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quarta-feira, 16 de maio de 2012

LEONARDO MOTA

Nos tempos passados Teresina hospedou escritores famosos, de prestígio nacional. Quase fim do século XIX houve a visita de Coelho Neto, recebido por grande massa popular, sob aplausos e foguetório. Ofereceram-lhe baile no Teatro 4 de Setembro e o autor de TURBILHÃO dançou com meninas de muita faceirice.

Humberto de Campos esteve nesta Chapada do Corisco e visitou a Escola Modelo, uma beleza de educandário que Firmina Sobreira criou e fez funcionar às mil maravilhas. O visitante elogiou a obra educacional da mestra querida. Outra que andou de visita por Teresina se chamava Paschoal Carlos Magno, poeta e prosador de nomeada. Estava-se no ano de 1929. Dois anos antes, a Academia Piauiense de Letras recepcionava o cearense Leonardo Ferreira da Mota, afirmação de folclorista. Saudou-o, numa sessão solene realizada na Escola Normal, mestre Higino Cunha, respeitável intelectual que os piauienses aplaudiam com admiração. Orador fluente, sério, de idéias e conceitos plenos de emoções literárias, era na época o mais apreciado dos nossos homens de letras. Discursou também em homenagem a Leonardo o padre Cirilo chaves, um dos mais conhecidos oradores da história religiosa piauiense. Além da oratória sacra, cultivava ainda o discurso estético, rico de imagens emocionantes. Na mesma solenidade se ouviram bem conhecidas poesias do nosso Antônio Chaves, opulento cultor do lirismo no soneto e nos poemas telúricos. Leonardo Mota empolgou a assistência enorme, com narrativas matutas e vasto anedotário do interior nordestino, contados com graça e riqueza vocabular.

*   *   *

Estudei no Liceu Cearense, de noite, curso pré-juridico. Excelentes professores. Bem me lembro de Antônio Martins Filho, que se tornaria, tempos depois, o admirável reitor da Universidade Federal do Ceará. E outros que a memória guarda com gratidão.

Era bom. Antes de tomar o bonde de Jacarecanga, a estudantada do Piauí em Fortaleza se reunia na praça do Ferreira para umas doses de palestração. Ponto de reunião de altos servidores públicos, jornalistas, escritores, gente célebre, para a troca de novidades. Nos sábados, noitinha já, íamos para o MAJESTIC, cinema que mantinha bar numa das suas áreas. Aí conheci Demócrito Rocha, fundador do jornal O POVO. Do outro lado da comprida praça, ficava A GRUTA, restaurante e local de intelectuais, para a cerveja gelada e o trago da pinga gostosa. Neste recanto, vi mais de uma vez Leonardo Mota, cujo nome se reduzia a Leota, escritor de muita fama, e estimado por todos os cearenses, que lhe conheciam a verve e o talento. Nascido à 10 de maio de 1891, faleceu em Fortaleza à 2 de janeiro de 1948.

Deixou Leota livros de encanto insuperável. Possuía grande capacidade humorística. Conferencista. Viajava sempre para recolher o material dos CAUSOS que sabia contar ajudado dos gestos, do ritmo, do sotaque.

Se vivo fosse, estaria neste próximo 10 de maio,a  comemorar o primeiro centenário de vida. Morreu novo, antes de completar 57 anos de idade. Entregou à inteligência brasileira, entre outros, "Cantadores", "Violeiros do Norte" e "Sertão Alegre", obras raras nos dias que correm.

*   *   *

A família de Leonardo, o Instituto Histórico do Ceará, a Academia Cearense de Letras, a Universidade Federal do Ceará, a Associação Cearense de Imprensa, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e o Banco do nordeste do Brasil, conjuntamente, homenagearão a memória do inesquecível folclorista, que é sócio honorário da Academia Piauiense de Letras, título outorgado quando de sua visita a Teresina. A Casa de Lucídio Freitas se representará nas comemorações pelo acadêmico José Eduardo Pereira.


