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quinta-feira, 10 de maio de 2012

CRONISTAS

Da crônica dizia o bom dicionarista Morais que era a história escrita conforme a ordem dos tempos. O cronista desempenhava função pública, encarregado de escrever os episódios em que se envolviam os reis, as rainhas, os mancebos da corte. À narrativa dos acontecimentos, de intrigas, das valentias de cada época se dava o nome de crônica, e ainda ao noticiário dos jornais, às anotações do cotidiano.

A crônica assume também a posição de verdadeiro gênero literário, quando corresponde a concepções de natureza livre, provocadas pela observação dos fatos no dia-a-dia da vida, no passado e no presente, refletida através de um temperamento.

Também se criou a dita crônica social, que se encarrega de registrar a refinada mobilidade do soçaite, na moda, nos prazeres, nas recepções, nas alegrias, nas festocas, festinhas e festanças. É o colunismo alimentador da vaidade, das tricas e futricas de alta roda.

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Quero crer que o primeiro cronista social de Teresina tenha sido o mestre construtor João Isidoro da Silva França, que depois de lançada a pedra fundamental da igreja do Amparo, a 25 de dezembro de 1850, fez a comunicação do acontecimento ao presidente José Antônio Saraiva: "Ao depois de uma missa do senhor vigário dita no meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila... e mais imensidade de povos de fora, que aqui se ajuntou... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada...".

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No Rio de Janeiro, aí pelos anos quarenta, estava na moda o cronista social Ibrahim Sued, amado pelos homens e pelas mulheres endinheirados e infernizado por quantos o invejavam ou desmereciam suas reportagens sobre a gente fina e as respectivas futilidades.

Quando retornei ao Piauí, depois da ausência de cinco anos, aderi ao jornalismo de oposição, representado pelo jornal "O Piauí, valente no combate ao governo. Inaugurei nele, em 1948, com Milton Aguiar, o colunismo social em Teresina. O cenário sempre o mesmo, estava nos bailes matutinos aos domingos e nas festas dançantes do clube dos Diários. Ainda hoje me lembro da reportagem que recolhi na FESTA DA ROSA, que a garota Genú Aguiar promoveu na principal casa de diversões da cidade. Eu assinava as minhas crônicas com o pseudônimo de ÁUREO.

Não sei se a memória me abandona, mas no "Jornal do Piauí", em que passei a colaborar de 1951 em diante, se estampava o colunismo daquele que fez da crônica social a razão de ser do seu jornalismo, o repórter de acontecimentos ainda no batente, sempre festejado pelo elemento feminino, Paulo José.

Nesse órgão de imprensa trabalhou outro notável cronista social e que se assinava Josias C?*, recentemente entrevistado por Elvira Raulino, num das tevês teresinenses.

O extraordinário desenvolvimento da crônica social entre nós coube, segundo penso, a Elvira Raulino, que estendeu as cogitações da crônica outros elementos de reportagem, como a notícia de episódios culturais, científicos, as notas políticas de evidência, as decisões administrativas, as anotações de tudo quanto diga respeito ao interesse público, rota ou caminho que outros destacados signatários da crônica social vêm seguindo com aplausos dos que apreciam o difícil gênero.


A. Tito Filho, 11/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

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* Não está visível no original

sexta-feira, 27 de abril de 2012

GAIOLAS

Não conheci, ao menos de longe, o vapor construído em Parnaíba, batizado Comandante Fausto Silva, agora na capital piauiense, na distância de cento e trinta e um anos do primeiro GAIOLA, o vapor URUÇUÍ, que se fabricou no Rio de Janeiro.

Esses vaporzinhos antigos eram de excelente viajar. Num deles, em 1942, embarquei em Juazeiro da Bahia, para subir o São Francisco até Pirapora, em minas, e daí alcançar o Rio de Janeiro, por terra. Viagem gostosa. Rapazola, deliciei-me com muita cabloca de beira d'água, nas cidadezinhas da época. Estive na gruta de Bom Jesus da Lapa, espaçosa e clara, na terra baiana. Muita pobreza. Mendigos às pencas, feridentos, doentes, maltrapilhos.

Gostei da cidade de Barra do Rio Grande, margem esquerda da grande corrente fluvial, onde foi aldeia de índios e fez parte do célebre Sertão de Rodelas - que pertenceu à Bahia, passou a Pernambuco, a Minas e voltou ao domínio baiano.

