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sexta-feira, 18 de maio de 2012

VESTIBULAR

Sobre o chamado exame vestibular para acesso às universidades brasileiras já escrevi algumas crônicas publicadas em humildes livrinhos. Nelas digo que anualmente milhões de jovens de ambos os sexos buscam o cobiçado título de doutor, no país em que se assentou o preço do triunfo num anel de grau. E haja anel de grau para todos os dedos, como se ele conferisse o respectivo mercado de trabalho. Criou-se a mística da universidade.

A verdade é que a juventude não estuda. Freqüenta cursinhos, que, bem ou mal, procuram realizar o seu trabalho preparatório, suprimido o péssimo ensinamento das escolas.

O exame vestibular se fez com a utilização de testes. Os candidatos vivem verdadeira tormenta memória. Os testes semelham quebra-cabeças em torno dos quais gravitam moças e moços, que, durante meses, andam pelas ruas, cadernos debaixo dos braços, com o pensamento no exame reprovador:

Quem descobriu o Brasil? 1) Foi você? 2) Foi Pedro Álvares Cabral? 3) Foi Pelé? 4) Ninguém até hoje descobriu o Brasil?

O candidato lê duas vezes os quatros caminhos. E conclui, depois de muito suor: eu nunca descobri cousa alguma, logo não descobri o Brasil. Mas alguém o descobriu. As perguntas 1 e 4 ficam exoneradas, portanto. Tenho certeza de que Pelé se encontra na história do futebol. Resta Pedro Álvares Cabral. Xis nele.

Há necessidade de novos rumos. Os escritores escolhidos para as provas nunca foram lidos pelo candidato. E quanto este, por através de conhecimentos de televisão, acerta o nome do autor de Capitães de Areia, nunca leu o livro e desconhece o grave problema social que o livro agasalha, como uma reportagem viva, no universo do seu regionalismo.

Os moços deixaram os livros, não lêem, pois consideram desnecessário o estudo e a leitura. O candidato ao doutoramento sabe que tudo se resume na arte e habilidade de decifrar testes. Melhor a revista de quadrinhos e de sexo, ou livros de violência. Machado de Assis passa a ser um sujeito tolo e chato que andou falando da vida alheia. O teste suplantou a cultura nas suas variadas manifestações.

Ainda vive o Brasil subservientemente com a exigência da língua estrangeira no vestibular, como o inglês, ou outra que seja. Que necessidade tem o doutor de saber inglês? E por que não se exigem o alemão, o italiano, o russo, o holandês, o chinês?

O inglês se revela tão necessário a um doutor brasileiro como a primeira cueca que ele vestiu. O inglês pode participar da cultura especializada de quem quer que seja, nunca de maneira obrigatória da compostura intelectual de ninguém. Argumenta-se que as grandes obras para a formação de um doutor sejam escritas em inglês, ou francês, o que não corresponde à verdade. Mas se fossem, essas obras poderiam existir também em tradução portuguesa, como existem traduções de obras alemãs, italianas, russas, espanholas. A própria "Divina Comédia", de difícil tradução, está traduzida.

Nem doutor turista necessita de inglês, ou francês. Em toda parte do mundo existem guias e intérpretes.

Será que na Inglaterra, nos Estados Unidos, na França se exige português nas provas de ingresso nas universidades? Eis aí assunto para um teste do próximo vestibular brasileiro.

 
A. Tito Filho, 15/01/1991, Jornal O Dia - p. 4

quarta-feira, 16 de maio de 2012

HISTÓRIA DA PROPAGANDA

Editou-se recentemente uma história da propaganda no Brasil, que teve em Renato Castelo Branco, trabalhador, desde novo, em grandes empresas de propaganda, um dos mais notáveis publicitários deste país, com serviços na Europa, na América do Sul, na Ásia. Escritor de obras aplaudidas.