A. Tito Filho, 07/05/1991, Jornal O Dia - p. 4

terça-feira, 15 de maio de 2012

"EU SEI ONDE ESTÁ O DINHEIRO"

A Academia Brasileira de Letras conferiu uma de suas poltronas a José Américo de Almeida, o paraibano cuja vida pública tem sido um grito angustiante pela felicidade do Brasil. Está de parabéns a Casa de Machado de Assis, chamando o seu seio um grande escritor.

Era um paraibano baixote, míope desde moço, encheu de compostura a vida nacional. Formou-se em Recife, em 1908, com os piauienses Simplício Mendes e Arimathéa Tito. Parece que chegou a residir com os dois na mesma "república" de estudante; pelo menos é certo que foi companheiro de quarto de Arimathéia. Formado, José Américo achou fascinante a vida política, e nela ingressou. Ei-lo, em 1930, como um dos chefes civis do movimento revolucionário que derribou Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e entregou o governo da República a Getúlio Vargas, de quem foi ministro da Viação, um grande ministro, voltado para os graves problemas do Nordeste. Enfrentou a terrível seca de 1932. Impôs-se à admiração do país, pelo trabalho, pela sinceridade, pela inatacável honestidade.

O esforço gigantesco como ministro, a linguagem franca de que se utilizava para o debate dos problemas políticos e administrativos, os brados de revolta contra o atraso da terra e a penúria do homem, a bravura com que desafiava os maus, a consagração do romancista de A Bagaceira - tudo isto lhe valeu imensa popularidade, na Paraíba como no Brasil.

"A Bagaceira" (romance) deu a José Américo uma posição invejável no cenário da literatura brasileira. Consentiu o autor em que o livro "é a tragédia da própria realidade". Livro violento, que agasalhou "almas semibárbaras pela violência dos instintos". O escritor interpreta essas almas sem artificialismo, nuamente, para não suprimir delas a grandeza: "Seria tirar-lhe a própria alma".

O livro semelha um protesto contra "a miséria maior do que morrer de fome no deserto" que "é não ter o que comer na terra de Canaã".

Romance do sofrimento do homem na terra escaldante - "A Bagaceira" também constitui um romance de amor, "concessão lírica ao clima e à raça", como diz José Américo - "problema de moralidade com o preconceito da vingança privada", da forma que ele define as paixões brutais do sertão.

Getúlio Vargas, depois de três anos de governo discricionário, premido pelas circunstâncias, convocou eleições para uma Assembléia Constituinte. Esta se reuniu e votou a Constituição de 1943, que adotou a fórmula de eleições indiretas para o primeiro período presidencial. Findo este, daí por diante o processo de escolha dos presidentes seria direto. Elegeu-se Getúlio presidente por quatro anos.

(Em 1937, arregimentam-se os políticos. Campanha eleitoral a vista. Eleições presidenciais marcadas para 3 de janeiro de 1938. Plínio Salgado, chefe do Integralismo (camisas verdes), candidata-se. Também se candidata Armando de Sales Oliveira, governador de São Paulo, político de grande conceito e prestígio. Getúlio manda que seus partidários apresentem José Américo como candidato oficial. O lançamento é feito por Benedito Valadares, governador de Minas. O paraibano aceita o encargo. Ganha as ruas, as cidades, pregando idéias, defendendo ideais).

Mas Getúlio preparava com Góis Monteiro, desde o carnaval de 1937, um golpe, no ritmo político de três tempos, na correta apreciação de Nehemian - coup d'etat - ditadura.

(Veio o golpe de Getúlio no dia 10 de novembro de 1937. Fechamento do Congresso Nacional. Prisão de adversários. Liquidação dos partidos políticos. Encerramento das atividades integralistas. Nova Constituição, em que Getúlio se tornava chefe do Estado Nacional. Interventorias nos Estados, com exceção de Minas. Nas Alterosas, Valadares se mantinha como governador. Ostracismo para José Américo).

(O paraibano tem sete fôlegos. Corajosamente, dia 22 de fevereiro de 1945, decreta, numa entrevista dada a Carlos Lacerda, a queda do regime getuliano).

