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sexta-feira, 18 de maio de 2012

TEMPOS DE MEMÓRIA (2)

Quando eu deixei Teresina, em janeiro de 1937, havia uma novidade em caminho: o telefone. Operários armavam os cabos duplos nos velhos postes de ferro, sob o comando de um engenheiro alemão ou sueco, louro, vermelho, suado e em mangas de camisa. É claro que, entre as penas que levei comigo, ao tomar em Flores o trenzinho, figurava essa de não assistir a inauguração do telefone. Teresina, que acabava de ajardinar mais uma praça, a Pedro II, e embelezar a pequena avenida em frente ao Palácio, progredia. E progredia no exato momento que eu me ia embora.

Isso não só era irreparável porque eu, como a maioria dos jovens que deixavam a terra natal, pensava em voltar. Voltar para viver ali, naquele chão da infância, em meio àquela gente que sonhava intensamente e que se recusava a crer na própria pobreza.

Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição. No trem, recitava os versos de Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância / ficou longe de mim adormecida...". E me lembrava do poeta Celso Pinheiro a contar a meu pai que, em São Luís, que visitava um dia, ficara tão inconformado por estar distante da sua terra que tinha saudades até das folhas que caíam das árvores de seu quintal.

Teresina, que aos nossos olhos ingênuos se afigurava quase que como uma metrópole, era uma pequena cidade, de trinta a quarenta mil habitantes, se tanto, com casas de telha em sete ou oito ruas e um vasto casario de palha, informe, sem conforto, que abrigava dois terços da população. No entanto, era doce o convívio da família e dos vizinhos, era doce a cidade. O calor, que só vim a perceber mais tarde, não deixou marca na minha infância nem na minha memória. Ele não existia para quem levava a vida solta dos quintais e das ruas, nos regatos que se formava depois das chuvas, nas carrerias noturnas pelos caminhos de terra e capim, no futebol da "bacia", nas brincadeiras que nos conduziam da beira do Parnaíba à beira do Poti.

Entre a rua da Estrela e a rua são José, passando pelas ruas da Glória do Amparo, dos Negros, do Fio, rua Grande, rua Bela e Paissandu - belos nomes que deveriam ressurgir - estava a cidade, toda ela, para as pessoas da nossa condição social. A Avenida Frei Serafim, hoje Getúlio Vargas, era uma promessa e um abrigo para as famílias mais prósperas. Ainda hoje identifico na memória as casas, uma a uma, e as famílias que as habitavam, parente, amigos, conhecidos.

Desconhecido era então só o caixeiro-viajante que se hospedava por algumas noites no Teresina Hotel.

A vida, já se vê, era simples e íntima. O Governador Joca Pires, à noite, sentava-se num banco da Praça, cercado de amigos e das pessoas de prol. lá a retreta, como os outros, o professor, o juiz, o estudante, a mocinha. Ouviam-se as mesmas histórias e a mesma música tocada no coreto pela banda militar.

Havia um único clube, o dos Diários, mas se dançava em qualquer casa onde houvesse moças. No mês que antecedia o carnaval, cada domingo depois da missa das nove na Igreja do Amparo, Joel Oliveira, cabeça branca, e um senhor que tinha o apelido de João Senhora, porque usava leque, e se assinava Carlos Borromeu nos escritos da imprensa local - comandavam os "assaltos" com que se esquentava a cidade para a grande festa. O carnaval era um misto de danças, cordões, corso e divertimento intelectuais, pois se editavam jornaizinhos humorísticos em que se  punha todo mundo na berlinda.

Folguedos populares eram poucos. Havia irrupção de "marujos" no adro das igrejas na Semana Santa e o "bumba-meu-boi" dos bairros distantes na época de São João. E as novenas, com prendas, e os mafuás. No Natal, havia o presépio de dona Quequé, que a cidade inteira ia visitar.

A cidade tinha sua alma e seus intérpretes, poetas e escritores, gramáticos, professores. Geração de bacharéis formada no Recife sob a égide de Tobias Barreto e Sílvio Romero - na qual se integrava entre os mais jovens meu pai, o Desembargador Cristino Castelo Branco, que mantinha o teor do debate intelectual, discutindo em saraus e conferências, reuniões da Academia Piauiense de Letras, na Maçonaria e até em Igrejas, onde pelo menos uma vez o padre teve seu sermão contestado. Mestre Higino Cunha, venerável, que ensinava latim e tocava piano, mantinha acesa a chama e reunia em torno de si escritores e estudantes. A nós, transmitia algo da sua imensa cultura, inclusive o modo de beber e a cronologia dos drinks e dos vinhos. Professor, e a cerveja? 
  
Perguntou-lhe um rapaz ao fim de uma dessas lições. Imperturbável, mestre Higino Cunha respondeu: "Cerveja, meu filho, é refresco. A gente bebe o dia inteiro".

Nem tudo era amenidade na Teresina daquele tempo. A agressividade explodia nas polêmicas jornalísticas, nos panfletos, nas campanhas políticas. Mestre Higino escrevia a "história do Pai do Jumentão" ou soltava boletins contra pessoas que profanavam a loja maçônica; vade retro Satanás... 


A. Tito Filho, 08/08/1991, Jornal O Dia - p. 4

quarta-feira, 16 de maio de 2012

LEONARDO MOTA

Nos tempos passados Teresina hospedou escritores famosos, de prestígio nacional. Quase fim do século XIX houve a visita de Coelho Neto, recebido por grande massa popular, sob aplausos e foguetório. Ofereceram-lhe baile no Teatro 4 de Setembro e o autor de TURBILHÃO dançou com meninas de muita faceirice.

Humberto de Campos esteve nesta Chapada do Corisco e visitou a Escola Modelo, uma beleza de educandário que Firmina Sobreira criou e fez funcionar às mil maravilhas. O visitante elogiou a obra educacional da mestra querida. Outra que andou de visita por Teresina se chamava Paschoal Carlos Magno, poeta e prosador de nomeada. Estava-se no ano de 1929. Dois anos antes, a Academia Piauiense de Letras recepcionava o cearense Leonardo Ferreira da Mota, afirmação de folclorista. Saudou-o, numa sessão solene realizada na Escola Normal, mestre Higino Cunha, respeitável intelectual que os piauienses aplaudiam com admiração. Orador fluente, sério, de idéias e conceitos plenos de emoções literárias, era na época o mais apreciado dos nossos homens de letras. Discursou também em homenagem a Leonardo o padre Cirilo chaves, um dos mais conhecidos oradores da história religiosa piauiense. Além da oratória sacra, cultivava ainda o discurso estético, rico de imagens emocionantes. Na mesma solenidade se ouviram bem conhecidas poesias do nosso Antônio Chaves, opulento cultor do lirismo no soneto e nos poemas telúricos. Leonardo Mota empolgou a assistência enorme, com narrativas matutas e vasto anedotário do interior nordestino, contados com graça e riqueza vocabular.

*   *   *

Estudei no Liceu Cearense, de noite, curso pré-juridico. Excelentes professores. Bem me lembro de Antônio Martins Filho, que se tornaria, tempos depois, o admirável reitor da Universidade Federal do Ceará. E outros que a memória guarda com gratidão.