Estive doze dias subindo o rio. Manhãs e tarde monótonas. Noites agradabilíssimas. Dormida ao ar livre, na rede do cheiro da gente. Refeições de bom peixe. O comandante apreciava a boa pinga.

Fiz outra viagem nos GAIOLAS, saindo do Rio de Janeiro em 26-12-1946. Percorremos o São Francisco de Pirapora e a Remanso e entramos no Piauí de caminhão, por São Raimundo Nonato. Alegres companheiros no percurso: Tibério Nunes, Fenelon Silva, Mariano Mendes, Álvaro Ferreira Filho. Atingimos Floriano no dia 18 de janeiro de 1947. Nessa antiga Colônia de são Pedro de Alcântara tomamos passagem noutro GAIOLA, rumo de Teresina. Embarque pelas 11 da manhã e chegada ao ponto final às 7 da manhã de 19, um domingo, quando o eleitorado já buscava os locais competentes para eleger o primeiro governador do Piauí depois das trevas da ditadura de Getúlio Vargas, o médico José da Rocha Furtado, artista do bisturi.

Os naviozinhos que o povo chamava VAPOR desapareceram da paisagem do Rio Parnaíba, faz uns trintas anos. Os do rio São Francisco estão transformados em PALÁCIOS de turismo, com orquestras, AMERICAN BAR, mulheres de aluguel, para milionários em férias, PLEIBÓIS de pais latifundiários, artistas de roquenrol e outras maluquices. Contam que nestes passeios, subindo e descendo o rio, gasta-se muito dinheiro mas goza-se um bocado a vida.

Jorge Amado, num dos seus melhores livros, narra viagem nesses barcos ao tempo do transporte a serviço das populações ribeirinhas. Comovente drama de dezenas de pobres e humildes na segunda classe, amontoados, em severa promiscuidade, e as delícias da primeira classe, no segundo andar do vaporzinho. Uma reportagem forte, vida real, da forma que contou o romancista baiano.

Ainda não sei se o Piauí voltará ao transporte pelo seu Rio Parnaíba, quase sem condições de navegabilidade.


A. Tito Filho, 11/07/1991, Jornal O Dia, p. 4

segunda-feira, 23 de abril de 2012

GRANDE TERESINA

Metropolitano significa pertencente ou relativo a metrópole. Que quer dizer METRÓPOLE? Palavra vinda do grego originariamente CIDADE MÃE. Diz-se da capital de país, de província, cidade principal, e por extensão, grande cidade ou cidade importante.

De certos anos aos dias de hoje, esses grandes centros populacionais passaram a ser considerados em dois aspectos: na sua área normal, composta do centro e dos seus bairros próximos e distantes, e na chamada ARÉA METROPOLITANA, que compreende as comunidades que têm íntima e constante comunicação com as cidades enormes, e em razão disto estas passam a denominar-se GRANDE seguida do nome de batismo de cada qual. Bueno Aires tem três milhões de habitantes, mas GRANDE BUENOS AIRES chega a mais de dez milhões. Nova Iorque possui uns nove milhões de almas. A GRANDE NOVA IORQUE atinge quase vinte milhões.

O Brasil criou também regiões metropolitanas, parece que em 1972, com o objetivo de que se conseguisse o desenvolvimento econômico e social de áreas homogêneas, justamente nos grandes centros urbanos integrados por um ou vários municípios de problemas idênticos. Parece que pouco se conseguiu até agora. A primeira região metropolitana foi a de são Paulo, abrangendo trinta e sete municípios da GRANDE SÃO PAULO. Depois se criaram outras, como a Grande Belém, a Grande Fortaleza (Aquiraz, Caucaia, Maranguape, Pacatuba), Grande Recife (Jaboatão, Olinda e outros), Grande Salvador, Grande Belo Horizonte, Grande Rio de Janeiro (Duque de Caxias, Maricá, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Petrópolis e outros).

Nos programas de rádio a gente ouve constantemente que o sujeito recebeu pancadas na praça Pedro II da GRANDE TERESINA. Mas a qualificação não se mostra convincente. Teresina pertence à GRANDE TERESINA em lei, mas não representa a GRANDE TERESINA.