Com ilustres chefes políticos, cria a UDN. Lança-se Eduardo Gomes candidato à presidência. Vibrante campanha derriba Getúlio, dia 29 de outubro de 1945.

José Américo e o antigo ditador elegem-se para o Senado. Em 1950, Getúlio elege-se presidente da República. O paraibano sai governador da Paraíba, cargo de onde obtém licença da Assembléia para atender ao convite presidencial de entregar-lhe o Ministério da Viação e Obras Públicas.

Sobrevieram as crises. A Oposição não poupava o governo de Vargas. Em 1954, atendendo a Lacerda. Assassinato de Rubens Florentino Vaz. Suicídio do presidente na véspera do Dia do Soldado.

Volta o paraibano ao governo da Paraíba. Cumpre mandato. Antes, presta depoimento sobre a grande crise de agosto de 1954. Palavras candentes, fortes, verdadeiras.

José Américo de Almeida reassume o lugar vital de ministro do Tribunal de Contas da União. Atingindo idade compulsória, aposenta-se retirando-se para a amada Paraíba, onde vive cercado do afeto e do respeito da família e dos brasileiros.

Deu-lhe poltrona a Academia Brasileira de Letras, homenagem a um gigante de inteligência, a um criador da literatura - a um homem de trabalho intelectual constante em favor da verdade e em favor de um Brasil feliz.

Na campanha presidencial de 1937, num comício no Rio, fez ele análise da realidade brasileira e gritou: A terra é infeliz porque é pobre. Mas eu sei onde está o dinheiro para o soerguimento do Brasil".

E por isso não foi presidente.


A. Tito Filho, 29/06/1991, Jornal O Dia – p. 4

domingo, 6 de maio de 2012

VINTE ANOS DE BATENTE

Ingressei na Academia Piauiense de Letras em 1964, ocupando a cadeira em que se tinha assentado meu pai, a de número 29. Em 1966, o presidente Simplício Mendes me fazia secretário-geral da entidade, reeleito em 1968 e 1970. Mandato de dois anos. A 2 de janeiro de 1971, Simplício não acordou.  Dormiu, a 1º de janeiro, o sono eterno. Fui o seu substituto regimental, pois a Casa de Lucídio Freitas não tinha vice-presidente. Agora inteirei vinte anos na presidência e antes de escrever sobre assuntos relembro os colegas que se despediram do mundo no correr desse longo período: Avelar Brandão Vilela, Cromwell de Carvalho, Fernando Lopes, Edison Cunha, Petrarca Sá, Moura Rego, Celso Pinheiro Filho, Cunha e Silva, Fontes Ibiapina, Martins Napoleão, Fabrício Areia Leão, Carlos Porto, Ofélio Leitão, Cristino Castelo Branco, Adelmar Rocha, Edgar nogueira, Petrônio Portella, Zenon rocha, Odylo Costa Filho, José de Abreu. L. M. Ribeiro Gonçalves, Gayoso e Almendra, Isabel Vilhena, Martins vieira, Robert de Carvalho, Luís Lopes Sobrinho, Manoel Felício Pinto, Armando Bastos, Elias Oliveira, Vidal de Freitas, Artur Passos, José Patrício Franco, Odilon Nunes, Darcy Araújo e Lilizinha Carvalho. Fora Simplício Mendes, a quem sucedi na presidência, trinta e cinco colegas faleceram no decorrer da minha administração, nestes últimos vinte anos.

Nas cadeiras 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 15, 17, 18, 19, 20, 21, 24, 25, 27, 34, 36, 37 e 40 faleceu apenas um em cada uma delas. As cadeiras 8, 14, 26, 28 e 31 perderam dois companheiros em cada qual. No meu longo tempo de presidente a Academia não teve desfalque nas cadeiras 2, 10, 12, 13, 23, 29, 30, 32, 33, 35, 38 e 39.