Era bom. Antes de tomar o bonde de Jacarecanga, a estudantada do Piauí em Fortaleza se reunia na praça do Ferreira para umas doses de palestração. Ponto de reunião de altos servidores públicos, jornalistas, escritores, gente célebre, para a troca de novidades. Nos sábados, noitinha já, íamos para o MAJESTIC, cinema que mantinha bar numa das suas áreas. Aí conheci Demócrito Rocha, fundador do jornal O POVO. Do outro lado da comprida praça, ficava A GRUTA, restaurante e local de intelectuais, para a cerveja gelada e o trago da pinga gostosa. Neste recanto, vi mais de uma vez Leonardo Mota, cujo nome se reduzia a Leota, escritor de muita fama, e estimado por todos os cearenses, que lhe conheciam a verve e o talento. Nascido à 10 de maio de 1891, faleceu em Fortaleza à 2 de janeiro de 1948.

Deixou Leota livros de encanto insuperável. Possuía grande capacidade humorística. Conferencista. Viajava sempre para recolher o material dos CAUSOS que sabia contar ajudado dos gestos, do ritmo, do sotaque.

Se vivo fosse, estaria neste próximo 10 de maio,a  comemorar o primeiro centenário de vida. Morreu novo, antes de completar 57 anos de idade. Entregou à inteligência brasileira, entre outros, "Cantadores", "Violeiros do Norte" e "Sertão Alegre", obras raras nos dias que correm.

*   *   *

A família de Leonardo, o Instituto Histórico do Ceará, a Academia Cearense de Letras, a Universidade Federal do Ceará, a Associação Cearense de Imprensa, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e o Banco do nordeste do Brasil, conjuntamente, homenagearão a memória do inesquecível folclorista, que é sócio honorário da Academia Piauiense de Letras, título outorgado quando de sua visita a Teresina. A Casa de Lucídio Freitas se representará nas comemorações pelo acadêmico José Eduardo Pereira.


A. Tito Filho, 07/05/1991, Jornal O Dia - p. 4

terça-feira, 15 de maio de 2012

TEMPOS DE MEMÓRIA (1)

Quando eu menino, cheguei a Teresina, em 1932, ainda de calças curtas, a cidadezinha gozava de tranqüilidade nunca esquecida. Nada a perturbava. Tinha ruas calçadas, algumas, ou empedradas, e trilho para bonde, mas sem bonde.

Dois cinemas – um tipo poeira, o Roial, de bancos compridos, sem encosto – especialista em bangue-bangue, mas naquele tempo a gente não dizia bangue-bangue – era cinema de artista e de bandido – cinema da molecada do meu tope; o outro, o Olímpia, estava destinado à alta-roda, ao soçaite de hoje. Ambos de filmes mudos – e lá me ia esquecendo – mudos mas gesticulados, como se os gestos fossem a linguagem sonora - e as vezes é, ou pelo menos a transmite, até mais expressivamente. Cinema falado, musicado e sincronizado só em 1933.

E dois cabarés famosos no campo da vida airada: o "Cai Nágua", de madeira, perto do rio, mulherio de segunda categoria, quase bofe, e o da rosa Branca, de pegas vistosas, freqüentado por gente alta, como magistrados, comerciantes abastados, filhinhos-de-papai.

Ainda em 1937, de longe eu olhava o "Cai Nágua", que já não era um mistério para  aminha buliçosa pouca idade, mas era permanente convocação.

A elegância da cidade, de noite, estava na praça Rio Branco - andança na praça, rapazes num sentido, moças noutro sentido. Namoro de olhos, olhares que falavam e diziam tudo.

Tomava-se, e muito, refresco de pega-pinto, diziam que era bom para os rins. Muita garapa de cana, também.

Boa de ver e de morar a Teresina de rodas na calçada, de noite, até que a usina elétrica apitasse ou que a Polícia Militar corneteasse: nove horas. Hora de dormir. Casados e solteiros. Mulher casada e mulher donzela. Exceto nos dias de baile e forró.

Forró das pipiras desejadas e das curicas também. Pipiras e curicas são instituição nossa - e como se incorporaram à paisagem teresinense. Pipiras e curicas - uma delícia. Sambavam noite toda, no forró quente, namoravam pelas esquinas escuras - e a gente não sabia se eram. Hoje se sabe.

De 1938 em diante, vi, como os olhos que a terra há de comer, bolinação em cinema. Pares agarradinhos. Mãos em permanente atividade. Gente alta. Foi um morenão bonito, de cabelos compridos, que me iniciou nas práticas amorosas em salão de cinema.

Veado - dois ou três. Recebiam outros qualificativos. De profissão quase sempre cozinheiros.

Deixei assim Teresina em 1939. A roda na calçada, o carnaval sem porre e lança-perfume, o mercadão repleto de vendeiros e vendeiras, namoro de olhos e de bolinação, avião que baixava nágua, o hidroavião, quermesses em patamar de igreja, jornal de apelidos e descomposturas, quintas e pomares por toda parte, enterro de gente pobre sem banda de música e de gente rica com a respectiva, tocando um troço que espantava e fazia que a gente tivesse mais medo do enterro do que da morte - uma cidade tranqüila, afetiva e pitoresca, em que no meio-dia até uma da tarde quem quisesse fazia pipi no meio da rua, idem idem depois das nove da noite; de velórios de defuntos com mulheres desfiando terços e homens bebendo cachaça ou tiquira, para agüentar o amiudar do galo e a hora da partida do saudoso - mas uma cidade que encontrei na volta, uns dez anos depois, em busca de transformações - transformações em tudo - embora sempre afetiva, tranqüila e pitoresca.

Escritores têm-na definido e revelado; poetas têm-na cantado e exaltado. E são tantos.

De mim, quero-lhe um bem permanente e não a troco por riqueza alguma, por paisagem outra, que seja melhor do que a paisagem teresinense.

Conhecendo-a como a conheço, nas suas virtudes e desvirtudes, e por considerá-la tão original nas suas virtudes e desvirtudes - em razão disto desejo que todos a conheçam, que venham vê-la no seu afeto permanente na sua tranqüilidade espiritual, no pitoresco das suas cousas e da sua gente.

1973 - tantos anos depois dos brincos infantis - eu ainda a sinto e a estimo como a mais afetiva, a mais tranqüila, a mais pitoresca de todas as cidades do mundo.

E tenho razão. Quem aqui chega para o exercício de deveres, ou para serviços de emprego fixado, não quer mais deixá-la. Só se retira a gancho, depois de esgotar os recursos das amizades protetoras, dos padrinhos, dos pistolões. Aqui não há estrangeiros. Há teresinenses. Poucos meses de assento - e o sujeito está dono da cidade. E merecendo homenagem. E casando por aqui mesmo. E fabricando menino na Chapada do Corisco. E menino nascendo na Maternidade São Vicente.

Uma jóia - Teresina. Vem vê-la - brasileiro - e a aclamarás comigo.