Teresina se distribui em bairros, como a Vermelha, a Piçarra, o Saci, o Porenquanto, o Poti Velho, o Jóquei Clube, o São Cristóvão e quantos mais. Tudo isto constitui Teresina. A GRANDE TERESINA compreende Timon, Demerval Lobão, Monsenhor Gil, Altos, União, José de Freitas, cidadezinhas que correspondem a verdadeiros subúrbios da cidade grande. Se a humanidade chegar ao fim do terceiro milênio, talvez todas essas comunidades interioranas das proximidades do município-capital sejam uma cidade só.

Quando o sujeito assalta o próximo na praça Rio Branco, o assalto se verificou em Teresina. Se o individuo mata em Timon, o que é comum, então o crime se deu em Timon e ao mesmo tempo na GRANDE TERESINA.

A cooperação hoje dou de graça a meus distintos colegas locutores e fazedores de programa de rádio. Cooperação de bom sentido, limpa e correta.

Nada custa que a comunidade se eduque. Cabe observar a inexistência da PRAÇA DA BANDEIRA, situado na PRAÇA MARECHAL DEODORO. É tão fácil compreender.


A. Tito Filho, 25/04/1991, Jornal O Dia, p. 4

sexta-feira, 20 de abril de 2012

QUARENTA ANOS

Em 1937, Getúlio Vargas, a 10 de novembro, fundou perverso sistema ditatorial no país. Aferrolhou-se a imprensa, com o estabelecimento de severa censura. Se não me deslembro, circulavam em Teresina uns três jornais: o "Diário Oficial", "O Tempo", "O Momento". Desapareceram em pouco tempo, os dois últimos. A liberdade retornou em 1945. Surgiram outras folhas, agora na defesa de partidos políticos.

O jornal "O DIA", sob a direção de Abdias Neves, surgiu em 14 de julho de 1923, e como dizemos de outros teve a vida efêmera. Ressurgiria, porém, em 1 de fevereiro de 1951, fundado e dirigido por Raimundo Leão Monteiro, conhecido por Mundico Santídio, certamente porque o pai se chamou Santídio Monteiro, que dirigiu a Usina Elétrica de Teresina e que denunciou o secretário da Fazenda de pagar a luz de sua residência o castigo de suspensão por dez dias. Os operários declararam-se em greve e a cidade passou a viver às escuras.

Mundico Santídio havia andado pela Alemanha. Até arranhava mais ou menos a língua desse país europeu. Dedicou-se em Teresina ao magistério e a outras atividades. Acabou por criar um jornal com o mesmo nome de outro que se havia finado. Tinha queda para trabalhar com máquinas. Baixote, roliço, pançudo, vermelhão, exibia defeito numa das mãos, que era um tanto enrolada e voltada para trás, o que lhe valeu o apelido de Mão de Paca. Assim mesmo, de mão boba, despertava grande paixão nas mulheres.

O jornal, de formato regular, saía de manhã, duas vezes por semana. Mundico compunha os, revisava-os, paginava-os. Também entendia da impressão. Não escrevia uma linha sequer, mas possuía uma equipe de jornalistas talentosos, que refletiam o pensamento e as idéias dos autores, que nada assinavam. Mundico Santídio publicava-os com os pseudônimos, pois não queria assumir responsabilidades. Não se estampavam reportagens, nem o dono e diretor da folha expunha opinião alguma, exonerava-se dos chamados editoriais. Nesta fase, o órgão contou com a valiosa colaboração de um jornalista entendido no assunto, Oriosvaldo Bugyja Britto, sujeito de memória formidável, ainda hoje vivo.

Deixei o jornal quando Mundico, interrogado pela justiça, sustentou que a autoria de artigo de critica a Lucídio Portella Nunes me pertencia. Fui processado e absolvido por unanimidade, num júri descontraído e alegre que um dia relatarei.

Voltei ao "O DIA" sob a direção de Octávio Miranda, que o adquiriu por compra. Trabalhava com Deoclécio Dantas, jornalista de pulso, e a mim cabia a redação dos editoriais de primeira página. Era bom. Ao lado da sede, funcionava o bar do Raimundão, dono e ao mesmo [tempo] garçom do estabelecimento. Na mesa do boteco eu escrevia os artigos, esperava sempre por duas revisões, muita paciência conseguida com cervejas geladas. Eu e Deoclécio dirigíamos a opinião pública. O jornal ditava a lei e os costumes. Mas entre mim e Octávio Miranda se davam desentendimentos. Despedia-me do trabalho, sempre gratuito, mas a ele voltava ao menor aceno do chefe.