Caso especial o da cadeira 16. Escolhido para ocupá-la, Raimundo Zito Batista escolheu patrono o poeta e prosador Taumaturgo Sotero Vaz. Falecido Zito, a Academia escolheu substituto na pessoa do orador José Pires Rebelo, que foi intendente (prefeito) de Teresina e senador. Para o seu lugar, na respectiva vaga, escolheu-se o grande tribuno popular e biógrafo Adelmar Soares da Rocha, que teve substituto na pessoa do jurista Edgard nogueira, cuja vaga se concedeu a Petrônio Portella e depois a Zenon rocha, os intelectuais ocuparam a cadeira 16, como * pela relação de nomes ilustres acima citados. A única que guarda seis mortos na sua história. Só nos meus vinte anos de presidência me despedi de quatro - Adelmar, Edgard, Petrônio e Zenon, caracteres primorosos e enaltecedores da vida acadêmica.

Quando Petrônio, ministro da justiça, manifestou o desejo de ingressar na Casa de Lucídio Freitas, havia uma única vaga, a de Edgard Nogueira, titular da cadeira 16. Mostrei-lhe o quadro acadêmico. Petrônio espantou-se com os quatro mortos na cadeira. Supersticioso sempre. Inexistia outra vaga. Inscreveu-se. Candidato único. Morreu antes da eleição, mas os membros da Academia, em Assembléia Geral, o consistiram eleito e lhe deram posse post mortem.

Corre entre os confrades que a cadeira 16 oferece azar. Os que a alcançam vivem pouco depois do ingresso. Parece-me que o que mais viveu foi Adelmar Rocha, pois passou, após a posse, uns 21 anos como titular.

Pretendo escrever a história da Academia Piauiense de Letras, desde a primeira tentativa de uma instituição nos moldes da Academia Brasileira de Letras. Não deu certo a pretensão dos intelectuais no começo do século. Só em 1917 por inspiração de Lucídio Freitas, se fundou o sodalício, o mais antigo do Piauí, cujas lutas não se interromperam tempo algum, havendo completado, a 30 de dezembro de 1990, setenta e três anos de serviços gratuitos à coletividade.

A história da Academia será publicada por ocasião dos seus 75 anos, em dezembro de 72, se Deus quiser.

 
A. Tito Filho, 01/01/1991, Jornal, O Dia, p. 4

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* Não está visível no original. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O PONTA-DE-RAMA

Aprecio muito a leitura de memórias alheias. Li-as de autores, nos domínios da literatura universal, brasileira e regional. Cativam-me essas narrativas em que se respigam lições úteis no terreno da psicologia, da história, dos caracteres humanos, dos cenários geográficos e sociais.

Dostoiewsky, russo genial, condenado à morte em 1849 por causa de opiniões políticas, teve a pena comutada em quatro anos de exílio entre os condenados das prisões da frigidíssima Sibéria. Os sofrimentos fizeram dele um analista profundo do coração dos homens. A "Recordação da Casa dos Mortos", obra-prima, escrita com a absoluta sinceridade, descreve a estranha gente criminosa que rodeava o escritor.

Gostei das memórias de Montgomery, o comandante estrategista inglês que derrotou o famoso Rommel na cruenta Segunda Guerra Mundial, um livro que revela as responsabilidades quase inacreditáveis de um chefe militar. Li as memórias de Truman, o que mandou atirar bombas atômicas sobre duas cidades japonesas. Antes de atirá-las conversou, por telefone, com Hiroíto, o imperador dos nipônicos, servidos ambos de intérpretes. O presidente norte-americano avisou-o de que deveria render-se incondicionalmente, do contrário sofreria ataques de engenhos de imenso poder de destruição. Hiroíto não temeu a arma mortífera. Atirada a primeira bomba, novo telefonema. Hiroíto prosseguiu firme. Deu-se o genocídio de Nagasáqui. Outra conversação dos dois líderes e o imperador disse que se renderia, nunca incondicionalmente, pois os japoneses exigiam a sua permanência no trono. Truman transigiu.

QUANDO EU ERA VIVO, de Medeiros e Albuquerque, constiitui bem escritas memórias desse homem de inteligência apurada, com episódios interessantes e gente do mesmo naipe. Fala do piauiense marechal Pires Ferreira, tipo curioso, e de Campos Sales, que o autor considera corruptor da imprensa.