A. Tito Filho, 07/08/1991, Jornal O Dia – p. 4

sábado, 12 de maio de 2012

IRRESPONSABILIDADE

Os velhos e saudosos carnavais que eu conheci começavam sábado de noite e prosseguiam até terça-feira. No dia seguinte, cinzas, os cristãos meditavam. Tudo alegria, companheiros, educação. Realizavam-se bailes animadíssimos, coros maravilhosos e um carnaval de rua bem carregado de bom humor. Pobres e remediados se empregavam à folia, sem excessos. Assim se dava também quando eu não havia nascido. Já em 1870 surgiu a primeira sociedade carnavalesca. Folguedos na praça Saraiva. Ano de 1983 criaram-se dois clubes de festas deslumbrantes, o Fenianos e of Fênix. A alta-roda comparecia de ricas fantasias, como a Lili Lopes, avó de Genuzinha Aguiar correia: vestido de cetim branco com apanhado de gaze dourada, volta e pulseira de pérolas brilhantes. Ainda a conheci proprietária da Botica do Povo, na praça Rio Branco. Um dos mais empolgantes foi o de 1914, com os dançarinos Miguel Rosa, Luís Correia, Fenelon castelo Branco, Abdias Neves, Nogueira Tapety, Mário Batista, João Pinheiro, Casusa Avelino, Lindolfo Monteiro, Tote Carvalho, Ney Ferraz, Heli Castelo Branco, intelectuais, médicos, políticos. Entusiástico o de 1920, de carros alegóricos. Batalha de lança-perfume e confete. Intransitável a praça rio Branco. Muita Gente projetada nos bailes. As caboclas, chamadas segunda, também ditas curicas, dançavam nos gostosos forrós dos arredores da cidade. Verdadeiro delírio o carnaval de 1921. Bailes deslumbrantes na Assembléia Legislativa. Pululavam a bom pular João Luís Ferreira, Matias Olímpio, Anfrísio Lobão, Jarbas Martins, Ernesto Batista, Leônidas Melo, Dídimo Castelo Branco, Joel Mendes. Nesse ano surgiu o clube dos Fanfarrões, que promoveu sempre dois bailes, no sábado e na 2ª feira. Surgiria em 1922 o Clube dos diários, ainda de pé, consagrado agora aos velhos e velhas que se esfregam e se arrocham uma vez por semana nos seus salões deteriorados e sujos. Um delírio a folia de 1925. Participaram com inexcedível entusiasmo do carnaval de 1934 Rocha Furtado, Cláudio Pacheco, Salmon Lustosa, Firmino Paz, para citar gente viva. Caiu nos dias 22, 23, 24 e 25 de fevereiro o carnaval de 1941. Presença do primeiro Rei momo, recebido na praça Pedro II pelo interventor Leônidas Melo. Ainda se verificou um excelente carnaval em 1947. Os principais foliões solteiros, alguns falecidos, outros vivos, foram Ângelo Pereira da Silva, Milton Aguiar, Tito Filho, Elói do Egito Coelho, José Lopes Aguiar, João de Deus Fonseca Filho, João Mendes Olímpio de Melo, Carlos Alberto Paz. Jovens mais animadas: Anita Freitas, Iracema Freitas, Maria do Amparo Araújo, Miriam nogueira do Rego Monteiro. Festas maravilhosas no clube dos Diários e no Teatro 4 de Setembro.

Houve o declínio por toda parte. Desanimados folguedos nas ruas, extinção do corso de automóveis e caminhões, e o triste espetáculo das escolas de samba, de caráter competitivo, com o apoio de órgãos públicos.

O carnaval, de certo tempo a esta parte transformou-se em devassidão, com bailes de mulheres peladas, gueis pelo torto e pelo direito e o cenário de sexo despudorado, como se vê nas transmissões televisivas do Rio e de são Paulo.

A festa que tinha inicio no sábado de noite se esticou, indo de quinta ou sexta-feira até quarta ou quinta-feira. a nação pára de trabalhar cinco, seis dias seguidamente, e a violência campeia destravada. Enchem-se os hospitais. Gastam-se as economias de um ano inteiro. Um desperdício de dinheiro inacreditável nas escolas de samba do rio de Janeiro, cada vez mais luxuosas. Já se construiu um SAMBÓDROMO, local dos desfiles milionários, cuja denominação híbrida de grego e africano revela besteirice refina. em Teresina, até pouco tempo passado, o poder público prestava apoio a milhares de pessoas, às quais se distribuíam tonéis de valente cachaça, em circunstância que não se registrava antigamente.

O Brasil e o Piauí atravessam crise em todos os sentidos. Há fome, doença, miséria, indigência, hospitais sem funcionamento, escolas públicas fechadas e uma guerra, terrível carnificina, tirando vidas e impondo sofrimentos, enquanto as almas sem solidariedade se entregam a festas vaidosas e maléficas.

O país vive instantes de irresponsabilidade.


A. Tito Filho, 10-11-12-13/02/1991, Jornal O Dia

OS TRÊS SILVESTRES

Não conheci o meu avô paterno. Quando vim ao mundo, ele já se havia despedido desta vida para outra que suponho pior. Chamava-se SILVESTRE TITO CASTELO BRANCO. Foi vereador em Barras do Maratoã, uma vilazinha pacata do norte piauiense. Pobre, mas respeitado. Família de muitos filhos, mulheres e dois varões. Estes se educaram com a ajuda de amigos. Quando morreu, meu pai lhe herdou as dívidas e as saldou, um por uma.

No livro de memórias ÚLTIMAS PÁGINAS, Cristino Castelo Branco escreveu este trecho: "Lembro-me agora em março do desembargador José de Arimathéa Tito, meu antigo companheiro do Tribunal de Justiça do Piauí, cinco anos mais velhos do que eu, pois nascera a 18 de março de 1887. Pertencia à família Castelo Branco, filho que era de Silvestre Tito Castelo Branco, mas o pai, brigado com os parentes, tirou dos filhos o nome de família".

De feito, meu avô não quis que nenhum dos filhos se assinasse CASTELO BRANCO, homens e mulheres. O primeiro varão chamou-se SILVESTRE, por extenso SILVESTRE TITO FILHO. Deveria ser SILVESTRE TITO CASTELO BRANCO FILHO, mas o pai, teimoso que nem mula, lhe decepou o nome familiar famoso. Na família foi o segundo SILVETRE. Bem alvo, olhos azuis, andou pela capital no Pará feito funcionário público. Adquiriu banhas. Um tanto buchudo. Gostava dos livros, sobretudo os de direito. Danou-se de saudades e regressou à casa paterna, em Barras. Tornou-se advogado, embora sem diploma de faculdade. Escrevia bem. Apreciava uma boa pinga, como de modo geral sempre a apreciaram os barrenses de todas as categorias.

Silvestre Tito Filho nunca se casou. Era meu padrinho, boníssimo padrinho, que sempre me presenteava uns tostões para os rebuçados e os bolinhos que as doceiras de Barras faziam com requintes da difícil arte culinária.

Nunca me esqueci do episódio. Noitinha do dia 6 de fevereiro de 1933 eu me despedi do meu querido padrinho e tio, e ele me deu uma moedinha de bom metal, de mil réis, que na época se denominava CENTENÁRIO, cunhada em homenagem aos primeiros cem anos da independência nacional. Trazia de um lado as efígies de Pedro I e Epitácio Pessoa, o presidente das festas comemorativas.