Renato nasceu na Parnaíba de onde partiu em busca de novos caminhos. Ele conta que na sua cidade os burros cruzavam as ruas carregando produtos. Nas noites de domingo, a charanga tocava na praça e as moças passeavam olhando os rapazes com os olhos do desejo. As empregadinhas e as caboclas duvidosas ficavam do outro lado do logradouro, separadas das donzelas brancas e importantes.

A história lembra a nossa Teresina, quase do mesmo jeito, o rio, as lavadeiras, a pracinha modesta, os namoros platônicos, a jumentaria pelas ruas, passo curto, no transporte das ancoretas de vender água.

O nordestino buscava o sul, o sul rico, mais convidativo de bons empregos. Não esqueceu antes da viagem longa os fantasmas da terra natal - povoadores da meninice peralta.

Nesse tempo, não havia linhas aéreas, nem asfalto, paus-de-arara inexistiam, de ônibus não se falava. Havia os Itas - Itapagé, o Itaquice - os vapores que singravam o mar grande e despejavam no Rio de Janeiro centenas de nordestinos, todos os anos, à procura de horizontes mais amplos, dos doutoramentos e do triunfo.

Uma crueldade espiritual a separação da família. Também fizemos a viagem, de Teresina ao Rio, por terra, pelo São Francisco, pelos resfolegantes trens de Pirapora a Corinto e de Corinto a Belo Horizonte e à antiga capital da República. Perdemos cedo a proteção materna. Mas nunca deslembramos, na hora da despedida, as lágrimas furtivas que desciam do rosto do carinhoso pai - e durante todo o percurso nos vinha o nó na garganta, o pior dos choros, o choro que não sai, que machuca como representação da própria dor.

A história de Renato, que relembramos com emoção, fala do pedaço da terra em que * saudoso da mãe extraordinária, que sempre * a família e deu-lhe força, nos exemplos de * cidade, de disciplina, de afeto, - e o pai, político perseguido, mas generoso, bom companheiro, leal, solidário.

Os episódios da sua vida comovem e emocionam. Antes do Rio, estudou na capital do Maranhão, quando o pai obteve alguma prosperidade. Esteve num internato, e nele viveu o clima de erotismo que deixou em meninos e adolescentes marcas que talvez muitos tenham influído na formação das respectivas personalidades.

Um dia retornou ao machão do primeiro *. Estudou nos ginásios da cidade. Fixou as belezas femininas do tempo em páginas de recordações. Rememorou os bailes, o sereno dos curiosos, os cochichos críticos, pregando comentários irreverentes. Ginasiano, recebeu, recolheu as primeiras impressões sobre Deus. Chegaria a ver sua partida para o sul, a vez da partida para o sul, a viagem da esperança. * que lá se defrontou com as profundas diferenças entre o vilarejo e a metrópole, a simplicidade e a sofisticação.

O sofrido homem chegou ao Rio em 1933, cidade que quase também encontramos dez anos depois - a Cinelândia, a Galeria, o Hotel A* e Getúlio no Poder. Os heróis do teatro - Procópio, Dulcina, Odilon, e os ídolos do futebol Leônidas, Domingos da Guia, e a consagração de Ary Barroso e Orlando Silva. Topamos o Centro e as suas pensões ordinárias ricas de percevejos nas camas sem conforto. Praias bonitas, * O Amarelinho - o melhor ponto de bebericar e bater papo. A Lapa e o Mangue de prostitutas baratas.

Apareceu-lhe o primeiro emprego. Ingressou no trabalho da propaganda. Em 1935 estava em São Paulo, vitorioso, sim, vitorioso.

 
A. Tito Filho, 07/02/1991, Jornal O Dia – p. 4

___________________
* Não está visível no original

sábado, 12 de maio de 2012

OS TRÊS SILVESTRES

Não conheci o meu avô paterno. Quando vim ao mundo, ele já se havia despedido desta vida para outra que suponho pior. Chamava-se SILVESTRE TITO CASTELO BRANCO. Foi vereador em Barras do Maratoã, uma vilazinha pacata do norte piauiense. Pobre, mas respeitado. Família de muitos filhos, mulheres e dois varões. Estes se educaram com a ajuda de amigos. Quando morreu, meu pai lhe herdou as dívidas e as saldou, um por uma.