Atraente o GATO PRETO EM CAMPO DE NEVE, narrativa de viagem que Érico Veríssimo escreveu. Deliciosos os livros de Mário Sette, em que relembra o Recife antigo.

Autores de nomeada da vida intelectual do Piauí escreveram memórias. dignos de registro as de Higino Cunha e de Leônidas Mello, falecidos, e de Rocha furtado e josé Miguel de Matos, vivos, este último no incompreendido PISANDO OS MEUS CAMINHOS.

Agora leio espiritualmente entusiasmado o PONTA-DE-RAMA, memórias de Fabiano Melo, antecedidas de brilhante apresentação de um mestre da crítica e da linguagem, Celso Barros, sempre lecionador de verdades: "A medida que envelhecemos ou que tomamos consciência da velhice, as reminiscências criam, em nós, um mundo diferente, em que as coisas, as imagens, as pessoas se vão reduzindo a um símbolo da própria vida, à eternidade da vida a nos guiar em toda a nossa caminhada". E Celso prossegue, límpido de inconfundível estilo, a conduzir a gente pela leitura do livro do ponta-de-rama, o caçula de um casal consciente das virtudes da educação moral dos filhos.

Numa linguagem clara, correta, Fabiano Melo busca na memória o ambiente familiar de sentimentos elevados, e fixa a beleza de um tempo de amor, respeito, religiosidade e trabalho em que se realçavam almas virtuosas, na comunidadezinha de gente amável e acolhedora, Piripiri.

No trabalho de beleza artística, vêem-se retratos humanos e paisagens inesquecíveis. Gente querida no cenário da cidade pequena. Os fatos narrados compõem uma crônica que se fixou na saudade imensa dos que sentem a mudança vertiginosa dos hábitos e dos costumes.  

Modo de escrever de leveza constante o de Fabiano Mello, como se estivesse em recolher ensinamentos dos bons mestres da escritura rica de graça e de originalidade.


A. Tito Filho, 22/01/1991, Jornal O Dia, p. 4

quarta-feira, 25 de abril de 2012

CARNAVAL

A princípio houve o ENTRUDO, que os portugueses trouxeram para o Brasil, no século XVIII. Mário Sette, o cronista do Recife antigo, informa que na capital pernambucana se brincou muito o ENTRUDO, tipo de carnaval com banho dos foliões dentro de gamelas e barris. Eneida, que tão bem escreveu a história do carnaval carioca, considera o ENTRUDO porco e brutal, assustador dos primeiros viajantes estrangeiros chegados ao Brasil.

O carnaval de Teresina até 1859, conforme ao depoimento do padre Joaquim Chaves, era modesto e consistia quase exclusivamente no ENTRUDO das bisnagas, que esguichavam água suja, vinagre e outros líquidos, derramados em roupas e cabeças. Sujo e grosseiro.

Em 1859 deu-se o primeiro carnaval de Teresina. Brigou-se muito. Bailes no Teatro Santa Teresa, hoje Secretaria da Cultura. Cavalheiros mascarados a cavalo e a pé percorreram a cidade. Rapazes já se fantasiavam vestidos de mulher.

A CARNAVAL têm sido atribuídos muitos étimos diferentes.

O velho Morais dá-lhe origem italiana carnavale ou canevale.

Figueiredo acolhe opinião de Korting: a fonte de carnaval é carrus e navalis, que dariam os elementos car e naval para a formação da palavra. O autor a que se refere o dicionarista, o citado alemão Korting, pretendeu referir-se talvez aos carros alegóricos característicos de festejos carnavalescos. Para Xavier Fernandes o étimo referido não tem fundamento histórico.

Diez sugeriu que carnaval derivou de duas palavras latinas: caro, carnis (carne) e vale (adeus), significando adeus, ó carne.

Deve observar-se que a raiz do primeiro elemento carn não pode ser um vocativo. Esta a razão pela qual os estudiosos levam à conta de fantasia a sugestão do ilustrado filólogo.

Xavier Fernandes anota o estudo de Bouillet: "Carnaval formou-se do latim caro e do francês avale, de avaler, engolir, comer. Bouilet não se importou com a formação híbrida, que sugeriu, e - pior do que isto - esqueceu-se de que o vocábulo já existia no italiano antes de existir no francês".