Lá um dia saí mais uma vez para retornar anos depois. E agora me encontro, festejando, com os operários, os redatores, os revisores e o devotado José Fortes Filho, capaz e tarimbado, os triunfos de Octávio Miranda, de cuja estima gosto de participar, no zelo de um órgão de imprensa que pertence ao patrimônio histórico, social e espiritual dos teresinenses, graças à firmeza com que o dirige, faz anos, a força de vontade do seu proprietário e dos seus auxiliares.

Ainda escreverei a minha longa trajetória neste jornal.

Os quarentas anos de "O DIA" constituem uma lição de trabalho a serviço da coletividade piauiense, um exemplo sobretudo de extraordinário bem-querer notadamente aos teresinenses. As dores e as alegrias de Teresina se registraram, durante quatro décadas, nas páginas deste jornal, numa dedicação constante dos sentimentos de todos os que o fazem, material como intelectualmente.


A. Tito Filho, 01/02/1991, Jornal O Dia, p. 4

AS CIDADES

Érico Veríssimo acentuou que não existem neste mundo duas cidades iguais. Cada qual tem características próprias e essas características se transformam, para melhor ou para pior, com o passar dos anos. Há cidades feias e bonitas. Simpáticas e antipáticas. Exageradas no tamanho das cousas. Sujas. Higiênicas. De gente educada e deseducada. Cidades pouco inteligentes. Outras de gente sábia. Cidades do crime. Cidades verticais. Friorentas. Quentes. Litorâneas e não. Progressistas e não. Cidades-fantasmas. Artificiais e naturais. Cidades-arte. Cidades tortas. Outras cheias de altos e baixos. Turísticas. Atrasadas.

Teresina foi afetiva, pitoresca, fraterna. Era bom residir por cá. Com o correr do tempo, tornou-se cidade plena de problemas intensos, onde campeiam o crime e a sujeira. Hoje favelizada. Horrível. Alguns milionários e milhares de miseráveis, rotos e famintos.

Em 1850, a 5 de novembro, chegou a Oeiras o novo presidente da Província do Piauí, o baiano José Antônia Saraiva, moço ainda, que assumiu o governo no dia 7, data comemorativa da independência do Brasil.

Uma feita, Wilson Brandão, Odilon Nunes, Dagoberto Júnior, Padre Joaquim Chaves e eu pedimos ao governador que considerasse a verdadeira data oficial maior do Piauí, o 24 de janeiro, em Oeiras. Pois bem. Em Parnaíba se declarou guerra e se armaram cinco forcas, uma para cada um dos que queriam restabelecer a verdade histórica.

Mas volto a Oeiras. Uma mocinha, repórter de TV, me perguntou o motivo principal pelo qual Saraiva trouxe a capital para Teresina. Respondi com o pensamento de Saraiva que Oeiras não prestava. Referi-me a Oeiras de 1850. A mesma cousa diz o notável romancista José Expedito Rego, oeirense de muitos costados. Várias presidências da Província quiseram mudar a sede do governo, finalmente conseguida em 1852.

Padre Chaves transcreveu o oficio que Saraiva mandou ao conselheiro de Estado Visconde de Monte Alegre sobre a transferência. OEIRAS ESTÁ NO LUGAR MAIS IMPRÓPRIO E MAIS INCOVENIENTE DE TODA A PROVINCIA - DEVO FALAR NA MISÉRIA DE OEIRAS NOS MESES DE SECA, NENHUM PROGRESSO CIENTÍFICO E LITERÁRIO DA CAPITAL DO PIAUÍ, NA DIFICULDADE DE SUAS RELAÇÕES COMERCIAIS E POLÍTICAS QUE SE REDUZEM ÀS PRECISAS E ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEIS PARA EXISTIR NESTE DESERTO - SÓ EXISTEM DOIS PRÉDIOS NACIONAIS NESTA CAPITAL. A carta tem a data de 20 de dezembro de 1850.

Disse eu em entrevista que para Saraiva Oeiras não prestava. Citei a verdade histórica, indiscutível. Oeiras não tinha comunicação com o resto do Piauí, com o Brasil. Era um ermo. Um deserto, como lhe chamou Saraiva.

Diariamente se diz que Duque de Caxias, no Rio, é a cidade do crime e ninguém se zanga com a verdade. Diz-se que Teresina tem lixo por todos os cantos e pessoa alguma se aborrece. A obrigação de limpá-la cabe ao prefeito, e assim ele vem praticando. Toda vez que fala à TV digo que Teresina vive de futilidades e jamais recebi telegrama de xingamento.