Dia 7 de fevereiro, madrugada, viajei no caminhão do Crueira, motorista mito conhecido e estimado dos barrenses. Nove da noite, cheguei a Teresina, no Colégio diocesano, como aluno interno, e o padre Joaquim nonato, bom amigo, diretor do educandário, me transmitia a notícia triste que tio Silvestre havia falecido de modo repentino.

Faz poucos dias faleceu em Teresina um terceiro SILVESTRE, nome todo SILVESTRE TITO NETO. Deveria ser Silvestre Tito Castelo Branco Neto. Morreu-lhe a mãe muito cedo, irmã de meu pai, e o pai viúvo logo se casou de novo e deixou com duas tias solteironas os dois filhos havidos do primeiro casamento. Largou a segunda esposa, e tornou-se comissário do Lóide Brasileiro, em cujos navios transitava pelos mares do planeta. Faleceu no começo da década de 50.

Silvestre Tito Filho criou-se sempre pobre, sustentado pelas tias, que lhe davam afeto e carinho. Não teve recursos para estudar. Garoto ainda prestou concurso de carteiro e empregou-se nos Correios de Teresina, fez carreira e aposentou-se. Sempre de exemplar honestidade. Dedicado chefe de família. De inatacável fidelidade à palavra empenhada. Meu companheiro de férias, ao velho Marruás, aonde fomos com os outros primos, no final de cada ano, para os festejos religiosos promovidos pela humilde igrejinha da vila, depois cidade.

Ma(i)s um bom Castelo Branco dos bons que se foi.


A. Tito Filho, 05-06/05/1991, Jornal O Dia

sexta-feira, 11 de maio de 2012

HOMEM-PLURAL

Clidenor Freitas Santos tem sido um homem-plural nas atividades e na inteligência, sobretudo homem alegre, porque rico de afeição à vida. Nasceu na antiga comunidadezinha de Miguel Alves, no Piauí, uma cidade pequena e sonolenta à beira do Parnaíba, a 16 de fevereiro de 1913. Teve infância e adolescência simples. Estudou no tradicional Liceu Piauiense e formou-se médico no Recife em dezembro de 1936. Trabalhou em laboratório de patologia, com os minguados vencimentos de cinqüenta mil réis mensais. Exerceu emprego no Pará e no Instituto Osvaldo Cruz, do Rio, quando padeceu saudades e voltou aos pagos naturais, a tranqüila Miguel Alves de rudimentar agricultura e criatório de gado pé-duro, e nesse meio bucólico e alegre montou consultório. Convocado para progredir, fez estudos em São Paulo, no Hospital do Juqueri, em contacto com gente sem juízo. Especializou-se em psiquiatria. Esteve ainda no serviço do Hospital da Praia Vermelha, no Rio. Cada vez mais conhecia o Homem na sua atitude mental e se empolgava com o romance de cérebro-humano. Regressando ao Piauí em 1940, fixou-se nesta Teresina de pessoas humildes e recebeu chamado, dentre em pouco tempo, para dirigir o ASILO DOS ALIENADOS, o HOSPÍCIO, denominação que amedrontava mais do que a loucura. Foi quando deparou com cenários tenebrosos de loucos acorrentados. Mandou retirar os pesados grilhões dos infelizes e deu-lhes tratamento decente, revolucionando a ignorância dos costumes sociais. A casa de tratamento deixou de chamar-se HOSPÍCIO DOS DOIDOS e passou a HOSPITAL AREOLINO DE ABREU, em homenagem ao governante que o criou e construiu. Foi distinguindo com outras funções de responsabilidade. Médico psiquiatra do Serviço de Doenças Mentais do Ministério da Saúde. Professor de filosofia do Liceu Piauiense. Deputado federal de consagradora votação no Piauí. Presidente nacional do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, nomeado pelo presidente João Goulart, posto em que o alcançou a rebeldia militar de 1964, e ele se viu compelido, para evitar violências, a buscar asilo no Peru e depois no Uruguai. Padeceu a suspensão dos direitos políticos, mas sem temer as perseguições do militarismo vitorioso, retornou à terra natal, porque tinha inatacável a honradez pessoal e pública.

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No exílio, leu e estudou ciências sociais para uma visão mais ampla do mundo e do homem. Aprendeu a interpretar a história.

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De regresso, corajoso sempre, pois de coração sincero e de espírito para o afeto, já no Piauí do seu bem querer, fundou empresas privadas como a Cajulândia do Brasil, e do Alkool Motor do Piauí, sem que se concretizassem por virtudes dos ódios intransigentes dos militares no poder.

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Correram os anos e Clidenor, sempre criativo e de olhos no futuro, promoveu as AGROVILAS e o projeto da APICULTURA.

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De admirável capacidade para produzir trabalhos de enriquecimento espiritual do homem nos domínios da psicopatologia, da crítica literária e musical, publicou exemplo de definição da personalidade integral do homem numa carta aos filhos, definiu o fundador de Teresina, o baiano José Antônio Saraiva, dissertou sobre o amor-símbolo, deu aula sobre o latifúndio, revelou as bases psicológicas do nacionalismo, leu os gregos e enalteceu a profunda lição de sabedoria desse povo. Tem títulos e honrarias de entidades projetadas do país e do estrangeiro. Faz pouco tempo reuniu no livro IDEOLOGIA E CIRCUNSTÂNCIA pensamentos e idéias sobre assuntos da mais alta relevância em área de conhecimento humano.

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A grande obra cívica, espiritual, científica, humana de Clidenor está no Sanatório Meduna, um dos melhores hospitais do Brasil, que serviços do mais extraordinário valor social tem prestado aos patrícios. Ele o construiu lutando contra a pobreza.

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A 16 de fevereiro de 1991, Clidenor Freitas Santos integrou 78 anos bem vividos. Jovial sempre. Alegre. Amigo do próximo. Honesto de palavras e de ações. Dedica parte enorme do tempo a educar o próximo para a vida de convivência. Ao belo. Cultiva a sabedoria. Sabe conquistar admiração e distribuir afeto. Pai virtuoso. Esposo de caráter nobre. Divide o tempo entre o lar e o mundo. * a família total. De franqueza educada. Veste-se de aprumo e decência, sem ser excessivo. Aprecia mesa farta e o manjar de culinária sem defeito. Bebe o vinho como quem bebe a saúde e copia os deuses. Passeia as ruas como distribuidor de melodias, no realejo, para alegrar os que lhe ouvem a sensatez das palavras. Admirado de todos, também dedica admiração aos que se enriquecem de saber pela aceitação dos dias ruins e dos dias felizes como se fossem ambos necessários à compreensão dos ditames divinos.

Em torno desse homem sem medo e de agradável sensibilidade, na sua aconchegante mansão, se reuniram os seus colegas da Academia Piauiense de Letras, à mesa de iguarias elogiadas de vinhos de sabor educado. Uma bela reunião com a presença dos filhos de Clidenor e de uma senhora invejável na postura de esposa sem defeitos, como inspiradora de um lar amigo - D. Aracy.