Nascentes oferece o étimo italiano carnevale, mas observa: "É duvidosa a origem deste vocábulo, primitivamente designativo da terça-feira gorda, tempo a partir do qual a Igreja suprime (latim levare) o uso da carne".

Petrochi apontou como étimo o baixo-latim, interpretado por Stappers como carnis levamen, prazer da carne, antes da tristeza e continência da quaresma.

Parece que a etimologia mais aceitável de carnaval é o italiano carnevale ou carnovale, tirado do baixo-latim carnem levare, com a significação literal de abstenção de carne.

Carnaval já expressou o tempo em que se comiam viandas e guisados de carne. Vieira escreveu: "Tumultuou o povo no deserto contra Moisés, e foi o tumulto de carnaval" - isto é, causou o tumulto as recordações do tempo em que comiam carne no Egito.

São diversas as origens atribuídas ao carnaval. Originário da Antiguidade ou da Idade Média, a verdade é que ele aparece de formas diferentes em épocas e países distintos: entre os gregos e romanos, com préstimos de pessoas mascaradas e mulheres nuas; na Espanha, na Alemanha, na Rússia, na Itália, na França - por toda a Europa, embora no Velho Mundo dos nossos dias esteja quase desaparecido.

Ao Brasil chegou o carnaval no século XVII, trazido pelos portugueses, inicialmente sob a forma de entrudo.


A. Tito Filho, 08/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

terça-feira, 24 de abril de 2012

REFORMAS

A mania nacional tem sido reformar o ensino. Cada ministro, uma reforma. Sem recuar muito no tempo, na década de 30 o brasileiro tinha um ginásio de cinco anos. Terminando este, submetia-se a exames para as faculdades, caso quisesse. O ministro Francisco Campos bolou uma reforma, séria, de que abaixo se tratará.

Estando ministro, Gustavo Capanema implantou nova reforma: quatro anos de ginásio, três anos de científico ou clássico. Concluídos, o jovem buscava, se lhe apetecesse, os exames de ingresso nas escolas superiores. A reforma Capanema, ela mesma, foi reformada com acréscimo e supressão de disciplinas. Nela meteu-se o espanhol, dela tirou-se o espanhol. Depois, chegaria a vez de abolir o francês. Introduziram-se a organização social e política do Brasil e educação moral e cívica. E assim por diante, até que a estudantada desembocou na reforma Jarbas Passarinho, com a ensinança do primeiro e do segundo grau, ora em vigor. Ensino profissionalizante mas ninguém vai nessa profissionalização, porque todos querem o anel de doutor, mesmo sem mercado de trabalho.

A melhor reforma do país foi, de fato, a do ministro Francisco Campos. Cinco anos de ginásio, para a base humanística. Em seguida, o futuro profissional definia-se por um dos três ramos de preparatórios: o pré-juridico, o pré-médico ou pré-técnico.

O pré-jurídico, por exemplo, era constituído de disciplinas necessárias ao bacharel em direito: estudavam-se biologia, sociologia, economia política, higiene, história da filosofia, literatura, latim - e assim o estudante ingressava na faculdade com excelente soma de conhecimentos. Antes do ingresso, havia o vestibular - não o vestibular de testizinhos, mas de provas escritas em que realmente se podia mostrar competência.

Nos tempos de hoje se diz que a guerra dos vestibular parece mais terrível do que a guerra entre árabes e judeus, pois esta é uma guerra de violentos choques e do vestibular se torna guerra psicológica, donde os vencidos promanam frustrados, como se estivessem marginalizados do processo social brasileiro.

Há candidatos aprovados que não acreditam na vitória, e contam que se inscreveram para experimentar, jogar o barro na parede - uns chegam a confessar que nada estudaram. Um canja o sistemazinho de testes e suas pândegas opções. As editoras brasileiras já fazem enciclopédias de testes para vestibular. Hoje se espalham pelo Brasil doutores em preparativos de testes. E não está longe o tempo em que os universitários terão cursos de doutoramento em arte de fabricar testes.