Não vivi no tempo de Saraiva. Para dizer que Oeiras daquele tempo não prestava baseei-me no próprio Saraiva e em Expedito Rego, romancista de escol, vivinho, vivendo em Floriano. Pois bem. Não ofendi a dignidade de um só oeirense. A minha dedicação à Oeiras, todos os momentos, não me permitiria ofender os oeirenses. Recebi, porém, um telegrama, que só se dirige a cafajeste, ou a moleque de porta de bodega: VOSSÊNCIA TALVEZ NÂO SEJA DIGNO DE RESPEITO QUE NÓS LHE CONFERIMOS. Graças a Deus tenho merecido o respeito dos meus concidadãos, porque nunca desservi ou repudiei minha terra. Ignorante será aquele que não reconhece os defeitos os defeitos da cidade onde se nasceu. O bairrismo não indica educação. Pelo contrário. Deseducado é o que pensa que a sua terra vale mais do que a terra alheia.

Entre os signatários do telegrama de insulto está o promotor de Simplício Mendes, xingador, e bem poderia, pelo cargo que exerce, proteger a personalidade dos semelhantes. Esse indivíduo de vez em quando me aparecia, para reclamar cooperação, que jamais lhe neguei. Agora mesmo estou com livro que me confiou.

Soube que outro se zangou, um doutor em seu chefe de gabinete. Foi chefe de gabinete no governo Hugo Napoleão, chefe de gabinete no governo Alberto Silva, chefe de gabinete no governo Freitas Neto. Trapezista famoso. Não larga o peito de governo.

Oeiras do tempo de Saraiva mudou um bocado: tem uma universidade de diplomar indivíduos em falta de educação. Por ora, nove bons alunos, que já aprenderam a xingar o próximo de INDIGNO. Está progredindo muito a cidade que Saraiva exonerou de capital do Piauí porque era boa demais. Tinha o Mocha, grande rio permanente.

Sou INDIGNO de certos indivíduos de Oeiras. Com muita honra.
  

A. Tito Filho, 01/09/1991, Jornal O Dia, p. 4

quinta-feira, 5 de abril de 2012

VERDADES

Conheci Apparicio Torelly no Rio, quando na velha capital fui estudante e ele jornalista. Conheci-o de vista, como se diz, barbudão, cheio de corpo. Costumava vê-lo na extinta Galeria Cruzeiro, ponto de encontro dos mais variados tipos humanos. Adotou o pseudônimo de APORELLY e assinava deste modo as melhores crônicas humorísticas do Brasil. Gaúcho. Criou na cidade maravilhosa o famoso seminário A MANHÃ, quando passou a denominar-se BARÃO DE ITARARÉ, em homenagem à terrível batalha de Itararé, em são Paulo, ano de 1930, a batalha QUE NÃO HOUVE. O Barão foi lido e admirado. Ferino e verdadeiro. Cumpriu um destino sagrado, o de fazer que a humanidade risse e gargalhasse. Escreveu muito sobre as mulheres e nesta coluna de esquerda página transcrevo algumas verdades que o Barão assentou:

- As mulheres de certa idade não têm idade certa.

- Para as mulheres os velhos são de duas categorias: os insuportáveis e os ricos.

- Há mulheres que são como as estradas. Têm curvas perigosas.

- O homem é um animal que pensa. A mulher, um animal que pensa o contrário. O homem é uma máquina que fala. A mulher, uma máquina que dá o que falar.

- Há duas espécies de mulheres: as feias e as pintadas.

- Uma mulher atormenta-se mais com um segredo do que com uma cólica.

- Décimo de segundo é a fração de tempo necessária para uma mulher verificar que outra mulher, que acaba de lhe ser apresentada, tem olhos azuis, sapatos amarelos, colar de pérolas falsas, meias de náilon sem costura, cinto fingindo jacaré de matéria plástica e dentadura postiça.

- Quando uma mulher diz a um homem: QUERO-TE COM LOUCURA, é sempre verdade. A mulher não mente. Ela é sincera. E se diz que quer, quer mesmo. Sim, ela quer uma jóia bonita ou tirar as jóias do prego.

- A amizade entre as mulheres é apenas uma suspensão de hostilidades.