No livro de memórias ÚLTIMAS PÁGINAS, Cristino Castelo Branco escreveu este trecho: "Lembro-me agora em março do desembargador José de Arimathéa Tito, meu antigo companheiro do Tribunal de Justiça do Piauí, cinco anos mais velhos do que eu, pois nascera a 18 de março de 1887. Pertencia à família Castelo Branco, filho que era de Silvestre Tito Castelo Branco, mas o pai, brigado com os parentes, tirou dos filhos o nome de família".

De feito, meu avô não quis que nenhum dos filhos se assinasse CASTELO BRANCO, homens e mulheres. O primeiro varão chamou-se SILVESTRE, por extenso SILVESTRE TITO FILHO. Deveria ser SILVESTRE TITO CASTELO BRANCO FILHO, mas o pai, teimoso que nem mula, lhe decepou o nome familiar famoso. Na família foi o segundo SILVETRE. Bem alvo, olhos azuis, andou pela capital no Pará feito funcionário público. Adquiriu banhas. Um tanto buchudo. Gostava dos livros, sobretudo os de direito. Danou-se de saudades e regressou à casa paterna, em Barras. Tornou-se advogado, embora sem diploma de faculdade. Escrevia bem. Apreciava uma boa pinga, como de modo geral sempre a apreciaram os barrenses de todas as categorias.

Silvestre Tito Filho nunca se casou. Era meu padrinho, boníssimo padrinho, que sempre me presenteava uns tostões para os rebuçados e os bolinhos que as doceiras de Barras faziam com requintes da difícil arte culinária.

Nunca me esqueci do episódio. Noitinha do dia 6 de fevereiro de 1933 eu me despedi do meu querido padrinho e tio, e ele me deu uma moedinha de bom metal, de mil réis, que na época se denominava CENTENÁRIO, cunhada em homenagem aos primeiros cem anos da independência nacional. Trazia de um lado as efígies de Pedro I e Epitácio Pessoa, o presidente das festas comemorativas.

Dia 7 de fevereiro, madrugada, viajei no caminhão do Crueira, motorista mito conhecido e estimado dos barrenses. Nove da noite, cheguei a Teresina, no Colégio diocesano, como aluno interno, e o padre Joaquim nonato, bom amigo, diretor do educandário, me transmitia a notícia triste que tio Silvestre havia falecido de modo repentino.

Faz poucos dias faleceu em Teresina um terceiro SILVESTRE, nome todo SILVESTRE TITO NETO. Deveria ser Silvestre Tito Castelo Branco Neto. Morreu-lhe a mãe muito cedo, irmã de meu pai, e o pai viúvo logo se casou de novo e deixou com duas tias solteironas os dois filhos havidos do primeiro casamento. Largou a segunda esposa, e tornou-se comissário do Lóide Brasileiro, em cujos navios transitava pelos mares do planeta. Faleceu no começo da década de 50.

Silvestre Tito Filho criou-se sempre pobre, sustentado pelas tias, que lhe davam afeto e carinho. Não teve recursos para estudar. Garoto ainda prestou concurso de carteiro e empregou-se nos Correios de Teresina, fez carreira e aposentou-se. Sempre de exemplar honestidade. Dedicado chefe de família. De inatacável fidelidade à palavra empenhada. Meu companheiro de férias, ao velho Marruás, aonde fomos com os outros primos, no final de cada ano, para os festejos religiosos promovidos pela humilde igrejinha da vila, depois cidade.

Ma(i)s um bom Castelo Branco dos bons que se foi.