A. Tito Filho, 03/04/1991, Jornal O Dia, p. 4
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* Não está visível no original

MEUS BONS CABARÉS

Um dia o jornalista Pompílio Santos me pediu depoimento sobre a rua Paissandú, onde se situava a Rosa Branco e em cujas adjacências outros bons lupanares ofereciam quengas bem roliças. Eu disse ao indagador que não havia guardado muitas lembranças da ZONA do meretrício de Teresina. Quando meninote, já taludo, cheguei a Teresina, 1932. Nos primeiros tempos não me era possível freqüentar os cabarés citadinos. Mas quando atingi os 15 ou 16 janeiros, iniciei as visitações. Sem dinheiro e tomado das inibições invitáveis, limitava-me a olhar o ambiente profano, e de vez em quando, recebia um pito de gente madura e das relações paternas: "Prá casa, menino, tu ainda faz xixi na rede, vou contar a teu pai que tu tá freqüentando esta putaria".

À beira do Parnaíba mariposas exploravam marinheiros de gaiolas, de lanchas e de balsas. Beira de rio fabrica prostitutas. A prostituição da bisavó na avó, na filha, na neta, na bisneta, da forma que Assis Brasil contou.

Existiriam três famosos cabarés na zona da rua Paissandu. O de Raimundo Leite, cuja esquina e alguns quartos davam para a Paissandu. Era uma cafetina bem morena, de amigação com um gigolô que não queria dinheiro, só amor de graça. O da Gerusa, na rua São José, hoje Félix Pacheco, cabeça escura, arretada por um amigo-meu, o saudoso Salemérico Passos de Carvalho, que, por causa da ciumeira da negra, nela aplicava de quando em quando umas sonoras taponas. E o da rosa Banco, mulatona endinheirada, que ficava na rua Paissandu. As três pensões, como eram chamados esses saudosos cabarés do meu tempo, mantinham danças animadas e muito se dançava com as fogosas quengas, garotas de excessiva senvergonhice. Havia movimentado serviço de bebidas nos salões cobertos e ao ar livre.

As raparigas, no mau sentido, recebiam os fregueses em quartos bem arrumados, de penteadeira, cama e rede. Depois das libidinagens, se o sujeito não queria dormir na tipóia de varandas, dava-se o pagamento. Os quebrados enrolavam as meninas e conseguiam passar CHUMBO, mas as enganadas gritavam e xingavam o chumbista a bom xingar e o acusavam de práticas sexuais condenadas naqueles tempos ainda de anormalidade. As pegas residiam no próprio cabaré. Pagavam diária à cafetina.

No carnaval as raparigas se fantasiavam ricamente para o corso de veículos. Fretavam caminhões, os mais aplaudidos.

Ainda na década de 40 e 50 esses cabarés ofereciam o melhor espetáculo noturno de Teresina. Neles se misturavam estudantes, motoristas, professores, magistrados, comerciantes, pobres, ricos, em busca de sexo.

Na Piçarra, dava os trunfos a Calu. Negra boa. Facilitava as cousas.

Eu gostava dessas casas noturnas de garotas apetitosas vindas do Ceará, do Maranhão, do interior do Piauí. De manhã elas dormiam. De tarde recebiam quase sempre os machos de sua amigação. De noite, faziam o comércio carnaval. Mulheres que viviam o drama humano e social de viver na profissão de que a Bíblia dá conta. Os homens tinham pavor de doenças venéreas.

No cabaré a gente dançava e bebia antes do pecado maior.

Madrugada já, o saxofonista vomitava a dolência da música falando de amor. Ebrios cambaleavam. As garotas mais felizes, depois dos arrulhos, ainda arrumavam pagante da ceia nos freges das redondezas. Com os primeiros traços da claridade do dia, chegava o cansaço da noite, do álcool e dos movimentos na cama do quarto mal iluminado.

Com os amigos, eu ia quase diariamente a esses gostosos antros de prostituição. Nesse tempo as raparigas recebiam a denominação de GATOS. Quando chegavam novas levas de mulheres de São Luís e de Fortaleza, dizia-se que novos GATOS convidativos faziam as noites festivas da Raimundinha, da Rosa e da Gerusa.

Era bom. Sem AIDS. Sem violência. Sem lei da faca e do revólver. Nunca me esqueci dos cabarés da rua Paissandu, os animados cabarés, hoje derribados por força dos novos tempos de MOTÉIS e do capim das praças abandonadas de Teresina.

Era bom. Ah, os meus velhos cabarés, testemunhas de uma época feliz e de muito gozar.


A. Tito Filho, 03/03/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CRONISTAS

Da crônica dizia o bom dicionarista Morais que era a história escrita conforme a ordem dos tempos. O cronista desempenhava função pública, encarregado de escrever os episódios em que se envolviam os reis, as rainhas, os mancebos da corte. À narrativa dos acontecimentos, de intrigas, das valentias de cada época se dava o nome de crônica, e ainda ao noticiário dos jornais, às anotações do cotidiano.

A crônica assume também a posição de verdadeiro gênero literário, quando corresponde a concepções de natureza livre, provocadas pela observação dos fatos no dia-a-dia da vida, no passado e no presente, refletida através de um temperamento.

Também se criou a dita crônica social, que se encarrega de registrar a refinada mobilidade do soçaite, na moda, nos prazeres, nas recepções, nas alegrias, nas festocas, festinhas e festanças. É o colunismo alimentador da vaidade, das tricas e futricas de alta roda.

*   *   *

Quero crer que o primeiro cronista social de Teresina tenha sido o mestre construtor João Isidoro da Silva França, que depois de lançada a pedra fundamental da igreja do Amparo, a 25 de dezembro de 1850, fez a comunicação do acontecimento ao presidente José Antônio Saraiva: "Ao depois de uma missa do senhor vigário dita no meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila... e mais imensidade de povos de fora, que aqui se ajuntou... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada...".

*   *   *

No Rio de Janeiro, aí pelos anos quarenta, estava na moda o cronista social Ibrahim Sued, amado pelos homens e pelas mulheres endinheirados e infernizado por quantos o invejavam ou desmereciam suas reportagens sobre a gente fina e as respectivas futilidades.

Quando retornei ao Piauí, depois da ausência de cinco anos, aderi ao jornalismo de oposição, representado pelo jornal "O Piauí, valente no combate ao governo. Inaugurei nele, em 1948, com Milton Aguiar, o colunismo social em Teresina. O cenário sempre o mesmo, estava nos bailes matutinos aos domingos e nas festas dançantes do clube dos Diários. Ainda hoje me lembro da reportagem que recolhi na FESTA DA ROSA, que a garota Genú Aguiar promoveu na principal casa de diversões da cidade. Eu assinava as minhas crônicas com o pseudônimo de ÁUREO.

Não sei se a memória me abandona, mas no "Jornal do Piauí", em que passei a colaborar de 1951 em diante, se estampava o colunismo daquele que fez da crônica social a razão de ser do seu jornalismo, o repórter de acontecimentos ainda no batente, sempre festejado pelo elemento feminino, Paulo José.

Nesse órgão de imprensa trabalhou outro notável cronista social e que se assinava Josias C?*, recentemente entrevistado por Elvira Raulino, num das tevês teresinenses.