- Há homens despeitados que dizem que as mulheres não pensam. É mentira. As mulheres pensam e, muitas vezes, até com muito acerto, principalmente quando arquitetam um plano de ação para tirar dinheiro dos homens que pensam que elas não pensam.

Itararé foi uma espécie de Don Quixote nacional, malandro, generoso e gozador, dele disse Jorge Amado. Durante anos lhe esconderam a obra de crítica mordaz a uma sociedade pecaminosa e leviana, de sagazes administradores oficiais descompetentes. Não convém a verdade às ditaduras ou aos falsíssimos democratas. Reeditada nestes últimos tempos, Itararé continua atual e oportuno, como a gente sente nos seus pensamentos sobre as nossas sabidas filhas-de-eva.

Ainda me lembro de Itararé, na Galeria Cruzeiro, bonachão. Sempre alegre. Nascido em 1985, proclamava-se um HERÓI DE DOIS SÉCULOS.


A. Tito Filho, 10/05/1991, Jornal O Dia, p. 4

terça-feira, 3 de abril de 2012

DONDON

No cartório do registro civil de Livramento, hoje José de Freitas, deve constar o nome de Antônio Castelo Branco, que o Piauí todo conhece pela alcunha de Dondon, fundador em Teresina de jornal famoso, a que deu o nome de "O Denunciante" e em cuja edição de número 12, de 18 de maio de 1927, lemos, na última página, os dez mandamentos que o jornalista escreveu para que fosse possível o seu segundo casamento com a mesma mulher. Ei-los, mudando-se a grafia da época para adaptá-la aos dias correntes:

"Assim como tem o velho e o novo é muito natural que tenha o velho e o novo casamento com a mesma mulher... e hoje véspera do meu casamento fazendo 25 anos que sou casado, neste caso venho festejar as bodas... propondo um novo casamento com a mesma mulher, visto como o primeiro não prestou... porém com as seguintes condições: 1) não ter (minha mulher) contato com sua irmã Porcina Dias Ribeiro. 2) não ter contato com qualquer um dos filhos que se achar em desavença comigo. 3) nada fazer sem me ouvir, nem que seja para mudar uma palha de um lugar para outro. 4) eu não estando em casa não deve sair para parte alguma nem que seja na vizinhança... e nem andar na rua depois das seis horas da tarde. 5) se achar em casa sempre na hora do café pela manhã, na hora do almoço, na hora do jantar. 6) todas as vezes que tiver conhecimento de que o Bispo Dom Severino Vieira de Melo tem de pregar, deve largar o que estiver fazendo para ir ouvir o sermão do mesmo. 7) no lugar em que nos encontramos sempre que houver missa aos domingos, temos que irmos juntos. 8) saímos juntos de braços dados sempre que eu entender. 9) fico com os poderes de aumentar ou diminuir todos os mandamentos do novo casamento, sempre que julgar preciso. 10) cumprindo todos estes mandamentos, terá direito a tudo que estiver no meu alcance".

Dondon deu muito trabalho aos políticos piauienses de todas as categorias: governadores, deputados, homens de governo. Contou pelo jornal a luta de governo. Contou pelo jornal a luta desenvolvida para adquirir tipografia. E escreveu que a vitória lhe custou o seguinte: “1) Custou-me no começo de 1919 o major do Exército Antônio da Costa Araújo Filho apoderou-se de três vacas minhas, sem o meu consentimento. 2) Custou-me no dia 13 para amanhecer 14 de maio de 1925 terem querido tirar a minha vida a traição e que ainda recebi três bordoadas, pro este motivo deu em resultado eu passar 21 meses e quatro dias em casa sem sair à rua. 3) Custou-me no dia 19 de setembro de 1924 mandarem-me meter na cadeia, quando foi no dia 8 de outubro do mesmo ano tornaram a me meter na cadeia e esta segunda vez ainda acharam pouco, da cadeia ainda me mandaram para ser internado no asilo dos doidos, onde passei dias contra a minha vontade e dois por minha conta...".

Jornalismo saboroso, com defeitos e qualidades, muito lido pelos teresinenses da década de 1920. As edições esgotavam-se rapidamente. Uma delas, a que tratou dos enterros na cidade, tornou-se antológica, e ainda hoje é citada das mais interessantes reportagens da imprensa da capital piauiense. Mas a história dos enterros será contada noutra oportunidade.

Dizia-se que Dondon tinha alguns parafusos frouxos, mas a verdade está em que raros possuíam tanta inteligência quanto ele.