Os moços deixaram os livros, não lêem pois consideram desnecessário o estudo e a leitura. O doutor de amanhã sabe que tudo se resume em decifrar testes. Melhor a revista de quadrinhos e o livro de bolso erótico e enaltecedor da violência. Machado de Assis passa a ser sujeito tolo que andou falando da vida alheia.

O teste naturalmente suplantou a cultura, em todas as suas manifestações.


A. Tito Filho, 08/06/1991, Jornal O Dia, p. 4

sábado, 21 de abril de 2012

CANTIGAS

A poesia dos tempos medievais foi quase essencialmente amorosa, feita de heroísmo e de aventura sobre a base do amor, da valorização da mulher. Os poetas cantaram episódios heróicos e amorosos, estes apoiados no típico sentimentalismo provençal. A canção provençal é um hino de amor integral, do amor puro e do amor da carne e a poesia do amor carnal provinha da inspiração popular.

A poesia popular retrata a vida, mais precisamente critica a sociedade de determinada época. Quem quiser conhecer os tempos e os homens, nos seus caracteres reais, estuda a poesia popular numa das suas interessantes manifestações, a letra das músicas. Em 1945, os figurões da política endeusaram Getúlio Vargas, por necessidade do formidável prestígio eleitoral do presidente. Bastou que as Forças Armadas apeassem o gaúcho do governo, dia 29 de outubro daquele ano, "a turma toda evoluiu de opinião", e passou ao puxa-saquismo com o general Dutra. O canto do povo caricaturou o episódio: "Lá vem o cordão dos puxa-sacos, / Dando vivas aos seus maiorais... / Quem está na frente é passado pra trás / E o cordão dos puxa-sacos / Cada vez aumenta mais... / Vossa Excelência! Vossa Eminência! / Quanta reverência / Nos cordões eleitorais / Mas se o doutor / Escorrega e cai no chão / A turma toda evolui de opinião / E o cordão dos puxa-sacos / Cada vez aumenta mais...".

Li certa vez que a música popular moderna também é fruto do desespero de uma época, como se fora a mensagem do morro, da favela, da aflição, da fome, que Nara Leão mandou ao asfalto: "Se não tem água / Eu furo um poço / Se não tem carne / Eu pego um osso e boto na sopa e deixo andar...".

A verdade está em que o povo, em todas as idades, procura, nas alegrias e nas angústias da vida, a motivação das cantigas. O povo sempre conserva a sua sabedoria milenar e através dela compreende as fases da existência, como numa viagem, de variante em variante. As canções dos dias de hoje se assentam na alma popular, com as suas características, os seus costumes as suas virtudes, as suas paisagens, os seus sentimentos e as suas condenações.

Existem exemplos notáveis de semelhança da poesia de séculos atrás e da poesia de hoje: exemplos do canto do passado e do canto do presente, o de ontem e o dagora nascidos da inesgotável inspiração popular.

*   *   *

A época provençal trouxe-nos a influência purificadora de sua poesia. Houve a forma importada para os salões, a canção, o cantar d'amor, e adquire forças de cidadania a cantiga d'amigo, cujo agente criador era a mulher. Nasceria a poesia da corte ou palaciana e com ele se enfeitaria a poesia popular, nos seus tipos fundamentais, o de inspiração burguesa, que se ligam a vida social evoluída, e o da atmosfera virgem do campo para o ambiente convencional da vida citadina.

Os estudiosos encontrarão as raízes da poesia no popular e nas canções dos dias que correm nas velhíssimas concepções dos poetas e trovadores da Idade Média.


A. Tito Filho, 02/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

terça-feira, 27 de março de 2012

OSCAR WILDE

Oscar Wilde foi homossexual numa época em que se punia a homossexualidade como crime. Tinha o escritor inglês ódio à sua sociedade. Este o seu maior crime: o movimento chamado esteticismo. O movimento estético representou uma revolta, e uma revolta séria. Por quê? Porque "atacou nas suas raízes a moral do século passado".