O extraordinário desenvolvimento da crônica social entre nós coube, segundo penso, a Elvira Raulino, que estendeu as cogitações da crônica outros elementos de reportagem, como a notícia de episódios culturais, científicos, as notas políticas de evidência, as decisões administrativas, as anotações de tudo quanto diga respeito ao interesse público, rota ou caminho que outros destacados signatários da crônica social vêm seguindo com aplausos dos que apreciam o difícil gênero.


A. Tito Filho, 11/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

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* Não está visível no original

O HOMEM E A SUBSTÂNCIA

Ano de 1940. Cursava eu o colégio Estadual do Ceará. Não me lembro o dia. Sei que nesse ano tive, em Fortaleza, notícia da morte de José Pires de Lima Rebelo. Escoaram-se dias e mais dias. Cinqüenta anos faz que meu conterrâneo de Barras deixou a vida, legando aos penitentes terrenos exemplos sem conta de beleza de personalidade. Foi o homem-mensagem.

Berdiaeff, o lúcido Berdiaeff das "Cinq Méditations sur I'Existence" ou de "La Destination de I'Homme", escreveu que a "exacerbada inquietação" da humanidade promana da subordinação do homem ao tempo - a temporalização do homem: "O perpassar do tempo é desesperadamente triste, triste o olhar do homem sobre o tempo que se vai" - e o remédio para a moléstia do tempo está, como quer Proust, "em restituir ao homem temporalizado o sentido do seu destino de eternidade, em Deus".

Lima Rebelo não sofreu, na sua época, a nostalgia do tempo passado nem a incerteza do tempo futuro. Viveu o presente, com devotamento exemplar, e adquiriu o sentido do seu destino de eternidade.

Cada um de nós traz consigo uma mensagem. A de Lima Rebelo era pedir que lhe dissessem o segredo do coração alheio, para amar melhor o semelhante, para compreender a alma do próximo, para educar o jovem, sim, para educar o jovem sequioso de ternura, de alegria, de liberdade. Quis dar a todos uma doce moradia de paz. Foi educador no verdadeiro e apostólico sentido da expressão. Dentro da escola pôs um clarão de beleza e espiritualidade.

Quintino Bocaiúva disse a Machado de Assis: "O grande homem é o homem de bem". Neste particular, Lima Rebelo foi exemplo inatacável de pureza de princípios. Não pôde ser vulgar porque atuou entre caracteres viscosos de ambições e de perfídias - e sobressaiu pela personalidade sem mancha. Nele resplandece a caridade cristã, porque não se externava para não humilhar. Combateu o mal com capacidade de sacrifício e com renúncias silenciosas.

Espírito aberto a indagações, palavras fáceis, estilo corrente; legou ao Piauí um pouco de tudo em todos os ramos da atividade mental: crônica, história, sociologia, jornalismo; economia, humanismo. 

Poucas produções José Pires de Lima Rebelo enriquecem a vida intelectual do Piauí - dois discursos e uma página de educação, todas reveladoras de um escritor sincero e culto, de linguagem asseada e vibrante, estilo e clareza e comunicabilidade impressionante, em par com a profundidade dos conhecimentos.

José Pires de Lima Rebelo colocou-se entre os homens de bem. foi um centro nobre da vida piauiense. Corajoso e fiel, sempre falou de cabeça erguida, para realizar o seu grande e laborioso destino de educar a coletividade.

Dele eu diria como disse em versos Tagore: Se tu quiseres, deixarei de cantar. Se assusto o teu coração, deixarei de te olhar. Se te aborrece a minha presença, irei para outro lugar. Se te esquivas quando estás colhendo flores, não irei mais ao teu jardim solitário. Se os remos turvam a água, não levarei mais meu barco à tua margem. Não me escondas o segredo de teu coração! Dize-me a mim que sou teu amigo, só a mim!... Dize-me tão docemente como sorris, que não ouçam os meus ouvidos mas sim o meu coração. A noite é profunda; a casa está silenciosa, o som amortalha os ninhos dos pássaros... Anda, dize-me num choro trêmulo, com uma doce vergonha, com uma suave dor, o segredo do teu coração".


A. Tito Filho, 06/03/1991, Jornal O Dia, p. 4

domingo, 6 de maio de 2012

VINTE ANOS DE BATENTE

Ingressei na Academia Piauiense de Letras em 1964, ocupando a cadeira em que se tinha assentado meu pai, a de número 29. Em 1966, o presidente Simplício Mendes me fazia secretário-geral da entidade, reeleito em 1968 e 1970. Mandato de dois anos. A 2 de janeiro de 1971, Simplício não acordou.  Dormiu, a 1º de janeiro, o sono eterno. Fui o seu substituto regimental, pois a Casa de Lucídio Freitas não tinha vice-presidente. Agora inteirei vinte anos na presidência e antes de escrever sobre assuntos relembro os colegas que se despediram do mundo no correr desse longo período: Avelar Brandão Vilela, Cromwell de Carvalho, Fernando Lopes, Edison Cunha, Petrarca Sá, Moura Rego, Celso Pinheiro Filho, Cunha e Silva, Fontes Ibiapina, Martins Napoleão, Fabrício Areia Leão, Carlos Porto, Ofélio Leitão, Cristino Castelo Branco, Adelmar Rocha, Edgar nogueira, Petrônio Portella, Zenon rocha, Odylo Costa Filho, José de Abreu. L. M. Ribeiro Gonçalves, Gayoso e Almendra, Isabel Vilhena, Martins vieira, Robert de Carvalho, Luís Lopes Sobrinho, Manoel Felício Pinto, Armando Bastos, Elias Oliveira, Vidal de Freitas, Artur Passos, José Patrício Franco, Odilon Nunes, Darcy Araújo e Lilizinha Carvalho. Fora Simplício Mendes, a quem sucedi na presidência, trinta e cinco colegas faleceram no decorrer da minha administração, nestes últimos vinte anos.

Nas cadeiras 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 15, 17, 18, 19, 20, 21, 24, 25, 27, 34, 36, 37 e 40 faleceu apenas um em cada uma delas. As cadeiras 8, 14, 26, 28 e 31 perderam dois companheiros em cada qual. No meu longo tempo de presidente a Academia não teve desfalque nas cadeiras 2, 10, 12, 13, 23, 29, 30, 32, 33, 35, 38 e 39.

Caso especial o da cadeira 16. Escolhido para ocupá-la, Raimundo Zito Batista escolheu patrono o poeta e prosador Taumaturgo Sotero Vaz. Falecido Zito, a Academia escolheu substituto na pessoa do orador José Pires Rebelo, que foi intendente (prefeito) de Teresina e senador. Para o seu lugar, na respectiva vaga, escolheu-se o grande tribuno popular e biógrafo Adelmar Soares da Rocha, que teve substituto na pessoa do jurista Edgard nogueira, cuja vaga se concedeu a Petrônio Portella e depois a Zenon rocha, os intelectuais ocuparam a cadeira 16, como * pela relação de nomes ilustres acima citados. A única que guarda seis mortos na sua história. Só nos meus vinte anos de presidência me despedi de quatro - Adelmar, Edgard, Petrônio e Zenon, caracteres primorosos e enaltecedores da vida acadêmica.