A. Tito Filho, 28/07/1991, Jornal O Dia

sábado, 25 de fevereiro de 2012

VELHO PIAUÍ

Desde muitos anos o Piauí participa da debochação nacional, por causa das tolices que noutras Estados correm a respeito de nossas cousas. Já enviamos ao Senado da República um senador grosso nos modos e na fala, celebrizando como o Vaca Braba. Outro membro da Câmara Alta do país, filho de Piracuruca, era tipo rude, sem papas na língua, cujas besteiras a imprensa carioca gozava a valer. Certa feita os jornais do Rio narravam o episodio. Gervásio de Brito, assim se chamava o homem, participava de banquete oferecido ao presidente da República. Sentou-se ao lado de elegante senhora. Em dado momento, o representante piauiense soltou estrondoso arroto e ela quis atenuar os efeitos da incivilidade, perguntando-lhe se estava gripado. Obteve a resposta: - Não, minha senhora, eu estou é arrotando...

Pobre e triste terra, rica de episódios ridículos por parte de suas figuras políticas. Num dos seus livros, o famoso e insubstituível Stanislaw Ponte Preta, que viveu pouco, mas fez o Brasil gargalhar, narrou um caso de são Raimundo Nonato, em que as duas ARENAS não se entendiam na vida local, mas ambas apoiavam o governador Helvídio Nunes de Barros. Uma das correntes queria manter fechado o colégio que coube ao comando da outra corrente, e esta pretendia que o hospital confiado ao adversário não funcionasse. Diz o escritor que Helvídio satisfez as duas: fechou o colégio e o hospital.

Na campanha política do ano passado, o governador Alberto Silva provocou risadas frouxas numa entrevista televisada concedida a Jô Soares. Contou que no Piauí o governo construíra um novo tipo de casa, cuja cobertura, em vez de telhas, se prestava a excelente cultivo de hortaliças, de forma que o sujeito tinha as duas cousas conjugadas: a moradia e a alimentação.

A platéia riu muito e riu muito mais quando Alberto Silva deu como bem altos os vencimentos de uma professorinha cada mês, por um turno de aulas: seis mil cruzeiros.

Farto e rico anedotário piauiense que cobre o Estado e os seus filhos de ridículo. Agripino Grieco pilheriava na imprensa carioca com os nossos poetas. Dizia deles que escreviam versos quase maus.

A história do Piauí nunca se levou a sério. Nenhuma obra didática faz referencia à luta do Jenipapo. Desconhece-se o heroísmo piauiense na guerra do Paraguai e na luta de Canudos.

A imprensa do Rio, de Recife, de São Paulo, em 1931, fez gozações permanente sobre a revolução do cabo Amador, que dominou dois quartéis, o do Exército e o da Polícia, e prendeu o interventor Landri Sales.

A respeito de Teresina, aí por fora circulam piadas e deboches. Terra já teve. Aparecia e ainda aparece na imprensa com a denominação deturpada: TERESINHA. Tudo aqui chegou com muito atraso. Até a República só foi proclamada no dia 16 de novembro.

O irreverente Vitor do Espírito Santo colheu copiosas asneiras piauienses e espalhou-as pelo Brasil, pois mantinha coluna permanente em vários jornais. Não esqueceu de narrar a mancada constitucional de 1947, quando os constituintes, nas disposições transitórias, obrigaram os cearenses a construir estrada de ferro do Ceará ao Piauí.

A última do Piauí se passa no Instituto de Assistência e Previdência do Estado, o famoso IAPEP, e possivelmente noutras repartições oficiais, em que se proibiu, para recebimento de vencimento, o uso de procuração particular, mandato que o código civil brasileiro permite de maneira incontestável. Só se aceita procuração pública, passada em cartório, revogando-se a lei brasileira, que é competência do Congresso Nacional.

Deixo o meu apelo ao presidente do IAPEP, ao secretário Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, ao governador Freitas Neto.

Procuração particular ou pública tem o mesmo valor. Procuração pública é obrigatória para os analfabetos. Chega de suplicar os humildes.