A. Tito Filho, 05-06/05/1991, Jornal O Dia

sexta-feira, 4 de maio de 2012

LINGUAGEM

Cada dia que passa mais se deteriora o ensino do português, um ensino que padece, desde longos anos, de malferidos princípios didáticos, métodos antipedagógicos e da sisudez professoral - magister dixit, empanturrando de sabedoria falsa e empáfia verdadeira. Regras, regrinhas e regrões entopem as páginas de dezenas de gramáticas, e cada uma delas oferece novas, a modo de originais e sábias, e fórmulas complexas para entendimento de cousas simples, e nomes esquisitos, geralmente gregos, para batismo de fenômenos ao alcance de humildes inteligências. Os compêndios de ensinança se abastecem de denominações como caractrese, apócope, rizotônica, ênclise, zeugma, endoidecedoras de pobres estudantes do idioma. Na década de 60 criou-se a nova nomenclatura gramatical brasileira, nascida oficialmente do ministério da Educação e assim imposta ao magistério, em todos os cantos do país. Agora a gramática seguiria a bitola convencional. Oficializava-se a reza ou recitativo dos compêndios no ensino da fonética, da morfologia, da sintaxe. Nesse figurino sujeito e predicado constituem os termos essenciais da oração.

Deslembraram-se do significado de essencial: indispensável, necessário, e logo se decretou a existência da oração sem sujeito. Se sujeito se tem como essencial, difícil admitir que a oração exista sem a sua essência. Que seria oração sem sujeito? Aquela dos verbos expressivos de fenômenos da natureza, quando a esses verbos muito bem se atribuiria sujeito interno, como fazem os franceses no caso de chover, trovejar e outros. Antigamente, nas questões de análise sintática os mestres sadistas adotavam textos de "Os Lusíadas", poema que Camões escreveu na ordem inversa, - e exigia-se que os garotos descobrissem o sujeito, como se fossem Xerloques Ingleses em busca do assassino misterioso. Grande tormento ainda está na aprendizagem do aumentativo dos nomes comuns.

Não se agasalhava a voz popular rica de sabedoria e que, com muito critério, diz, no linguajar do dia-a-dia, cartona, copão, pratão - e só em determinados e raros casos o povo se utiliza do grau analítico, jamais o sintético das excentricidades gramaticais, fugindo à língua viva, para consentir na bocarra, manzorra e outras semelhantes. Nos chamados adjetivos pátrios ou gentílicos os discípulos vêem alma à luz do meio-dia pois devem meter na cachola dezenas de esquisitices, criadas pela fértil imaginação de fabricantes de livros de ensinança de bem falar e escrever a língua portuguesa e de professores carrancudos, vaidosos e truculentos. A meninada endoida-se e os pais enlouquecem em busca de adjetivo referente a quem nasce em Três corações, pátria de Pelé. Para Jerusalém, registrou-se o adjetivo hierosolimitano, repudiando-se o bom jerusalenense. Nada mais nada menos do que o samba do crioulo doido. E o lase a perigosa existência, mas se transformam em heróis no jornalismo e na concepção de gente humilde. Reformem-se as estruturas sociais do Brasil com urgência. Não é possível que pequena porção dos brasileiros tenha existência fútil, dissipando em festas ruidosas e episódios paradisíacos, numa gritante afronta aos que se entregam ao trabalho honesto e digno, público como privado. Está na hora de ceder, tanto os latifundiários que exploram a terra e o homem como os capitães de indústria e os tubarões da economia que sugam os restos de resistência do trabalhador nacional, na indústria como no comércio. Os homens do dinheiro continuam na nefasta teimosia de levar o país ao desespero.

 
A. Tito Filho, 29/12/1991, Jornal O Dia, p. 4

segunda-feira, 30 de abril de 2012

TEMPO DE RUMINAR

De primeiro o pessoal se formava em Medicina, engenharia e Direito, também em Odontologia e Farmácia. Era só. Famosos os bacharéis da Faculdade do Recife e os médicos da Faculdade da Bahia. Engenheiro, cousa rara. Criaram-se depois os cursos de filosofia para o preparo de professores. Difícil encontrar veterinário. Agrônomo constituía animal raro. Com a instituição das universidades, nas capitais, nas grandes cidades, nas pequenas coletividades - às vezes quatro ou mais no mesmo centro populacional, a tradição de doutores se tornou problema sem solução, por causa da ociosidade desses milhares de novos médicos, advogados, engenheiros, dentistas, boticários e professores sem mercado de trabalho. Não se cumprem os objetivos universitários mais importantes: a preparação das lideranças e a educação integral da coletividade. A escola superior mal prepara centenas e centenas de profissionais ano por ano.

