interesses das elites, que, amedrontadas, saíram às ruas, nas grotescas marchas em nome de Deus, da pátria e da família, em busca de generais e tanques respectivos para a afirmação de uma longa e desalmada ditadura. Vinte anos de militarismo, continuação de antiga e criminosa dissipação de dinheiros públicos, o mesmo processo endêmico da fome e da doença. Passam-se os anos e chega-se à vergonhosa deterioração do ensino público, hospitais falidos, roubalheiras, enriquecimento fácil, descrédito generalizado. A cada ano diminui a renda dos 90 por cento dos patrícios que auferem ganhos miseráveis.

Ano por ano o brasileiro desespera. O país se torna abúlico. Milhões de analfabetos. Instituições públicas desacreditadas. Burocracia enervante e obtusa. Burlam-se as leis e suas determinações pelo torto e pelo direito. No dia-a-dia do tempo descobrem-se cada vez mais fraudes, capiloçadas, mordomias vergonhosas. Jamais se viu o Brasil na situação das últimas épocas. Nada mais funciona. Cultura abandonada e empacotada, a arremedar costumes e hábitos dos Estados Unidos. Desemprego e subemprego. Incompetência. Instituição do ócio para o funcionário público, consubstanciado nos feriadões e multiplicação de feriados desnecessários.

A euforia industrializante de Juscelino Kubistchek deu no que deu, a fuga do campo, de onde se desviaram os recursos da agricultura, em muitas áreas nacionais. Busca da cidade e a criação das megalópoles, de falso ganho. Favelização intensiva de enormes centros urbanos, inclusive debaixo das pontes de concreto.

A ignorância tem levado à inchação populacional. O desequilíbrio social, representado pelas elites fúteis, ociosas e esbanjadores, de número reduzido, e pelos milhões de párias famintos e andrajosos e doentes, vem provocando a violência dos seqüestros, dos assaltos, dos assassinatos brutais. Os preços não há quem os siga, sobem sempre e descontroladamente.

O presidente Fernando Collor, na campanha eleitoral, fez promessas que o tornaram símbolo das esperanças dos brasileiros. Desapareceriam os marajás, indivíduos privilegiados de lucros absurdos. Haveria a moralização da vida pública. Derrotar-se-ia a inflação. Chegou o Natal. Prossegue o cortejo de malefícios. A única medida real até agora foi o confisco absurdo e ilegal dos dinheiros dos brasileiros confiados aos estabelecimentos bancários.

A ministra Zélia Melo culpa os empresários por tantas aflições. Mas como evitar que a indústria e o comércio não aumentem preços, se o próprio governo presidencial aumenta mês por mês o preço dos combustíveis, as taxas de correio, de luz, e telefone, do pão, do leite, dos transportes?

Inflação, deflação, recessão, choques, e quanto vocabulário haja, tudo faz parte do quotidiano do brasileiro. As despesas do tesouro continuam espantosas. Agora mesmo, quando se gastou com a visita de Bush ao Brasil, por pouco mais de 24 horas? Quanto custou o aparato policial? A comedoria e a bebedoria para que dois governantes se abraçassem e se fizessem rapapés? Os dois presidentes, com as técnicas avançadas de hoje, bem poderiam entender-se por telefone, com a circunstância de que se dispensariam intérpretes, uma vez que o presidente brasileiro domina a língua inglesa.

O Brasil, desde março, vive também o problema dos salários, um dos fundamentos da política econômica do governo. A partir de janeiro de 1991, o salário mínimo passará a pouco mais de doze mil cruzeiros. É possível viver com essa raquítica paga do trabalho humano? Nem um débil mental admitiria que tal importância pudesse prover as necessidades do individuo, quanto mais da constelação familiar.

Quanto ganham o presidente, os ministros, os parlamentares, os magistrados dos tribunais, os técnicos, os altos servidores das estatais? Ganham milhões, mas não há diferença entre as barrigas dos bem aquinhoados e os pobres diabos dos mínimos salários.

Do jeito em que se encontra o desequilíbrio social, ninguém pode ignorar de onde vem a violência.


A. Tito Filho, 26/01/1991, Jornal O Dia