A. Tito Filho, 04/07/1991, Jornal O Dia

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

IGNORÂNCIA E PRECONCEITO

Desde que me dediquei ao estudo da história do Piauí, sempre atribui a minha humildade grande admiração a Oeiras. Várias vezes a visitei, por convite dos filhos ilustres dessa cidade-monumento de civismo. Nela compareci nas festas comemorativas das suas datas maiores, em companhia de familiares, enfrentando horas e horas de estrada em nosso próprio carro, por vezes com sacrifício do repouso. Na Academia Piauiense de Letras, publiquei livros dos seus escritores. A pedido de B. Sá e Pedro Ferrer conseguiu levar Luis Carlos Prestes à velha capital. Ainda no ano passado dei tudo de mim para homenagear a memória de Nogueira Tapety.

No recente aniversário de Teresina fui procurado por uma jornalista para entrevistar. E ela me perguntou qual a primeira razão que teria levado José Antônio Saraiva a retirar o governo de Oeiras e plantá-lo numa cidade nova construída pelo baiano. Respondi que certamente a primeira razão estava em que a cidade não prestava. Ninguém ignora a circunstância de que essas repórteres de TV passem quase uma hora a dirigir perguntas ao entrevistado, filmam a gente de várias maneiras, mas só exibem ao público um minuto da entrevista. Pura verdade. Se a minha tivesse sido toda televisada, os telespectadores teriam ouvido explicações corretas, e uma delas representada pelo completo isolamento de Oeiras, isolamento do Piauí, do Brasil e do mundo. Culpa não me cabe se Saraiva não gostava da cidade, da cidade daquele tempo. Oeiras hoje é outra, simpática e hospitaleira.

José Expedito Rego, oeirense de sete costados, romancistas de mérito, o mais notável conhecedor da velha Oeiras, escreveu que a vida na cidade antigamente seguia parada e sem futuro. Diz mais que Manuel de Sousa Martins se não tivesse a mãe velha e doente se mudava para a Bahia. Um governador confessou ao Padre Marcos que "isto aqui fica muito perdido no mundo...", "E os anos passavam no velho marasmo...", sustenta Expedito. Descreve o romancista o palácio do governo preparado para um novo presidente da Província: "... um prédio de paredes rachadas, soalho grosseiro, portas e janelas com rachaduras, móveis toscos, as cadeiras de assento preto e pregos de latão". Era o palácio do governo.

Rio Pardo, outro presidente, teve estas referências de José Expedito Rego: "Fazia-lhe mal a água de Oeiras, pouco salgada ao sensível estômago presidencial. Padecia do fígado desde a chegada. As comidas gostosas, carregavam-se de gorduras, inadequadas ao clima quente da região. Por vezes, carne enfezada. Bom mesmo, entretanto incomodativo, só o sino da matiz, batendo às onze da noite, forte, de som agradável, como os das velhas igrejas da Bahia".

Em razão disto, Rio Pardo escreveu uns versos, mais ou menos assim:

Oeiras do Piauí a capital
Em estéril terreno edificada
Só tem bom o relógio da matriz...

A jornalista me perguntou o motivo primeiro pelo qual Saraiva queria mudar a capital, respondi que Oeiras não prestava, sim, não prestava para Saraiva, pois não vivi nesse tempo. Mas sobre mim caíram raios e trovões da ignorância, mãe do preconceito e da burrice. Eis o telegrama que me passaram nove gatos-pingados que se dizem INTÉRPRETES DO SENTIMENTO POPULAR: "Interpretando sentimento popular repudiamos seu juizo sobre Oeiras infeliz e debochativa entrevista TV Clube pt Teresina merece nosso respeito pt Oeiras merece também seu respeito pt Vossência talvez não seja digno do respeito que nós lhe conferimos pt Atenciosamente aa) Rossana Ferreira, Manoel Felipe Rego, Darcy Filho, Mauro Tapety, Claudete Maria, Raimundo Batista, Celia Carneiro, Inamorato Reis, Carlos Rubem".

Meus pés, se Deus quiser me ajudar, nunca mais pisarão em Oeiras, onde existem pelo menos alguns débeis mentais.

O telegrama acima tem a responsabilidade perante o telégrafo do individuo Carlos Rubem, meio analfabeto, sem nenhuma autoridade moral para julgar quem seja digno de respeito, pois vive na gostosa maracutaia de ser promotor público de Simplício Mendes e residir em Oeiras. Aparece na comarca para enfiar na bolsa ambiciosa os dinheiros fartos do pobre Estado do Piauí.

Só se exige a dignidade alheia quando em primeiro lugar nós a possuímos.


A. Tito Filho, 24/01/1991, Jornal O Dia