Milhões de analfabetos povoam o território nacional. Meninos doentes, famintos, sem roupa, sem transporte. O ensino médio cada dia mais se desacredita. As escolas oficiais não ensinam nem educam. As particulares exploram e engordam os proprietários ricos e poderosos. Dá-se o Brasil o luxo de criar universidades acessíveis aos jovens milionários que podem pagar a peso de ouro cursinhos preparatórios de perguntas e respostas empacotadas, como se cultura a gente pudesse comprar na quitanda da esquina.

Dizem os maledicentes que o Piauí não dá alfaiate, garçom e governador que prestem. Nem tanto. Alfaiate constitui tipo profissional exclusivo de grandes empresários, ministros, presidente da República, e dentre estes últimos se deve citar Sarney, usador de antiquados paletós de seis botões, o velho jaquetão. Conheço alguns garçons de bom serviço, educados e bem postos, sobretudo os que se aprumam no dinner-jacket, como se estivessem enfeitados para um réveillon de clube dos granfas. Quanto a governantes, o Piauí tem dado alguns de bom desempenho. Mas seria honesto que as universidades nacionais preparassem alfaiates, garçons e governadores e também mulheres cortadoras de pano, garçoas e governatrizes para abastecimento dos Estados ditos membros da República Federativa.

Igualmente as centenas de universidades espalhadas até no arraial de Pendura Saia poderiam preparar com esmero pichadores de paredes e cassadores, motoristas, trocadores de ônibus, passistas de escolas de samba, estripitiseres, policiais, garis - e até que se criassem escolas para que pistoleiros matassem sem violência, de modo afetuoso, e que remarcadores de supermercados fossem mais humanos e dono de boi tivesse mais pena da gente.

Enfim, o Brasil deve cuidar do ensino das humanidades - aquele ensino que preparou gerações e gerações de moços de futuro certo e promissor. A universidade tem outra finalidade, nunca a de fabricar homens para a mendicância de empregos públicos, humilhados de uma vida vazia, sem caminho, sem triunfo - o triunfo da utilidade pelo trabalho construtivo.

É tempo de ruminar sobre estas inofensivas considerações.


A. Tito Filho, 17/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 27 de abril de 2012

ESCOLAS

Quando me entendi em Teresina as mães viviam em casa, amamentando os pequerruchos, ou no preparo de mamadeiras ou dando fraldas, bem assim educando os meninos até que, aos sete anos, ingressavam na escola primária, ou no grupo escolar. A garotada começava o estudo de manhãzinha e nele permanecia até as onze horas, no bom recitativo da tabuada e na soletração de palavras. Os estabelecimentos pertenciam ao governo. Exigência apenas da fardinha caprichada, sapato ou botina e meia. Certamente que por baixo havia a calcinha das meninas, que os machos andavam descuecados. Havia escolas particulares, de professores e professoras, de irrisório pagamento.

Ainda no começo da década de 30, segundo me contam, existiam na capital piauiense dois educandários oficiais de ensino secundário, o Liceu e a Escola Normal. Ensino integralmente gratuito, a rapaziada só gastava a farda e o calçado ganho dos pais. Um prestígio de dar inveja a situação de liceísta e normalista. A merenda, que hoje pernosticamente se chama lanche, se fazia numa espécie de quiosque das imediações, geralmente constituída de garapa de cana e um pãozinho redondo, de nome caramujo.

Dois estabelecimentos particulares havia, cada qual de muito conceito, ambos com internato e externato: o Colégio Diocesano de homens e o Colégio das Irmãs de mulheres, que ainda desafiam os tempos. Os internos tinham saída aos domingos - e a gente via pelas ruas fardados donzelos e donzelas, pálidos, como quem viu alma do outro mundo, depois de seis dias prisioneiros, quando internos.