Quando Petrônio, ministro da justiça, manifestou o desejo de ingressar na Casa de Lucídio Freitas, havia uma única vaga, a de Edgard Nogueira, titular da cadeira 16. Mostrei-lhe o quadro acadêmico. Petrônio espantou-se com os quatro mortos na cadeira. Supersticioso sempre. Inexistia outra vaga. Inscreveu-se. Candidato único. Morreu antes da eleição, mas os membros da Academia, em Assembléia Geral, o consistiram eleito e lhe deram posse post mortem.

Corre entre os confrades que a cadeira 16 oferece azar. Os que a alcançam vivem pouco depois do ingresso. Parece-me que o que mais viveu foi Adelmar Rocha, pois passou, após a posse, uns 21 anos como titular.

Pretendo escrever a história da Academia Piauiense de Letras, desde a primeira tentativa de uma instituição nos moldes da Academia Brasileira de Letras. Não deu certo a pretensão dos intelectuais no começo do século. Só em 1917 por inspiração de Lucídio Freitas, se fundou o sodalício, o mais antigo do Piauí, cujas lutas não se interromperam tempo algum, havendo completado, a 30 de dezembro de 1990, setenta e três anos de serviços gratuitos à coletividade.

A história da Academia será publicada por ocasião dos seus 75 anos, em dezembro de 72, se Deus quiser.

 
A. Tito Filho, 01/01/1991, Jornal, O Dia, p. 4

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* Não está visível no original. 

sábado, 5 de maio de 2012

RODA DE CALÇADA

Uma instituição de Teresina, tempos atrás, e roda de calçada. Após o sol posto, boquinha da noite, quando desciam as sombras noturnas, os empregados já tinham ordem de colocar as cadeiras na porta da rua. Formavam-se rodas de conversação entre as pessoas da família e outros freqüentadores, ao cintilar das estrelas, ao clarão do luar ou à luz mortiça da fraca luz elétrica, que às vezes faltava nas vias públicas a fim de que se melhorasse a do interior das residências. Feitas a roda, aguardavam-se os ventos refrescantes soprados do litoral. A capital tinha pouca vida noturna, reduzida aos hotéis, a alguns botiquins e cabarés de mulherio sem freguesia, salvo aos sábados.

Por causa de uma roda de calçada foi assassinado o meritíssimo julgador Lucrécio Dantas Avelino no distante 1927, ano em que também um assassino perverso matou o motorista Gregório, às margens do Poti, do lado de cá. O caso do juiz se deu assim. Apreciava o magistrado a roda na calçada de seu palacete presidencial, onde funcionava o animado prostíbulo Bola Preta, de cunhãs fogosas, e o Colégio Demóstenes Avelino. Nove da noite, os amigos começaram a despedir-se no rumo de casa, em busca das redes macias adornadas de varandas bonitas. em palestra ficou mais um pouco o desembargador Cromwell de Carvalho. Perto das dez, Cromwell se despede. Lucrécio põe as cadeiras no interior do prédio, tranca-se e mal começa a subir a escada para o andar de cima, ouve batidas na porta. Julga que o amigo desembargador talvez se houvesse esquecido de algum assunto, abre a porta, cercam-no dois ou três indivíduos e um deles lhe vibrou facada mortal.

Na rua Bela, agora Teodoro Pacheco , o cidadão Pedro Bezerra residia e tinha comércio. Recebia de Portugal barris de vinho tinto, marca PRR, muito apreciado pelo sabor e de uso generalizado. À noite se formava a roda, em que se viam presentes, com freqüência, mestre Higino cunha, o médico Bonifácio de Carvalho e o poeta Baurélio Mangabeira, personalidades que honravam as noites do comerciante, que lhe vendia e aos outros participantes copos do afamado vinho. A essa ilustre companhia foi levado o famoso improvisador Pedro Britto, que passou a freqüentar habitual.

Baurélio Mangabeira, tempos depois, produziu versos de exaltação à bebida, comparando-a ao sangue de Jesus. Deste modo compôs os tercetos do soneto: "Eu te saúdo Portugal burguês! / Com teu famoso vinho português / As portas dos teus poetas nunca corres... / Que o generoso fluido me endoideça / Mortal não há, talvez, que não o conheça / As virtudes do sacre PÊ e DOIS ERRES...".

Quando eu era frangote, não perdia a rodada de calçada da família, na rua São José, hoje chamada Félix Pacheco, onde morávamos, pertinho da praça Saraiva, no trecho que dava no Parnaíba. Papai me dava um níquel, moeda boa, e eu com a jarra de vidro, pela rua Rui Barbosa, ia comprar pega-pinto, cinco copos por um tostão. Era bom. Os adultos trocavam idéias e notícias, e a negra velha, cozinheira vinda do Peixe, agora nossa Senhora dos Remédios, me contava estórias maravilhosas de reis poderosos e príncipes encantados. Dez horas o sono pegava a gente e se buscava a rede convidativa.

Uma senhora inteligente, proprietária de linguagem simples e de estilo agradável, escreveu O OITÃO, uma narrativa sobre a deliciosa [e] tranqüila Teresina dos anos 50. Chama-se Ana Clélia Napoleão. Uma gostosoura de livro, com a história do avô Pedro Britto e de sua roda de calçada. Depois eu digo mais do trabalho da autora.


A. Tito Filho, 03-04/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

ASSUNTOS

Heráclito Fortes, administrador de Teresina dos melhores que já houve, com certeza tem mais nas suas preocupações a desfiguração de Teresina, cidade onde nasceu. não lhe cabe culpa alguma do que fizeram com a cidade de Saraiva.

Teresina é das mais maltratadas cidades brasileiras. Vigoram as paisagens deformadas, como se estivessem constantemente sob apedrejamento. Certas áreas de lazer são sujas, incentivam a malandragem e fogem aos objetivos para os quais foram criadas. Contam-se por todos os dedos e mais alguns os aspectos desfigurados da outrora singela capital. Fizeram-se calçadões e estes vivem repletos de camelôs, criando-se o comércio paralelo. A praça Rio Branco, outrora recanto repousante e alegre, semelha nos dias que correm uma concentração de desocupados. A praça João Luís Ferreira, de elegantes bambuais nos velhos tempos, local de espairecimento de crianças nos jogos inocentes das bolinhas de gude, serve agora de mercado, onde se vendem frutas, brequefeste para os pobres diabos da previdência que não pregaram o olho, e outros tipos de alimentação de vítimas da quebradeira. Que dizer da pracinha querida, de namoricos dos bons tempos, alegre, convidativa, a Pedro II? Corresponde hoje a uma vasta concentração de mundanas, cachaceiros, qualiras, drogados, sapatões e indivíduos sem aptidão para o trabalho.

Fez-se a chamada PRAINHA para a diversão, os encontros amigos, o descanso sexta-feirinho, sabativo e dominical, o que ocorreu nos primeiros dias. Jaz como área de favela, e os bares típicos acolhem farristas e respectivas cachaçadas. Não há nela segurança e viceja o crime, sempre que se desentendem os deseducados para a vida.