Era a época da rainha Vitória. Começava o império da máquina. A civilização da máquina. A civilização industrial - a máquina cruel, a máquina dominadora, do homem. Tomava assento na sociedade a aristocracia do dinheiro. A aristocracia do dinheiro. A aristocracia do crime. Ignorava-se o mal, ou fingia-se ignorá-lo, como ainda hoje. Wilde voltou-se contra a hipocrisia social, contra a sociedade cega e ignorante, contra o desprezo que a sua sociedade, escrava da máquina e do dinheiro, dedicava ao saber. Daí escrever num estilo brilhante e artificioso, sem esquecer de revelar a doença social do tempo.

O Retrato de Dorian Gray deve ser, antes de tudo, analisado para que seja compreendido. É a história de Lord Henry e Dorian Gray: “O primeiro dedica-se à missão de corromper a mocidade, mas encontra no segundo um terreno maravilhosamente preparado. Dorian Gray percorre toda a gama dos vícios: preguiçoso e vicioso por princípio, nada o deterá, nem o homicídio. O seu amigo, o artista que lhe pinta o retrato, é a vítima naturalmente designada. Apesar dos excessos de toda ordem que Dorian Gray comete o seu rosto não apresenta nenhum dos estigmas do vício.

"Aparentemente, continua jovem e cândido. Mas o retrato é que se modifica e reflete os sinais característicos duma vida de deboche. Um dia o artista vem visitá-lo e Dorian num acesso de ódio furioso, mata-o. Dirige-se então a um moço químico, a quem domina por conhecer uma falta por ele cometida na mocidade, e obriga-o a destruir o cadáver por um processo químico. A história termina por uma forma em que muita gente julgou ver moralidade. Dorian continua a rolar pela senda do mal e é com uma raiva dia a dia maior que nota as graduais alterações do retrato. Acaba por decidir dar cabo da tela. Sobe ao sótão onde a tinha escondido, na intenção de rasgá-la a navalhadas, mas volta a arma contra o próprio peito. O seu rosto, na morte, apresenta os mesmo sintomas de corrupção que tinha o retrato. Na tela aparece, então, a imagem dum rapaz".

Wilde descobriu a mentira escondida como princípio moral dos homens. Procurou mostrar que a sua sociedade, que a sociedade do dinheiro, praticava todos os vícios e todas misérias e maldades, sob capa de regras morais exteriores. Wilde praticava o homossexualismo às claras, ao contrário de muitos. Defendia a preguiça e glorificava o vício - e praticava este último abertamente, fugindo è regra geral dos que o praticavam às escondidas. Desafiava a sociedade: "Assim (como eu) é que realmente sois vós, ao menos, temos a coragem de viver às claras".

Mostrando na sua própria pessoa a personalidade do homem na vida social, Wilde combateu a sociedade. A sua teoria era: a vida segue a arte, isto é, o artista revela a sociedade, ainda que a sociedade se esconda na hipocrisia. Os tipos criminosos sempre existiram, mas não estavam revelados. Shakespeare mostrou-os, em imperecível obra de arte, antes que a vida os conhecesse. A vida segue a arte, isto é, a vida social pratica às escondidas aquilo que o artista revela.

Em O Retrato de Dorian Gray, Wilde revelou-se, revelando o lado noturno da sua existência. Wilde voltou. Está vivo. O seu esteticismo foi a revolta contra uma época - época, segundo Carpeaux, que ameaçava a existência da arte e do artista. Afirmando a revalorização de Wilde. Carpeaux pergunta como se explica essa revalorização. Desaparecimento dos preconceitos contra o escritor homossexual denunciador do vício em sociedade? O gosto literário de hoje está distante do gosto literário do tempo de Wilde. Não pode Wilde ser admirado hoje pelos processos estilísticos de que se utilizou. Mas a sua obra "apresenta problemas atuais e inelutáveis". Carpeaux acrescenta: "Wilde voltou a ser nosso companheiro na luta pela autonomia espiritual do indivíduo; e, nesse sentido, minhas linhas suas continuam atuais e preciosas".


A. Tito Filho, 26-27/05/1991, Jornal O Dia – p. 4