Professores famosos, os do ensino primário e os do secundário. Capazes, sérios, respeitados. Mestres que fizeram história e educação.

Quase os estudantes não gastavam com livros, se não os que queriam nas raras livrarias da cidade. As aulas eram suficientes para o aprendizado, o que não acontece hoje, com aulas mastigadas, incompreensíveis pelos pobres e abandonados pupilos. Tanto faz que entendam ou não o ensinamento, nada se repete.

Hoje as mães vivem nas ruas. Instituíram-se creches, onde os meninos aprendem a engatinhar. Em seguida, escola maternal. Depois, jardim, alfabetização - e a seguir o primeiro e o segundo graus, tudo em estabelecimento de negócios particulares. As escolas do governo, ditas hoje do primeiro e segundo grau, oferecem péssimas condições de ensino, razão pela qual os pais se sacrificam nas escolas particulares, de elevado preço e exigências absurdas de vinte cadernos, coleções de madeira, de cera, hidrocor, figurinhas de jogador de futebol, resmas de chamex, cinco tesouras, um binóculo, vinte rolos de papel higiênico, trinta pacotes de absorventes para as mulheres, vinte folhas de estêncil, uma máquina de escrever, um computador dos Estados Unidos e contribuições para as festocas. Os jovens, machos e fêmeas, carregam tanto peso que ficam tortos de um dos lados - fora lencinho de papel, toalha, escova de dente, pasta, sabonete, desodorante, roupa de banho e outros ingredientes que me fogem da memória. Tudo moderno e amplamente atual. Tudo Brasil.


A. Tito Filho, 06/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 26 de abril de 2012

VELHA CANÇÃO

No Rio de Janeiro, como estudante, morei em diversas pensões, nos bairros de Ipanema, Botafogo e Catete, de mensalidade módica. O desjejum da manhã, pobre, reunia uma xícara, média de café e leite, um pão e manteiga rala. Almoço de arroz, feijão, macarrão e bife de caldo ou assado. Nos domingos, galinha guisada, porções mais abastadas porque não havia jantar, e este, nos outros dias da semana, era constituído de arroz e mais duas qualidades. Havia extraordinário, se o hospede quisesse - ou repetição de prato servido ou ovos estrelados. Pagava-se por fora da mensalidade. Assim, engolindo essa bóia monótona, se passaram cinco anos. A gente dormia tarde e o jeito estava em agüentar a barriga roncando durante as noites e as madrugadas. Não se forneciam lanches nas hospedarias de estudantes. Os que podiam lanchavam nos bares e confeitarias.

Depois de retornar a Teresina voltei muitas ocasiões ao Rio de Janeiro, sempre por via aérea. A primeira viagem de recreio se deu em 1948, nos pequenos aviões da Navegação Aérea Brasileira ou da Cruzeiro do Sul. Embarcava-se no velho aeroporto. Saía-se de Teresina às 6 da manhã e chegava-se ao destino pelas 7,8 ou 9 horas da noite. A rota compreendia Floriano, a Lapa na Bahia, Salvador, Ilhéus, Belo Horizonte e Vitória. quando se fez o aeroporto novo, a viagem passou a ser feita nos aviões tipo CONVAIR, modernos para a época. De vez em quando caíam. Perigosos. Condenados, retiraram-se de uso. Viajei num deles, em 1962, com os velhos amigos James Azevedo e Higino Santana. ficamos no Rio. O avião subiu para São Paulo e no percurso espatifou-se. Morreram os passageiros, sem exceção. Inaugurou-se a era do ELECTRA. Turbo-hélice. Aeronaves seguras. Cômodas. Uns 600 quilômetros por hora. Ainda hoje são utilizados entre Brasília e Rio. Chegaria a vez dos SKYMASTERS, grandões, feios, desconfortáveis, apelidados aviões da fome porque serviam apenas um cafezinho em copitos de papel. Velhos e antiquados, demoraram pouco nas linhas nacionais. Por fim, os tipos CARAVELLE e BOING, os jactos modernos.