Uma lástima o Parque da Cidade. Foi feito para o companheirismo, para a prática desportiva, para as refeições fora de casa, nos dias festivos da semana. Os desabusados depredaram-no.

Ao cabo de contas, nenhum respeito merece a cidade que José Antônio Saraiva idealizou e construiu com sacrifício e coragem. Os teresinenses, na sua maioria, insolentes e desrespeitadores, não têm sido fiéis à memória do saudoso e querido patrício.

*   *   *

Ninguém mais se lembra de Job Vial, de crônicas saborosas sobre esta Teresina deformada. Job Vial outro não se era Joel Oliveira, pesquisador, humorista, colecionador de estórias de gente e de bichos da cidade a que ele dedicava afeição permanente. Busquei-o agora nos meus arquivos e reli "Quintas e Quintais", numa das recordações de Joel - e nessa crônica está o teresinense preocupado com o cultivo das árvores frutíferas abundantes na capital piauiense - a cidade verde, hoje de matas derribadas e sem pés de frutas de colheita segura para as merendas fartas. Havia terrenos plantados por toda parte, e cada celeiro possuía denominação ligada a mulher do proprietário, como a célebre Lavinópolis, ou recebia nomes de cidades, a exemplo de Olinda, Petrópolis, ou nomes de terras distantes - Granada, Zurich, Catânia, ainda se lembravam santos, Tebaida, Betânia, - e por esta forma se conheciam dezenas de quintas e quintais de Teresina, de abundante produção de variadas frutas - goiaba, groselha, pitomba, carambola, banana, limão, figo, sapoti, laranja - e a laranja tinha variedade enorme e dava trabalho livrá-las dos pulgões, das brocas e de outros males. Quantos nomes de laranjas estão na lembrança da gente: a seleta, a bahia, o mimo-do-céu, pingo-de-ouro, natal, pêra, mel-rosa, da-china, tanja, lima, mandarim, cada uma melhor que a outra. Nos dias que correm ainda se encontram alguns tipos desses ricos alimentos cítricos. Já agora em 1987 sumiu-se o caju. Safra pequeníssima. O caju que nada custava a quem o comia, apanhando-o debaixo dos cajuais nas matas teresinenses, derribadas pelo machado das construtoras. O caju da castanha de que o índio se servia para contar a idade. Cada castanha, mais um ano de vida. Menina de castanha, sim, era menina prendada. Jogava-se castanha nas calçadas, sem lambança. O caju dava ainda a cajuada, a cajuína, o doce, o tira-gosto. O pequenino, o cajuí, tinha também seu emprego. Sumiu-se a manga, ou quase está a desaparecer: a de biquinho, a governadora, moscatel, a jambo, a vovó, a espada, a vista-alegre, a de leite - restam hoje a rosa, a lira, a de fiapo, a manguita-do-correio, por preços inacessíveis.

Joel Oliveira, o Job Vial das crônicas saborosas de antigamente, cultor do humorismo à inglesa, se vivo estivesse se decepcionaria com uma Teresina sem arvores frutíferas, a sua riqueza de antigamente - fartura das mesas pobres e da classe média, num tempo em que os pobres podiam viver e a classe média governava uma sociedade justa e decente.

 
A. Tito Filho, 18/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 3 de maio de 2012

RESTAURANTES

Não encontrei notícia do primeiro restaurante de Teresina. Anotei reclame de jornal que oferecia os préstimos do Hotel Teresinense, em 1875, ao público: bifes e carne assada, no almoço: sopa, carne cozida e assada no jantar. Pratos abarrotados. Comia-se até fartar. Li, em jornal do ano seguinte, sobre o estabelecimento de José Pico, com o nome de CASA DE PASTO - e ele era vaidoso da sua tenda de comedoria: anunciava comidas italianas, francesas, portuguesas e inglesas. Aos domingos, PANELADAS DE MOCOTÓS.

Quando vim de Barras, terra boa do Piauí, lugar do meu nascimento, para Teresina, acompanhando o pai e a madrasta, filho único que eu era, - a família alugou casa na rua da Glória (Lisandro Nogueira), mas depressa se arrumaram os trens e deu-se a muda para a rua São José (Félix Pacheco). Nos dias dominicais, o saudoso genitor me mandava ao Bar Carvalho, o mais freqüentado da cidade - café, sorvete, chocolate, refrescos, no amplo salão de frente para a Praça Rio Branco; por trás outra sala espaçosa, em que se alinhavam as mesas para o almoço e o jantar. Que comida! Zecão, o popularíssimo proprietário, contratou cozinheiro espanhol, o Gumercindo, cheio de banhas, o criador de um prato que dava água na boca, pois o cheiro bom da iguaria obrigava as papilas gustativas a extraordinário funcionamento - o filé de grelha, feito na chapa do fogão, e o mestre cuca o enfeitava com duas azeitonas, um pouco de alface, farofa e umas vinte ervilhas.

Lá ia eu, a carregar marmitas, buscar a bóia do domingo, no Bar Carvalho. Meu pai dava folga à competente e carnuda cabocla cozinheira no dia do Senhor. Na mercearia defronte da residência, do português José Gonçalves Gomes, completava-se o almoço com a gostosa sardinha de Portugal.

Conheci o restaurante do DOUTOR, especialista em mão-de-vaca e panelada. De segunda classe. Refeição apetitosa, que o freguês carregava de pimenta malagueta de soprar o vento. Alguns cachorros vadios aguardavam, olhos pedintes, o osso que os mal-educados atiravam ao chão, depois de limpá-los, como roedores.

Na década de 40, Pedro Quirino fundou o RESTAURANTE ACADÊMICO, com freguesia de operários e doutores. Comida boa, barata, limpa, elogiada. Hoje o estabelecimento se encontra fechado.

Nesses bons tempos comer representava um gesto de sabedoria. Comer desofisticadamente. Comer sem tinturas, comer sem estrangeirice, comer sem bebida de refrigerantes engarrafados, nisto vale sabedoria. Sabedoria de vida.

Teresina ingressou na ERA dos acepipes sem graça e sem gosto. Paga-se o luxo, a gorjeta gorda, a notícia no jornal. Refeições melosas, coloridas, de preço sem peias. Naqueles velhos tempos, o garçom punha o prato de arroz e o escolhido no cardápio defronte do cliente e este ficava a vontade, usando os pirões da forma que lhe aprouvesse. De algum tempo a esta data, o empregado comanda o modo de servir - e de colheres, treinado, vai botando em escolhidos espaços do prato uma porçãozinha de cada cousa que compõe o raquítico almoço ou jantar de gente de dinheiro fácil. Existem pratos do universo internacional, mais caros e mais intragáveis.

Restaurantes dos velhos tempos da Teresina de dinheiro pouco, dinheiro de pé-de-meia, - da Teresina do Manuel Português, que vendia empada, e uma só punha o sujeito de barriga cheia, sem necessidade de almoço ou jantar. Empada sadia, que dispensava o óleo de rícino para limpar as tripas.

O que passou, passou - verdade estabelecida por Cervantes no tempo em que os homens escreviam para a eternidade.


A. Tito Filho, 19/04/1991, Jornal O Dia, p. 4