Nessas viagens ao Rio hospedava-me em hotéis, bons hotéis, como o Rex, o Flórida, o Itajubá, o OK. Parece que não se usam os milhares. A classificação chega a cinco, cinco estrelas, o mais requintado. Dizem que os cearenses chegam a 10 estrelas.

Uma feita hospedei-me no Hotel dos Estrangeiros, e nele, ao pé da escada que conduzia ao andar superior, traiçoeiramente, Manso de Paiva enterrou faca nas costas do senador gaúcho Pinheiro Machado, matando-o. O político morava na hospedaria. O fato aconteceu em 1915. O famoso líder político quis ser o sucessor de Hermes da Fonseca na presidência da República, mas os BARÕES latifundiários paulistas lhe inviabilizaram a candidatura por meio dom acordo São Paulo e Minas Gerais, o café-com-leite. Mas as legiões de correligionários do chefe gaúcho não perdiam as esperanças, até que em 1915, setembro, se deu o episodio perverso do assassinato. No carnaval, de 1916, muito se cantou a toada de compositor pernambucano, se não me engano: "O meu boi morrei / Que será de mim / Manda buscar outro ô maninha / Lá no Piauí".

Morrera Pinheiro Machado, filho de uma das terras do boi, e o jeito era mandar buscar outro no Piauí, onde o boi valia grande riqueza.

A rima MIM e PIAUÍ se aceita como licença-poética, pois o latim MIHI daria MI, forma tipica no português, que passou a MIM em virtude de nasalização, fato histórico comum, como se vê em NEC, igual a NEM.

Se a toada pernambucana não aludiu a Pinheiro Machado, é bem provável.


A. Tito Filho, 05/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

terça-feira, 24 de abril de 2012

REFORMAS

A mania nacional tem sido reformar o ensino. Cada ministro, uma reforma. Sem recuar muito no tempo, na década de 30 o brasileiro tinha um ginásio de cinco anos. Terminando este, submetia-se a exames para as faculdades, caso quisesse. O ministro Francisco Campos bolou uma reforma, séria, de que abaixo se tratará.

Estando ministro, Gustavo Capanema implantou nova reforma: quatro anos de ginásio, três anos de científico ou clássico. Concluídos, o jovem buscava, se lhe apetecesse, os exames de ingresso nas escolas superiores. A reforma Capanema, ela mesma, foi reformada com acréscimo e supressão de disciplinas. Nela meteu-se o espanhol, dela tirou-se o espanhol. Depois, chegaria a vez de abolir o francês. Introduziram-se a organização social e política do Brasil e educação moral e cívica. E assim por diante, até que a estudantada desembocou na reforma Jarbas Passarinho, com a ensinança do primeiro e do segundo grau, ora em vigor. Ensino profissionalizante mas ninguém vai nessa profissionalização, porque todos querem o anel de doutor, mesmo sem mercado de trabalho.

A melhor reforma do país foi, de fato, a do ministro Francisco Campos. Cinco anos de ginásio, para a base humanística. Em seguida, o futuro profissional definia-se por um dos três ramos de preparatórios: o pré-juridico, o pré-médico ou pré-técnico.

O pré-jurídico, por exemplo, era constituído de disciplinas necessárias ao bacharel em direito: estudavam-se biologia, sociologia, economia política, higiene, história da filosofia, literatura, latim - e assim o estudante ingressava na faculdade com excelente soma de conhecimentos. Antes do ingresso, havia o vestibular - não o vestibular de testizinhos, mas de provas escritas em que realmente se podia mostrar competência.

Nos tempos de hoje se diz que a guerra dos vestibular parece mais terrível do que a guerra entre árabes e judeus, pois esta é uma guerra de violentos choques e do vestibular se torna guerra psicológica, donde os vencidos promanam frustrados, como se estivessem marginalizados do processo social brasileiro.

Há candidatos aprovados que não acreditam na vitória, e contam que se inscreveram para experimentar, jogar o barro na parede - uns chegam a confessar que nada estudaram. Um canja o sistemazinho de testes e suas pândegas opções. As editoras brasileiras já fazem enciclopédias de testes para vestibular. Hoje se espalham pelo Brasil doutores em preparativos de testes. E não está longe o tempo em que os universitários terão cursos de doutoramento em arte de fabricar testes.

Os moços deixaram os livros, não lêem pois consideram desnecessário o estudo e a leitura. O doutor de amanhã sabe que tudo se resume em decifrar testes. Melhor a revista de quadrinhos e o livro de bolso erótico e enaltecedor da violência. Machado de Assis passa a ser sujeito tolo que andou falando da vida alheia.

O teste naturalmente suplantou a cultura, em todas as suas manifestações.


A. Tito Filho, 08/06/1991, Jornal O Dia, p. 4

domingo, 22 de abril de 2012

ESCOLAS

Quando me entendi em Teresina as mães viviam em casa, amamentando os pequerruchos, ou no preparo de mamadeiras ou dando fraldas, bem assim educando os meninos até que, aos sete anos, ingressavam na escola primária, ou no grupo escolar. A garotada começava o estudo de manhãzinha e nele permanecia até as onze horas, no bom recitativo da tabuada e na soletração de palavras. Os estabelecimentos pertenciam ao governo. Exigência apenas da fardinha caprichada, sapato ou botina e meia. Certamente que por baixo havia a calcinha das meninas, que os machos andavam descuecados. Havia escolas particulares, de professores e professoras, de irrisório pagamento.

Ainda no começo da década de 30, segundo me contam, existiam na capital piauiense dois educandários oficiais de ensino secundário, o Liceu e a Escola Normal. Ensino integralmente gratuito, a rapaziada só gastava a farda e o calçado ganho dos pais. Um prestígio de dar inveja a situação de liceísta e normalista. A merenda, que hoje pernosticamente se chama lanche, se fazia numa espécie de quiosque das imediações, geralmente constituída de garapa de cana e um pãozinho redondo, de nome caramujo.

Dois estabelecimentos particulares havia, cada qual de muito conceito, ambos com internato e externato: o Colégio Diocesano de homens e o Colégio das Irmãs de mulheres, que ainda desafiam os tempos. Os internos tinham saída aos domingos - e a gente via pelas ruas fardados donzelos e donzelas, pálidos, como quem viu alma do outro mundo, depois de seis dias prisioneiros.

Professores famosos, os do ensino primário e os do secundário. Capazes, sérios, respeitados. Mestres que fizeram história e educação.

Quase os estudantes não gastavam com livros, se não os que queriam nas raras livrarias da cidade. As aulas eram suficientes para o aprendizado, o que não acontece hoje, com aulas mastigadas, incompreensíveis pelos pobres e abandonados pupilos. Tanto faz que entendam ou não o ensinamento, nada se repete.

Hoje as mães vivem nas ruas. Instituíram-se creches, onde os meninos aprendem a engatinhar. Em seguida, escola maternal. Depois, jardim, alfabetização - e a seguir o primeiro e o segundo graus, tudo em estabelecimento de negócios particulares. As escolas do governo, ditas hoje do primeiro e segundo grau, oferecem péssimas condições de ensino, razão pela qual os pais se sacrificam nas escolas particulares, de elevado preço e exigências absurdas de vinte cadernos, coleções de madeira, de cera, hidrocor, figurinhas de jogador de futebol, resmas de chamex, cinco tesouras, um binóculo, vinte rolos de papel higiênico, trinta pacotes de absorventes para as mulheres, vinte folhas de estêncil, uma máquina de escrever, um computador dos Estados Unidos e contribuições para as festocas. Os jovens, machos e fêmeas, carregam tanto peso que ficam tortos de um dos lados - fora lencinho de papel, toalha, escova de dente, pasta, sabonete, desodorante, roupa de banho e outros ingredientes que me fogem da memória. Tudo moderno e amplamente atual.


A. Tito Filho, 09/07/1991, Jornal O Dia, p. 4